Catecismo Romano · Da Oração

Capítulo 9

Preâmbulo da Oração Dominical: “Pai-Nosso, que estais nos céus”

Preâmbulo da Oração Dominical: “Pai-Nosso, que estais nos céus”

I A invocação de Deus como Pai desperta a alegria de rezar

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Esta fórmula de oração cristã, ensinada por Jesus Cristo, é de tal feitio que, antes de chegarmos às petições propriamente ditas, temos de começar por uma espécie de introdução. Todas as vezes que a Deus nos apresentamos como filhos, essas palavras nos tornam capazes de fazê-lo com maior confiança. Compete, pois, ao pároco a obrigação de explicá-las com toda a clareza possível, para que o povo fiel faça a oração com mais prazer, e compreenda que vai tratar com Deus, enquanto é seu Pai. Em seus termos, a introdução é brevíssima, mas o seu conteúdo é muito profundo e repleto de mistérios. A primeira palavra que, por ordem e instituição de Deus, proferimos nesta oração é o nome de “Pai”. Nosso Salvador podia muito bem iniciar esta oração divina com outra palavra mais majestosa, como seria a de Criador ou Senhor. Mas deixou de fazê-lo, porque isso podia ao mesmo tempo intimidar-nos. Preferiu uma expressão que granjeia o amor e a confiança dos que rezam e pedem a Deus alguma coisa. Com efeito, haverá palavra mais suave do que o nome de pai? Só evoca carinho e amor.

II Deus se revela como Pai de todos os homens

1 Na Criação

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As razões, porém, de se atribuir a Deus o nome de Pai, teremos facilidade de explicá-las pelo que já foi dito acerca da Criação, o Governo do mundo, e a Redenção. Ora, Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança, mas não conferiu igual prerrogativa aos outros seres animados. Por haver outorgado ao homem essa singular prerrogativa, é com razão que as Sagradas Escrituras dão a Deus o nome de Pai de todos os homens, tanto dos fiéis, como dos infiéis.

2-3 No governo do mundo e na Sua Providência

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Se atentarmos o governo do mundo, ser-nos-á possível provar que Deus nos ama com amor de Pai, pela particular solicitude e providência com que garante e promove o bem-estar dos homens. Mas para que, na exposição desta doutrina, sobressaia melhor o paternal cuidado de Deus pelos homens, parece-nos oportuno dizer alguma coisa sobre a proteção dos Anjos, à cuja guarda os homens foram confiados.

a Pelo ministério dos Anjos

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Por um desígnio de Sua Providência, confiou Deus aos Anjos a obrigação de guardarem o gênero humano como tal, e de assistirem a todos os homens individualmente, para que não sofram nenhum dano de maior gravidade. Assim como os pais dão aos filhos guardas, que os defendam de perigos, quando precisam de viajar por caminhos expostos e arriscados: assim também o Pai Celestial, nesta viagem que fazemos para a Pátria Celeste, destinou a cada um de nós um Anjo que nos proteja, com seu auxílio e vigilância, para podermos evitar as emboscadas dos inimigos, e repelir seus tremendos ataques contra nós; para que, sob a sua direção, possamos conservar-nos no caminho reto, e que nenhum ardil do inimigo nos faça desviar do rumo que leva ao céu.

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Grande vantagem nos traz a singular disposição, pela qual a Divina Providência se ocupa dos homens, mediante a operosa intervenção dos Anjos, cuja natureza constitui um meio termo entre Deus e os homens.

b Exemplos desse ministério

Patenteiam-no muitos exemplos das Sagradas Escrituras, os quais nos atestam como Deus, em Sua bondade, fez muitas vezes os Anjos operarem prodígios à vista dos homens, para nos advertir que nem se podem contar os milagres invisíveis que, na ordem temporal e espiritual, os Anjos realizam como protetores de nossa salvação.

O Anjo Rafael, que Deus enviara como companheiro e condutor de Tobias, levou-o e trouxe-o são e salvo, livrou-o de ser devorado por enorme peixe, e indicou-lhe quanta força medicinal havia no fígado, fel e coração do mesmo peixe. Foi ele que expulsou o demônio, e lhe quebrou as forças, para que não pudesse fazer mal a Tobias. Foi ele que explicou ao jovem o verdadeiro e legítimo uso do Matrimônio. Foi ele, afinal, que restituiu a luz dos olhos ao pai de Tobias, que havia cegado.

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A história do Anjo, que livrou o Príncipe dos Apóstolos, fornece também copioso assunto para instruirmos o fiel rebanho sobre os admiráveis efeitos da solícita proteção dos Anjos. Os párocos mostrarão, portanto, como o Anjo dissipou as trevas do cárcere, tocou na ilharga de Pedro, despertou-o do sono, desatou-lhe os grilhões, rompeu-lhe as cordas, mandou-lhe que se levantasse e o seguisse, depois de tomar o calçado e a roupa de corpo. Mostrarão, ainda, como o mesmo Anjo retira Pedro do cárcere, dá-lhe livre passagem por entre os guardas, abre a porta de fora, e leva-o a lugar seguro. Como já dissemos, de tais exemplos estão cheias as páginas da Sagrada Escritura. Eles nos fazem compreender como são insignes os benefícios que Deus dispensa aos homens pelo ministério dos Anjos, Seus intérpretes e mensageiros. E Deus não só envia Seus Anjos em certas ocasiões e para fins particulares, mas também lhes confiou nossa proteção desde o primeiro instante de nossa existência, e estabeleceu-os para velarem pela salvação individual de todos os homens. Se for bem explanada, esta doutrina não deixa de acoroçoar os ouvintes, e leva-os a reconhecer e adorar a paternal solicitude e providência de Deus para com eles.

c Pelas riquezas da Bondade Divina

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Nesta altura, o pároco deve mencionar e exaltar, sobretudo, as riquezas da bondade divina para com o gênero humano. Desde os primeiros pais do gênero humano, e autores do pecado, não cessamos até hoje de ofender a Deus com inúmeros crimes e maldades. E Deus persiste, todavia, em nos amar, e não abandona Sua inigualável solicitude para conosco.

Corolário Deus não esquece os homens

Quem julgasse que Deus olvida os homens, pensaria como um louco, e faria a Deus a pior das afrontas. Deus irou-Se contra Israel, pelas blasfêmias que esse povo proferia, por se julgar desamparado do auxílio celestial, pois no Êxodo se declara: “Tentavam o Senhor, dizendo: Está Deus conosco, ou não está?” No dizer de Ezequiel, Deus se irritou contra esse mesmo povo, porque havia dito: “O Senhor não nos vê; o Senhor abandonou a terra”.

a Textos bíblicos

À vista de tais testemunhos, pois, devem os fiéis apartar-se da nefanda opinião de que Deus possa jamais esquecer os homens. Para esse fim, ouçamos da boca de Isaías como Deus se queixa contra o povo de Israel, e refuta suas objeções, empregando uma mimosa comparação. Lá está escrito: “Disse Sião: O Senhor desamparou-me, e o Senhor esqueceu-Se de mim”. Ao que Deus respondeu: “Porventura pode uma mulher esquecer-se de seu filhinho, a ponto de não se compadecer do fruto de suas entranhas? Ainda que ela o esquecesse, Eu de minha parte não Me esquecerei de ti. Por sinal que te gravei nas Minhas mãos”.

b História dos primeiros homens

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Os textos citados estabelecem claramente a verdade. Mas para levar o povo à plena convicção de que nunca pode acontecer que Deus se esqueça dos homens, e lhes subtraia os benefícios de Seu amor paternal, os párocos alegarão, como prova inconfundível, a história dos primeiros homens. Tinham eles desprezado e transgredido a ordem de Deus. Ouvimos, então, como foram duramente acusados e condenados por aquela terrível sentença: “A terra será maldita por causa de tua obra. Com sacrifício tirarás dela o teu sustento, todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás ervas da terra”. Vemos, também, como foram expulsos do Paraíso. Conforme se lê nas Escrituras, um Querubim se postou à entrada do Paraíso, brandindo uma espada de fogo, para lhes tirar toda esperança de lá tornarem. Reconhecemos como Deus, para Se desagravar da ofensa, os tinha punido com toda a sorte de sofrimentos interiores e exteriores. Sendo assim, não havíamos de dar o homem por perdido? Não teríamos motivo de julgá-lo, não só privado de toda assistência divina, mas também exposto a todos os vexames? Não obstante, em tão graves sinais da cólera e vingança divina, transparece, como um clarão, o amor que Deus tem aos homens. Pois dizem as Escrituras: “Deus Nosso Senhor fez para Adão e sua mulher umas túnicas de peles, e assim os cobriu”. Nesse fato vai a maior prova de que Deus jamais haveria de abandonar os homens.

A verdade de que o amor de Deus não se estanca com nenhuma afronta dos homens, Davi a interpreta naquelas palavras: “Será que Deus, em Sua ira, detém as Suas misericórdias?” Habacuc também a expõe, ao dirigir a Deus as seguintes palavras: “Quando estiverdes irado, lembrar-Vos-eis também da Vossa misericórdia”. No mesmo sentido é a explicação de Miquéias: “Qual Deus se assemelha a Vós, que tirais a iniquidade, e perdoais os pecados dos sobreviventes de Vosso povo? Ele já não derramará o Seu furor, porque ama a misericórdia”. E assim é realmente. Quanto mais perdidos nos sentimos, e mais privados do auxílio divino, tanto mais Deus nos procura e protege com a Sua imensa bondade e providência, porquanto suspende a espada que havia alçado em Sua cólera, e não cessa de distribuir os inesgotáveis tesouros de Sua misericórdia.

4 Na obra da Redenção

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A criação e o governo do mundo são também fatos adequados, para evidenciar a traça principal por que Deus ama e protege o gênero humano. Entretanto, a redenção do homem excede a tal ponto as duas obras anteriores, que nosso Deus e Pai bondosíssimo quis demonstrar, por este terceiro benefício, como levava até ao extremo a superabundância de Seu carinho paternal para conosco.

a Pela filiação divina

Por isso mesmo, deve o pároco lembrar aos seus filhos espirituais, e inculcar-lhes frequentemente aos ouvidos, essa insigne caridade de Deus para conosco, a fim de reconhecerem que, pela Redenção, se tornaram milagrosamente Filhos de Deus. Pois, “Ele lhes deu, como diz São João, o poder de se tornarem filhos de Deus”. E mais adiante: “nasceram de Deus”. Por esse motivo, o Batismo, no qual temos o primeiro penhor e lembrança da Redenção, se chama Sacramento da Regeneração. Por ele nascemos espiritualmente como Filhos de Deus. Nosso Senhor mesmo disse: “Quem nasce do Espírito é espírito”. E ainda: “Importa-vos nascer de novo”. De igual forma se exprime São Pedro Apóstolo: “Vós renascestes, não de um germe corruptível, mas incorruptível, pela palavra de Deus vivo”.

b Pelo dom do Espírito Santo

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Pela força dessa Redenção operada pelo Batismo, recebemos o Espírito Santo, e nos tornamos dignos da graça divina. Mediante esse dom, somos adotados como filhos de Deus, de acordo com o que o Apóstolo escreveu aos Romanos: “Não recebestes o espírito de servidão, para viverdes em novo temor; mas recebestes antes o espírito de filiação adotiva, pelo qual nos é dado clamar: Abba, Pai!” O valor e o efeito dessa adoção, São João o expõe nos termos seguintes: “Vede quanto amor o Pai nos consagrou, que nos chamamos Filhos de Deus, e o somos na realidade”.

III Nosso comportamento como filhos de Deus

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Dadas estas explicações, é preciso lembrar ao povo fiel o que, de sua parte, deve retribuir a Deus, seu Pai amantíssimo, para que reconheça quanto amor e piedade, quanta obediência e veneração deve ao seu Criador, Guia e Redentor, e com quanta esperança e confiança deve também invocá-Lo.

1 Na ventura e na desgraça

No intuito, porém, de remover a ignorância, ou de corrigir a maliciosa opinião daqueles que só admitem a ventura e o bem-estar como provas do amor de Deus para conosco, enquanto nos males e infortúnios com que Deus nos experimenta, só descobrem um sinal de hostilidade e total aversão da vontade divina contra nós: força é provar que o Senhor, quando nos toca com Sua mão, não o faz absolutamente por inimizade; mas que Ele fere para curar, e os golpes vindos de Deus são medicinais. Se castiga os pecadores, é para os regenerar, e, pela pena temporal, quer eximi-los da condenação eterna. Conquanto reprima com a vara as nossas maldades, e com açoites os nossos pecados, nem por isso nos subtrai a Sua misericórdia.

2 Suportando o sofrimento

Devemos, pois, exortar os fiéis a que, nesses castigos, vejam o paternal amor de Deus para conosco, e que tenham sempre na boca e no coração aquelas palavras de Jó, modelo de paciência: “Ele próprio fere, e cura ao mesmo tempo. Ele dá o golpe, e Suas mãos aplicam o remédio”. Repitam também o que escreveu Jeremias em nome do povo de Israel: “Vós me castigastes, e eu me corrigi, à maneira do novilho que ainda não fora amansado. Convertei-me, e ficarei convertido, porque Vós sois o Senhor meu Deus”. Tenham diante dos olhos o exemplo de Tobias que, na desgraça da cegueira, reconheceu a paternal mão de Deus que o feria, e por isso mesmo se pôs a exclamar: “Eu vos bendigo, Senhor Deus de Israel, por me terdes castigado, e por me terdes curado”.

3-4 Não como condenação, mas como prova do amor de Deus

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Antes de tudo, os fiéis não devem absolutamente julgar que Deus desconheça sua necessidade, quando se virem em algum sofrimento ou tribulação, pois que Ele mesmo afirmou: “De vossa cabeça, não se perderá um só cabelo”. Devem antes consolar-se com o oráculo divino, que se encontra no Apocalipse: “Eu repreendo e castigo os a que tenho amor”. Nutram confiança na recomendação do Apóstolo aos Hebreus: “Meu filho, não desprezes a disciplina do Senhor, e não desanimes, quando Ele te repreender. Pois o Senhor castiga a quem Ele ama, e flagela todo filho que Lhe é querido... Se vos deixasse sem correção, seríeis bastardos, e não filhos legítimos... Se tivemos nossos pais por educadores corporais, e lhes prestávamos reverência, não havemos muito mais de obedecer ao Pai de nossas almas, e assim conseguir a vida?”

IV Todos os cristãos são irmãos

1 Entre si

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Todos nós que invocamos o Pai, e Lhe damos a designação de Pai nosso, devemos compreender que da graça e privilégio da filiação divina se deduz, necessariamente, que todos os fiéis são irmãos, e como tais devem amar-se fraternalmente uns aos outros. “Todos vós sois irmãos, diz Nosso Senhor... pois um só é o vosso Pai, que está nos céus”. Por isso, em suas epístolas, os Apóstolos chamam de irmãos a todos os fiéis.

2 Irmãos de Cristo

Daqui se tira outra ilação necessária. Pela mesma adoção divina, todos os fiéis não só ficam unidos como irmãos entre si, mas até se chamam e são realmente irmãos do Filho Unigênito de Deus, porquanto Ele assumiu a natureza humana. Pois assim escreveu o Apóstolo na epístola aos Hebreus, quando lhes falava do Filho de Deus: “Ele não se corre de chamá-los Seus irmãos, porque disse: Anunciarei o Vosso Nome aos Meus irmãos”. Ora, havia muito que Davi tal coisa predissera de Cristo Nosso Senhor. Consoante o Evangelho, Cristo disse pessoalmente às mulheres: “Ide, dai notícia a Meus irmãos, que se dirijam à Galileia; lá Me verão”. É sabido, porém, que assim falou, depois de haver ressuscitado e conseguido a imortalidade, a fim de ninguém julgar que, pela Ressurreição e pela Ascensão aos céus, rompera Suas relações de irmão para conosco. Pelo contrário, a Ressurreição tão longe estava de desfazer essa amorosa união de Cristo conosco, que do trono de Sua glória e majestade, quando vier a julgar todos os homens de todos os tempos, Ele nos há de chamar pelo nome de irmãos, a nós que somos os mais humildes de Seus fiéis.

3 Seus co-herdeiros

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E como não havíamos de ser “irmãos de Cristo”, se somos chamados seus co-herdeiros? Ele, como Primogênito, foi constituído “herdeiro de todos os bens”. Nós, porém, filhos segundos, somos Seus co-herdeiros, na medida das graças que recebemos do céu, na razão da caridade com que nos fizermos ministros e cooperadores do Espírito Santo. Ele é quem nos impele à fervorosa prática da virtude e de obras salutares, para que, apoiados pela Sua graça, desçamos animosos à luta pela salvação. Se a tivermos levado a bom termo, com tino e perseverança, receberemos do Pai Celestial, no fim de nossa existência, o justo galardão da vitória, constituído para todos os que se tiverem lançado na mesma competição. “Pois Deus, como diz o Apóstolo, não é injusto a ponto de esquecer nosso serviço e nossa caridade”.

Corolário Fruto particular da oração fraternal

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Com quanto afeto da alma devemos proferir a palavra “Nosso”, no-lo declara uma explicação de São João Crisóstomo. Diz ele que Deus gosta de ouvir o cristão rezar, não só por si mesmo, mas também pelos outros. Rezar por si mesmo é condição da natureza; rezar pelos outros é um fruto da graça. Orar por si é lei da necessidade; rezar pelos outros é impulso da caridade fraterna. E por fim acrescenta que mais agradável a Deus é a oração encarecida pela caridade, do que a forçada pela necessidade.

V A fraternidade persiste, apesar das várias dignidades

Nesta matéria de tanta importância, como é a oração frutuosa para a salvação, deve o pároco exortar instantemente a todos os fiéis, de qualquer idade, sexo ou condição, não esqueçam esse vínculo comum de fraternidade, tratando-se uns aos outros com ternura de irmãos, não se arrogando contra os outros regalias descabidas. Se bem que na Igreja de Deus haja diversos graus de dignidade, contudo a variedade de ofícios e atribuições não destrói, de modo algum, a união íntima da caridade fraterna, assim como no corpo humano, as múltiplas atividades e funções dos membros não fazem com que esta ou aquela parte do corpo perca o caráter e o nome de membro.

1 Porque temos o mesmo Pai

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Suponhamos, por exemplo, que um homem é rei. Porventura, sendo ele cristão, não será também irmão de todos os que também comungam na mesma fé cristã? Por certo que sim. E qual a razão disso? O Deus, a quem os ricos e os reis soberanos devem a sua existência, é o mesmo, do qual procedem os pobres e os súditos reais; pois há um só Deus, que é Pai e Senhor de todos os homens. Por conseguinte, todos nós possuímos a mesma nobreza de origem espiritual, a mesma dignidade humana, a mesma distinção de linhagem, porquanto todos os que nascemos do mesmo Espírito, e do mesmo mistério da fé, somos Filhos de Deus e co-herdeiros da mesma herança.

2-3 O mesmo Redentor e a mesma herança

Com efeito, não há um Cristo Deus para os ricos e poderosos, e outro para os pobres e fracos, pois aqueles não foram santificados por Sacramentos de outra espécie, nem esperam uma herança diferente no Reino Celestial. Pois todos somos irmãos, e, como diz o Apóstolo aos Efésios, “somos membros do Corpo de Cristo, formados de Sua carne e de Seus ossos”. O mesmo pensamento, o Apóstolo o reproduz na epístola aos Gálatas: “Vós todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus, pois todos os que fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes. Já não há judeu, nem grego; não há escravo, nem livre; não há homem, nem mulher. Todos vós sois um em Cristo Jesus”.

Corolário Necessidade de se pregar mais sobre este assunto

Tratem, pois, os pastores de almas esta matéria com a devida exatidão. Detenham-se nela, deliberadamente, por ser apropriada, não só para consolar e reanimar os pobres e humildes, como também para conter e reprimir a arrogância dos ricos e poderosos. A fim de remediar esse mal entre os homens, encarecia o Apóstolo a caridade fraterna, e a recomendava aos fiéis cristãos.

VI O espírito do Pai-Nosso é fundamental para o cristianismo

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Quando, pois, ó cristão, te dispuseres a recitar esta prece, lembra-te que chegas como filho à presença de Deus, teu Pai. Assim que começas esta oração, e proferes as palavras “Pai-Nosso”, considera a que relevância te exaltou a infinita bondade de Deus, porquanto te manda recorrer a Ele, não como um escravo que, contrafeito e temeroso, procura o seu senhor; mas, como um filho que, com espontânea confiança, se acolhe junto de seu pai. Depois de recordar e assimilar esta doutrina, pondera ainda com que zelo e piedade deves tu também aplicar-te à oração. Faze por te haveres como convém a um filho de Deus, quer dizer, faze que tuas orações e tuas obras não desmereçam da estirpe divina a que Deus quis elevar-te, em Sua bondade infinita. Ao desempenho de tal obrigação nos exorta o Apóstolo, quando diz: “Sede, portanto, imitadores de Deus, como Seus filhos muito amados”. Façamo-lo assim, para que na verdade se possa dizer de nós o que o mesmo Apóstolo escrevia aos Tessalonicenses: “Todos vós sois filhos da luz, e filhos do dia”.

VII Não obstante Sua onipresença, dizemos que Deus mora no céu

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Todos os que possuem uma noção exata de Deus, sabem perfeitamente que Ele está presente em todos os lugares e entre todas as nações. Isto, porém, não é para entender como se Deus estivesse dividido em partes, ocupando e conservando cada uma delas o seu respectivo lugar. Pois Deus é espírito, absolutamente estreme de qualquer divisão. Quem se atreveria a imaginar a Deus imobilizado, circunscrito às raias de um espaço determinado, se Ele de Si mesmo afirmou: “Porventura não encho Eu o céu e a terra?” Esta expressão, por seu turno, deve entender-se da seguinte maneira: com Sua força e poder, Deus abrange o céu e a terra, e tudo o que neles se contém; mas Ele próprio não está circunscrito a nenhum lugar. Deus está presente a todas as coisas, quer pelo ato de criá-las, quer pelo ato de conservá-las. Todavia, Ele não se circunscreve a nenhum lugar e limite, nem se fixa de tal maneira, que não esteja presente em toda a parte com a Sua essência e poder. É o que Davi, com santa intuição, exprimia naquelas palavras: “Se eu subir ao céu, Vós lá estais presente”.

Ainda que Deus está presente em todos os lugares e em todas as coisas, e não pode caber, como já dissemos, em nenhum limite, contudo nas Sagradas Escrituras se diz, muitas vezes, que Ele tem no céu Sua morada. Compreendemos que assim se diga, por ser o céu, visível aos nossos olhos, a parte mais nobre do Universo. Conserva-se imutável e incorruptível; excede a todos os mais corpos celestes em força, grandeza e formosura; é dotado, afinal, de movimentos certos e regulares.

1 Para se ter uma imagem de Seu poder

Portanto, se nas Sagradas Escrituras se diz que Deus assiste nos céus, é para excitar os homens a contemplarem o Seu poder e majestade, que na configuração dos céus se revela com o máximo fulgor. Mas é um fato inegável que também se diz, muitas vezes, não haver nenhuma parte do mundo que não seja abrangida pela essência e o poder de Deus ali presente.

2 De Sua majestade

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Na consideração desta verdade, tenham os fiéis diante dos olhos não só a imagem do Pai comum de todos os homens, mas também a de Deus que reina nos céus, para que, quando se põem a rezar, pensem na necessidade de elevarem ao céu a mente e o coração, pois, se grande é a esperança e confiança que nos inspira o nome de “Pai”, igual deve ser também a submissão e piedade cristã, que de nós exige a suma perfeição e a divina majestade de nosso Pai, “que está nos céus”.

3 Para nos lembrarmos da pátria celestial

Estas palavras dão a entender, a quem reza, qual deve ser o objeto de sua oração, pois todos os nossos pedidos, que se referem às conveniências e necessidades da vida presente, são inúteis e indignos de um cristão, se não tiverem também algum nexo com os bens sobrenaturais, e se não se subordinarem ao fim último de toda criatura. Os párocos devem, pois, instruir seus piedosos ouvintes acerca desta condição para bem rezarem. Como prova, podem invocar a palavra autorizada do Apóstolo: “Se ressuscitastes com Cristo, procurai o que está lá por cima, onde se acha Cristo, sentado à direita de Deus. Tende gosto pelas coisas do alto, e não pelas coisas da terra”.

Fonte
Tradução de Frei Leopoldo Pires Martins, OFM — Editora Vozes, Petrópolis, 1951. Transcrição revisada a partir do PDF de referência do Serviço de Animação Eucarística Mariana.