Catecismo Romano · Da Oração

Capítulo 10

Da primeira Petição do Pai-Nosso: “Santificado seja o Vosso Nome”

Da primeira Petição do Pai-Nosso: “Santificado seja o Vosso Nome”

I Nexo das três primeiras Petições

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O que devemos pedir a Deus, e qual deve ser a ordem de nossos pedidos, o próprio Mestre e Senhor de todas as criaturas no-lo ensinou e determinou. Como a oração é mensageira e intérprete de nossos desejos e aspirações, nossas súplicas serão justas e razoáveis, todas as vezes que a ordem de nossos pedidos corresponda à hierarquia natural das coisas desejáveis.

1 Sendo Deus o Sumo Bem, pedimos primeiro Sua glorificação

Ora, a verdadeira caridade manda-nos aplicar todo o nosso amor e afeto a Deus. Por ser em Si mesmo o único sumo bem, Ele deve merecidamente ser amado com um amor intenso e singular. Mas não podemos amar unicamente a Deus, de todo o coração, se não preferirmos Sua honra e glória a todas as coisas criadas. Todos os bens, tanto os nossos como os dos outros, e todas as coisas que mereçam o atributo de “boas”, têm sua origem em Deus, mas não podem nem de longe igualar ao Sumo Bem. Por conseguinte, para que se observasse na oração a ordem devida, Nosso Senhor antepôs a todas as outras, como primeira e principal, aquela petição que se refere ao Sumo Bem.

Com isso, queria ensinar-nos que, antes de pedirmos o necessário para nós ou para nosso próximo, devemos pedir o que promove a glória de Deus, apresentando a Deus mesmo os nossos votos e desejos nesse sentido. Assim procedendo, seremos fiéis ao preceito da caridade, que nos ensina a amar a Deus, mais do que a nós mesmos, e a pedir em primeiro lugar o que desejamos para Deus, e só depois o que desejamos para nós mesmos.

2 Por sinal que na Sua glória extrínseca

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O que desejamos e pedimos são coisas de que carecemos. Ora, Deus, em Sua essência, não precisa de nenhum complemento, nem pode Sua natureza divina ser ampliada com alguma perfeição, pois já reúne em Si todas as perfeições, de um modo inexplicável. Devemos, portanto, compreender que nossos pedidos a Deus, com relação a Ele mesmo, não abrangem a Sua natureza, mas só dizem respeito à Sua glorificação extrínseca. Assim, desejamos e pedimos que o Nome de Deus seja, cada vez mais, conhecido entre os povos; que Seu Reino se dilate sempre mais; que de dia para dia cresça o número daqueles que se submetem à Divina Majestade. Ora, estas três coisas - nome, reino, submissão - não fazem parte da essência divina, mas são-lhe atribuídas extrinsecamente.

a Que, na terra, deve ser igual à do céu

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Sem embargo, para melhor se perceber o sentido e a força desta petição, devem os pastores advertir os fiéis que as palavras “assim na terra, como no céu” podem aplicar-se a cada uma das três primeiras petições, a saber: “Santificado seja o Vosso Nome, assim na terra, como no céu”. Da mesma forma: “Venha a nós o Vosso Reino, assim na terra, como no céu”. Afinal: “Seja feita a Vossa vontade, assim na terra, como no céu”.

b Máxime, na glorificação de Seu Nome

Porém, quando pedimos seja santificado o Nome de Deus, nosso desejo é que cresça cada vez mais a santificação do Nome Divino. Nesta parte, faça o pároco notar a seus piedosos ouvintes que o Salvador não queria afirmar que essa santificação do Nome Divino na terra seja igual à glorificação no céu - coisa aliás impossível - mas que ela deve nascer da caridade e do mais entranhável afeto de nosso coração.

3 Finalidade dessa glorificação do Nome Divino

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Embora seja absoluta verdade que o Nome de Deus de per si não carece de nenhuma santificação, porque é santo e tremendo, assim como o próprio Deus é santo por Sua natureza, e nenhuma santidade pode acrescer-Lhe, de que já não esteja possuído desde toda a eternidade: contudo, é certo também que, na terra, Sua santificação fica muito aquém do que Ele merece, sendo não raras vezes profanado com maldições e blasfêmias. Por isso mesmo, pedimos ardentemente seja Deus louvado, honrado e glorificado na terra, à imitação do louvor, honra e glória que recebe no céu. Noutros termos, Seu louvor e veneração deve de tal forma calar em nossos pensamentos, afetos e palavras, que prorrompa em todas as formas do culto interior e exterior, para nos ser possível, a exemplo dos ditosos moradores do céu, prestar a mais perfeita homenagem a Deus, que é excelso, puro e santo.

II Conteúdo da primeira Petição mais em particular

Como os Santos do céu, em perfeita harmonia, glorificam e louvam a Deus, assim pedimos que o mesmo suceda no orbe da terra: que todos os povos conheçam, respeitem e adorem a Deus; que nenhum mortal deixe de abraçar a Religião Cristã e de consagrar-se totalmente a Deus, na firme convicção de que nada pode haver de puro ou santo, que se não derive da santidade do Nome Divino, fonte de toda a santidade.

1 Que todos os homens conheçam a Deus e recebam o Batismo

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Diz um testemunho do Apóstolo que a Igreja foi purificada “no Batismo de água pela palavra da vida”. Ora, a “palavra da vida” significa o nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, em que fomos batizados e santificados. Não podendo, pois, haver nenhuma expiação, nenhuma pureza, nenhuma inocência na pessoa, sobre a qual não se tenha invocado o Nome Divino, por isso mesmo pedimos ansiosamente a Deus que o gênero humano saia das trevas da sórdida infidelidade, seja iluminado pelos fulgores da luz divina, e reconheça a virtude desse Nome, a ponto de procurar nele a verdadeira santidade, e de fazer-se batizar em nome da santa e indivisível Trindade, alcançando assim, pelas mãos do próprio Deus, toda a perfeição da santidade.

2 Que os pecadores sejam regenerados pela Penitência

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Em nossos desejos e súplicas, devemos também incluir os que contraíram vícios e pecados, os que perderam a pureza batismal e a veste da inocência, dando ocasião a que o espírito imundo de novo se aboletasse nesses mal-aventurados. Almejamos, pois, e pedimos a Deus, que também neles seja santificado o Seu Nome, para que tornem à boa razão e à prática da virtude, recuperando pelo Sacramento da Penitência a primitiva santidade, tornando-se novamente templos e moradas de Deus, cheios de pureza e justiça.

3 Que todos reconheçam os benefícios divinos

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Afinal, pedimos a Deus derrame Sua luz no coração de todos os homens, para reconhecerem como “todo bem absoluto e todo dom perfeito desce do Pai das luzes”, e nos é comunicado pelo próprio Deus. Mediante essa luz, devemos considerar a temperança e a justiça, a vida e a saúde, todos os bens interiores e exteriores, essenciais para alma e corpo, como uma liberalidade d’Aquele que é a fonte de todos os bens, conforme diz a oração da Igreja. Se o sol pelo seu esplendor, se os demais astros pelo seu curso regular trazem vantagem ao gênero humano; se o ar ambiente nos sustenta; se a terra entretém a vida de todos os homens com a abundância de seus frutos e cereais; se pelo esforço dos poderes públicos gozamos de paz e tranquilidade: todos esses e inúmeros outros benefícios semelhantes são dádivas que nos concede a imensa bondade de Deus. Sendo assim, até as causas que os filósofos chamam “causas segundas”, devemos considerá-las como se fossem uma espécie de mãos divinas, milagrosamente feitas e acomodadas às nossas necessidades, e pelas quais Deus nos distribui Seus benefícios, e os esparge profusamente por toda a parte.

4 Que todos acatem a verdadeira Igreja de Cristo

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O sentido mais profundo desta Petição é fazer que todos reconheçam e acatem a Igreja como Esposa Santíssima de Jesus Cristo e como nossa Mãe, pois que só nela existe uma fonte abundante e inexaurível para lavar e suprimir todas as impurezas do pecado. Dessa fonte brotam todos os Sacramentos da salvação e santificação, pelos quais Deus faz verter, como por canais sagrados, a linfa e o orvalho da santidade em nossa alma. Só a Igreja, e os que ela nutre e aconchega em seu regaço, podem na verdade invocar aquele Nome Divino, “o único dado aos homens debaixo do céu, em que nos cumpre operar a salvação”.

5 Que o Nome de Deus não seja blasfemado, por causa dos cristãos

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Há, porém, um ponto em que os párocos devem insistir sobremaneira. É que o bom filho não se limita a rezar a Deus Pai com palavras, mas também se esforça para que em suas obras e atitudes resplandeça a santificação do Nome Divino. Oxalá não houvesse pessoas que, na oração, pedem assiduamente a santificação do nome de Deus, mas que pela sua vida fazem quanto podem para O deprimir e enxovalhar, tornando-se muitas vezes causa de blasfêmias contra Deus. De tais cristãos dizia o Apóstolo: “Por vossa causa, o Nome de Deus é blasfemado no meio da gentilidade”. Em Ezequiel lemos também: “Foram ter com nações pagãs, e, chegados no meio delas, enxovalharam o Meu Santo Nome, porquanto se dizia a respeito deles: Este é o povo do Senhor, e não obstante, teve de sair de sua própria terra”.

6 Que o bom exemplo dos cristãos concorra para a glorificação de Deus

Pela vida e mentalidade daqueles que professam a Religião, costuma o povo ignorante conceituar a própria Religião e seu Autor. Por isso, os que vivem de acordo com a fé cristã que abraçaram, e às suas normas ajustam a oração e o trabalho, dão aos outros grande motivo de louvarem o Nome do Pai Celestial, e de lhe renderem toda a honra e glória. Ora, o próprio Nosso Senhor nos impôs a obrigação de mover os homens, por atos de alevantada virtude, a louvarem e a enaltecerem o Nome de Deus. No Evangelho, dirige-nos estas palavras: “De tal modo deve brilhar vossa luz diante dos homens, que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus”. E, por seu turno, diz o Príncipe dos Apóstolos: “Comportai-vos bem entre os gentios, para que... vos julguem pelas vossas boas obras, e glorifiquem a Deus”.

Fonte
Tradução de Frei Leopoldo Pires Martins, OFM — Editora Vozes, Petrópolis, 1951. Transcrição revisada a partir do PDF de referência do Serviço de Animação Eucarística Mariana.