Catecismo Romano · Da Oração

Capítulo 11

Da segunda Petição: “Venha a nós o Vosso Reino”

Da segunda Petição: “Venha a nós o Vosso Reino”

I Âmbito desta Petição

1 Ponto de partida e remate da pregação evangélica

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O Reino dos céus, que nesta segunda petição demandamos, deve ser o ponto de partida e o remate de toda a pregação evangélica. Foi por ele que São João Batista começou a pregar penitência, quando dizia: “Fazei penitência, porque está próximo o Reino dos céus”. E não foi de outro modo que o Salvador do gênero humano iniciou a Sua pregação. Naquele salutar sermão, quando na Montanha apontava aos Discípulos os caminhos da bem-aventurança, começou a falar do Reino dos céus como assunto principal de Sua pregação. “Bem-aventurados os pobres de espírito, exclamou, porque deles é o Reino dos céus”. Ainda mais. Aos que desejavam detê-Lo em certa ocasião, alegou como motivo, porque se impunha a Sua partida: “É preciso que Eu anuncie também às outras cidades do Reino de Deus, porque para isso fui Eu enviado”. Mais tarde, mandou aos Apóstolos pregassem esse mesmo Reino. A alguém que manifestou desejo de ir primeiro sepultar o pai, respondeu: “Quanto a ti, vai e anuncia o Reino de Deus”. Depois de haver ressuscitado dos mortos, falava do “Reino de Deus”, durante os quarenta dias em que apareceu aos Apóstolos. Aos párocos incumbe, por conseguinte, o dever de explicar com a máxima justeza esta segunda petição, para que os fiéis ouvintes compreendam bem o sentido e a necessidade de tal petição.

2 Procurai primeiro o Reino de Deus

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Antes de tudo, para se dar uma boa e minuciosa explicação, bom será considerar que, não obstante a íntima ligação com todas as mais, Nosso Senhor mandou fazer esta petição separada das outras, para que buscássemos, com sumo ardor, aquilo que pedimos. Pois Ele diz: “Procurai primeiro o Reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas de acréscimo”. Na verdade, tão ampla é a riqueza e abundância dos bens celestes, incluídos nesta Petição, que ela por si só abrange tudo o que é necessário para a manutenção da vida espiritual e corporal. Ora, julgaríamos digno do título real o soberano que se não preocupasse com o bem-estar de seu reino? Mas, se há homens que velam, ciosamente, pela integridade de seu reino, força não é admitirmos quanto cuidado e providência desenvolve o Rei dos reis para garantir a vida e a salvação dos homens?

3 Abrange tudo o que se requer para a vida espiritual e corporal

Portanto, nesta petição do Reino de Deus se encerram todas as coisas de que havemos mister nesta peregrinação, digamos antes, neste desterro. E são coisas que Deus, em Sua bondade, prometeu conceder-nos, pois logo adiantou: “Todas estas coisas vos serão dadas de acréscimo”. Nestes termos, afirmou claramente ser Ele, na verdade, o Rei que, a mãos largas, reparte todos os bens ao gênero humano. Absorto na contemplação dessa infinita largueza, Davi se punha a cantar: “O Senhor me governa, e nada me há de faltar”.

II Maneira de realizá-la

1 Procurar o Reino de Deus

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Porém não basta de modo algum pedir ardentemente o Reino de Deus, se com o nosso pedido não empregarmos todos os meios necessários para o buscar e achar. As cinco virgens loucas pediam com instância: “Senhor, Senhor, dai-nos entrada!”; mas não foram admitidas, por não apresentarem as disposições que deviam acompanhar essa petição. E nisso não houve injustiça, porque Deus mesmo havia lavrado como sentença: “Nem todo aquele que diz: Senhor! Senhor! entrará no Reino dos céus”.

2 Nutrir o desejo do céu

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Em vista disso, os sacerdotes que tiverem encargo de almas, tomarão das fontes abundantíssimas da Sagrada Escritura os textos mais próprios para despertar nos fiéis um desejo operoso do Reino dos céus, e para lhes pôr diante dos olhos a calamitosa situação de nossa vida, fazendo-os entrar em si pela lembrança daquela suma ventura e dos bens inefáveis, que superabundam na eterna mansão de Deus Nosso Pai. Realmente, somos uns exilados, e vivemos num lugar, onde fizeram morada os demônios, cujo ódio contra nós não pode mitigar-se de maneira alguma, pois são inimigos declarados e irredutíveis do gênero humano.

a Considerando a miséria humana

Que dizer, então, das ardentes lutas internas, que de contínuo se travam entre o corpo e a alma, entre a carne e o espírito? Lutas que sempre fazem temer uma derrota de nossa parte. E se fora só para temer! Certamente, sucumbiríamos sem mais demora, se não nos amparasse a mão protetora de Deus. Por sentir o peso de tais misérias, o Apóstolo exclamava: “Que desgraçado sou eu! Quem me livrará do corpo que me traz essa morte?”

b Pior do que a condição dos irracionais

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A triste condição do gênero humano, já manifesta por si mesma, torna-se ainda mais palpável pelo confronto com outros seres e criaturas. Quer seres irracionais, quer nos insensíveis, raramente vemos uma criatura falhar nos atos que lhe são próprios, nos seus instintos naturais, e não conseguir assim sua finalidade discriminada pela natureza. Isso é tão visível nos animais terrestres, aquáticos e voláteis, que já não se faz mister maior explicação. E, se erguermos os olhos para o céu, não vemos logo quão verdadeira é a palavra de Davi: “Vossa palavra, Senhor, se firma no céu para sempre?” Há pois, no firmamento, rotações e traslações, em cadência contínua, de sorte que não ocorre a mínima digressão da órbita marcada por Deus. Se contemplarmos a terra e as outras partes do Universo, facilmente averiguamos que nenhuma ou pouca alteração apresentam em seu curso normal. No entanto, o miserável gênero humano é que decai muitas vezes. O homem raramente põe em prática ideias acertadas. Por via de regra, abandona e despreza boas obras, que estavam em andamento. O que há pouco lhe agradava, como o melhor dos alvitres, já lhe desagrada de uma hora para outra. E largando mão do que é bom, descamba em planos torpes e ruinosos.

c Investigando as causas dessa miséria, e procurando os remédios

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Qual será, pois, a causa de tal inconstância e miséria? Outra não pode ser, senão o desprezo da graça divina. Cerramos os ouvidos às advertências de Deus. Não queremos abrir os olhos à luz da Revelação sobrenatural. Não obedecemos aos salutares preceitos que nos dá o Pai Celeste. Os párocos devem, por conseguinte, não só antojar as nossas misérias ao povo cristão, mas também especificar as causas do mal, e sugerir a medicação apropriada. Para esse mister, colherão farto material nas obras de São João Crisóstomo e Santo Agostinho, mas principalmente nas explicações ministradas no Símbolo dos Apóstolos. Ao reconhecer estas verdades, qual será o criminoso que, ajudado pela graça proveniente de Deus, não faça, como o filho pródigo, o esforço de levantar-se e compor-se, para chegar à presença do Rei Celestial, que é seu Pai?

III Conteúdo da petição

1 Significações do Reino de Deus

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Depois de explicar estas condições, que tornam eficaz a oração dos fiéis, os pastores farão ver o sentido daquilo que pedimos a Deus com tais palavras. Esta explicação se impõe, tanto mais que o termo “Reino de Deus” comporta muitas significações. Ela não será inútil, para a interpretação geral da Escritura; mas, para a compreensão da presente passagem, é de absoluta necessidade.

a Soberania e providência de Deus

Num sentido mais lato, encontradiço nas Sagradas Escrituras, Reino de Deus não só quer dizer a soberania de Deus sobre todos os homens e todas as coisas, mas também a providência, pela qual Ele governa e acomoda todas as coisas. “Em Suas mãos, diz o Profeta, estão todos os confins da terra”. Por conseguinte, entendem-se todas as coisas que estão ocultas e metidas no seio da terra ou em qualquer parte do Universo. Do mesmo sentido, são as palavras proferidas por Mardoqueu: “Senhor Deus, Rei Onipotente, debaixo de Vosso poder estão postas todas as coisas, e não há quem possa resistir à Vossa vontade... Vós sois o Senhor de todas as coisas, e não há quem resista à Vossa majestade”.

b Amparo das almas justas

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Por Reino de Deus, entende-se também um aspecto todo particular da providência com que Deus protege e defende as pessoas justas e virtuosas. A esta firme e extremada solicitude de Deus se referia Davi naquelas suas palavras: “O Senhor é quem me governa, e nada me faltará”. Da mesma forma Isaías: “O Senhor é o nosso Rei, Ele nos salvará”.

c Reino supramundano

Se bem que nesta vida, como já dissemos, os justos e virtuosos estejam numa especial sujeição ao régio poder de Deus, contudo o próprio Cristo Nosso Senhor advertiu a Pilatos que o Seu Reino não era deste mundo, isto é, que de modo algum tinha sua origem neste mundo, o qual foi criado, e há de passar; pois, desse modo dominam os imperadores, reis, presidentes, governantes, e todos os que se constituíram chefes de povos e nações, quer por aclamação ou eleição dos homens, quer por violenta e injusta usurpação do poder. Porém Cristo Nosso Senhor, como diz o Profeta, foi constituído Rei pelo próprio Deus. Seu Reino, como ensina o Apóstolo, é justiça. “O Reino de Deus, diz ele, é justiça, é paz, é gozo no Espírito Santo”.

d Reino de graça e santidade

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Mas Cristo Nosso Senhor reina dentro de nós pelas virtudes íntimas do coração, pela fé, esperança e caridade. Essas virtudes nos constituem, por assim dizer, partes integrantes de Seu Reino; tornam-nos, de modo particular, vassalos de Deus, e nos consagram para o Seu culto e veneração. Por isso mesmo, à semelhança do que dizia o Apóstolo: “Vivo, mas não eu propriamente, Cristo é quem vive em mim” - podemos também nós dizermos: “Reino, mas não eu, Cristo é quem reina em mim”. Chama-se de justiça este Reino, porque é fundado na justiça de Cristo Nosso Senhor. Desse Reino fala Nosso Senhor no Evangelho de São Lucas: “O Reino de Deus está dentro de vós”. Pois ainda que Jesus Cristo reine pela fé em todos os filhos da Santíssima Mãe Igreja, contudo reina de modo mais acentuado naqueles que, possuídos de maior fé, esperança e caridade, se consagraram a Deus como membros puros e vivos. Neles é que dizemos estar o Reino da graça de Deus.

e Reino da glória celestial

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Há, também, outro Reino de Deus. É o Reino da glória, ao qual Cristo Nosso Senhor se refere no Evangelho de São Mateus: “Vinde, benditos de Meu Pai, tornai posse do Reino que vos está preparado desde o princípio do mundo”. Pela narração de São Lucas, era a posse desse mesmo Reino que o ladrão pedia a Cristo, quando de maneira admirável confessou publicamente seus próprios crimes: “Senhor, lembrai-vos de mim, quando chegardes ao Vosso Reino”. São João menciona igualmente este Reino: “Quem não renascer da água e do Espírito Santo, não pode entrar no Reino de Deus”. Dele faz menção também o Apóstolo na epístola aos Efésios: “Nenhum luxurioso, nenhum impuro, nenhum avarento - que vem a ser idólatra - terá herança no Reino de Cristo e de Deus”. Aqui entram também algumas parábolas de Cristo Nosso Senhor, nas quais fala do Reino dos céus.

Corolário Nexo entre Reino da graça e Reino da glória

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É preciso, todavia, estabelecer primeiro o Reino da graça, pois não é possível que no homem reine a glória de Deus, se antes não reinar nele a graça divina. Consoante uma palavra do próprio Salvador, a graça é “uma fonte de água a jorrar para a vida eterna”. E que outra coisa diremos ser a glória senão a perfeição e a plenitude da graça? Enquanto estivermos revestidos deste corpo frágil e mortal, enquanto vivermos longe do Senhor, sem rumo e sem força, nas trevas da peregrinação, através do exílio deste mundo, tropeçamos e caímos muitas vezes, justamente porque lançamos para longe de nós o Reino da graça, esteio a que nos arrimávamos. Quando, porém, raiar para nós a luz do Reino da glória, que é perfeito, ficaremos firmes e seguros por toda a eternidade. Desaparecerá então todo o vício e obstáculo; toda fraqueza será sanada, e suprida pela força; o próprio Deus reinará afinal em nossa alma e em nosso corpo. No Símbolo, esta matéria foi tratada mais amplamente, quando discorríamos sobre a ressurreição da carne.

2 Nesta petição, pedimos

a Pela propagação da fé e da Igreja

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Depois de desenvolvermos, em seu sentido comum, o conceito de Reino de Deus, é preciso agora explicar o objeto próprio desta petição. Rogamos, pois, a Deus pela propagação do Reino de Cristo, que é a Igreja; pela conversão dos infiéis e Judeus à fé de Cristo Nosso Senhor, e à noção do Deus verdadeiro; pelo retorno dos cismáticos e hereges à boa doutrina e à unidade da Igreja, que eles abandonaram; pela perfeita realização da profecia que Nosso Senhor mandou anunciar pela boca de Isaías: “Alarga o espaço de tua tenda... e estende as cobertas dos teus pavilhões. Alonga as tuas cordas e firma as tuas estacas. Pois hás de penetrar para a direita e para a esquerda... porque sobre ti reinará o teu Criador”. De forma análoga, disse: “Caminharão as nações na tua luz, e os reis no clarão de tua aurora. Ergue os olhos em redor de ti, e põe-te a ver. Todos esses povos se reuniram e vieram para junto de ti. De longe virão teus filhos, e tuas filhas surgirão de toda a parte”.

b Pela conversão dos pecadores no seio da Igreja

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Muitos há, no seio da Igreja, que confessam a Deus por palavras, e por obras O renegam. Assim dão mostra de uma fé desvirtuada, e, por causa do pecado, o demônio mora e reina em seus corações, como se estivesse em sua própria casa. Esta é a razão por que também pedimos venha para eles o Reino de Deus, a fim de arrancá-los das trevas de seus pecados, esclarecê-los com os raios da luz divina, reintegrá-los na antiga dignidade de Filhos de Deus. Pedimos, portanto, que o Pai Celestial, removendo do Seu Reino todos os hereges e cismáticos, todos os escândalos e ocasiões de pecado, limpe a eira de Sua Igreja, para que esta possa render a Deus o devido culto e adoração, e gozar de absoluta paz e segurança.

c Pela santificação e perseverança dos bons na Igreja

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Pedimos, afinal, que só Deus viva em nós, que só Ele reine dentro de nós; que doravante não haja lugar para a morte, mas que seja antes absorvida pela vitória de Cristo Nosso Senhor; que Ele vença e desbarate toda a vantagem, força e ousadia dos inimigos, e submeta tudo ao Seu próprio império.

IV Motivos para se recitar devotamente esta petição

1 O imenso valor do Reino de Deus

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De acordo com a importância da petição, será dever dos párocos ensinar ao povo fiel com quais ideias e considerações terá de preparar-se, se quiser dirigir a Deus uma oração piedosa. Antes de tudo, exortem-no a reparar no frutuoso sentido daquela parábola descrita pelo Salvador: “O Reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido no campo. O homem que o descobre, torna a escondê-lo, e, cheio de alegria, a gozá-lo de antemão, vai vender tudo quanto possuía, e comprou aquele campo”. Realmente, quem reconheceu as riquezas de Cristo Nosso Senhor, desdenhará todas as coisas por causa delas. Dinheiro, riqueza e poder, tornam-se mesquinhos a seus olhos. Nada pode haver que se lhes iguale o sumo valor, ou que se lhes compare de qualquer maneira. Por isso, os que chegaram a tal conhecimento, hão de exclamar, como fez o Apóstolo: “Dou por perda todas as coisas, e tenho-as por rebutalho, para poder lucrar a Cristo”. Esta é a preciosa pérola do Evangelho. Quem apura todos os seus haveres, para a comprar, será feliz por toda a eternidade.

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Que ditosos seríamos nós, se Jesus Cristo nos favorecesse com tanta luz, que nos fosse dado ver a pérola da graça divina, pela qual Ele reina nos seus escolhidos! Então, sim, venderíamos todos os nossos bens e até a nós mesmos, para a comprar e garantir a sua posse. Só então poderíamos afinal dizer sem nenhuma hesitação: “Quem nos separará da caridade de Cristo?” Entretanto, se quisermos conhecer o incomparável valor do Reino da glória, ouçamos o que dele disseram e sentiram o Profeta e o Apóstolo: “Nunca os olhos viram, nem os ouvidos escutaram, nem no coração do homem jamais penetrou, o que Deus tem preparado para aqueles que O amam”.

2 Nossa indignidade e necessidade

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Para alcançarmos nossos pedidos, ser-nos-á de muito proveito ponderar bem que somos filhos de Adão, por justo motivo expulsos e desterrados do Paraíso; cuja malícia e perversidade devia provocar o mais entranhado ódio de Deus e os castigos da eternidade; que devemos, por isso mesmo, conservar-nos humildes e abatidos. Nossa oração deve, pois, impregnar-se da maior humildade cristã. Animados de total desconfiança contra nós mesmos, temos de recorrer, como o publicano, à misericórdia de Deus. Tudo atribuindo à Sua bondade, agradeceremos sem cessar Àquele que nos comunicou o Seu Espírito, por cuja valia nos encorajamos a clamar: “Abba, Pai!”

3 Nossa obrigação

a De esforçar-nos

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Depois, consideraremos, seriamente, o que nos toca fazer, e o que nos toca evitar, a fim de conseguirmos o Reino do céu. Com efeito, Deus não nos chamou para a inércia e preguiça, porquanto chegou até a dizer: “O Reino do céu cede à violência, e são os esforçados que o arrebatam”. E noutra ocasião: “Se queres entrar para a vida, observa os Mandamentos”. Por conseguinte, aos homens não lhes basta pedirem o Reino de Deus, se de sua parte não houver zelo e diligência para o alcançar; precisam, pois, colaborar vigorosamente com a graça de Deus, e manter-se no caminho que conduz ao céu.

b De confiar na graça de Deus

Deus nunca nos abandona, porque prometeu estar sempre conosco. Nosso único cuidado e esforço deve concentrar-se em não abandonarmos a Deus e a nós mesmos. Pois, no Reino da Igreja, das mãos de Deus provém tudo quanto conserva a vida humana, e garante a vida eterna: quer sejam os auxiliares invisíveis, como são as legiões de Anjos; quer sejam os tesouros visíveis dos Sacramentos, repletos de força celestial. Em tais meios pôs Deus tanta eficácia, que por eles podemos não só forrar-nos do jugo de nossos terríveis inimigos, mas também vencer e aniquilar o próprio tirano e seus ímpios satélites.

c De pedir a plena vitória do Reino de Deus

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Afinal, peçamos com veemência ao Espírito de Deus que nos mova a fazer tudo conforme o Seu agrado; que destrua o poder de Satanás; que ele nada possa fazer contra nós no Dia do Juízo; que Cristo vença e triunfe; que Suas Leis vigorem em todo o mundo, e Seus Preceitos sejam cumpridos; que ninguém O traia ou renegue; que todos procedam com tanta fidelidade, que possam sem temor comparecer diante de Deus, seu Rei, e tomar posse do Reino Celestial, que lhes foi preparado desde toda a eternidade, onde com Cristo reinarão venturosos, por todos os séculos dos séculos.

Fonte
Tradução de Frei Leopoldo Pires Martins, OFM — Editora Vozes, Petrópolis, 1951. Transcrição revisada a partir do PDF de referência do Serviço de Animação Eucarística Mariana.