Catecismo Romano ·

Capítulo 12

Da terceira Petição: “Seja feita a Vossa vontade”

Da terceira Petição: “Seja feita a Vossa vontade”

I Importância desta petição

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Disse Cristo Nosso Senhor: “Nem todo aquele que Me disser: Senhor, Senhor! entrará no Reino do céu; mas só aquele que fizer a vontade do Meu Pai, que está no céu, esse há de entrar no Reino do céu”. Quem deseja chegar ao Reino do céu, deve portanto pedir a Deus que se cumpra a Sua vontade. Por isso é que a presente petição tem seu lugar logo após a petição do Reino de Deus.

1 Pelo triste estado do homem decaído

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Para os fiéis compreenderem a necessidade daquilo que pedimos nesta súplica, e a abundância dos bens salutares que por ela alcançamos, devem os párocos demonstrar a quantas misérias e provações ficou sujeito o gênero humano, em consequência do pecado de nosso primeiro pai.

a Propensão da vontade para o mal

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Desde o início, Deus infundiu nas criaturas o instinto de seu próprio bem, de sorte que elas, por uma propensão natural, buscam e cobiçam o seu fim, do qual nunca se afastam, a não ser que sejam tolhidas por algum obstáculo vindo de fora. No homem, a atração para Deus, causa e princípio de sua bem-aventurança, era inicialmente tanto mais acentuada e impulsiva, quanto mais se manifestava nele a inteligência e o livre arbítrio.

Mas, enquanto as criaturas irracionais conservaram seu pendor natural, e até hoje continuam na bondade primitiva de sua criação, o pobre gênero humano abandonou o bom caminho; pois não só deitou a perder os dons da justiça original, com que Deus o dotara e enobrecera, além das exigências da natureza humana, mas também obliterou esse apreciável gosto pela virtude, que é inato em seu coração. “Todos se transviaram, diz a Escritura, e se corromperam sem exceção. Não há quem faça o bem, não aparece um sequer”. Pois “os desejos e pensamentos do coração do homem propendem para o mal, desde a sua adolescência”.

Sendo assim, podemos sem mais compreender que ninguém por si mesmo acha gosto nas coisas da salvação, mas que todos os homens se inclinam para o mal, sendo inúmeras as más tendências que dominam os homens, quando se deixam arrastar, apaixonadamente, à cólera, ao ódio, à soberba, à ambição, e a quase todas as espécies de maldades.

b Turvação da inteligência

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Nesses males vivemos continuamente, e a maior desgraça para o gênero humano é que já não encaramos muitos deles como verdadeiros males. Tal modo de pensar indicia a profunda corrupção dos homens. Obcecados por maus desejos e paixões, não reconhecem que o que lhes parece salutar, o mais das vezes faz a sua própria ruína. Chegam, até, a precipitar-se sobre tais coisas perniciosas, como se fossem bens realmente apetecíveis; mas, ao que é bom e honesto, nutrem aversão, como se diante de si tivessem coisas repugnantes.

Esta é uma opinião errada e viciosa, que Deus rejeita com as seguintes palavras: “Ai de vós, que ao mal chamais bem, e ao bem chamais mal; que as trevas tomais por luz, e a luz por trevas; que tendes o amargo por doce, e o doce por amargo”.

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Por conseguinte, para nos dar plena consciência de nossas misérias, as Sagradas Escrituras nos comparam aos que perderam o genuíno paladar, a ponto de recusarem a comida saudável, e preferirem alimentos prejudiciais.

c Incapacidade de conseguir o Reino do céu

Comparam-nos, também, com os enfermos. Como estes não podem fazer os serviços próprios de pessoas fortes e sadias, enquanto se não livrarem da doença, assim também nós não podemos praticar obras agradáveis a Deus, se não recebermos o apoio da graça divina.

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Se algum bem fazemos, apesar de tais disposições, coisa é de somenos importância, que pouco ou nada adianta para conseguirmos a bem-aventurança do céu. Pois, sendo tão nobre e sublime prestar a Deus o devido amor e reverência, nunca a força humana no-lo permitiria fazer, se a graça divina, com seu apoio, não nos solevasse de nossa prostração moral.

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Outro paralelo muito apropriado, para indicar a miserável condição do gênero humano, é dizer-se que nos assemelhamos a crianças que, abandonadas a si mesmas, a tudo se abalançam, sem tino nem prudência. Somos realmente crianças sem juízo. Vamos atrás de conversas tolas e ocupações ridículas, quando nos vem a faltar a assistência divina. Por isso, a Sabedoria nos censura: “Até quando amareis como crianças a infantilidade, e fareis como os néscios que cobiçam as coisas que lhes são nocivas?”

O Apóstolo também nos admoesta da seguinte forma: “Não sejais como crianças no modo de pensar”. Sim, em nossas vaidades e ilusões, somos piores do que crianças. Nestas, falta muito a prudência humana, mas elas podem adquiri-la, normalmente, com o avançar da idade. Nós, porém, não podemos aspirar à prudência divina, necessária para a salvação, se não formos ajudados pela graça de Deus. Pois, se não tivermos o auxílio de Deus, desprezamos os bens que são verdadeiros, e corremos voluntariamente ao encontro de nossa própria ruína.

2 Necessidade de pedir o auxílio de Deus

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Quando o cristão vê essas misérias humanas, depois que a luz divina lhe espancou as trevas da alma; quando, ao despertar de seu letargo, sente a lei dos membros, reconhece que os apetites sensuais contradizem ao espírito, e percebe enfim a absoluta propensão de nossa natureza para o mal: certamente fará todo o empenho para encontrar algum remédio contra esse vício, que acabrunha a nossa natureza, a fim de atinar com aquela norma salutar, que dirige e enobrece a vida do cristão.

a Para vencer o pecado

É isto precisamente o que rogamos a Deus na presente petição: “Seja feita a Vossa vontade”. Já que caímos nessas tribulações, por havermos desobedecido e desprezado a vontade de Deus, o único remédio que o Senhor nos propõe para tantos males é vivermos, daqui por diante, segundo a vontade de Deus, que pelo pecado desprezáramos, e por essa norma comedirmos todos os nossos pensamentos. Para o conseguir, rogamos suplicantes a Deus: “Seja feita a Vossa vontade”.

b Para perseverar no bem

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Isto mesmo devem pedir, fervorosamente, aquelas pessoas, em cujo coração já reina Deus, e que já foram ilustradas pelos raios da luz divina, para que mediante essa mesma graça obedeçam à vontade de Deus. Pois, não obstante os dons que assim receberam, também essas pessoas sentem as próprias paixões renhirem entre si, por causa da propensão para o mal, arraigada que está nos sentidos do homem.

Por conseguinte, também nós, aqui na terra, corremos grande risco de nos desviarmos do caminho da salvação, atraídos e seduzidos pelos apetites que pelejam em nossos membros. De tal perigo nos advertia Cristo naquela passagem: “Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito está de sobreaviso, mas a carne é fraca”.

Corolário: Efeitos da má concupiscência nos bons

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Todavia, não está no poder do homem, nem daquele que já foi justificado pela graça de Deus, coibir de tal maneira os apetites da carne, que dali por diante nunca mais tornem a manifestar-se. Pois, naqueles que são justificados, a graça de Deus guarece a alma, mas não cura também a carne. Desta, escreveu o Apóstolo: “Sei que em mim, isto é, em minha carne, não habita o bem”.

Desde que o homem perdeu a justiça original, que constituía uma espécie de freio para as suas paixões, nunca mais pôde a razão contê-las em justos limites, para não cobiçarem o que também era contra a própria razão. Por isso, escreve o Apóstolo que nessa parte de nossa natureza está o pecado, isto é, o rastilho do pecado, para nos dar a entender que não fica conosco só por algum tempo, como um hóspede, mas que se fixa para sempre em nossos membros, como inquilino de nosso corpo, enquanto nos durar a vida.

Ora, como nos vemos continuamente atacados por inimigos entranhados em nossa natureza, fácil é compreendermos a necessidade de recorrer ao auxílio de Deus, e pedir-Lhe que em nós se faça a Sua vontade. Agora, devemos esforçar-nos para que os fiéis alcancem bem o sentido desta petição.

II Conteúdo da petição

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Aqui pomos de parte as úteis e substanciosas questões, que os escolásticos desenvolveram acerca da vontade de Deus. Só diremos que, por vontade, tomamos aqui a que se chama “significativa”, isto é, aquilo que Deus nos manda ou aconselha fazer ou evitar. Como conceito, a vontade de Deus abrange, aqui, todas as coisas que nos são propostas como meios para conseguirmos a bem-aventurança do céu, quer se refiram à fé, quer se refiram aos costumes: tudo, enfim, o que Cristo Nosso Senhor por Si mesmo, ou pela Sua Igreja, nos mandou ou proibiu que fizéssemos. Dessa vontade escreveu o Apóstolo: “Não sejais irrefletidos, mas procurai conhecer qual é a vontade de Deus”.

Pedimos a docilidade que obedece à vontade de Deus

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Quando, pois, rezamos: “Seja feita a Vossa vontade” — pedimos, em primeiro lugar, que o Pai Celestial nos dê forças para obedecer aos Seus Mandamentos, e servi-Lo “em santidade e justiça todos os dias de nossa vida”; para fazermos tudo segundo o Seu desígnio e vontade; para cumprirmos todos os deveres que as Sagradas Escrituras nos encarecem; para que, com o Seu apoio e inspiração, façamos tudo quanto se impõe como dever aos que não nasceram da carne, mas de Deus, e que seguiram o exemplo de Cristo Nosso Senhor, “feito obediente até a morte, e morte de cruz”. Assim estaremos antes dispostos a sofrer todos os tormentos, do que a desviar-nos de Sua vontade, na mínima coisa que seja.

Corolário: Grandeza dos que obedecem a Deus

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Ninguém se abrasará de maior amor e entusiasmo pelo objeto desta petição, se não lhe for dado compreender a suma dignidade daqueles que prestam obediência a Deus. Só então a pessoa reconhece com quanta verdade se diz que servir a Deus, e obedecer-Lhe, é reinar. Pois diz o Senhor: “Todo aquele que fizer a vontade de Meu Pai Celestial, esse é para Mim irmão, irmã e mãe”: isto é, com ele estou ligado pelos mais estreitos laços de amor e benevolência.

Dentre os Santos, difícil será encontrar algum que não tenha implorado fervorosamente a Deus a graça contida nesta petição. Todos se serviam dessa valiosa súplica, ainda que muitas vezes o fizessem de várias maneiras.

Vejamos só com que admirável ternura variava David as suas súplicas neste sentido. Ora dizia: “Oxalá que meus passos se dirijam ao cumprimento de Vossas justas Leis”. Outra feita: “Guiai-me pelos caminhos de Vossos Mandamentos”. E depois: “Orientai meus passos pela Vossa palavra, para que não me empolgue nenhuma injustiça”. Aqui pertencem também as seguintes passagens: “Dai-me inteligência, para que eu compreenda os Vossos testemunhos”. Assim vai ele repetindo, com outras palavras, os mesmos pensamentos. Tais passagens merecem a maior atenção, e devem ser explicadas aos fiéis, para que todos reconheçam a importância e riqueza dos salutares conceitos que se encerram nesta primeira parte da presente petição.

Pedimos horror às obras da carne

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Quando pedimos: “Seja feita a Vossa vontade” — manifestamos, em segundo lugar, nosso horror às obras da carne, das quais escreveu o Apóstolo: “São notórias as obras da carne, tais como a fornicação, a impureza, a desvergonha, a luxúria... etc.”, e “se viverdes segundo a carne, tereis de morrer”.

Rogamos, pois, a Deus não nos deixe sucumbir ao arranco dos apetites sensuais e de nossa própria fraqueza, mas que o nosso querer se amolde, perfeitamente, à Sua divina vontade. Afastam-se dessa vontade divina os voluptuosos que, nas coisas da terra, concentram todos os seus desejos e cuidados. Deixam-se arrastar pelas suas más paixões, e arrebatam sofregamente tudo quanto lhes apetece. Na satisfação de seus depravados apetites fazem consistir toda a sua felicidade, e dão por feliz aquele que tudo consegue na medida de suas próprias ambições. Nós, porém, pedimos a Deus, como ensina o Apóstolo, que “não nutramos os apetites da carne”, mas que antes se faça a Sua vontade.

Corolário: As resistências da natureza decaída

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Custa-nos, na verdade, pedir a Deus não satisfaça os nossos apetites. Não é fácil induzir a tanto o nosso coração. Com tal pedido parece que nos odiamos a nós mesmos, e os materialistas julgam-no uma verdadeira loucura. De nossa parte, devemos todavia suportar de boa mente que nos acoimem de loucos, por amor a Cristo, que declarou: “Se alguém quiser vir após Mim, renuncie-se a si mesmo”. E isso fazemos com mais prazer, sabendo que muito mais vale desejar o que é justo e honesto, do que conseguir coisas contrárias à razão, à virtude, e às Leis Divinas. Em pior situação está, certamente, quem logra tudo o que deseja, mediante um golpe temerário de sua cobiça, do que a pessoa que não alcança as suas mais justas aspirações.

Pedimos a graça de não nos iludirmos com as aparências do bem

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Todavia, não só pedimos que Deus não atenda nossos desejos arbitrários, quando partem de ambições certamente desordenadas, mas que também nos recuse o que às vezes pedimos como um bem para nós, mas que na realidade não passa de forte sugestão do demônio, disfarçado em anjo de luz.

Assim, pois, quando o Príncipe dos Apóstolos procurou dissuadir o Senhor do Seu plano de caminhar para a morte, parecia tal empenho muito justo, e repassado de filial dedicação. Nosso Senhor, porém, o censurou duramente, porque se deixava levar por sentimentos humanos, e não por motivos de ordem sobrenatural.

Que maior carinho a Nosso Senhor poderia haver naquela súplica de João e Tiago, varões de grande santidade, quando, irados contra os Samaritanos, por terem recusado hospedagem ao Mestre, pediram que Ele fizesse baixar fogo do céu, para consumir aqueles homens brutos e desalmados? Cristo Nosso Senhor, no entanto, os repreendeu com as palavras: “Não sabeis de que espírito estais possuídos. Pois o Filho do Homem não veio para perder, mas para salvar as almas”.

Pedimos a consecução de coisas boas e agradáveis

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Devemos pedir a Deus que se faça a Sua vontade, não só quando nosso desejo se volve para alguma coisa que seja, ou que pareça ser má, mas também quando a coisa não tem nada de mal em si. Assim acontece, por exemplo, quando a vontade humana, seguindo o primeiro impulso natural, apetece o que sustenta, e rejeita o que prejudica a natureza.

Por conseguinte, logo que tivermos de pedir coisas dessa natureza, digamos de todo o coração: “Seja feita a Vossa vontade”. Imitemos Aquele, de quem recebemos a salvação e a ciência da salvação. Sentia, sim, um pavor natural dos tormentos e da morte crudelíssima que O aguardavam; mas, naquele transe da maior angústia, identificou Sua vontade com a vontade de Deus: “Não se faça a Minha vontade, senão a Vossa”.

Pedimos a perseverança em fazer a vontade de Deus

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Espantosa é a depravação do gênero humano! Ainda que reprimam a concupiscência e a submetam à vontade divina, não podem os homens evitar o pecado, sem o auxílio de Deus, que nos preserva do mal e encaminha para o bem. Devemos, pois, recorrer a esta petição, suplicando a Deus leve a bom termo o que Ele mesmo em nós começou. Contenha a forte rebelião de nossas paixões; faça nossos apetites obedecerem à voz da razão; torne-nos, pois, perfeitamente conformes à Sua vontade.

Pedimos, outrossim, que o conhecimento da vontade de Deus se difunda por todo o orbe da terra, para que o mistério divino, oculto às idades e gerações, seja amplamente divulgado a todos os homens.

“Assim na terra, como no céu”

A graça de cumprir a vontade de Deus

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Pedimos, além disso, a forma e a medida de nossa obediência: isto é, que ela tenha a mesma norma que, no céu, observam os santos Anjos, e toda a legião dos Bem-aventurados. Assim como eles, de própria vontade e com sumo prazer, obedecem ao poder de Deus, assim também obedeçamos nós à vontade de Deus com a máxima prontidão, da maneira que Lhe for mais agradável.

a Por amor e reverência

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Em tudo, porém, o que fazemos para o Seu culto e serviço, Deus exige de nós o mais alto grau de amor e uma dedicação a toda prova; a tal ponto que, se nos consagramos inteiramente a Ele, na esperança dos bens celestiais, não devemos esperá-los, senão porque aprouve à divina Majestade nutríssemos tal esperança. Por isso, toda a nossa esperança deve firmar-se naquele amor a Deus que, por prêmio de nosso amor, estabeleceu a eterna bem-aventurança.

b Não tanto pela recompensa

Há pessoas que servem a outrem com carinho, mas em vista da recompensa, a que vai propriamente o seu amor. Outras, enfim, são levadas unicamente pelo amor e a piedade filial. Naquele a quem servem, não consideram outra coisa senão a sua bondade e virtude. Com tais sentimentos, dão-se por felizes em poder prestar-lhe serviço.

c O sentido de céu e terra

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Esse é o sentido daquela contraposição: “... assim na terra, como no céu”. De todos os modos, devemos esforçar-nos por obedecer a Deus, como dissemos que fazem os espíritos bem-aventurados, cujo ministério é prestar a Deus a mais perfeita obediência, pelo que David lhes consagra num Salmo os maiores louvores: “Bendizei ao Senhor, vós todos que sois as Suas Virtudes; vós que sois Seus ministros, e fazeis a Sua vontade”.

Quem preferir a interpretação de São Cipriano, pode entender por “céu” os bons e justos, e por “terra” os maus e ímpios. De nossa parte, perfilhamos também uma outra explicação sua, pela qual “céu” designa o espírito, e “terra” a carne, contanto que tudo e todos obedeçam à vontade de Deus em todas as coisas.

Corolário: A ação de graças nesta petição

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A presente petição encerra também uma ação de graças. Pois, se veneramos a Sua santíssima vontade, engrandecemos também todas as Suas obras, num transporte da maior alegria, rendendo os maiores louvores e ações de graças, por sabermos perfeitamente que Deus fez bem todas as coisas.

Constando, como consta, que Deus é todo-poderoso, devemos necessariamente admitir que todas as coisas foram criadas por Sua determinação. Com o dizer que Ele é o Sumo Bem, por própria natureza, proclamamos, ao mesmo tempo, que nenhuma de Suas obras deixa de ser boa, porque a todas comunicou a Sua própria bondade.

Apesar de não podermos alcançar os desígnios de Deus em todas as coisas, nem por isso temos dúvida ou receio de afirmar, absolutamente, com o Apóstolo, que “os Seus caminhos são inescrutáveis” em todas as coisas. Mas a razão decisiva que nos induz a cultuar a vontade de Deus é ter-nos Ele agraciado com a Sua luz celestial; pois “arrancou-nos do poder das trevas, e fez-nos passar ao Reino de Seu querido Filho”.

III Maneira de meditar esta petição

1 Com sentimentos humildes

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Como remate, proporemos a maneira de se meditar esta petição. Para tanto, é preciso repetir o que, de início, havíamos explicado. Devem os fiéis recitar esta petição com profunda humildade, ponderando que, em sua petulância, os apetites da natureza se opõem à vontade de Deus; reconhecendo que, nesse particular, eles levam a pior a todas as outras criaturas, das quais está escrito: “Todas as coisas Vos obedecem”. Porém o homem é tão fraco, que não pode começar nem perfazer qualquer obra agradável a Deus, se não for amparado pela assistência divina.

2 A glória de servir a Deus nos faça zelosos

Ora, nada havendo de mais honroso nem de mais útil, como dizíamos, do que servir a Deus, e viver segundo Suas Leis e Preceitos, que poderá ser mais desejável para o cristão, do que trilhar os caminhos do Senhor, não pretender nem praticar nada que seja contrário à vontade de Deus? Para encetar esse exercício, e continuá-lo com zelo e perseverança, devemos procurar, nas Sagradas Escrituras, os exemplos daqueles que se saíram mal em todas as coisas, por não terem regulado seus planos consoante a vontade de Deus.

3 A Providência de Deus nos faça pacientes

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Como derradeira advertência, diga-se aos fiéis que repousem na vontade simples e absoluta de Deus. Quem ocupa um lugar que não condiz com seu mérito pessoal, suporte paciente a sua condição, não abandone o seu estado, mas permaneça na vocação a que foi chamado, e submeta seu próprio juízo à vontade de Deus. Ele cuida de nós, muito melhor do que poderíamos desejar.

Quando nos oprimem privações, doenças, vexames, e outros males e angústias, tenhamos por certo que nada disso nos pode surpreender, sem a vontade de Deus, que é a suprema razão de tudo quanto acontece. Não devemos, pois, turbar-nos por demais, e soframos tudo com ânimo inquebrantável, tendo sempre na boca as palavras: “Seja feita a vontade do Senhor” — ou aquela declaração de Job: “Como foi do agrado do Senhor, assim aconteceu. Bendito seja o Nome do Senhor!”

Fonte
Tradução de Frei Leopoldo Pires Martins, OFM — Editora Vozes, Petrópolis, 1951. Transcrição revisada a partir do PDF de referência do Serviço de Animação Eucarística Mariana.