Da maneira de rezar
I Atributos da oração
Na santa oração muito releva a maneira de praticá-la. Rezar é bom e salutar, sem dúvida alguma; mas não traz proveito, se não rezarmos nas devidas condições. Muitas vezes não alcançamos o que pedimos, como diz São Tiago, unicamente porque fazemos mal a nossa petição. Em vista disso, o pároco ensinará ao povo fiel a maneira mais acertada de pedir e rezar, quer em público, quer em particular. Ora, as regras da oração cristã se deduzem da doutrina de Cristo Nosso Senhor.
1 Em espírito e verdade
Antes de tudo, devemos orar “em espírito e verdade”, pois o Pai Celestial procura homens que O adorem “em espírito e verdade”. Reza de tal maneira quem procura afervorar-se, para rezar do íntimo do coração. Esse modo de rezar em espírito, devemos exigi-lo até na oração vocal.
a Primazia da oração mental
Com razão, porém, damos a primazia à oração que brota de um peito abrasado na caridade. Deus escuta tal oração, ainda que não seja dita de boca, pois Ele conhece os mais secretos pensamentos dos homens. Assim atendeu as silenciosas preces de Ana, mãe de Samuel, da qual lemos nas Escrituras que orava entre lágrimas, e só movia os lábios. Davi também rezava dessa maneira: “Falou-Vos o meu coração, e meus olhos Vos procuraram”. Tais exemplos depara a cada passo quem lê as Sagradas Escrituras.
b Utilidade da oração vocal
Porém a oração vocal tem sua própria vantagem e necessidade, pois excita o fervor da alma, e abrasa a devoção de quem reza, como Santo Agostinho o descreveu a Proba nos termos seguintes: “Muitas vezes, as palavras e outros sinais levam-nos, com maior insistência, a aumentar o desejo das coisas santas”. Outras vezes, a exuberância de fervor e piedade move-nos a desabar, em palavras, o que nos vai na alma. Quando, por exemplo, o coração exulta de alegria, é natural que também exulte a língua. Na verdade, convém fazermos na oração o duplo sacrifício da alma e do corpo. Assim costumavam os Apóstolos fazer a sua oração, conforme averiguamos em muitas passagens dos Atos dos Apóstolos e das epístolas de São Paulo.
c Necessidade da oração vocal
Há, como sabemos, duas espécies de oração, a particular e a pública. Na oração particular, fazemos uso de palavras, para secundarem o fervor e a devoção da alma. Na oração pública, instituída que foi para promover a piedade do povo cristão, não se pode absolutamente omitir a prolação de palavras em certos tempos determinados.
d Maneira de fazer bem a oração vocal
O rezar “em espírito” é um apanágio do cristianismo. Os infiéis não o cultivam de maneira alguma. Acerca deles ouvimos o conceito de Cristo: “Quando orardes, não useis de muitas palavras, como os pagãos, que cuidam ser atendidos mediante sua loquacidade. Não os imiteis, porque vosso Pai sabe de que haveis mister, antes de Lhe fazerdes o pedido”. Entretanto, ao reprovar a demasia nas palavras, Nosso Senhor não condena as longas preces, que nascem de uma devoção ardente e duradoura, mas até nos induz a tal oração pelo Seu exemplo, pois não só rezou noites inteiras, mas também repetiu três vezes a mesma oração. Uma única coisa, portanto, deve ficar bem assente: é que Deus, para nos atender, não se deixa levar por vãos palavrórios.
Corolário A oração “a portas fechadas”
Os hipócritas, por sua vez, não rezam em espírito. Cristo Nosso Senhor nos previne contra o seu modo de rezar, e nos dirige a seguinte admoestação: “Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de rezar, empertigados nas sinagogas e nas esquinas das praças públicas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e ora a teu Pai em segredo. E teu Pai, que vê as coisas ocultas, te dará o galardão”. Por “quarto” devemos entender, nesta passagem, o coração do homem. No entanto, não basta só entrar nele, mas é preciso também fechá-lo, para que nos corações não possa insinuar-se alguma coisa de fora e violar a integridade da oração. Nestas condições é que o Pai Celeste, conhecendo a fundo os desígnios e os pensamentos mais ocultos de todos os homens, atende às súplicas de quem Lhe faz oração.
2 Perseverança
A oração requer perseverança. A grande eficácia da oração perseverante, o Filho de Deus no-la mostra pelo exemplo daquele juiz que, apesar de não temer nem a Deus nem aos homens, se deixou vencer pelos assíduos pedidos da viúva, e concedeu-lhe o que ela desejava. Devemos, portanto, rezar a Deus com toda a perseverança. Não são para imitar os que rezam uma ou outra vez, e abandonam a oração, se não alcançam logo o que pedem. Pois, na prática da oração, não deve haver esmorecimento, conforme nos ensina a autorizada doutrina de Cristo Nosso Senhor e dos Apóstolos. Se alguma vez arrefecer a nossa disposição de rezar, peçamos a Deus a graça da perseverança.
3 Em nome de Jesus
O Filho de Deus quer também que nossa oração se dirija ao Pai em nome d’Ele; pois o mérito e valimento de Sua intercessão faz com que o Pai Celestial se digne atendê-la. São de Cristo aquelas palavras no Evangelho de São João: “Em verdade, em verdade vos digo: Se alguma coisa pedirdes ao Pai em Meu nome, Ele vo-la dará. Até agora, nada pedistes em Meu nome. Pedi, e recebereis, para que a vossa alegria seja completa”. E noutro lugar: “Tudo o que pedirdes ao Pai em Meu nome, Eu vo-lo farei”.
4 Fervor e gratidão
De nossa parte, pois, imitemos o zelo ardente que os Santos punham na oração. Com a petição unamos também a ação de graças, a exemplo dos Apóstolos, que sempre costumavam proceder assim, conforme se pode averiguar nas epístolas do Apóstolo.
5 Com jejuns e esmolas
À oração juntemos também o jejum e a esmola. O jejum está, certamente, na mais íntima relação com a oração. Quem sobrecarrega o estômago de comida e bebida, fica com o espírito tão pesado, que não pode concentrar-se em Deus, nem atinar com a finalidade da oração. A esmola, por sua vez, é também uma íntima aliada da oração. Pois quem dispõe de recursos, mas não acode ao que precisa da caridade alheia, nem ajuda ao seu próximo e irmão, como poderia presumir-se caridoso? E, não tendo caridade, com que semblante poderá ele implorar o auxílio de Deus? A não ser que antes rogue a Deus perdão desse pecado, e para si peça ao mesmo tempo o dom da caridade. Quis a Divina Providência promover a salvação dos homens por esse tríplice remédio. Se pelo pecado ofendemos a Deus, agravamos o próximo, e lesamos a nós mesmos: as santas orações aplacam a Deus, a esmola resgata as ofensas feitas ao próximo, o jejum nos purifica as máculas de nossa própria vida. Embora cada um desses remédios seja indicado para todas as espécies de crimes, contudo são particularmente aplicáveis a cada um dos pecados que acabamos de enumerar.