Da preparação para rezar
I Necessidade de preparação
Há, nas Escrituras, o seguinte conceito: “Antes de rezar, prepara a tua alma, e não sejas como um homem que tenta a Deus”. Pois tenta a Deus aquele que quer rezar bem, mas procede mal na sua vida; quem se deixa levar por devaneios, quando fala com Deus. Ora, sendo tão decisivas as disposições com que alguém reza a Deus, os párocos ensinarão aos piedosos ouvintes as várias regras da oração.
II Disposições necessárias
1 Humildade
A primeira disposição é um sentimento de profunda humildade e uma verdadeira consciência dos próprios pecados. Quem se aproxima de Deus, deve reconhecer que suas faltas o tornam indigno, não só de pedir alguma coisa a Deus, como também de chegar à Sua presença para fazer oração. As Sagradas Escrituras aludem, muitas vezes, a esta preparação, quando declaram: “O Senhor considerou a oração dos humildes, e não desprezou as suas súplicas”. E noutro lugar: “A oração de quem se humilha penetrará as nuvens”. Os pastores bem instruídos terão à mão inúmeras passagens que se referem a esta parte de doutrina. Por esse motivo, deixamos de citar outras mais, pois seriam desnecessárias. Contudo, não omitiremos dois exemplos, já lembrados noutro lugar, mas que aqui ilustram a exposição. O primeiro é a figura notória do publicano que, ficando à distância, nem os olhos se atrevia a despregar do chão. O segundo é daquela mulher que, sacudida pelo arrependimento, banhou de lágrimas os pés de Cristo Nosso Senhor. Ambos demonstraram quanto a oração se torna valiosa com a humildade cristã.
2 Arrependimento
A recordação dos pecados traz consigo uma certa angústia, ou pelo menos uma sensação de dor, porque não conseguimos uma verdadeira compunção de nossos pecados. Se o penitente não tiver ambas as disposições, ou pelo menos uma delas, não poderá alcançar perdão.
3 Livrar-se de certos pecados
a Homicídio
Existem pecados, como o homicídio e a agressão, que tolhem absolutamente a Deus de atender ao que Lhe pedimos na oração. Devemos, pois, guardar nossas mãos limpas de tal crueza e violência. A propósito desse crime, declarou Deus pela boca de Isaías: “Quando estenderdes para Mim as vossas mãos, apartarei de vós os Meus olhos; por mais que digais orações, Eu não as escutarei, porque vossas mãos estão cheias de sangue”.
b Ira e discórdia
Devemos, outrossim, evitar a ira e a discórdia. São, por sua vez, grandes obstáculos ao bom efeito de nossas orações. Disso falou o Apóstolo: “Quero que os homens orem em todo o lugar, erguendo as mãos puras, sem ira e sem contenda”.
c Rancor
Além do mais, é preciso não nos mostrarmos implacáveis por causa de alguma injúria. Enquanto nutrirmos rancor, não podemos com nossas orações mover a Deus a que nos conceda o Seu perdão. Ele mesmo disse: “Quando vos puserdes a rezar, perdoai, se tendes qualquer coisa contra alguém”, e alhures: “Se vós não perdoardes aos homens também o vosso Pai não vos há de perdoar os vossos pecados”.
d Dureza com os pobres
Cumpre, ainda, evitar de sermos duros e desumanos para com os pobres. Contra os descaridosos se dirige aquela palavra da Escritura: “Quem fechar os ouvidos ao clamor do pobre, não será atendido, quando ele mesmo se puser a clamar”.
e Soberba
Que diremos então da soberba? Quanto agravo faz a Deus, mostra-nos aquela passagem: “Deus resiste aos soberbos, e aos humildes dá a sua graça”.
f Desprezo da palavra divina
E quanto ao desprezo da palavra divina? Existe a propósito uma sentença de Salomão: “Quem desvia seu ouvido para não atender a Lei, fará uma oração execrável”. Estas passagens da Escritura não excluem, entretanto, que sejam aceitas as súplicas de quem pecou por injúrias, homicídio, cólera, dureza com os pobres, soberba, menoscabo da palavra divina, e outros crimes possíveis, se a pessoa houver pedido antes a graça do perdão.
4 Nutrir fé e esperança
Para essa preparação da alma, se requer também a fé, como disposição absolutamente necessária. Sem o auxílio da fé, não chegamos a conhecer a onipotência do Pai Supremo, nem a Sua misericórdia. Ora, desse conhecimento nasce a confiança de quem faz oração. Assim o ensinou o próprio Cristo Nosso Senhor: “Na oração, tudo o que pedirdes com espírito de fé, alcançá-lo-eis”. Sobre o caráter desta fé, escreve Santo Agostinho num sermão, que se refere às palavras de Nosso Senhor: “Se faltou a fé, não houve oração”. Como já foi dito, o essencial da boa oração é estarmos firmes e inabaláveis na fé. Para o provar, o Apóstolo argumenta pela razão contrária: “Como invocarão Aquele, em quem não acreditam?” Devemos pois exercer-nos na fé, tanto para podermos rezar, como para que não nos falte a própria fé, pela qual a oração se torna salutar. A oração, por seu turno, remove qualquer dúvida, e faz com que a fé seja mais firme e inabalável. Nesse mesmo sentido, exortava Santo Inácio às pessoas que se aproximavam de Deus pela oração: “Não faças oração com espírito duvidoso. Feliz aquele que não duvida”. Por conseguinte, nada mais eficaz para conseguir de Deus o que pedimos, do que a fé e a inabalável esperança de sermos atendidos. Assim também o aconselha São Tiago: “Peça com fé, e sem nenhuma hesitação”.
5 Motivos para confiança
a Bondade de Deus
Muitos são os motivos que nos fazem confiar na eficiência da oração. Em primeiro lugar, a própria bondade e condescendência de Deus para conosco, porquanto nos manda chamá-Lo de Pai, a fim de nos sentirmos verdadeiramente como Seus filhos. Depois, sem conta é o número daqueles, cujas orações foram atendidas por Deus.
b Cristo, nosso medianeiro
Além disso, temos um mediador supremo, Cristo Nosso Senhor, que está sempre pronto a interceder por nós. D’Ele nos fala São João: “Se alguém pecar, temos um advogado junto ao Pai: Jesus Cristo, o Justo. Ele mesmo é a propiciação pelos nossos pecados”. Da mesma forma, escreve o Apóstolo São Paulo: “Cristo Jesus, que morreu, ou antes, que ressuscitou, e está à direita de Deus, também intercede por nós”. Na epístola a Timóteo: “Há um só Deus e um só Medianeiro entre Deus e os homens: o Homem Cristo Jesus”. Afinal, na epístola aos Hebreus: “Convinha, portanto, que em tudo se tornasse semelhante aos irmãos, a fim de ser perante Deus um Pontífice misericordioso e fiel”. Embora indignos de alcançar alguma coisa, devemos contudo esperar, com absoluta confiança nos méritos de Jesus Cristo, nosso ótimo Mediador e intercessor, que Deus nos há de conceder tudo o que por Ele pedirmos nas devidas condições.
c O Espírito Santo, promotor de nossa oração
Por fim, o Espírito Santo é quem promove a nossa prece. Se quisermos pois ser atendidos, força nos é rezar debaixo de Sua direção. Recebemos “o Espírito da filiação adotiva, que nos faz clamar: Abba, Pai”. Esse mesmo Espírito é quem acode à nossa fraqueza e ignorância em matéria de oração; quem “intercede por nós com gemidos inexplicáveis”, como o Apóstolo chega até a dizer.
6 Viver segundo a vontade de Deus
Se alguns por vezes titubeiam, e não sentem bastante firmeza na fé, ponham-se a dizer com os Apóstolos: “Senhor, aumentai-nos a fé”; ou então com aquele cego: “Senhor, ajudai-me na minha incredulidade”. Revigorada, assim, a nossa fé e esperança, alcançaremos tudo o que pedirmos a Deus, se conformarmos com a Sua Lei e vontade todas as nossas ideias, obras e orações. “Se permanecerdes em Mim, diz Cristo, e se em vós permanecerem as Minhas palavras, pedireis quanto quiserdes, e tudo vos será concedido”. Como já dissemos, para tudo podermos conseguir de Deus, torna-se mister, como condição essencial, esquecer as injúrias e nutrir, para com o próximo, sentimentos benévolos e caritativos.