Espécies e graus da Oração
I As várias espécies da oração, segundo São Paulo
Depois de exposta a necessidade e utilidade da prece cristã, importa ao povo fiel saber também de quantas e de quais partes se compõe a oração. Isto faz parte do perfeito exercício da oração, conforme o atesta o Apóstolo. Na epístola a Timóteo, exortando a rezar com piedoso recolhimento, ele enumera cuidadosamente as espécies de oração: “Peço, diz ele, que antes de tudo se façam súplicas, orações, expiações, ações de graças, na intenção de todos os homens”. Entretanto, não deixa de ser arguta essa distinção das várias maneiras de rezar. Se os párocos julgarem útil explicá-las assim aos ouvintes, poderão consultar, entre outras, as obras de Santo Hilário e Santo Agostinho.
II A petição e ação de graças
Porém, havendo na oração duas espécies principais, a petição e a ação de graças, donde derivam como de sua fonte todas as outras, julgamos que de modo algum devemos omiti-las. Na verdade, quando nos aproximamos de Deus, com sentimentos de adoração e veneração, é para Lhe pedir alguma coisa, ou para Lhe agradecer os constantes benefícios, com que Sua bondade largamente nos favorece. Estas duas espécies de oração, Deus mesmo as designou como absolutamente necessárias, quando pela boca de Davi proferiu as seguintes palavras: “Invoca-Me a Mim no dia da tribulação. Eu te livrarei, e tu Me darás a honra”. Realmente, atentando a enorme miséria e pobreza dos homens, quem poderá negar quanto se nos faz mister a bondade e a liberalidade divina?
Ora, todos os que tenham olhos para ver e inteligência para compreender, reconhecem quanto o amor de Deus se inclina ao gênero humano, e quanto sua clemência se expande para conosco, pois, onde quer que ponhamos a vista, onde quer que dirijamos nosso pensamento, diante de nós refulge o admirável clarão da bondade e munificência divina. Que possuem os homens, que não lhes tenha vindo da liberalidade de Deus? E se tudo são dons e presentes de Sua bondade, não deveriam todos os homens louvar a Deus beneficentíssimo, e render-Lhe graças na medida de suas forças?
III Graus da oração
Nessa dupla obrigação, tanto de pedir a Deus como de Lhe agradecer, existem muitos graus, sendo uns mais elevados e mais perfeitos do que outros. Portanto, para se conseguir, não só que o povo reze simplesmente, mas também que o faça do melhor modo possível, os pastores devem ensinar-lhe o método mais elevado e mais perfeito de rezar, e insistirão que o ponha em prática.
a Oração efusiva
Mas qual é o melhor modo de rezar e o grau mais sublime de oração? Certamente aquele que praticam as pessoas piedosas e tementes a Deus. Apoiando-se nos firmes alicerces da verdadeira fé, vão elas subindo por certos degraus do recolhimento e da meditação, até o ponto de poderem contemplar o infinito poder, a imensa bondade e sabedoria de Deus. Nesse estado de alma, adquirem a inabalável esperança de alcançarem tudo quanto pedem para a vida presente, como também aquela abundância de dons inefáveis, que Deus prometeu de dar aos que imploram o Seu auxílio divino, com toda a confiança e piedade. A alma, como que levada ao céu por essas duas asas, chega até Deus, num enlevo de amor, para Lhe render todos os louvores e graças, porque Ele a mimoseou com os maiores benefícios. Com inigualável afeição e reverência, expõe então confiadamente todas as suas necessidades, à semelhança do filho único que desabafa com seu pai amantíssimo. A este modo de rezar dão as Escrituras o nome de “efusão”. Diz o Profeta: “Derramo minha oração em Sua presença, e exponho diante d’Ele a minha tribulação”. Pelo sentido da própria expressão, quem se põe a rezar nada deve calar, nada deve dissimular; antes, desabafe tudo o que sente, acolhendo-se confiante ao coração de Deus, que é Pai amantíssimo. Ora, a tanto nos persuade aquela doutrina celestial que assim nos ensina: “Derramai diante d’Ele os vossos corações”. Noutro lugar: “Atira sobre o Senhor os teus cuidados”. Tal grau de oração é que Santo Agostinho dá a entender, quando diz no livro chamado Enchiridion: “O que é objeto de fé, a esperança e a caridade o fazem objeto da oração”.
b Oração contrita
Outro é o grau de oração daqueles que vivem onerados de culpas mortais. Com uma fé que se chama morta, fazem força para se levantar e subir até Deus. Mas, estando suas forças quase extintas e sua fé extremamente debilitada, não podem soerguer-se da terra. Ainda assim, por reconhecerem seus pecados, por sentirem remorso à vista deles, pedem a Deus perdão de seus crimes e paz para sua consciência; fazem-no com humildade e submissão, embora sua penitência fique ainda longe de ser plenamente satisfatória. Todavia, a oração deles surte bom efeito aos olhos de Deus. Suas súplicas são atendidas. O que mais é, Deus misericordioso tem a largueza de convidar tais homens com as palavras: “Vinde a Mim, vós todos que estais aflitos e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei”. A essa classe de homens pertencia o publicano que, não ousando sequer levantar os olhos para o céu, saiu do templo, no dizer de Nosso Senhor, “mais justificado do que o fariseu”.
c Oração de quem procura a verdade
Há mais o grau de oração dos que ainda não receberam a luz da fé. Como Deus em Sua bondade lhes ateia a débil luz da razão, sentem eles o ardente desejo de conhecer e possuir a verdade. Tais pessoas pedem em fervorosas súplicas, a graça de receber instrução. Ora, se perseverarem nessa disposição de ânimo, a clemência de Deus não lhes rejeita o fervor, como se comprova pelo exemplo de Cornélio, o Centurião. Ninguém que peça de bom coração, encontra fechadas as portas da misericórdia divina.
d Oração dos impenitentes
O ínfimo grau de oração exercem aqueles que, em vez de se penitenciarem de seus crimes e iniquidades, vão acumulando delitos sobre delitos, e não se correm de pedir a Deus perdão de seus pecados, nos quais todavia tencionam perseverar. Com esses sentimentos, não deveriam ter a audácia de pedir perdão nem sequer aos seus semelhantes. Naturalmente, Deus não lhes escuta as orações. Pois, a respeito de Antíoco, dizem as Sagradas Escrituras: “Orava este malvado ao Senhor, do qual, porém, não havia de alcançar misericórdia”. Em vista disso, aos que se acham em tão grande miséria espiritual, precisamos exortá-los, com viva instância, que desistam da intenção de pecar e se convertam a Deus, com toda a sinceridade.