Da utilidade da Oração
III Frutos da oração
1 Glorificação de Deus
Esta obrigação de rezar traz consigo gratíssimas vantagens, porque produz, de per si, os mais abundantes frutos espirituais. Das Sagradas Escrituras, podem os pastores aduzi-los em grande número, quando tiverem de explicá-los ao povo cristão. Dentre tantos, escolhemos só alguns, que se nos afiguram mais aplicáveis à nossa época. O primeiro fruto que tiramos consiste em honrar a Deus pela oração. A prece é uma prática de religião, que nas Escrituras se compara ao incenso, pois diz o Profeta: “Erga-se minha oração, como o incenso, em Vossa presença”. Pela oração, confessamos nossa dependência de Deus, a quem reconhecemos e apregoamos como Autor de todos os bens; só n’Ele pomos nossa esperança, porque é o único baluarte de nossa defesa e salvação, nosso único amparo e refúgio. Lembram-nos também este fruto, aquelas palavras da Escritura: “Clama por Mim, no dia da tribulação. Eu te livrarei, e tu Me hás de dar honra”.
2 Bom despacho de nossos pedidos
a Chave do céu e fonte de alegria
Em Deus ouvir nossas preces, temos mais um fruto da oração, repleto de bênçãos e alegrias. Segundo a doutrina de Santo Agostinho, “a oração é uma chave do céu, pois quando sobe a oração, desce a misericórdia de Deus. Por mais baixa que fique a terra, e por mais alto que seja o céu, Deus ouve todavia a linguagem do homem”. Com efeito, a oração possui tanta eficácia e utilidade, que por ela conseguimos a plenitude dos bens celestiais. Impetramos que Deus nos conceda o Espírito Santo, como guia e protetor; alcançamos a conservação e integridade da fé, a fuga dos castigos, o amparo divino nas tentações, e a vitória sobre o demônio. A oração encerra em si o auge de uma alegria toda singular. Por esse motivo, Nosso Senhor declarou: “Pedi, e recebereis, para que a vossa alegria seja completa”.
b Pronta consecução de nossos pedidos
E não pode haver dúvida alguma de que Deus, em Sua bondade, atende prontamente ao apelo de nossa oração. Provam-no os testemunhos das Sagradas Escrituras. Mas, como estes são fáceis de achar, só citaremos, a título de exemplo, algumas passagens de Isaías: “Então clamarás, e o Senhor há de ouvir. Gritarás, e Ele há de responder: Já estou aqui”. E a outra: “E acontecerá que, antes de clamarem, Eu os ouvirei; estando eles a falar, Eu já os atenderei”. Deixamos de lado os exemplos daqueles que, por suas preces, aplacaram a Deus. São quase inumeráveis, e entram-nos pelos olhos adentro.
Corolário Por que Deus não atende na maneira que esperamos
Às vezes, porém, acontece não alcançarmos aquilo que pedimos. Isto é um fato. Mas, então é que Deus garante, do melhor modo possível, a nossa real utilidade, seja porque Ele nos outorga benefícios maiores e mais abundantes, seja porque nosso pedido não nos é necessário, nem vantajoso; digamos mais, porque tal concessão poderia ser talvez supérflua, ou até prejudicial. No dizer de Santo Agostinho, “Deus nega algumas coisas por misericórdia, e só as concede como sinal de Sua cólera”. Outras vezes, também, rezamos com tanta tibieza e negligência, que nós mesmos não damos atenção às nossas palavras. Ora, a prece é uma elevação da alma a Deus. Mas, se o espírito, que devia volver-se a Deus, começa a devanear durante a oração; se as fórmulas são ditas temerariamente, sem convicção alguma, sem nenhum esforço de piedade, como poderemos chamar prece cristã ao vão ruído de tal oração? Por isso, não admira que Deus desatenda o nosso pedido, se pela nossa incúria e distração damos prova, nós mesmos, de não querermos realmente o que pedimos, ou de pretendermos coisas que nos são prejudiciais.
c Disposições para a oração eficiente
Todavia, aos que rezam com atenção e piedade, Deus lhes concede muito mais do que pediram, atesta-o o Apóstolo em sua epístola aos Efésios. Mostra-o também aquela parábola do filho pródigo, que se julgava bem tratado, quisesse o pai recebê-lo na qualidade de simples mercenário. Não só quando pedimos, mas também quando fazemos a reta intenção, Deus nos enche de Sua graça, quer pela abundância de Seus benefícios, quer pela presteza com que os distribui. É o que provam as Sagradas Escrituras por aquela célebre palavra: “O Senhor ouviu o desejo dos pobres”. Deus antecipa-se às íntimas e secretas aspirações dos pobres, sem esperar que eles se ponham a pedir.
3 Aumento das virtudes
a Da fé
Outro fruto a mais é que, pela oração, exercemos e aumentamos as virtudes de nossa alma, sobretudo a fé. Não podem rezar com eficácia os que não têm fé em Deus. Pois “como hão de invocar Aquele em quem não acreditam?” — pergunta o Apóstolo. De outro lado, quanto mais os fiéis se afervorarem na oração, tanto maior e mais segura será a sua fé na operosa Providência de Deus. Esta exige de nós, expressamente, que Lhe submetamos as nossas necessidades, e d’Ele peçamos todas as coisas.
b Da confiança
Deus poderia dar-nos todas as coisas com profusão, sem que o pedíssemos ou sequer desejássemos; assim como Ele dá aos brutos irracionais tudo o que lhes é necessário para conservarem a existência. Mas, como Pai de imensa bondade, quer ser invocado por Seus filhos; quer que peçamos com uma confiança sempre maior, na medida que vamos pedindo, todos os dias, nas devidas condições; pela concessão de nossos pedidos, quer enfim comprovar e enaltecer, cada vez mais, a Sua liberalidade para conosco.
c Da caridade
Pela oração, cresce também a caridade. Desde que reconhecemos a Deus como Autor de todos os nossos bens e regalias, nós nos afeiçoamos a Ele com a maior caridade de que somos capazes. Ora, assim como as conversas e entrevistas inflamam, cada vez mais, o afeto das pessoas enamoradas: assim também as pessoas piedosas, quanto mais rezam a Deus, como que a conversar com Ele, e mais imploram a Sua misericórdia, tanto mais sentem crescer a alegria em cada oração, e tanto mais se afervoram em prestar a Deus amor e reverência.
d Do fervor, da humildade e da coragem
Outro fruto é que Deus exige de nós a prática da oração, para que, abrasados pelo desejo de pedir, afervoremos nosso zelo pela assiduidade da petição, a ponto de nos tornarmos dignos dos benefícios que nosso espírito, pobre e acanhado, não poderia abranger anteriormente. Além disso, Deus quer de nossa parte a expressa convicção de que nada podemos por própria virtude, se nos faltar o auxílio da graça celestial; que por isso mesmo devemos dedicar-nos ao exercício da oração com todas as veras de nossa alma. Na oração temos, por assim dizer, as mais poderosas armas contra os mais encarniçados inimigos de nossa natureza, porquanto Santo Hilário assim ponderava: “Contra o demônio, e contra o seu poder ofensivo, devemos lutar ao clamor de nossas orações”.
4 Purificação da consciência
Há ainda um fruto notável, que conseguimos pela oração. Apesar de que, por fraqueza ingênita, propendemos ao mal e aos vários apetites de concupiscência, Deus ainda assim consente em ser objeto de nossos pensamentos. Por esse motivo, quando nos pomos a rezar, e forcejamos por conseguir Suas graças, logramos realmente a disposição para uma vida pura e a purificação de nossa consciência, depois de havermos destruído toda mancha, proveniente de nossos pecados.
5 Apaziguamento da cólera divina
Afinal, consoante uma palavra de São Jerônimo, a oração resiste à cólera divina. Esta é a razão por que Deus falou a Moisés: “Deixa-Me!”, quando queria castigar o povo, e Moisés com suas orações o impedia de fazê-lo. Com efeito, para abrandar a Deus irado, para retardar ou suspender Sua indignação, já na iminência de castigar os criminosos, não há nada que possa igualar-se à oração dos homens piedosos.