Catecismo Romano · Dos Mandamentos

Capítulo 3

Do Segundo Mandamento

Do Segundo Mandamento

I Importância deste Mandamento

1 Por que Deus quis promulgar expressamente esta Lei acerca da honra que devemos tributar ao Seu próprio Nome

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O primeiro Preceito da Lei Divina, mandando-nos honrar a Deus com filial afeição, contém necessariamente o objeto do segundo; pois quem quer ser honrado, exige também que por palavras exprimamos nossa suma reverência para com ele, e proíbe qualquer atitude contrária. Este é o sentido evidente daquelas palavras, que o Senhor proferiu pela boca do Profeta Malaquias:"O filho honra a seu pai, e o servo a seu senhor. Então, se sou Eu vosso Pai, onde está pois a Minha honra?"Ainda assim, pela importância da matéria, quis Deus dar um preceito particular sobre o culto de Seu divino e santíssimo Nome, e que o mesmo nos fosse promulgado em termos claros e formais.

2 Quanto os párocos devem esforçar-se na explicação deste Mandamento

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Em vista disso, deve o pároco sem mais convencer-se de que não lhe bastará, de modo algum, fazer um apanhado geral da matéria, e que agora se lhe apresenta a oportunidade para se deter nela mais tempo, de estudá-la sob todos os seus aspectos, e explicá-la aos fiéis com precisão, clareza e diligência. Neste ponto, não se tenha por demasiada nenhuma diligência, pois existem pessoas tão obcecadas pelas trevas de opiniões errôneas, que não temem de blasfemar d'Aquele, a quem os Anjos glorificam. Sem temerem sequer a Lei para sempre promulgada, eles se atrevem, com a maior desfaçatez, a apoucar a majestade de Deus, dia por dia, quase hora por hora, a todos os instantes. Quem não observa como juram em todas as afirmações, como tudo enchem com suas pragas e imprecações? Chegou ao ponto que, em vendas, em compras, em qualquer transação, quase ninguém deixa de recorrer ao sagrado juramento, invocando milhares de vezes o santíssimo Nome de Deus, por temeridade, até nas coisas mais fúteis e levianas. Por isso, deve o pároco esmerar-se, num zelo cada vez maior, para incutir amiúde no ânimo dos fiéis, quão grave e abominável é esse pecado.

II Cláusula preceptiva

3 O que este Segundo Mandamento ordena ou proíbe

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Na explanação deste Mandamento, devemos primeiro assentar que, nas proibições previstas pela Lei, se incluem prescrições de coisas que os homens devem observar. Contudo, é mister explicar ambos os aspectos, separadamente, para que com mais facilidade se exponha primeiro o que a Lei manda, e depois o que ela proíbe. Ora, o que ela manda é honrar o nome de Deus, jurar por ele santamente. O que ela proíbe é desprezar o Nome de Deus, tomá-lo em vão, jurar por ele falsa, inútil ou temerariamente.

4 O que neste lugar se entende por Nome de Deus

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Nesta parte do Preceito, que manda honrar o Nome de Deus, o pároco inculcará aos fiéis que não se deve tomar materialmente o Nome de Deus, em suas letras, em suas sílabas, no simples vocábulo como tal; mas que se deve atender ao sentido da palavra, enquanto designa a onipotente e sempiterna majestade de Deus Uno e Trino. Nestes termos, não custa averiguar quão descabida era a superstição de certos judeus que, embora escrevessem o nome de Deus, não se atreviam a pronunciá-lo, como se a virtude divina estivera nas quatro letras, e não no sentido que elas exprimem. Ainda que se diga no singular:"Não tomarás o Nome de Deus"- não devemos, contudo, entendê-lo de um só nome, mas de quantos nomes se atribuem a Deus. Pois são muitos os nomes dados a Deus, tais como: Senhor, Onipotente, Senhor dos Exércitos, Rei dos Reis, Forte, e outros que se lêem nas Escrituras. Todos eles merecem por igual a mesma veneração. A seguir, cumpre ensinar a maneira de se prestar ao Nome de Deus a honra devida; pois o povo cristão, cujos lábios devem continuamente anunciar os louvores de Deus, não poderia licitamente ignorar uma prática tão útil e tão necessária para a salvação.

5 De que maneira podemos dizer que veneramos e honramos o Nome de Deus

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Vários são os modos de louvar o Nome de Deus, mas todos se reduzem, substancialmente, aos que passamos a explicar. Em primeiro lugar, Deus é louvado, quando temos a coragem de proclamá-l'O, publicamente, como Nosso Deus e Senhor; quando não só reconhecemos, mas também apregoamos, que Cristo é o Autor de nossa salvação. Em segundo lugar, quando estudamos, com santo fervor, a palavra de Deus, pela qual se manifesta a Sua vontade; quando nos pomos a meditá-la assiduamente, e a decorá-la com interesse, quer lendo, quer ouvindo, conforme for mais útil e adequado para a pessoa, e para o cargo que ela ocupa. Em terceiro lugar, veneramos e respeitamos o Nome de Deus, quando por dever ou por devoção celebramos os louvores divinos, agradecendo a Deus, de modo especial, por todos os bens e males que nos aconteçam. Assim dizia o Profeta:"Bendize, minha alma, ao Senhor, e não esqueças nenhum de Seus benefícios". Existem ainda muitos Salmos em que Davi, cheio de entranhado amor a Deus, canta os louvores divinos com a maior suavidade. Outro tanto fazia Jó, que se nos apresenta como admirável exemplo de paciência. Tendo caído nas maiores e piores desgraças, nunca deixou de louvar a Deus com ânimo forte e inquebrantável. Por conseguinte, quando nos debatemos com dores espirituais e corporais, quando nos contorcemos em misérias e provações, empenhemos logo o nosso zelo e todas as energias de nossa alma em louvar a Deus, repetindo aquela palavra de Jó:"Bendito seja o Nome do Senhor!"

6 Como podemos obedecer a este Mandamento também de outras maneiras

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Em quarto lugar, não menos honrado é o Nome de Deus, quando pedimos confiantes a Sua proteção, ou para que nos livre de calamidades, ou para que nos dê força e coragem de suportá-las com perseverança. Assim quer Deus que se faça:"Invoca-Me, diz Ele, no dia da tribulação. Eu te salvarei, e tu Me darás a glória". Desta invocação, encontram-se notáveis exemplos em muitos lugares da Escritura, mormente nos Salmos 16, 43 e 118. Em quinto lugar, honramos também o Nome de Deus, quando invocamos a Deus por testemunha, para comprovar uma verdade. É um modo de louvor que muito difere dos precedentes. Pois os modos já enumerados são, de sua natureza, tão bons e desejáveis, que nada pode ser mais ditoso e mais apetecível para o homem, do que exercer-se dia e noite em sua prática freqüente."Bendirei ao Senhor em todo o tempo", dizia Davi,"e em minha boca estará sempre o Seu louvor". O juramento, porém, ainda que seja bom em si, não é para louvar, quando usado freqüentemente.

7 Por que não é de aprovar o uso por demais freqüente do juramento

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A razão de tal diferença está em que o juramento só foi instituído como remédio da fragilidade humana, e como um meio necessário para comprovar a veracidade de nossas afirmações. Assim como não convém aplicar remédio ao corpo, sem haver necessidade, sendo até prejudicial o seu uso freqüente: assim também não é salutar fazer-se juramento, desde que não haja, para isso, causa grave e justa. Empregado muitas vezes, o juramento não só deixa de aproveitar, mas chega até a causar grande dano espiritual. Por isso dizia acertadamente São João Crisóstomo que não foi desde o início, mas em época já avançada do mundo, - quando os vícios se propagaram por toda a parte, e encheram todo o orbe da terra; quando nada mais se mantinha em sua ordem e lugar, e tudo ia de alto a baixo, no maior desconcerto, levando grande confusão nas coisas; quando, de todos os males o maior, quase todos os homens se precipitaram na degradante escravidão dos ídolos - só então, depois de longo tempo, é que se introduziu, entre os homens, a prática do juramento. Havendo, entre os homens, tanta perfídia e iniqüidade, não era fácil fazer que alguém acreditasse [em seu semelhante]. Por isso, invocaram a Deus por testemunha.

8 Em que está a razão de ser do juramento, e que é propriamente jurar

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O principal, nesta parte do Preceito, é mostrar-se aos fiéis como devem proceder, para se servirem do juramento com retidão e piedade. Primeiro, é preciso dizer-lhes que"jurar" nada mais é senão invocar a Deus por testemunha, seja qual for a fórmula e expressão empregada. Pois tanto vale dizer:"Deus é minha testemunha" como dizer:"Juro por Deus". Há também juramento, quando juramos pelas criaturas, para fazer fé, como jurar pelos Santos Evangelhos de Deus, pela Cruz, pelas relíquias e pelos nomes dos Santos, e por outras coisas semelhantes. Naturalmente, elas de per si não conferem ao juramento nenhum valor e força, mas quem lho dá é o próprio Deus, porque nessas coisas vislumbra o esplendor de Sua majestade. Por lógica conclusão, os que juram pelo Evangelho, juram pelo próprio Deus, cuja verdade está contida e explicada no Evangelho. O mesmo se diga do jurar pelos Santos, pois eles são templos de Deus, creram na verdade do Evangelho, observaram-na com toda a submissão, e propagaram-na entre os povos e as nações, até às mais remotas paragens.

9 Do juramento que se faz por execração

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Outro tanto é o valor do juramento que se faz por imprecação, como aquele de São Paulo:"Invoco a Deus por testemunha, contra a minha vida". Por uma cláusula dessa, a pessoa se submete ao juízo de Deus, enquanto é vingador da mentira. Não negamos, porém, que algumas dessas fórmulas se podem entender de tal maneira, que já não tenham caráter de juramento. Convém, todavia, observar-se a seu respeito o que ficou dito do juramento, e aplicar-lhes as mesmas normas e princípios.

10 Quais são as espécies de juramento

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Há duas espécies de juramento. O primeiro se chama juramento assertório. Por exemplo, quando sob juramento afirmamos alguma coisa do presente ou do passado, como o fez o Apóstolo na epístola aos Gálatas:"Digo, na presença de Deus, que não minto". O segundo se chama promissário, a cuja categoria pertencem também os juramentos cominatórios. Refere-se ao tempo futuro. Consiste em prometermos alguma coisa, com absoluta certeza, e a garantirmos com um juramento. Desta espécie, era o juramento de Davi que, jurando à sua mulher Bersabé"pelo Senhor seu Deus", prometeu que o filho dela, Salomão, seria o herdeiro do reino, e lhe sucederia no trono.

11 Quais são as condições que se exigem para o juramento legítimo

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Para haver juramento, basta invocar a Deus por testemunha. Contudo, para que seja reto e santo, requerem-se muitas outras condições, que devem ser cuidadosamente explicadas. Elas foram, como atesta São Jerônimo, brevemente compendiadas pelo Profeta Jeremias, quando dizia:"Jurarás: Vive o Senhor! - [mas] com verdade, com juízo, e com justiça". Realmente, com tais palavras abrangeu [o Profeta], com suma precisão, os elementos que constituem toda a perfeição do juramento, a saber, verdade, critério, justiça.

12 Como se faz juramento na verdade

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No juramento, cabe à verdade o primeiro lugar. Isto quer dizer, o objeto da afirmação deve ser mesmo verdadeiro; e quem jura deve julgar que o seja de fato, não se baseando afoitamente em leves conjecturas, mas em provas de absoluta certeza. A segunda espécie de juramento, que é o promissário, também requer a verdade, da mesma maneira. Pois quem promete alguma coisa, deve ter a deliberada vontade de cumpri-la realmente, e de satisfazer a promessa no tempo aprazado. O homem honesto também não se comprometerá jamais a fazer alguma coisa que julgue contrária aos santíssimos Preceitos e à vontade de Deus. Em matéria lícita de promessa e juramento, não pode tampouco mudar o que uma vez prometeu; salvo o caso em que, por mudança das circunstâncias, já não possa levar adiante o prometido, sem incorrer no ódio e desagrado de Deus. Ora, que a verdade é um requisito necessário do juramento, declara-o também Davi com as palavras:"Quem jura a seu próximo, e não o engana".

13 De quem se diz que jura com critério, e por que se não deve tomar juramento aos meninos

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Em segundo lugar, vem o critério, pois não se deve jurar com temerária leviandade, mas com madura reflexão. Portanto, quem está para fazer juramento, deve primeiro averiguar se a tanto o obriga alguma necessidade; atenda também à ocasião, ao lugar, e a outras inúmeras circunstâncias. Não se deixe levar por ódio, nem por amor, nem por algum afeto desordenado, mas só pela necessidade decorrente da própria situação. Portanto, se não lhe preceder essa rigorosa ponderação, o juramento será forçosamente precipitado e temerário. De tal jaez é o ímpio falar daqueles que, nas coisas mais leves e insignificantes, juram sem nenhum cuidado e reflexão, só por mau costume. É o que a cada passo observamos, todos os dias, entre vendedores e compradores. Juram sem escrúpulos, encarecendo ou depreciando a mercadoria: uns para a venderem pelo mais possível; outros, por sua vez, para a comprarem pelo menos possível. Como se requer juízo e prudência [para jurar], e, como pela idade as crianças não possuem ainda tino bastante para distinguir as coisas, decretou o Papa São Cornélio, que se não deve exigir juramento de crianças antes da puberdade, isto é, antes dos catorze anos.

14 Como se jura com justiça

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A última condição é a justiça, postulado essencial do juramento promissório. Quem promete, com juramento, alguma coisa injusta ou desonesta, peca pelo fato de jurar. A este primeiro pecado acrescenta outro, se vier a cumprir o que prometeu. Desta matéria, há no Evangelho o exemplo do rei Herodes que, ligado por temerário juramento, deu à jovem bailarina a cabeça de João Batista, como prêmio de sua dança. Tal foi também o juramento daqueles judeus que, como narram os Atos dos Apóstolos, juraram não tomar alimento, enquanto não matassem a Paulo.

15 Por quais razões se pode principalmente coligir que o juramento é lícito algumas vezes

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Depois de tais explicações, já não resta a menor dúvida de que pode jurar com segurança quem atender a todas estas circunstâncias, e usar dessas cláusulas como outras tantas garantias para o seu juramento. É fácil provar esta asserção por meio de muitos argumentos. Pois a"Lei do Senhor", que é"imaculada"e"santa", contém o preceito seguinte:"Temerás o Senhor teu Deus, e só a Ele servirás; e pelo Seu Nome é que jurarás". E Davi escreveu:"Louvados serão todos aqueles que juram por Ele". Além do mais, as Sagradas Escrituras atestam que os santíssimos Apóstolos, luzeiros da Igreja, recorreram por vezes ao juramento. Isto transparece das epístolas do Apóstolo. Acresce que os próprios Anjos juram de vez em quando. No Apocalipse, escreveu São João Evangelista que um Anjo havia jurado por "Aquele que vive pelos séculos dos séculos". O que mais é, o próprio Deus, Senhor dos Anjos, faz uso do juramento. Em muitas passagens do Antigo Testamento, confirma Deus Suas promessas, por meio de juramento, como o fez a Abraão e a Davi. Este nos deu a conhecer um célebre juramento de Deus:"Jurou o Senhor, e não há de arrepender-Se: Tu és Sacerdote por toda a eternidade, segundo a ordem de Melquisedec".

16 Prova-se que o juramento, feito devidamente, é um ato louvável

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Com efeito, se considerarmos mais de perto toda a questão, se levarmos em conta a origem e a finalidade do juramento, não nos será difícil determinar o motivo por que o juramento é um ato louvável. O juramento tem sua origem na fé, porquanto os homens crêem que Deus é o autor de toda a verdade; que Ele não pode jamais enganar-Se a Si mesmo, nem enganar a outrem; que"a Seus olhos estão patentes e descobertas todas as coisas"; que Ele afinal, por Sua admirável Providência, cuida de todos os negócios humanos, e governa o mundo inteiro. Assim, imbuídos desta fé, invocam os homens a Deus por testemunha da verdade. E negar-Lhe crédito [a Deus], seria crime e profanação.

17 O fim do juramento é por termo a brigas e demandas

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Quanto à sua finalidade, o juramento tende por natureza a provar, de modo absoluto, a justiça e a inocência de alguma pessoa, e pôr termo a litígios e demandas. Esta é também a doutrina do Apóstolo na epístola aos Hebreus.

18 Em que sentido Cristo proibiu o juramento

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De modo algum contrariam esta exposição de princípios as palavras de Nosso Salvador que se encontram no Evangelho de São Mateus:"Ouvistes que se disse aos antigos: Não jurarás falso, e cumprirás ao Senhor os teus juramentos. Eu, porém, vos digo que não jureis de forma alguma: nem pelo céu, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o descanso de Seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei. Nem pela tua cabeça jurarás, porque não és capaz de tomar branco nem preto um só fio de cabelo. Mas seja o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não. O que daí passa, tem sua origem no mal". Não se deve, pois, afirmar que tais palavras sejam uma reprovação formal e sumária do juramento, porque já vimos, há pouco, que o próprio Senhor e os Apóstolos juraram repetidas vezes. Nosso Senhor queria, apenas, refutar a perversa opinião dos judeus, pela qual estavam persuadidos de que no juramento nada mais era preciso evitar senão a mentira. Por isso, por qualquer coisa sem a menor importância, juravam pessoalmente, e exigiam também que os outros também jurassem, da mesma forma. Este mau vezo é que o Salvador censura e reprova, ensinando que devemos absolutamente abster-nos de jurar, quando não o exige a necessidade.

19 Em que sentido disse Cristo proceder da malícia tudo o que passasse da simples afirmação da verdade

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O juramento foi instituído por causa da fragilidade humana. Realmente, sua razão de ser está na malícia, pois revela de per si a inconstância de quem jura, ou a obstinação daquele que nos faz jurar, porquanto não podemos levá-lo a crer de outra forma. Isto não obstante, a necessidade de jurar tem sua justificação. Quando o Salvador diz:"Seja o vosso falar: Sim, sim; não, não"- Sua própria expressão dá claramente a entender que Ele só proíbe o costume de se jurar em assuntos familiares e corriqueiros. Por certo, o sentido principal da advertência de Nosso Senhor é que não sejamos demasiado fáceis para jurar, nem cedamos a qualquer propensão de fazê-lo. Este é um ponto que se deve ensinar com freqüência, e inculcar aos ouvidos dos fiéis. Pois não só pela autoridade das Sagradas Escrituras, como também pelo testemunho dos Santos Padres, temos provas de serem quase sem conta os males que resultam do exagerado costume de jurar. No Livro do Eclesiástico está escrito:"Não se acostume tua boca a jurar, porque isso traz ocasião para muitas quedas". E no mesmo lugar:"O homem que jura muito, será cheio de iniqüidade, e a desgraça não se apartará de sua casa". Mais explicações sobre a matéria, podemos encontrá-las nos escritos de São Basílio e Santo Agostinho sobre a mentira. Até aqui se tratou do que o Preceito manda. Vejamos, doravante, o que ele proíbe.

III Cláusula proibitiva

20 Por que o juramento falso e temerário é um pecado tão grande

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Proibido nos é tomar o Nome de Deus em vão. Evidentemente, grave pecado comete quem, no juramento, não se deixa guiar pela reflexão, mas antes por temerária leviandade. Mas que isto vem a ser até um pecado gravíssimo, declaram-no as palavras textuais:"Não tomarás em vão o Nome do Senhor teu Deus". Indicam, por assim dizer, a razão por que esse pecado é tão funesto e abominável; é por desacatar a majestade d'Aquele a quem reconhecemos como Nosso Deus e Senhor. Este Preceito proíbe, portanto, que se faça juramento falso. Quem não recua de tamanho crime, como o de invocar a Deus como falsa testemunha, faz a Deus uma tremenda injúria, pois Lhe atira a pecha de ignorância, julgando que Ele possa desconhecer a verdade, ou a de perversão e má fé, como se Ele se prontificasse a confirmar uma mentira com o Seu testemunho.

21 De que modo perjuram os que juram ser verdade o que de fato é verdadeiro

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Ora, jura falso não só quem jura verdade aquilo que ele mesmo conhece como falso, mas também a pessoa que jura alguma coisa verdadeira, na persuasão de que é falsa, embora seja de per si verdadeira. Se, pois, mentira é mentira, porque é expressa contra a verdade e a própria convicção de quem a profere, não resta dúvida que tal pessoa de fato mente, e comete perjúrio.

22 De que modo peca quem jura alguma coisa falsa, julgando ser verdade

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Por igual motivo, comete também perjúrio quem jura uma coisa que julga verdadeira, mas que de fato é falsa, salvo se a pessoa de sua parte empregou toda a atenção e diligência de que era capaz, para descobrir e conhecer plenamente a verdade. Ainda que suas palavras estejam de acordo com o pensamento, a pessoa incorre todavia numa transgressão deste Preceito.

23 Como peca quem não guarda o que jurou ou prometeu de fazer

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Deve também considerar-se réu do mesmo pecado aquele que com juramento promete fazer alguma coisa, sem a intenção de cumprir o prometido; ou, se tinha intenção, não cumpre de fato o que prometeu. Aplica-se o mesmo princípio aos que se obrigam a Deus por algum voto, e deixam de satisfazê-lo.

24 Como peca quem jura algum pecado grave, ou alguma coisa contra os conselhos evangélicos

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Peca-se também contra este Preceito, quando se falta à justiça, uma das três condições que devem acompanhar o juramento. Portanto, se alguém jura cometer algum pecado mortal, por exemplo, o de matar um homem, peca contra este Preceito, embora a pessoa o prometa com reflexão e seriedade, e assim não falte ao juramento a verdade, condição que se exige em primeiro lugar, conforme já temos explicado. Devemos acrescentar aqui as espécies de juramento que procedem de certo menosprezo; quando, por exemplo, alguém jura que não há de obedecer aos conselhos evangélicos, porquanto exortam à observância do celibato e da pobreza. Verdade é que ninguém tem a estrita obrigação de segui-los; mas, se alguém jura não querer observar tais conselhos, há nesse juramento desprezo e profanação dos conselhos divinos.

25 Comete pecado quem jura, baseando-se em leves conjeturas

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Quebra igualmente este Preceito, e peca contra o critério necessário, a pessoa que jura, por convicção, o que é verdade, mas apoiando-se em conjecturas frágeis e rebuscadas. Ainda que amparado pela verdade tal juramento encobre, de certo modo, uma falsidade. Pois quem assim jura com negligência, expõe-se ao grande risco de cair em perjúrio.

26 Peca gravemente quem jura por falsos deuses

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Mais ainda. Jura falso quem jura por falsos deuses. Que pode haver de mais estranho à verdade, do que invocar por testemunhas a deuses ilusórios e artificiais, como se fossem o Deus verdadeiro?

27 Faz pecado quem profana a Palavra de Deus, interpretando-a à má parte, ou aplicando-a a vãos trocadilhos

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Ao proibir o perjúrio, a Escritura acrescenta:"Não mancharás o Nome do teu Deus". Assim proíbe, outrossim, o menosprezo de outras coisas, às quais se deve veneração, em virtude deste mesmo Preceito. Tal se dá com a palavra de Deus, cuja majestade não só os homens piedosos, mas às vezes até os ímpios acatam com temor, como se conta na história dos Juízes a respeito de Eglon, rei dos Moabitas. Ora, gravíssima injúria faz à palavra de Deus quem destitui a Sagrada Escritura de seu sentido reto e verdadeiro, para abonar doutrinas e heresias de homens ímpios. Contra tal crime nos põe em guarda o Príncipe dos Apóstolos com as palavras:"Há algumas coisas difíceis de entender [nas epístolas de São Paulo], que pessoas ignorantes adulteram para a sua própria perdição, bem como outras passagens da Escritura". Há também uma indigna e vergonhosa conspurcação das Sagradas Escrituras, quando pessoas perversas tomam suas palavras e sentenças, que merecem toda a veneração, para as torcerem em sentido profano, como seja de chocarrices, basófias, sandices, lisonjas, difamações, adivinhações, sátiras e outras infâmias. É um pecado que o Sagrado Concílio de Trento manda coibir com penas canônicas.

28 Como pecam os que não invocam a Deus em suas calamidades

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Mais ainda. Assim como honram a Deus os que imploram Seu poderoso auxílio nas tribulações: assim também negam a Deus a devida honra os que não pedem o Seu socorro. Davi censura-os com as palavras:"Não invocam a Deus. Por isso, tremem de pavor, onde não há o que temer".

29 O mais grave de todos estes pecados é a blasfêmia contra Deus e Seus Santos

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Incorrem, porém, em culpa muito mais abominável os que, com a sua boca impura e maligna, ousam blasfemar e maldizer não só o sacrossanto Nome de Deus, que todas as criaturas devem bendizer e exaltar com os maiores louvores; mas também os nomes dos Santos, que com Deus já estão participando do Seu Reino. Este pecado é tão atroz e inqualificável, que as Sagradas Escrituras, quando falam da blasfêmia, usam às vezes o termo"bênção"[em lugar da expressão própria].

IV As sanções de Deus

30 Por que a este mandamento foram acrescentadas certas ameaças de castigo

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Para melhor sacudir as consciências, e mais facilmente mover os homens à observância deste Preceito, já que o temor de grave castigo costuma ser um vigoroso freio à leviandade de pecar, terá o pároco o cuidado de bem explicar esta segunda parte do Preceito, a qual vem à guisa de apêndice:"Pois o Senhor não deixará sem castigo aquele que tomar em vão o Nome do Senhor seu Deus". Em primeiro lugar, explicará a profunda razão por que, ao Preceito, se acrescentaram ameaças de castigo. Dão elas a conhecer a gravidade do pecado e a bondade de Deus para conosco. Pois, uma vez que não Se regozija com a perdição dos homens, Deus nos incute temor por meio dessas úteis ameaças, para não atrairmos sobre nós Sua cólera e desagrado, de sorte que venhamos a sentir antes a Sua bondade do que a Sua indignação. Deve o pároco insistir neste ponto, e repisá-lo com toda a diligência, a fim de que o povo veja a gravidade de tal pecado; que o aborreça com mais decisão, e tenha mais empenho e cuidado em evitar as ocasiões de cometê-lo. Mostre depois que, sendo tão forte a propensão dos homens a cometerem esse pecado, seria insuficiente promulgar-se o Preceito se não lhe acrescessem também ameaças de castigo. Não é de crer quanta vantagem traz consigo essa consideração; pois, se nada é tão prejudicial como uma incauta segurança de espírito, do mesmo modo é sumamente proveitoso o conhecimento da própria fraqueza. Não deixe tampouco de explicar que Deus não marcou um castigo determinado; ameaçou, em geral, de não deixar impunes os que cometessem tal pecado. Por isso, deste pecado devem escarmentar-nos os vários flagelos que todos os dias nos torturam, pois não será fora de propósito presumir que, na violação deste Preceito, esteja o motivo de caírem os homens nas maiores desgraças. Se os homens tomarem a peito esta verdade, é provável que se tornem mais cautelosos para o futuro. Os fiéis devem, pois, imbuir-se de santo temor, para fugirem desse pecado, custe o que custar. Se no último Juízo havemos de responder por toda palavra ociosa, que se dirá então dos gravíssimos pecados que envolvem em si um grande desprezo do Nome de Deus?

Fonte
Tradução de Frei Leopoldo Pires Martins, OFM — Editora Vozes, Petrópolis, 1951. Transcrição revisada a partir do PDF de referência do Serviço de Animação Eucarística Mariana.