Catecismo Romano · Dos Mandamentos

Capítulo 2

Do Primeiro Mandamento

Do Primeiro Mandamento

I O proêmio do Primeiro Mandamento

1 Que significa este exórdio, e que Mistérios nele se encerram

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Esforce-se o pároco por conseguir, na medida do possível, que os fiéis tenham sempre na mente estas palavras:"Eu sou o Senhor teu Deus". Por elas chegarão a reconhecer que seu Legislador é o próprio Criador, que lhes deu a existência, e que lha conserva. Com razão devem, portanto, repetir aquelas palavras:"Ele é o Senhor Nosso Deus, e nós somos o povo de Suas pastagens, e as ovelhas de Sua guarda". A freqüente e ardorosa meditação destas palavras tem por efeito que os fiéis se tornam mais dóceis para respeitar a Lei, e evitam de cair em pecado. As palavras seguintes:"que te livrei da terra do Egito, da mansão do cativeiro"- não se aplicam, à primeira vista, senão aos Judeus que se emanciparam da dominação dos Egípcios. No entanto, se atendermos ao sentido mais amplo de uma salvação universal, elas se referem muito mais aos cristãos, que Deus arrancou, não do cativeiro do Egito, mas da região do pecado e do poder das trevas, e transferiu-os para o Reino de Seu amado Filho. Quando Jeremias contemplou, em visão, a grandeza deste benefício, fez a seguinte profecia:"Eis que chegarão os dias, diz o Senhor, e não se dirá: vive o Senhor que tirou os filhos de Israel da terra do Egito; mas, sim, Vive o Senhor, que tirou os filhos de Israel da terra do Norte, e de todos os países em que Eu os havia lançado. Eu hei de levá-los novamente à sua terra, que havia sido dada a seus pais. Eis que mandarei muitos pescadores, diz o Senhor, e eles os pescarão, etc." Realmente, em Sua misericórdia infinita, o Pai congregou numa só família, por mediação de Seu Filho, todos os filhos que se achavam dispersos, para que, já não sendo escravos do pecado, mas servidores da justiça,"O servíssemos em santidade e justiça, diante de Sua presença, todos os dias de nossa vida".

2 De que sentimentos devem os fiéis empolgar-se com a introdução deste Decálogo

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Como escudo contra todas as tentações, devem os fiéis opor o que diz o Apóstolo:"Nós que morremos para o pecado, como poderíamos ainda viver nele?"Já não nos pertencemos a nós mesmos, mas somos d'Aquele que por nós morreu e ressuscitou. Ele é o Senhor Nosso Deus, que nos resgatou com o Seu Sangue. Como poderíamos pecar contra o Senhor Nosso Deus, e crucificá-l'O de novo? Por conseguinte, nós que somos verdadeiramente livres, por aquela liberdade que Cristo nos conquistou, do mesmo modo que havíamos entregue nossos membros ao serviço da iniqüidade, assim também os façamos servir agora à justiça, para a nossa santificação."Não terás deuses estranhos diante de Mim".

II Divisão dos Mandamentos em duas Tábuas

3 O que se contém neste Primeiro Mandamento, para se fazer, ou para se evitar

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O pároco ensinará que, no Decálogo, figuram primeiro os deveres para com Deus, e depois os deveres para com o próximo, porque em Deus está a razão de ser daquilo que devemos prestar ao próximo; pois só amamos o próximo segundo o preceito de Deus, quando o amamos por causa de Deus. Estas coisas estão gravadas na primeira Tábua da Lei. Em segundo lugar, deverá o pároco mostrar como as palavras supracitadas encerram em si dois dispositivos, um dos quais é um preceito, e o outro é uma proibição. Com efeito, quando se afirma:"Não terás deuses estranhos diante de Mim"- declara-se implicitamente: ''A Mim adorarás, como o Deus verdadeiro, e não renderás culto a deuses estranhos".

III Conteúdo do Primeiro Mandamento

4 De como este Mandamento encerra a fé, esperança e caridade

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A primeira cláusula abrange o preceito da fé, esperança e caridade. Ora, se de Deus afirmamos que é imóvel, imutável, e sempre igual a Si mesmo, assiste-nos toda a razão para dizermos que é fiel também, sem a menor sombra de injustiça. Daí decorre para nós a obrigação de aceitarmos as Suas palavras, e de crermos plenamente em Sua autoridade. E quem medita em Sua onipotência, Sua clemência, Sua ativa propensão para fazer benefícios, será ainda capaz de não pôr n' Ele todas as suas esperanças? E poderá alguém deixar de amá-l'O, se contemplar os tesouros de Sua bondade e amor, que Ele derramou sobre nós? Por isso, nas Sagradas Escrituras, quando Deus intima Suas ordens e prescrições, costuma dizer, à guisa de exórdio e de conclusão:"Eu sou o Senhor teu Deus".

5 Explica-se este Mandamento, em sua parte negativa

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A segunda cláusula do Preceito reza assim: "Não terás deuses estranhos diante de Mim". O Legislador exprimiu-Se desta forma, não porque uma redação positiva"só a Mim adorarás como Deus"- não declarasse com bastante clareza o sentido do preceito, pois se Deus existe, só pode ser um único: mas foi antes por causa da cegueira de tantos homens, que naquele tempo faziam profissão de adorar o Deus verdadeiro, e não obstante veneravam uma multidão de deuses. Desses homens, havia muitos entre os próprios hebreus, aos quais Elias acusava de manquejarem para dois lados. Assim também procediam os Samaritanos, que adoravam simultaneamente o Deus de Israel e os deuses de gentios.

6 De como devemos considerar este Mandamento como o maior de todos

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A tais explicações deve acrescentar-se que este Preceito é o primeiro e o maior de todos, não só pela ordem cronológica, mas também por sua natureza, dignidade e excelência. De nossa parte, merece Deus amor e vassalagem num grau infinitamente maior, do que o mereceria qualquer senhor ou rei. Foi Ele quem nos criou, Ele é quem nos governa, quem nos nutre desde as entranhas de nossa mãe, e quem dali nos tirou à luz do mundo. Ele mesmo nos dá tudo quanto precisamos para a nossa vida e subsistência.

7 Quem são os principais violadores deste Mandamento

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Pecam contra este Preceito todos aqueles que não têm fé, nem esperança, nem caridade. E seu pecado abrange muitas variantes. A essa classe de homens pertencem os que caem em heresia, não crendo as verdades que a Santa Mãe Igreja propõe a crer; os que acreditam em sonhos, agouros, e outras coisas sumamente supersticiosas; os que desesperam de sua própria salvação, e não confiam na bondade divina; os que se apóiam somente em riquezas, saúde, vigor corporal. Desta matéria, encontra-se uma explicação mais ampla nos autores moralistas, na parte que trata dos vícios e dos pecados.

8 A este Mandamento não se opõe o culto que, segundo o costume tradicional da Igreja, tributamos aos Santos

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Na exposição deste Mandamento, é preciso pôr em evidência que não são contrárias às suas prescrições a veneração e a invocação dos Santos, dos Anjos, das almas bem-aventuradas que já gozam da glória celestial, nem tampouco o culto de seus corpos e relíquias mortais, na forma que sempre foi admitida pela Igreja Católica. Quando um rei decreta que nenhuma pessoa apareça como rei, e consinta em receber régias homenagens, quem seria tão insensato de concluir, sem mais nem menos, que o rei com isso proíba as honras devidas a seus magistrados? Dizem, é verdade, que os cristãos se prostram diante dos Anjos, a exemplo dos santos varões do Antigo Testamento; todavia, não se trata da mesma veneração que eles tributam a Deus. Se por vezes lemos nas Escrituras que os Anjos se opuseram a que os homens os venerassem, deve entender-se no sentido de não quererem para si aquela veneração que só a Deus compete.

9 Prova-se, pelas Escrituras, que é lícito venerar os Santos Anjos

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O mesmo Espírito Santo que disse:"Só a Deus honra e glória", também ordenou honrássemos os pais e as pessoas mais velhas. Além disso, como narram as Escrituras, santos varões que veneravam um só Deus,"adoravam os reis", quer dizer, prostravam-se suplicantes diante de sua presença. Ora, se os reis, por quem Deus governa o mundo, são objetos de tão grandes homenagens, muito maiores são as honras que devemos prestar aos espíritos angélicos, que Deus quis fossem os Seus servidores, tanto mais que esses espíritos bem-aventurados excedem os próprios reis em dignidade. E Deus serve-Se de Seu ministério, para o governo, não só de sua Igreja, mas também de todas as outras coisas criadas. Pela assistência dos Anjos, embora invisível aos nossos olhos, somos cotidianamente preservados dos maiores perigos, tanto da alma como do corpo. Acresce ainda a caridade com que eles nos amam, e que os induz a rezar pelas províncias confiadas à sua direção, como facilmente verificamos nas Escrituras. Sem dúvida alguma, o mesmo fazem por aqueles que são os seus tutelados, pois a Deus oferecem as nossas orações e as nossas lágrimas. Por tal motivo, Nosso Senhor ensinou, no Evangelho, que se não devia dar escândalo aos pequeninos,"porque os seus Anjos no céu estão contemplando, continuamente, a face do Pai que está no céu".

10 Prova-se, pelas Escrituras, que devemos invocar os Santos Anjos

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Eles devem, portanto, ser invocados, já porque contemplam a Deus sem cessar, já porque com a maior boa vontade patrocinam a nossa salvação, conforme lhes foi encomendado. Nas Sagradas Escrituras, apresentam-se testemunhos de tal invocação. Ao Anjo, com quem havia lutado, pediu Jacó que o abençoasse. Chegou até a obrigá-lo, pois dizia que o não largaria, se não depois de ter recebido a bênção. Esta lhe foi dada, não só quando o Anjo estava à sua vista, mas também quando não o via de maneira alguma, pois ele disse mais tarde:"O Anjo que me livrou de todos os males, abençoe estes rapazes".

11 A invocação dos Santos e a veneração das relíquias em nada diminuem a honra de Deus

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Daqui também se pode tirar outra conclusão. O culto e a invocação dos Santos que adormeceram na paz do Senhor, a veneração de suas relíquias e cinzas, longe de diminuírem a glória de Deus, dão-lhe o maior vulto possível, na proporção que animam e reforçam a esperança dos homens, e os induzem a imitarem os Santos. Este efeito é encarecido pelo Segundo Concílio de Nicéia, pelos Concílios de Gangres e de Trento, e pela autoridade dos Santos Padres.

12 Quais são os principais argumentos para motivar e provar a invocação dos Santos

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A fim de se pôr em melhores condições de rebater os adversários desta verdade, leia o pároco antes de tudo o livro de São Jerônimo contra Vigilâncio, e as obras de São João Damasceno; a cujas provas se emparelha, como argumento principal, o costume de origem apostólica, sempre mantido e conservado pela Igreja de Deus. E quem poderia exigir prova mais cabal e evidente, do que o testemunho das Sagradas Escrituras, quando celebram de maneira admirável os louvores dos Santos? Na verdade, de alguns Santos há encômios de inspiração verdadeiramente divina. Ora, se as Sagradas Escrituras apregoam os seus louvores, por que não deveriam os homens render-lhes, de sua parte, uma honra toda particular? Outro motivo, talvez mais poderoso, para a sua veneração e invocação é que os Santos rezam, assiduamente, pela salvação dos homens, e que Deus nos outorga muitos benefícios, em consideração ao seu mérito e caridade. Se"no céu reina alegria, quando um só pecador faz penitência", será possível que os moradores do céu não socorram os penitentes na terra? Se os invocarmos, não nos alcançarão o perdão dos pecados, e não nos garantirão a graça de Deus?

13 Prova-se que a invocação dos Santos não tem sua origem numa certa desconfiança no auxílio divino, nem na fragilidade da fé

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Poderá alegar-se, como de fato alguns alegam, que o patrocínio dos Santos é supérfluo, porque Deus não precisa de medianeiro para atender as nossas orações. Estas ímpias asserções se rebatem facilmente com as palavras de Santo Agostinho de que Deus não concede muitas coisas, se não houver a intervenção de um mediador e advogado. Isto se prova pelos preclaros exemplos de Abimelec e dos amigos de Jó. Deus perdoou-lhes os pecados, só depois que Abraão e Jó intercederam por eles. Podem ainda objetar que, recorrendo aos Santos como nossos mediadores e advogados, só o fazemos por ausência e debilidade de fé. Mas que resposta terão eles ao luminoso exemplo do Centurião? Deus Nosso Senhor enalteceu a sua fé com os maiores elogios, apesar de ter o homem enviado ao Salvador os anciãos dos Judeus, para que lhe impetrassem a cura do servo doente.

14 O dogma de Cristo como único Mediador não suspende a invocação dos Santos

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Força nos é confessar que só nos foi dado um único mediador na pessoa de Cristo Nosso Senhor. Só Ele nos reconciliou com o Pai Celestial, por meio do Seu Sangue. Ele entrou uma só vez no Santo dos Santos, consumou uma Redenção eterna, e não cessa de interceder por nós. Mas daqui não se pode em absoluto concluir que não seja lícito recorrer à benevolência dos Santos. Se não fora permitido valer-nos da proteção dos Santos, porque Jesus Cristo é o nosso único Patrono, o Apóstolo nunca cairia no erro de desejar, com tanta instância, que seus irmãos vivos o secundassem com orações diante de Deus. Pois, nesse caso, as orações dos vivos não fariam menos quebra à honra e glória de Cristo Medianeiro, do que a intercessão dos Santos no céu.

15 Demonstra-se donde se confirmar a virtude das relíquias, e quão grande é a sua força e eficácia

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Pelos milagres, que acontecem junto às sepulturas dos Santos, haverá quem descreia da veneração que lhes é devida, e da proteção que deles recebemos? Homens que estavam privados da vista, das mãos, de todos os seus membros, recuperam sua integridade primitiva; os mortos são restituídos à vida; os demônios são expulsos dos corpos humanos. E são fatos que Santo Ambrósio e Santo Agostinho abonam, em suas obras, como testemunhas de absoluta confiança; não por terem ouvido, à maneira de muitos; nem por terem lido, como fazem pessoas de reconhecida autoridade; mas, por terem presenciado pessoalmente. Para que tantas palavras? Se as vestes, os lenços, a sombra dos Santos, já antes de sua morte, removiam as doenças e refaziam as forças do corpo: quem se atreverá a negar que Deus não possa fazer os mesmos milagres, servindo-Se das sagradas cinzas, dos ossos, e de outras relíquias dos Santos? Bem o demonstrou aquele cadáver, lançado por acaso na sepultura de Eliseu. Apenas lhe tocou no corpo, reanimou-se no mesmo instante.

IV Proibição de fazer imagens

16 As palavras seguintes não constituem outro Mandamento, mas um só com as palavras precedentes

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Seguem-se as palavras:"Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma daquilo que há em cima do céu, nem do que existe embaixo na terra, nem das coisas que existem nas águas, abaixo do nível da terra. Não as adorarás, nem lhes terás veneração". Muitos viam nestas palavras o segundo Mandamento, e achavam que as duas últimas prescrições constituíam um só preceito. Santo Agostinho, porém, separou as últimas cláusulas em dois preceitos distintos, e incluiu em um só preceito as palavras acima transcritas. De bom grado, seguimos sua opinião, que se tornou predominante na Igreja. Podemos, aliás, alcançar a razão própria e verdadeira dessa distinção, se dissermos que convinha incluir-se, já no primeiro Mandamento, o prêmio e o castigo aplicável em todo e qualquer preceito.

17 Não vai de encontro a este Mandamento o uso das imagens, aceito pela Igreja

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Entretanto, não se vá julgar que este Preceito proíba simplesmente a arte de pintar, plasmar, e esculpir; pois, nas Sagradas Escrituras, lemos que por ordem de Deus foram feitas imagens de Querubins e a da serpente de bronze. Por conseguinte, só nos resta uma interpretação. Proibiram-se as imagens, para que tais representações, sendo adoradas quase como deuses, não prejudicassem o verdadeiro culto que se deve a Deus.

18 De que modo a Majestade poderia ser ultrajada, em conseqüência das imagens

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Com relação a este Mandamento, é evidente que a Majestade de Deus pode ser gravemente ultrajada, de duas maneiras principais. Em primeiro lugar, quando se presta culto divino a ídolos e imagens; quando se acredita existir nelas uma divindade ou força extraordinária, que as torne dignas de adoração, e às quais se deva fazer alguma súplica; quando se põe toda a confiança em tais representações, como faziam outrora os pagãos, que punham nos ídolos a sua esperança. Estas são práticas que os Sagrados Livros censuram com muita insistência. Em segundo lugar, peca-se pela pretensão de querer representar, por alguma obra de arte, uma forma da Divindade, como se fora possível ver a Divindade com olhos corporais, ou dar-Lhe uma expressão sensível por meio de painéis e estátuas."Quem poderá fazer uma representação de Deus", pergunta São João Damasceno,"pois se Ele não está ao alcance de nossa vista, se não tem corpo, se não cabe nos limites do espaço, se não pode ser representado por nenhuma figura?"Esta doutrina foi amplamente desenvolvida pelo Segundo Concílio de Nicéia. Com muita agudeza declarou o Apóstolo:"Eles [os pagãos] trocaram a glória de Deus imperecível por imagens... de voláteis, de quadrúpedes, e de animais répteis". Pois, fazendo deles figuras, veneravam todos esses animais, como se fossem o próprio Deus. Por isso, são chamados idólatras os israelitas que gritavam diante da imagem do bezerro:"Eis aí, Israel, os teus deuses que te salvaram da terra do Egito". Pois"trocaram a sua glória pela imagem de um bezerro que come feno".

19 Qual é o sentido desta última parte do Mandamento

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Uma vez que o Senhor proibia de adorar deuses estranhos, interdisse também que da Divindade se fizessem imagens de bronze fundido, ou de qualquer outra matéria, para assim extirpar radicalmente a idolatria. Isaías exprime a mesma idéia, quando interpela:"Que semelhança tornastes para Deus, ou que expressão haveis vós de dar-Lhe?"Esta é a verdadeira significação deste preceito. Além dos escritos dos Santos Padres, que assim o interpretaram, de acordo com o VII Concílio Ecumênico, provam-no sobejamente aquelas famosas palavras do Deuteronômio, quando Moisés dizia, com o intuito de desviar o povo da idolatria:"Vós não vistes figura nenhuma, naquele dia que o Senhor no Horeb vos falou, do meio do fogo". Assim se exprimiu o bem avisado Legislador, para impedir que [os israelitas], iludidos por algum erro, fabricassem uma imagem da Divindade, e rendessem a uma criatura a honra que só a Deus é devida.

20 Não quebram este Mandamento os que representam as Pessoas da Santíssima Trindade

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Mas, nem por isso deve alguém julgar que seja delito contra a Religião e a Lei de Deus, quando uma das Pessoas da Santíssima Trindade é representada por meio de certos emblemas, que ocorrem, quer no Antigo, quer no Novo Testamento. Ninguém será tão rude para crer que tal imagem exprima a própria natureza da Divindade. O pastor lhes fará ver como elas apenas simbolizam propriedades e operações, que a Deus são atribuídas. Quando, por exemplo, Daniel descreve o"Ancião cheio de dias", sentado num trono, em cuja presença foram abertos os Livros, quer ele assinalar, com tal expressão, a eternidade de Deus e Sua infinita sabedoria, pelas quais perscruta todas as idéias e ações dos homens, para sobre elas lavrar sentença.

21 De que modo são pintados os Anjos

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Os anjos também são representados com feições humanas e com asas, para que os fiéis compreendam quanto eles são obsequiosos para com o gênero humano, e como estão sempre alerta para cumprir as ordens de Nosso Senhor."Todos eles são espíritos servidores, em benefício daqueles que devem herdar a salvação".

22 Da pomba, em cuja figura é representado o Espírito Santo

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A forma de pomba e as línguas semelhantes a fogo, de que falam o Evangelho e os Atos dos Apóstolos, são por demais conhecidas, que não se faz mister usar muitas palavras, para dizermos quais atributos assinalam com referência ao Espírito Santo.

23 Devem ser pintadas e veneradas as imagens de Cristo e dos Santos

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Como, porém, Cristo Nosso Senhor, Sua santíssima e puríssima Mãe, e todos os outros Santos, tinham uma fisionomia humana, revestidos da natureza humana: a representação e a veneração de suas imagens, além de não serem proibidas por este Preceito, foram sempre tidas como um indício sagrado e seguro de um coração reconhecido. Confirmam esta asserção os monumentos dos tempos apostólicos, os Concílios Ecumênicos, e o consenso unânime que se revela nos escritos de tantos Santos Padres, insignes por sua virtude e erudição.

24 Qual é o uso legítimo das imagens na Igreja

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Não se restrinja o pároco a provar que é lícito ter imagens dentro da igreja, e prestar-lhe culto e veneração. Dirá também que as honras a elas feitas se reportam aos seus protótipos. Mais ainda. Explicará como essa praxe, até agora, sempre redundou nas maiores bênçãos para os fiéis cristãos. Disso nos convence o que diz São João Damasceno em seu livro sobre as imagens, e também o que estabelece o Sétimo Concílio Ecumênico, que é o Segundo de Nicéia. Já que o inimigo do gênero humano forceja, por fraudes e astúcias, desnaturar as mais santas instituições, o pároco fará por corrigir qualquer abuso que, nesse sentido, possa haver entre o povo, lançando mão de todos os meios ao seu alcance, de acordo com as normas do Concílio Tridentino. Se achar oportuno, fará ao povo um comentário do próprio decreto. Além disso, aos ignorantes, que ainda não conhecem a finalidade das imagens, mostrará que são feitas para ilustrar a história de ambos os Testamentos, para renovar continuamente a sua lembrança, a fim de que a consideração dos mistérios divinos nos incuta maior fervor em adorar e amar o próprio Deus. Afinal, dirá também que a exposição das imagens de Santos, em nossas igrejas, tem por fim incitar-nos à veneração dos próprios Santos, e, pela força do exemplo, levar-nos à perfeita imitação de sua vida e costumes."Eu sou o Senhor teu Deus, forte e zeloso, que vingo a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem; e que faço misericórdia até mil gerações aos que Me amam, e guardam os Meus Mandamentos".

V Motivação deste Preceito

25 Não pertence pois este Apêndice ao Primeiro Mandamento

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Na última parte deste Preceito, há dois pontos que devem ser bem explicados. O primeiro é que pela enorme malícia dos pecados contra o Primeiro Mandamento, e pela propensão dos homens a cometê-los, vem a propósito incluir aqui a respectiva penalidade; mas esta constitui em si uma cláusula aplicável a todos os Mandamentos. Pois toda Lei induz os homens, por meio de prêmios e castigos, a observarem as suas [respectivas] determinações. Esta é a razão por que, nas Sagradas Escrituras, se encontram tantas promessas, constantemente repetidas, da parte de Deus. Vamos deixar de lado os testemunhos quase inumeráveis do Antigo Testamento. No Evangelho, porém, está escrito:"Se quiseres entrar na vida, observa os Mandamentos"."Quem fizer a vontade do Meu Pai, que está nos céus, entrará no Reino dos céus". Ou aquela ameaça:"Toda árvore que não dá bom fruto, será cortada e lançada ao fogo". Mais esta:"Quem se enraivecer contra seu irmão, merece ser condenado pelo Juízo". E noutro lugar:"Se não perdoardes aos homens, vosso Pai também não vos perdoará os vossos pecados".

26 Se a pena aqui cominada aos pecadores deve ser inculcada, do mesmo modo, tanto aos cristãos carnais, como aos perfeitos

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O segundo ponto é que, para homens carnais, a explicação desta cláusula deve ser muito diversa da que se faz a homens avançados na perfeição cristã. Aos perfeitos, que"são guiados pelo Espírito de Deus", e Lhe obedecem com alegria e prontidão, esta cláusula será, por assim dizer, uma verdadeira boa nova e uma grande demonstração da divina complacência para com eles. Reconhecem nisso uma solicitude de seu Pai amantíssimo, que quase impele os homens, ora com prêmios, ora com castigos, a prestarem-lhe culto e veneração. Reconhecem Sua imensa bondade para com eles, que os quer dirigir, e valer-Se de sua colaboração para a glória do Nome Divino. E não só reconhecem, mas até esperam firmemente d'Aquele que manda o que quer, as forças necessárias para cumprirem os Seus Mandamentos. Mas, quanto aos homens carnais, ainda não emancipados do"espírito de servidão", que se abstêm de pecar, mais por medo dos castigos, do que por amor da virtude: eles, sim, acham duro e amargo o sentido desta cláusula. Por isso mesmo, é preciso animá-los com bondosas exortações, e guiá-los, quase pela mão, aos verdadeiros sentimentos que a Lei quer neles despertar. São estas mesmas normas que o pároco deve levar em conta, todas as vezes que se lhe oferecer a oportunidade de explicar qualquer Mandamento.

27 Que nos propõem à meditação aquelas palavras: Eu sou o Deus Forte

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No entanto, quer aos carnais, quer aos espirituais, é preciso aplicar os dois acicates, de que faz menção a própria cláusula. Prestam-se, sobremaneira, para instigar os homens à observância da Lei. Pois Deus diz de Si mesmo que Ele é o"Forte". Ora, este atributo requer uma explicação mais minuciosa, justamente porque muitas vezes o coração humano pouco se abala com as ameaças divinas, e procura vários subterfúgios, pelos quais possa escapar à cólera de Deus, e livrar-se das penas que lhe são cominadas. Quem nutre, porém, a firme convicção de que Deus é o Forte, aplicar-se-á a si mesmo aquelas palavras do poderoso Davi:"Para onde posso eu desviar-me do Vosso Espírito? E para onde fugir de Vossa Presença?"Outras vezes, quando o coração humano desconfia das promessas divinas, as forças do inimigo parecem-lhe tão avantajadas, que ele se julga absolutamente incapaz de oferecer resistência. Havendo, pelo contrário, uma fé firme e constante, que não vacila diante de nenhum obstáculo, porquanto se estriba na força e poder de Deus, o homem reanima-se e toma novas forças, a ponto de exclamar:"O Senhor é a minha luz e a minha salvação. A quem poderei eu temer?"

28 Que significa, quando Deus também se diz zeloso ou ciumento

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O segundo acicate é o zelo próprio de Deus. Os homens cuidam, muitas vezes, que Deus não se ocupa das coisas humanas, nem sequer para ver se cumprimos ou desprezamos a Sua Lei. De tal opinião se derivam graves desmandos na vida do homem. Todavia, se crermos que Deus é zeloso de Seus direitos, essa lembrança facilmente nos conterá no cumprimento de nossas obrigações.

29 Que espécie de zelo deve ser atribuído a Deus

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O zelo atribuído a Deus não envolve nenhuma perturbação de espírito, mas consiste antes no amor e carinho, pelo qual Deus não permite à alma quebrar, impunemente, a fidelidade para com Ele. Pois Deus deita a perder todos os que Lhe forem infiéis. Assim, o zelo de Deus consiste naquela sereníssima e puríssima justiça, pela qual é repudiada como adúltera, e excluída das núpcias com Deus, a alma que se deixou corromper por falsas doutrinas e por paixões desordenadas. Muito embora, nós sentimos esse zelo de Deus como sendo extrema brandura e suavidade, porque nesse próprio zelo se manifesta o Seu imenso e inaudito amor para conosco. Com efeito, entre os homens não se conhece amor mais ardente, nem união mais forte e mais estreita, do que entre as pessoas unidas pelos laços do Matrimônio. Deus mostra, pois, Seu grande amor para conosco, quando freqüentemente Se compara a Si mesmo a um noivo ou esposo, e como tal Se declara ciumento. Aqui faça o pároco uma aplicação. Os homens devem esmerar-se de tal maneira pelo culto e a glória de Deus, que se possa com razão ver nisso um amor desdobrado pelo zelo, à imitação daquele que disse de si mesmo:"Eu Me consumo de zelo pelo Senhor Deus dos exércitos". Sim, façam por imitar o próprio Cristo, que proferiu estas palavras:"Devora-Me o zelo pela Vossa Casa".

30 Qual é o sentido da ameaça aqui feita

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É preciso também expor o sentido da ameaça. Deus não deixará impunes os pecadores, mas há de corrigi-los como Pai, ou então há de puni-los rigorosamente, como Juiz, sem nenhuma contemplação. Moisés declarou a mesma verdade, quando dizia noutro lugar:"E deverás saber que o Senhor teu Deus é um Deus forte e fiel; guarda Sua aliança e misericórdia aos que O amam e observam os Seus preceitos, até mil gerações; mas castiga sem demora os que O aborrecem". Josué também disse:"Vós não sereis capazes de servir ao Senhor. É um Deus forte e cioso, e não perdoará os vossos crimes e pecados. Se abandonardes o Senhor, e servirdes a deuses estranhos, Ele voltar-Se-á contra Vós, para vos abater e esmagar".

31 Como Deus visita os pecados dos pais nos filhos, até a terceira e a quarta geração

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Como o povo deve ficar sabendo, a ameaça do castigo aos ímpios e criminosos, até a terceira e quarta geração, não quer dizer que todos os descendentes paguem indistintamente pelas culpas de seus antepassados; mas que nem toda a posteridade poderá evitar a cólera e vingança de Deus, embora os próprios culpados e seus filhos tenham ficado sem nenhuma punição. Foi o que aconteceu com o rei Josias. Graças à sua exímia piedade, foi poupado por Deus, que o fez morrer em paz e repousar no túmulo de seus antepassados, para que não visse as desgraças que haviam de irromper sobre Judá e Jerusalém, por causa da impiedade de seu avô Manassés. No entanto, logo que ele morreu, a vingança de Deus caiu sobre os seus descendentes, mas de tal maneira, que nem os próprios filhos de Josias foram poupados.

32 Como estas palavras se harmonizam com as palavras de Ezequiel

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De que modo, porém, se conciliam estas palavras da Lei com a afirmação do Profeta: ''A alma que pecar, ela mesma morrerá?" Mostra-o, claramente, a autoridade de São Gregório, que se põe de acordo com todos os outros Padres antigos. Ele diz assim:"Quem imita a ruindade de seu pai, que é mau, envolve-se também em seu pecado. Mas quem não imita a ruindade de seu pai, de modo algum responde pelo delito que o pai tenha perpetrado. Daí resulta, como conseqüência, que o mau filho de um pai perverso deve sofrer não só pelos pecados que ele mesmo cometeu, mas também pelos pecados de seu pai. Pois, sabendo que os pecados de seu pai provocaram a indignação de Deus, não se intimidou de acrescentar-lhe ainda a sua própria maldade. Se alguém, à vista do juiz inexorável, não teme prosseguir nos caminhos de seu pai perverso, é de justiça que, ainda nesta vida, seja forçado a expiar também as culpas de seu pai transviado". A seguir, o pároco fará ver quanto a bondade e misericórdia de Deus vai além de Sua justiça. Pois Deus estende Sua cólera até a terceira e quarta geração, mas usa de Sua misericórdia com milhares de gerações.

33 De quais violadores das Leis Divinas devemos julgar que odeiam a Deus

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Nas palavras supracitadas:"daqueles que Me aborrecem"- patenteia-se a gravidade do pecado. Com efeito, haverá sentimento mais vergonhoso e detestável, do que o ter ódio à suma Bondade, à suma Verdade? Entretanto, tal acusação recai sobre todos os pecadores. Se"quem tem os Mandamentos"de Deus"e os observa", tem amor a Deus: de quem despreza a Lei do Senhor, e não observa os Seus Preceitos, podemos dizer, com toda a razão, que tal pessoa odeia a Deus.

34 Que quer dizer aquela passagem: "Faço misericórdia aos que Me amam"

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A frase final:"e aos que Me amam"- ensina-nos de que modo e por qual razão deve a Lei ser observada. Quem, pois, observa a Lei de Deus, deve ter, como motivo de sua observância, os mesmos sentimentos de amor e caridade que nutre para com Deus. Doravante, esta verdade será lembrada em cada um dos Mandamentos.

Fonte
Tradução de Frei Leopoldo Pires Martins, OFM — Editora Vozes, Petrópolis, 1951. Transcrição revisada a partir do PDF de referência do Serviço de Animação Eucarística Mariana.