Catecismo Romano · Dos Mandamentos

Capítulo 7

Do Sexto Mandamento

Do Sexto Mandamento

I Importância do Preceito

1 Defesa do matrimônio

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Sendo o mais estreito possível o vínculo que une marido e mulher, nada pode haver de mais agradável para ambos, do que a certeza de se amarem mutuamente com um amor exclusivo. De outro lado, nada lhes é mais penoso do que sentir como esse amor legítimo e obrigatório se desvia deles, para se aplicar a outras pessoas. Ao preceito destinado a defender a vida do homem contra o homicídio, segue-se, com razão e propriedade, o preceito que interdiz a luxúria e o adultério, para que ninguém se atreva, pelo crime do adultério, a profanar ou destruir a santa e nobre união do Matrimônio, que costuma ser uma grande fonte de caridade.

2 Maneira de expor a matéria

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Contudo, na exposição da presente matéria seja o pároco muito cauteloso e prudente. Use expressões veladas, para tratar de um assunto que mais pede moderação do que redundância de palavras. Na verdade, se procurasse alongar-se na explicação das maneiras de transgredir as normas deste Preceito, seria para temer viesse a falar de coisas que serviriam, antes, para excitar as paixões impuras, em lugar de reprimi-las. Neste Preceito, porém, há muitos pontos que não podem ser omitidos. Os párocos devem explicá-los no momento oportuno. Pelo seu sentido, o Preceito divide-se em duas cláusulas. A primeira é uma proibição expressa do adultério; a segunda manda-nos, implicitamente, guardar a castidade da alma e do corpo.

II Cláusula proibitiva

3 Adultério

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Vamos começar pelo que é proibido. Adultério é uma violação do leito conjugal, quer seja alheio, quer seja próprio. Se um casado peca com mulher solteira, profana seu próprio matrimônio. Se um solteiro peca com a mulher de outro, profana um matrimônio alheio. Santo Ambrósio e Santo Agostinho ensinam que, sob a proibição do adultério, se interdiz também tudo o que seja desonesto e impuro. Que tal seja a verdadeira interpretação destas palavras, facilmente se deduz dos Sagrados Livros do Antigo e do Novo Testamento; pois, além de adultério, eram punidas ainda outras espécies de luxúria, conforme dizem os Livros de Moisés.

4 Todas as espécies de luxúria

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No Gênesis, por exemplo, está a sentença de Judá contra a sua nora. O Deuteronômio contém aquela esclarecida lei de Moisés de que entre as filhas de Israel não houvesse nenhuma mulher perdida. No mesmo assunto, existe também a exortação de Tobias a seu filho: “Guarda-te, ó meu filho, de toda a impureza”. O Eclesiástico diz por seu turno: “Envergonhai-vos de fixar os olhos numa mulher de má vida”. Cristo Nosso Senhor também diz, no Evangelho, que do coração procedem os adultérios e os atos de luxúria, que maculam o homem. O Apóstolo São Paulo condena, muitas vezes, este vício com as mais enérgicas expressões: “Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação, que vos abstenhais da luxúria”. “Fugi da impureza”. “Não vos comuniqueis com os luxuriosos”. “A luxúria, porém, e toda a espécie de impureza e cobiça, nem sequer de nome seja lembrada entre vós”. “Nem os impuros, nem os adúlteros, nem os moles, nem os sodomitas, possuirão o Reino de Deus”.

5 Corolário: malícia específica do adultério

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Na proibição deste Preceito menciona-se o adultério expressamente. Ora, sem contar o que sua malícia tem de comum com outras espécies de intemperança, o motivo principal dessa menção é porque nele concorre um pecado de injustiça, não só contra o próximo, mas também contra a sociedade civil. Certo é, outrossim, que não se abstendo de outros excessos libidinosos, a pessoa facilmente resvala nesta incontinência específica do adultério. Por isso, podemos sem mais reconhecer que, pela simples proibição do adultério, são igualmente proibidas todas as espécies de lascívias e impurezas que mancham o corpo.

3 Toda luxúria íntima do coração

Mais ainda. Este Preceito interdiz até qualquer luxúria íntima do coração. Prova-o não só a própria expressão da Lei, que nos consta ter sentido espiritual, mas também a doutrina de Cristo Nosso Senhor, que o declarou nas seguintes palavras: “Ouvistes como foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo que todo homem que olhar com maus desejos para alguma mulher, já cometeu adultério com ela em seu coração”.

4 Sanções do Tridentino

Em nossa opinião, são estes os pontos que se devem ensinar publicamente aos fiéis. Além disso, acrescentar-se-ão as sanções do Concílio de Trento contra os adúlteros e os que sustentam meretrizes e concubinas. No entanto, não se trate publicamente das outras e variadas espécies de luxúria e libertinagem. Em ocasião própria, o pároco falará delas a cada um, em particular, conforme o exigir a necessidade das pessoas. Pela ordem, devemos agora explicar aquilo que o Preceito manda fazer.

III Cláusula preceptiva

6 Castidade própria de estado

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Cumpre, pois, ensinar e encarecer aos fiéis ponham todo o zelo em guardar a pureza e a continência, em purificar-se de toda a imundície da carne e do espírito, aperfeiçoando pelo temor a Deus a sua própria santificação. Em primeiro lugar, força é lembrar-lhes que, embora a virtude da castidade resplandeça, com maior brilho, naquela classe de pessoas que observam, santa e religiosamente, o sublime voto de virgindade, realmente por Deus inspirado: contudo é também virtude própria daqueles que, sendo solteiros ou casados, se conservam puros e intactos de qualquer prazer proibido.

IV Meios de castidade

7 Meios internos: horror à torpeza desse pecado

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Como os Santos Padres propuseram muitos meios, que nos ensinam a refrear as paixões e a coibir o instinto sensual, o pároco esmerar-se-á em explicá-los ao povo, e desenvolvê-los em toda a sua amplitude. Esses meios são em parte internos, em parte externos. O principal meio interno consiste em reconhecermos quanto é torpe e funesto tal pecado. Adquirida esta persuasão, ser-nos-á mais fácil detestá-lo. Que aqui se trata de um vício pernicioso, podemos averiguá-lo pelo fato de serem os homens totalmente excluídos do Reino de Deus, em consequência desse pecado. Isto, porém, representa a maior de todas as desgraças. Sem dúvida, tal desgraça de per si é comum a todos os pecados mortais; mas, neste pecado, ela oferece uma nota particular. Quem o comete, dizemos que peca contra o próprio corpo. Assim o ensina o Apóstolo, quando escreve: “Fugi da luxúria! Pois qualquer outro pecado que o homem cometa, fica fora do corpo; mas quem se entrega à luxúria, peca contra o seu próprio corpo”. Com isso queria ele dizer que o impuro desonra o próprio corpo e lhe profana a santidade. A esse respeito, São Paulo também escreve aos Tessalonicenses: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação. Deveis abster-vos da luxúria. Saiba cada um de vós usar seu corpo com virtude e dignidade, e não com os ardores da concupiscência, como fazem os pagãos, que não conhecem a Deus”.

b Horror ao meretrício

Depois, o que é mais grave, se o cristão tiver mau procedimento com uma meretriz, converte em membros de meretriz os membros que a Cristo pertencem. Assim o declara São Paulo: “Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo? Então, haveis de tomar os membros de Cristo e fazê-los membros de uma meretriz? Isso nunca. Não sabeis: quem se junta a uma meretriz faz um só corpo com ela?” No dizer do mesmo Apóstolo, o cristão é “um templo do Espírito Santo”. Ora, violar esse templo pela luxúria não é outra coisa senão expulsar dele o Espírito Santo.

8 Horror ao adultério

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O crime de adultério envolve também uma grande injustiça. Pois, como quer o Apóstolo, os casados de tal sorte se submetem um ao poder do outro, que nenhum dos dois já tem direito de dispor de seu próprio corpo. Estão de tal maneira ligados entre si, por uma espécie de servidão, que o marido deve acomodar-se à vontade da mulher, e a mulher ao desejo e vontade do marido. Tratando-se, pois, de um direito alheio, o consorte que nega seu corpo ao outro, com o qual está ligado, comete certamente uma grande injustiça e impiedade. Ora, como o temor da infâmia é muito eficaz, para levar os homens à prática de suas obrigações, e para os desviar das coisas proibidas, mostrará o pároco como o adultério imprime, nos homens, um pesado sinal de ignomínia. Assim o declara, expressamente, a Sagrada Escritura: “O adúltero perderá a sua alma, por causa da loucura de seu coração. Acumula para si a infâmia e a ignomínia, e a sua vergonha jamais desaparecerá”.

d Horror aos castigos da luxúria

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Podemos também medir a gravidade deste crime, pela severidade de seu castigo. Por prescrição do Senhor, no Antigo Testamento, os adúlteros morriam apedrejados. E não é só isto. Às vezes, por causa de um único ato libidinoso, foi exterminado não só o delinquente, mas até uma cidade inteira, como lemos que aconteceu aos moradores de Siquém. Referem as Sagradas Escrituras muitos exemplos de punições divinas, e o pároco pode usá-los com vantagem, para demover os homens dos nefandos atos de luxúria. Por exemplo, a destruição de Sodoma e outras cidades vizinhas, a execução dos Israelitas que pecaram com as filhas de Moab no deserto, a destruição da tribo de Benjamim.

e Horror aos efeitos da impureza

Os luxuriosos que escapam à morte, nem por isso escapam às intoleráveis dores e aos cruciantes castigos que muitas vezes os acometem. Pois, tomados de obcecação, que vem a ser o pior dos castigos, não respeitam absolutamente a Deus, nem a boa fama, nem a dignidade pessoal, nem a condição dos filhos, nem sequer a sua própria existência. Chegam, assim, a tal grau de perversão e desequilíbrio, que já não podemos confiar-lhes nenhum negócio, e eles ficam numa inaptidão quase absoluta para qualquer serviço. Sirvam-nos, como prova, os exemplos de Davi e Salomão. O primeiro, depois do adultério, passou de repente por uma mudança total. Cheio de mansidão que era, tornou-se cruel a ponto de lançar à morte Urias, que lhe havia prestado os mais relevantes serviços. O segundo, por se entregar à devassidão com mulheres, tão longe se afastou da verdadeira religião de Deus, que veio a seguir deuses estranhos. Portanto, como dizia Oséias, esse pecado arrebata o coração do homem, e não raro o leva à cegueira. Agora, vamos tratar dos remédios externos contra a impureza.

10 Meios externos: fuga do ócio, da intemperança e dos olhares indiscretos

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Em primeiro lugar, é preciso fugir absolutamente da ociosidade. Conforme se lê nas profecias de Ezequiel, foi o ócio que embruteceu os habitantes de Sodoma e os precipitou naquele imundíssimo crime da mais abjeta devassidão. Depois, devemos esforçar-nos por evitar a intemperança. “Eu os saciei, diz o Profeta, e eles cometeram adultério”. A razão é porque o ventre cheio e saturado provoca a sensualidade. Nosso Senhor nos faz a mesma advertência: “Guardai-vos, pois, de agravar vossos corações com excessos de comida e bebida”. E o Apóstolo também diz: “Não vos embriagueis com vinho, pois nisso há luxúria”. Muitas vezes, são sobretudo os olhos que ateiam a luxúria no coração. A isso alude aquela palavra de Cristo Nosso Senhor: “Se teu olho te for ocasião de pecado, arranca-o e lança-o para longe de ti”. Inúmeras são, aliás, as passagens dos Profetas que redundam na mesma doutrina. Por exemplo, o que dizia Jó: “Ajustei com os meus olhos, para que nem sequer me acudisse a lembrança de uma virgem”. Muitos também, e quase inumeráveis, são os exemplos de desgraças que tiveram sua origem na fixação de um olhar. Assim pecou Davi, assim pecou o príncipe de Siquém; do mesmo modo delinquiram também os anciãos, que caluniaram Susana.

11 Fuga dos requintes da moda, das conversas, cantigas, bailes, livros e imagens obscenas

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Por sua vez, os requintes da moda agradam muito à vista, mas provocam não raro fortes tentações impuras. Por isso mesmo, adverte o Eclesiástico: “Afasta teus olhos da mulher que estiver ataviada”. Ora, como as mulheres se comprazem em adornos exagerados, será de bom aviso que o pároco, de vez em quando, as advirta e repreenda naqueles termos rigorosos que o Apóstolo São Pedro empregou, quando falava desta matéria: “O adorno das mulheres não consista em exterioridades: cabelos armados, adereços de ouro, gala e luxo nos vestuários”. São Paulo também insiste em que elas não andem “com cabelos frisados, com jóias de ouro, com pérolas e ricos vestidos”. Na verdade, muitas mulheres que se adornavam com ouro e pérolas, perderam a formosura da alma e do corpo. A esta provocação de luxúria, proveniente do exagero no trajar, acresce outras que são as conversas torpes e obscenas. As palavras obscenas são como um facho que põe a arder o coração dos adolescentes. “As más conversas, diz o Apóstolo, corrompem os bons costumes”. Piores efeitos, ainda, surtem as cantigas e os bailes sensuais e voluptuosos. Devem, pois, ser evitados com o maior escrúpulo. Nesta categoria entram também os livros obscenos e romances amorosos. É um dever evitá-los, bem como as imagens indecentes, porque tais coisas arrastam, com a maior violência, a prazeres sensuais, e inflamam para o mal o coração dos jovens. O pároco, por sua vez, obrigar-se-á a cuidar, antes de tudo, que a respeito de imagens sejam estritamente observadas as santas e respeitáveis determinações do Sacrossanto Concílio de Trento. Havendo, pois, grande zelo e vigilância em se evitarem os perigos que acabamos de apontar, desaparecem quase todas as ocasiões para os desmandos da luxúria.

12 Uso frequente dos Sacramentos

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Mas a maior força para a sua repressão está no uso frequente da Confissão e da Eucaristia; depois, nas assíduas e fervorosas orações a Deus, acompanhadas de esmolas e jejuns. Pois a castidade é uma graça, que Deus não nega a quem a pede com as devidas disposições. Além do mais, Ele não permite que sejamos tentados acima de nossas forças.

13 Obras de mortificação

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Devemos, entretanto, exercer o corpo não só por meio de jejuns, preferindo os dias instituídos pela Santa Igreja, mas também por vigílias, piedosas romarias e outras espécies de mortificação. Devemos, pois, sofrear a petulância dos sentidos. Nestas e noutras práticas semelhantes é que mais se manifesta a virtude da temperança. No mesmo sentido escrevia São Paulo aos Coríntios: “Todos aqueles que lutam na arena, fazem abstinência em todas as coisas. Eles assim procedem, para conseguirem uma coroa que murcha; nós, porém, lutamos por uma coroa incorruptível”. Mais adiante diz ele: “Castigo o meu corpo, e o reduzo à escravidão, para que, depois de haver pregado a outros, não seja eu mesmo condenado como réprobo”. E noutro lugar: “Não ceveis a carne em favor da má concupiscência”.

Fonte
Tradução de Frei Leopoldo Pires Martins, OFM — Editora Vozes, Petrópolis, 1951. Transcrição revisada a partir do PDF de referência do Serviço de Animação Eucarística Mariana.