Do Quarto Mandamento
I Importância dos Preceitos da Segunda Tábua
1 Importância dos Preceitos da Segunda Tábua
Os preceitos anteriores são de suma importância e dignidade, com eles se emparelham os que vamos tratar agora, por causa de sua absoluta necessidade. Aqueles se referem diretamente ao nosso fim, que é Deus. Estes nos ensinam a caridade do próximo; tomados, porém, em sua plena extensão, levam igualmente a Deus, que é a última razão por que amamos nosso próximo. Por isso, Cristo Nosso Senhor disse que eram iguais entre si os dois Preceitos de amar a Deus e amar ao próximo. Mal podemos descrever quantas vantagens se encerram nessa palavra de Nosso Senhor, ela produz seus frutos, abundantes e excelentes, e constitui uma espécie de sinal, que faz transparecer a obediência e veneração que se devem ao Primeiro Mandamento. São João diz: "Quem não ama seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê?" Analogamente, se não amamos e respeitamos nossos pais, a quem devemos amar segundo a vontade de Deus, apesar de estarem quase sempre diante de nossos olhos: que estima e veneração tributaremos a Deus, Pai supremo e boníssimo, a quem não vemos de maneira alguma? Por aí se patenteia a consonância que existe entre ambos os Mandamentos.
2 Âmbito do IV Mandamento
O âmbito, porém, deste Preceito é muito vasto. Além daqueles que nos geraram, muitas são as pessoas que devemos venerar, como se fossem nossos pais, em razão de sua autoridade, de sua posição, de sua benemerência, de seu cargo ou função importante. Por sua parte, este Preceito suaviza também a tarefa dos pais e todos os superiores, cujo cuidado principal é conseguir que seus subordinados tenham uma vida honesta, enquadrada na Lei Divina. Ora, muito fácil será tal tarefa, se todos reconhecerem que, por ordem e disposição de Deus, se deve tributar aos pais a mais alta veneração possível. Mas, para isto conseguirmos, é preciso conhecer certa diferença que há entre os Preceitos da Primeira e os da Segunda Tábua da Lei.
3 Sua integração nas Duas Tábuas
Esta é, portanto, a primeira explicação que o pároco deve fazer. Antes de tudo, dirá que os divinos Preceitos do Decálogo foram gravados em duas tábuas. A primeira, como reza a tradição dos Santos Padres, continha os três Preceitos que já foram explicados. A segunda abrangia os restantes. Essa enumeração vem muito a propósito, porquanto a própria seqüência dos Preceitos faz ressaltar a sua razão intrínseca. Ora, nas Sagradas Escrituras, todas as ordens e proibições da Lei Divina se reduzem a uma das duas categorias, pois toda e qualquer obrigação se relaciona com a caridade, quer para com Deus, quer para com o próximo. Por sinal, os três Preceitos anteriores ensinam a caridade para com Deus; o que, porém, diz respeito ao amor e união dos homens entre si, se contém nos sete Preceitos restantes. Não é, pois, sem motivo que se fez tal distinção, de sorte que uns Preceitos foram descriminados na Primeira Tábua, e outros na Segunda.
4 Sua relação com o Primeiro Preceito
Nos três Preceitos anteriores, de que já tratamos, o objeto intrínseco, por assim dizer, é Deus, o sumo Bem; nos demais é o bem do próximo. Aqueles propõem o amor máximo; estes, um amor que fica próximo do supremo. Aqueles visam o fim [de toda a Lei]; estes, os meios que se coordenam ao fim. Mais ainda. O amor a Deus de Deus depende, pois Deus deve ser sumamente amado, por atenção a Ele mesmo, e não por outro motivo qualquer. Porém o amor ao próximo tem sua origem no amor a Deus, e deve referir-se a esse amor, como norma segura. Pois, se amamos nossos pais, se obedecemos aos superiores, se respeitamos as autoridades, fazemo-lo, antes de tudo, porque Deus é quem os criou e quis prepô-los a outros, para governar e defender os demais pelo seu ministério. Ora, sendo Ele mesmo que nos manda honrar tais pessoas, é de nossa obrigação fazê-lo, por isso mesmo que Deus as distinguiu com essa dignidade. Em conseqüência, a honra que prestamos aos pais parece referir-se antes a Deus, do que aos homens. Assim o lemos em São Mateus, quando fala do acatamento devido aos superiores: "Quem vos recebe, a Mim recebe". E na epístola aos Efésios, instruindo os escravos, diz o Apóstolo: "Servos, obedecei aos vossos senhores temporais, com temor e tremor, de coração sincero, como se fosse a Cristo; não servindo só quando sois vistos, como para agradar aos homens, mas fazei-o como servidores de Cristo".
5 O amor ao próximo limitado pelo amor de Deus
Acresce, ainda, que nenhuma honra, nenhuma reverência, nenhuma veneração é bastante digna de tributar-se a Deus. O amor para com Ele pode crescer em proporções infinitas. Por isso, é necessário que nosso amor a Deus se torne cada vez mais ardente, pois segundo o Seu preceito devemos amá-l'O de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, de todas as nossas forças. Ora, o amor que nutrimos ao próximo tem seus limites. Nosso Senhor manda amar o próximo como a nós mesmos. Se alguém ultrapassa os limites, a ponto de ter igual amor a Deus e ao próximo, comete um pecado de máxima gravidade. O Senhor declarou: "Se alguém vem a Mim, e não odeia seu pai, sua mãe, sua esposa, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até a sua própria vida: não pode ser Meu discípulo". No mesmo sentido falou: "Deixa os mortos sepultarem os seus mortos" - quando certo homem queria primeiro enterrar seu pai, para depois seguir a Cristo. Mais clara é a explicação que deste assunto se acha em São Mateus: "Quem ama pai e mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim".
6 Como o amor de Deus engrandece o amor aos pais
Não há dúvida, devemos extremar-nos no amor e respeito a nossos pais. Mas, para que nisso haja piedade filial, é preciso, antes de tudo, prestar-se a principal honra e veneração a Deus, que é o Pai e Criador de todos os homens. Por conseguinte, devemos amar nossos pais, de modo que toda a veemência desse amor se refira ao Pai Celeste e Sempiterno. Se alguma vez as ordens dadas pelos pais contrariarem os Preceitos de Deus, é evidente que os filhos devem antepor a vontade de Deus aos maus intentos dos pais, lembrando-se daquela advertência: "É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens".
II Explicação verbal
7 Que é honrar?
Feita esta explicação, o pároco comentará as palavras do Preceito, começando pela primeira, que é "honrar". Consiste ela em ter apreço por alguma pessoa, e nutrir o mais alto conceito de tudo o que se lhe refira. Acompanham essa honra os sentimentos de amor, respeito, obediência e veneração. De caso pensado, empregou-se na Lei o termo "honra", e não "amor" ou "temor", apesar do muito que devemos amar e temer nossos pais. Quem ama, nem sempre respeita e venera; quem teme, nem sempre ama. Mas quem honra de coração, também ama e teme. Depois de haver explicado estas coisas, tratará o pároco da cláusula "pais", declarando quais pessoas são especificadas com tal designação.
8 Que se entende por pais?
Ainda que a Lei fale, precipuamente, dos pais que nos geraram, esse nome se aplica também a outras pessoas que a Lei por certo abrange da mesma maneira. Sem mais dificuldade o deduzimos de numerosas passagens da Sagrada Escritura. Conforme já fizemos notar, além dos pais que nos deram a vida, falam as Sagradas Escrituras de outras espécies de pais, a quem se deve uma honra correspondente. Em primeiro lugar, chamam-se pais os Superiores eclesiásticos, tanto prelados como sacerdotes. Prova-o a passagem do Apóstolo, quando escrevia aos Coríntios: "Não escrevo estas coisas para vos confundir, mas exorto-vos como filhos meus caríssimos. Pois, ainda que tenhais dez mil mestres em Cristo, não tendes contudo muitos pais. Mas fui eu que pelo Evangelho vos gerei em Jesus Cristo". E no Eclesiástico está escrito: "Louvemos os ilustres varões, nossos pais, a cuja geração pertencemos". Dá-se ainda o nome de "pais" àqueles que receberam uma jurisdição, uma delegação de poderes, o governo geral da Nação. Assim é que Naamã era chamado pai pelo seus servos. Outrossim, chamamos de "pais" aqueles a cuja direção, lealdade, honradez e prudência estão confiadas outras pessoas. Desta categoria são os tutores, curadores, educadores e mestres. Por isso, os filhos dos Profetas davam o título de "pai" a Elias e Eliseu. Afinal, chamamos de "pais" os anciãos e as pessoas encanecidas, a quem aliás devemos reverência. Nestas instruções, tenha o pároco como ponto principal o ensinar que devemos honrar todos os pais, seja qual for a sua categoria, mas que em primeiro lugar estão os pais que nos puseram no mundo, pois a eles é que a Lei Divina se refere de modo particular.
III Explicação real
9 A obrigação de filhos e súditos
São eles, por assim dizer, imagens de Deus imortal; neles vemos uma representação de nossa origem; por eles nos foi dada a vida; deles Se serviu Deus para nos dar uma alma racional; foram eles que nos levaram aos Sacramentos, que nos formaram para a vida religiosa e social, que nos instruíram na integridade e pureza de costumes. Queira o pároco advertir que com razão se menciona o nome de "mãe", neste Preceito, para termos em consideração seus benefícios e benemerências para conosco, com quanto cuidado e angústia ela nos trouxe debaixo de seu coração, com quanta dor e sofrimento nos deu à luz e nos criou.
10 Caráter de nossa piedade filial
Devemos honrar nossos pais de tal maneira que nossas demonstrações de respeito para com eles procedam, visivelmente, de um coração cheio de amor e carinho. O principal motivo desta nossa obrigação é o nutrirem eles tal afeição para conosco que, por nossa causa, não recusam nenhum trabalho, nenhuma fadiga, nenhum perigo, não podendo experimentar maior alegria do que se sentirem benquistos de seus filhos, a quem amam extremosamente. José do Egito, com ser o primeiro em glória e majestade abaixo do Rei, recebeu com todas as honras a seu pai, quando este se transferiu para o Egito. Salomão levantou-se, indo ao encontro de sua mãe que chegava, inclinou-se diante dela, e colocou-a à sua direita no trono real. Há ainda outras mostras de honra, que devemos prestar aos nossos pais. Assim é que também os honramos, quando nos afervoramos em pedir a Deus, para que tudo lhes corra prosperamente; que tenham a maior estima e consideração entre os homens; que sejam bem aceitos aos olhos de Deus e dos Santos no céu. Outra maneira de honrar nossos pais é regular nossos planos pelo seu juízo e vontade. Assim o aconselha Salomão: "Ouve, meu filho, as advertências de teu pai, e não abandones a doutrina de tua mãe, para que isto seja como um adorno em tua cabeça, e como um colar no teu pescoço". Do mesmo sentido são as exortações dadas por São Paulo: "Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, pois assim é de justiça". E também: "Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque nisso se compraz o Senhor". Abonam esta doutrina os exemplos de pessoas muito virtuosas. Isaac submeteu-se, humilde, sem relutância, quando seu pai se pôs a ligá-lo para o holocausto. E os Recabitas, por não contrariarem o preceito de seu pai, abstiveram-se de vinho para sempre. Honramos também nossos pais, imitando-lhes os bons exemplos e costumes, pois o maior sinal de estima que se pode dar a uma pessoa é procurar a maior semelhança com ela. Da mesma sorte, honramos nossos pais, quando não só pedimos, mas também pomos em prática os seus conselhos.
11 Socorro aos pais vivos
Honramos igualmente nossos pais, quando os socorremos, ministrando-lhes o necessário para a sua mantença e posição social. Prova-o uma palavra de Cristo que, reprovando a dureza dos fariseus para com os pais, lhes perguntou: "Por que violais o Mandamento de Deus, por amor de vossa tradição? Pois Deus disse: Honra teu pai e tua mãe - e: Quem amaldiçoar seu pai ou sua mãe, seja punido de morte. Vós, porém, apregoais: Todo aquele que disser a seu pai ou à sua mãe: Qualquer oferenda que eu faça a Deus te há de aproveitar - esse já não está obrigado a honrar seu pai e sua mãe. Desta forma, invalidastes o Mandamento de Deus, por causa de vossa tradição". Os deveres da piedade filial, devemos cumpri-los em todas as ocasiões, mas sobretudo quando os pais caem em doença perigosa. Cumpre-nos cuidar que nada se omita a respeito da Confissão e dos mais Sacramentos, que todos os cristãos devem receber, quando a morte está iminente. Procuremos que pessoas boas e piedosas os visitem com freqüência, para os confortarem e aconselharem, quando enfraquecidos na fé, para os levarem à esperança da vida eterna, quando já se acham em boas disposições, de sorte que ponham toda a sua alma nas mãos de Deus, depois de tê-la desapegado das coisas humanas. Sendo, assim, venturosamente acompanhados pela fé, esperança e caridade, tendo o socorro da santa Religião, [nossos pais] não só temerão a morte, que é realmente inevitável, mas até a julgarão desejável, porque franqueia o acesso para a eternidade.
12 Sufrágios pelos pais falecidos
Por último, presta-se honra aos pais, quando falecidos, fazendo-lhes os funerais, promovendo condignas exéquias, preparando uma honesta sepultura, garantindo os sufrágios e Missas aniversárias, executando fielmente suas declarações de última vontade.
13 Obrigações para com os Superiores em geral
Devemos, no entanto, honrar não só aqueles que nos deram a vida, mas também os que merecem o nome de pais, como são os Bispos, sacerdotes, reis, príncipes, magistrados, tutores, curadores, mestres, educadores, anciãos e outras pessoas de igual condição. Todos eles são dignos, uns mais e outros menos, de tirar proveito de nossa caridade, de nossa obediência, de nossa fortuna. Dos Bispos e outros superiores eclesiásticos está escrito: "Sacerdotes, que desempenham bem o seu ministério, são dignos de honra dobrada, mormente os que se afadigam em pregar e ensinar". Na verdade, quantas provas de amor não deram os Gálatas ao Apóstolo? Ele próprio lhes rendeu grande preito de gratidão, quando escrevia: "Posso assegurar-vos que, se possível fora, até os próprios olhos teríeis arrancado, para me fazerdes presente deles".
14 Obediência e sustento dos sacerdotes
Aos sacerdotes, devemos proporcionar-lhes o que for necessário para a sua manutenção. Por isso perguntava o Apóstolo: "Quem vai jamais à guerra, e custeia-se a si mesmo?"E no Eclesiástico está escrito: "Honra os sacerdotes, e purifica-te do pecado pela oferta das espáduas. Dá-lhes, como te foi mandado, a parte das primícias e da expiação". Deve-se-lhes também obediência, conforme ensina o Apóstolo: "Obedecei aos vossos superiores, e sujeitai-vos a eles, pois eles estão vigilantes, como quem há de dar contas de vossas almas". E Cristo Nosso Senhor mandou até obedecer aos maus pastores, quando declarava: "Na cadeira de Moisés estão sentados os escribas e fariseus. Respeitai, pois, e executai tudo o que vos disserem. Mas não façais de acordo com suas obras, porque eles falam e não praticam".
15 Honra devida às autoridades civis
Outro tanto se diga dos reis, príncipes, magistrados e mais pessoas, a cujo poder estamos submetidos. Na epístola aos Romanos, o Apóstolo se detém em especificar qual honra, respeito e submissão lhes devemos. Faz lembrar a obrigação de se rezar também por eles. E São Pedro diz por sua vez: "Sede submissos, por amor de Deus, a toda autoridade humana, seja ao rei como soberano, seja aos governantes como seus delegados". A honra que lhes tributamos a Deus se refere, pois os homens acatam a preeminência do cargo, por ser esta um reflexo do poder divino. Assim reverenciamos também a Providência de Deus que, confiando-lhes o exercício de um cargo público, se serve deles como ministros de Seu poder.
16 As autoridades, mesmo indignas
Nossa veneração, naturalmente, não se reporta à malícia e perversão humana, se tal houver nos detentores do poder, mas à autoridade divina de que estão revestidos. Por mais estranho que pareça, nunca poderá haver uma razão suficiente para lhes negarmos o devido respeito, ainda que eles nos persigam com todo rancor e hostilidade. Assim é que Davi levava por diante suas grandes atenções para com Saul, embora este lhe mostrasse os piores sentimentos. Davi no-lo dá a entender nas seguintes palavras: "Eu era pacato com os que odiavam a paz". Contudo, não podemos obedecer-lhes de maneira alguma, quando dão ordens ímpias e injustas, porque não o fazem de acordo com os seus poderes, mas por injustiça e maldade. Depois de haver especificado estes pontos, o pároco passará a falar da recompensa prometida aos que observam este divino Preceito, e mostrará também como ele vai ao encontro das aspirações humanas.
IV Prêmios e sanções
17 Longa vida
Seu maior fruto, porém, é que "tenham longa vida". Na verdade, digno de lograr um benefício, o mais tempo possível, se torna aquele que o tem continuamente na lembrança. Portanto, os que honram seus pais, e se mostram gratos a quem lhes deu o gozo da luz e da vida, merecem com razão alcançar a extrema velhice. Depois, é preciso dar uma explicação bem declarada da divina promessa, pois não se promete apenas o gozo de uma vida eterna e venturosa, mas também da vida que levamos aqui na terra. Assim o explica São Paulo naquela passagem: "A piedade para tudo é proveitosa; tem a promessa, tanto para a vida presente, como para a futura".
18 Vida venturosa
Esta recompensa não é pequena, nem desprezível, ainda que grandes Santos, como Jó, Davi e Paulo anelavam pela morte, e que pessoas tristes e sofredoras não encontram prazer numa vida prolongada. Pois a cláusula que vem a seguir: "[na terra] que o teu Senhor te há de dar" - promete não só uma vida dilatada, mas também o repouso, a paz e a segurança que se requer para uma vida venturosa. O Deuteronômio não se limita a dizer: "para que tenhas longa vida", mas acrescenta também: "para que sejas feliz". O mesmo pensamento foi, mais tarde, inculcado pelo Apóstolo.
19 O problema da morte prematura
Dizemos, todavia, que Deus prodigaliza tais bens aos homens, cuja piedade filial Ele quer remunerar. Aliás, a divina promessa não deixa de ser menos segura e constante, ainda que por vezes seja mais curta a vida daqueles que tiveram grande amor filial a seus pais. Isto acontece, ou porque é melhor para eles deixar o mundo, antes que abandonem a prática da virtude e do dever: são, pois, arrebatados, para que "a malícia não lhes perverta o entendimento, e a hipocrisia não lhes seduza o coração"; ou então são separados de seus corpos, na iminência de males e flagelos públicos, para escaparem às provações dos tempos que correm. "O justo, diz o Profeta, é arrebatado, em vista da malícia reinante". Assim acontece, para que não venha a perigar sua virtude e salvação, quando Deus castiga os pecados dos homens; ou para que, em tempos de suma tristeza, não tenham de chorar, amargamente, a desgraça de parentes e amigos. Por isso, mais razões há para se temer [grandes castigos de Deus], quando pessoas virtuosas são ceifadas por uma morte prematura.
20 Castigos dos maus filhos
Assim como Deus prometeu prêmio e bênção, pelo cumprimento de seu dever, aos que são carinhosos para com os pais: assim também reserva penas gravíssimas aos filhos ingratos e impiedosos. Pois está escrito: "Quem amaldiçoar seu pai ou sua mãe, seja punido de morte". E "quem acabrunha seu pai, e foge de sua mãe, é um infame e desgraçado". Noutro lugar: "Quem amaldiçoar seu pai ou sua mãe, verá sua candeia apagar-se no meio das trevas". Afinal: "O olho que escarnece de seu pai, e despreza o parto de sua mãe, seja arrancado pelos corvos das torrentes, e comido pelos filhotes da águia". Conforme lemos nas Escrituras, dos filhos que ultrajaram os próprios pais, muitos houve contra os quais se inflamou a vingança da cólera divina. Assim Deus não deixou Davi sem desafronta. Infligiu o devido castigo a Absalão, e puniu seu crime, fazendo que fosse trespassado por três lanças. Daqueles, porém, que não obedecem aos sacerdotes, está escrito: "Quem se ensoberbece, não querendo obedecer ao sacerdote, que nesse tempo ministra ao Senhor teu Deus, tal homem seja, por sentença do juiz, condenado à morte".
V Obrigações dos Pais e Superiores
21 Educar por bons princípios
Se, pois, a Lei de Deus manda aos filhos honrar, obedecer e acatar seus pais, é também dever e encargo dos pais educar os filhos por princípios e costumes bem assentados, dar-lhes as melhores normas de vida, para que eles, tendo boa instrução e formação religiosa, sirvam a Deus com perseverança e fidelidade. Dessa maneira procederam os pais de Susana, consoante o que lemos nas Escrituras. Por isso mesmo, advirta o sacerdote que, para com os filhos, devem os pais haver-se como mestres da virtude, pela retidão, continência, modéstia, e santidade, procurando, antes de tudo, evitar três pontos, contra os quais costumam muitas vezes cometer faltas. Primeiro, quando falam ou repreendem, não sejam ásperos demais para com os filhos. É o que manda o Apóstolo na epístola aos Colossenses: "Pais, não provoqueis o rancor de vossos filhos, para que se não tornem retraídos". Há perigo de ficarem covardes e subservientes, porque de tudo se arreceiam. Por isso, deve [o pároco] ordenar que os pais evitem o rigor demasiado, procurando antes morigerar os filhos, do que castigá-los propriamente.
22 Evitar erros de educação
Segundo, não perdoem nada aos filhos, por nímia indulgência, quando cometerem alguma falta que exija castigo e repreensão. Não raras vezes os filhos se desencaminham por causa da excessiva brandura e complacência dos pais. Para os desviar dessa irrazoável condescendência, sirva-lhes de exemplo o sumo sacerdote Heli, que sofreu o pior dos castigos, por se ter excedido na bondade para com os filhos. Terceiro, não sigam os pais princípios errados na instrução e educação dos filhos, o que seria a maior das calamidades. Pois muitos são os que pensam e só cuidam em deixar aos filhos bens materiais, rendas pecuniárias, grandes e suntuosas heranças. Não os exortam à prática da religião e piedade, nem à aquisição de bons conhecimentos, mas antes à ganância de aumentarem sempre mais a sua fortuna. Pouco se lhes dá o bom nome e a salvação eterna dos filhos, contanto que estes tenham dinheiro e façam grande fortuna. Poder-se-ia falar ou pensar de modo mais vergonhoso? Assim herdam eles aos filhos não tanto os bens de fortuna, quanto os seus crimes e desordens. Em última análise, tornam-se guias que os não conduzem ao céu, mas aos eternos suplícios do inferno. Procure, pois, o sacerdote incutir no espírito dos pais os mais sólidos princípios de educação, e induzi-los a imitar o exemplo de Tobias, para terem igual virtude. Depois de educarem devidamente seus filhos no temor a Deus e na santidade, receberão deles copiosos frutos de amor, obediência e respeito.