Do Sacramento do Batismo
I Importância e necessidade desta doutrina
1 Importância desta doutrina
O que até agora dissemos dos Sacramentos em geral, permite-nos avaliar quanto se faz mister conhecer a doutrina da Igreja Católica sobre cada um deles em particular, não só para conhecermos a Religião cristã, como também para levarmos uma vida de verdadeira piedade. Quem versa o Apóstolo com mais atenção, verá forçosamente que ele requer dos fiéis uma noção perfeita do que é o Batismo. Em termos graves, repassados do Espírito de Deus, relembra este Mistério com muita insistência, enaltece seu caráter divino, e nele nos põe diante dos olhos a Morte, Sepultura e Ressurreição de nosso Redentor, como objeto de contemplação e imitação. Por conseguinte, os párocos não tenham jamais por demasiado o esforço e diligência, que empregarem na explicação deste Sacramento.
2 Necessidade de explicá-la amiúde
Além daqueles dias, em que nossos maiores tinham por tradição explicar antes de tudo os mistérios do Batismo, como acontecia no Sábado de Aleluia e na Vigília de Pentecostes, ocasião em que a Igreja costumava ministrar este Sacramento, com a maior pompa e com as mais solenes cerimônias, os párocos aproveitarão em outros dias a oportunidade que se lhes ofereça, para falarem também do mesmo assunto. Uma das ocasiões mais próprias será por vezes a solenidade de algum batizado, quando notarem grande afluência de fiéis cristãos. Ser-lhes-á então muito mais fácil explicar um ou outro ponto, embora não seja possível desenvolver toda a doutrina do Batismo. Vendo, pois, nas cerimônias do Batismo, uma aplicação imediata das instruções que acabam de ouvir, os fiéis acompanham os ritos com piedade e interesse. Daí nasce que, observando tudo quanto se pratica em outrem, cada um pensará, de si para consigo, nas obrigações contraídas junto a Deus, em conseqüência do Batismo. E nesta consideração, indagar-se-á a si mesmo, se a sua vida e costumes se conformam com os deveres do nome cristão. Para se ministrar esta doutrina com ordem e clareza, devemos expor, em primeiro lugar, a natureza e essência do Batismo. Antes, porém, daremos a significação do próprio termo.
II Explicação etimológica
1 O termo “Batismo”
Batismo, como todos sabem, é uma palavra grega. Nas Sagradas Escrituras, designa não só a ablução que faz parte do Sacramento, mas qualquer espécie de ablução. Por vezes, aplica-se à Paixão de Cristo, em sentido figurado. Todavia, os escritores eclesiásticos não o tomam como qualquer espécie de ablução corporal, mas unicamente como uma ablução sacramental, que se faz sob a forma prescrita das palavras. Neste sentido, os Apóstolos empregavam o termo muitíssimas vezes, obedecendo às determinações de Cristo Nosso Senhor.
2 outras designações, segundo os Santos Padres
Os Santos Padres valiam-se também de outras expressões para designar o Batismo. Atesta Santo Agostinho que se chama “Sacramento da fé”, porquanto a sua recepção nos leva a professar toda a doutrina da religião cristã. Outros, porém, chamavam de “iluminação” a este Sacramento, porque a fé professada no Batismo ilumina os nossos corações. O Apóstolo também se expressou assim: “Relembrai os dias primeiros em que, após a vossa iluminação, aturastes o grande ardor das provações”. Referia-se ao tempo em que foram batizados. Numa exortação aos recém-batizados, São João Crisóstomo chama-lhe, ora “purificação”, porque o Batismo nos limpa do velho fermento, para sermos massa nova; ora “sepultura”, “plantação”, “Cruz de Cristo”. Todas essas expressões se encontram na epístola aos Romanos. São Dionísio chama-lhe “princípio dos sacrossantos Mandamentos”. Suas razões são evidentes; pois este Sacramento é, por assim dizer, a porta pela qual entramos na comunhão da vida cristã, e, desde esse momento, começamos a obedecer aos Preceitos Divinos. Com relação ao nome, são estas as explicações que se devem dar com brevidade.
III Definição real
Como definição real, poderíamos citar muitas que se nos antolham nos escritores eclesiásticos. Entretanto, a mais justa e mais apropriada parece ser aquela que se deduz das palavras de Nosso Senhor no Evangelho de São João, e do que disse o Apóstolo na epístola aos Efésios. Nosso Senhor declarou: “Quem não renascer da água e do Espírito Santo, não pode entrar no Reino de Deus”. E o Apóstolo, falando da Igreja, diz que [Cristo] “a purificou pela ablução da água na palavra”. Pelo sentido destas passagens, podemos definir, com acerto e brevidade, que o Batismo é um “Sacramento de regeneração pela palavra na água”. Por natureza, nascemos de Adão como filhos da ira, mas o Batismo nos faz renascer em Cristo como filhos da misericórdia. Pois [Cristo] deu aos homens “o poder de se tornarem filhos de Deus: aos que crêem em Seu nome; [aos] que não nasceram do sangue, nem do apetite da carne, nem do desejo do varão, mas [que nasceram] de Deus”.
IV Elementos constitutivos do Batismo
Afinal, quaisquer que sejam as expressões escolhidas para explicar a natureza do Batismo, devemos todavia ensinar ao povo que este Sacramento se consuma por meio de uma ablução, durante a qual é necessário pronunciar certas palavras sagradas, consoante às determinações de Nosso Senhor e Salvador. Esta foi sempre a doutrina dos Santos Padres. Santo Agostinho exprimiu-a numa fórmula cristalina: “Unindo-se a palavra ao elemento, daí nasce o Sacramento”. Convém, pois, explanar este ponto com mais insistência, para que os fiéis não caiam no erro de considerar, como Sacramento, a própria água que se conserva, na pia sagrada, para a administração do Batismo. Sem embargo, essa opinião é muito comum entre o povo. Só então podemos afirmar que se opera o Sacramento do Batismo, quando realmente usamos água para a ablução de alguém, e [ao mesmo tempo] acrescentamos as palavras instituídas por Nosso Senhor. Já de início, quando se tratava dos Sacramentos em geral, dissemos que cada um deles se compõe de matéria e forma. Agora, portanto, deverão os pastores explicar o que constitui uma e outra no Batismo.
V Matéria remota
1 água natural
Matéria ou elemento deste Sacramento é qualquer espécie de água natural, seja de mar, de rio, de banhado, de poço ou de fonte, uma vez que possa [simplesmente] chamar-se “água” sem nenhuma restrição. Com efeito, Nosso Senhor assim doutrinou: “Se alguém não renascer da água e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus”. E o Apóstolo diz que a Igreja foi purificada pela ablução da água. Numa epístola de São João lemos a seguinte passagem: “Três são os que dão testemunho na terra: o espírito, a água, e o sangue”. A mesma afirmação se comprova em outros testemunhos da Sagrada Escritura.
Corolário O Batismo no fogo e no Espírito Santo
Se contudo São João Batista anunciou que o Senhor viria para batizar “no fogo e no Espírito Santo”, suas palavras não se referem do modo algum à matéria do Batismo, mas à operação interior do Espírito Santo, ou antes, ao milagre que se manifestou no dia de Pentecostes, “quando o Espírito Santo desceu do céu em forma de fogo”, sobre os Apóstolos. É um milagre que Cristo Nosso Senhor havia predito em outro lugar: “João batizou na água, mas dentro de poucos dias sereis vós batizados no Espírito Santo”.
2 Figuras e profecias
De mais a mais, as Escrituras nos mostram que Nosso Senhor anunciou de antemão [a matéria do Batismo], por meio de figuras e profecias. Em sua primeira Epístola, o Príncipe dos Apóstolos nos dá a entender que uma imagem e semelhança dessa água era o Dilúvio, pelo qual o mundo foi purificado, porquanto “era enorme a malícia dos homens na terra, e todos os desejos de seu coração tendiam para o mal”. A travessia do Mar Vermelho era também uma figura desta água, conforme a interpretação de São Paulo em sua Epístola aos Coríntios. Só de leve lembramos ainda as abluções de Naamã, o Sírio, a virtude milagrosa da piscina de Betsaida, e outros fatos semelhantes, nos quais facilmente se descobrem outros símbolos deste Mistério.
profecias da água batismal
Quanto às visões proféticas, não há dúvida que a água do Batismo estava designada e simbolizada naquelas águas, para as quais o profeta Isaías convidava tão generosamente todos os sequiosos, ou que Ezequiel via em espírito jorrar do Templo para fora; bem como naquela fonte que, na predição de Zacarias, ficaria à disposição da casa de Davi e dos habitantes de Jerusalém, a fim de se purificar nela o pecador e a mulher legalmente contaminada.
3 Motivos de se escolher a água
Em sua carta a Oceano, São Jerônimo alega várias razões, para provar quanto convinha à natureza e eficiência do Batismo, que se tomasse a água para sua matéria sacramental. Ao desenvolver esta doutrina, ensinem os párocos em primeiro lugar que, tratando-se de um Sacramento necessário a todos, sem nenhuma exceção, para conseguirem salvar-se, a água era a matéria mais apropriada, por se encontrar em toda a parte, e por ficar ao alcance de todos, sem maior dificuldade. Além disso, a água simboliza o efeito do Batismo com a máxima fidelidade. Assim como lava as imundícies, a água também exprime, de maneira muito sugestiva, a virtude e a finalidade do Batismo, pelo qual são lavadas as manchas do pecado. Uma razão a mais é que a água tem a especial virtude de desalterar o corpo; de maneira análoga, o Batismo extingue parcialmente o ardor das paixões desordenadas.
4 O uso de água consagrada
Um ponto ainda, que merece consideração. Água natural, sem nenhum ingrediente, é matéria apta para a administração deste Sacramento, todas as vezes que o exija a necessidade. Contudo, na solene administração do Batismo, por uma tradição que remonta aos Apóstolos, a Igreja sempre observou o costume de adicionar à água o Santo Crisma, certamente para realçar melhor o efeito do Batismo. Às vezes, podem surgir dúvidas, se esta ou aquela água é genuína, conforme o exige a validade do Sacramento. O povo, porém, deve saber, com certeza absoluta, que o Batismo nunca pode ser validamente ministrado com outra matéria, senão com água que seja natural e líquida.
VI A forma do Batismo
Explicada a matéria, como primeira das duas partes que constituem o Batismo, os pastores não terão menos cuidado em falar também da forma, que é a segunda parte essencialmente necessária. Convençam-se, porém, que devem redobrar seus esforços na explicação deste Sacramento, porque a prática de tão sagrado Mistério não é somente própria para dar, por sua natureza, grande satisfação aos fiéis — efeito comum das verdades divinas que aprendemos — mas é também sumamente desejável, em vista da necessidade de empregá-la quase que todos os dias. Como veremos mais amplamente no curso desta exposição, muitas vezes ocorrem circunstâncias em que pessoas do povo, quase sempre humildes mulheres, são obrigadas a conferir o Batismo. Por conseguinte, todos os fiéis de ambos os sexos devem conhecer, com exatidão, as partes essenciais deste Sacramento.
1 O teor da forma
Em termos claros e singelos, de fácil compreensão para todos, devem os pastores ensinar que a forma exata e completa do Batismo é a seguinte: “Eu te batizo em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Assim o ensinou Nosso Senhor e Salvador, quando prescreveu aos Apóstolos no Evangelho de São Mateus: “Ide, ensinai todos os povos, e batizai-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”.
a sua explicação
Do verbo “batizai”, a Igreja Católica, por inspiração divina, deduziu acertadamente que, na forma deste Sacramento, se deve exprimir a ação do ministro. É o que sucede, quando se diz: “Eu te batizo”. Além do ministro, era preciso designar também a pessoa que é batizada, assim como a causa principal que opera o Batismo. Esta é a razão de se acrescentar o pronome “te”, e o nome de cada uma das Pessoas Divinas. Assim temos a forma completa nas palavras que acabamos de explicar: “Eu te batizo em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. No Sacramento do Batismo, operam juntamente todas as Pessoas da Santíssima Trindade, e não somente a Pessoa do Filho, do qual escreve São João: “Este é quem batiza”. Além disso, se diz “em nome” e não “nos nomes”, para indicar que é uma e una a natureza e divindade na Santíssima Trindade. O termo “nome” não se refere aqui às Pessoas, mas designa a substância, virtude e onipotência divina, que é uma e a mesma nas três Pessoas.
Expusemos a forma completa, em todos os sentidos. Mas cumpre notar que nela há algumas palavras estritamente essenciais, que não podem ser omitidas sem anular o Sacramento; e outras que não são tão necessárias, que não invalidam o Sacramento, se forem omitidas.
b a fórmula grega
De tal espécie é o pronome “eu”, cujo sentido se subentende no verbo “batizo”. Nas igrejas gregas, que usam outra fórmula, é até costume omiti-lo, porquanto os gregos não julgam necessário mencionar o ministro. Por isso, a fórmula que usam em toda a parte é a seguinte: “Este servo de Cristo é batizado em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. No entanto, por decreto e definição do Concílio de Florença, eles assim conferem validamente o Sacramento. Aquelas palavras são suficientes para exprimir o elemento essencial do Batismo, isto é, a ablução que de fato se faz no mesmo instante.
Corolário o Batismo em nome de Cristo — O fato histórico
Se tempo houve, em que os Apóstolos batizassem só em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, devemos saber que o faziam por inspiração do Espírito Santo, para que, na organização inicial da Igreja, o Nome de Jesus desse maior prestígio à pregação, e Seu imenso poder divino fosse mais glorificado. De mais a mais, se penetrarmos até o âmago da questão, não nos custará reconhecer que, naquela forma, não falta nenhuma das partes prescritas pelo próprio Salvador. Quem diz “Jesus Cristo”, designa ao mesmo tempo a Pessoa do Pai que O ungiu, e o Espírito Santo com o qual foi ungido.
e sua interpretação
Ainda assim, há motivos para se duvidar de que os Apóstolos batizassem alguém por essa fórmula. Se quisermos, podemos seguir a autoridade de Santo Ambrósio e São Basílio, Padres de muita virtude e critério, que ao Batismo “em nome de Jesus” davam a seguinte interpretação: Estas palavras designavam o Batismo instituído por Cristo Nosso Senhor, em oposição ao Batismo conferido por João; nem por isso se desviavam os Apóstolos da forma comum e usual, que discriminam os nomes das três Pessoas Divinas. Ao que parece, São Paulo também usou a mesma linguagem na epístola aos Gálatas, porquanto disse: “Todos vós que fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes”. Queria, porém, declarar que foram batizados na fé de Cristo, e não de outra forma, senão a que foi prescrita pelo próprio Nosso Senhor e Salvador. O que até agora dissemos da matéria e forma, como partes essenciais do Batismo, é quanto basta para a instrução dos fiéis.
VII A ablução, como matéria próxima
Na colação deste Sacramento, devem ser observadas certas prescrições, para que a ablução seja válida. É, portanto, necessário que os pastores expliquem também esta parte da doutrina. Dirão, com brevidade, que a prática comum da Igreja admite, para se ministrar o Batismo, um dos três modos seguintes: ou mergulhando na água os candidatos ao Batismo, ou derramando água sobre eles, ou borrifando-os com água. Sendo observada qualquer destas maneiras, não há como se duvidar do valor do Batismo, porque nesse Batismo se faz aplicação da água, para indicar o seu efeito, que é a purificação da alma. Por isso, o Apóstolo dá ao Batismo o nome de “banho”. A ablução pode fazer-se por imersão, conforme a praxe que a Igreja seguiu longamente, desde os primeiros tempos; ou por afusão, que hoje vemos em uso freqüente; ou por aspersão, como se crê São Pedro tenha feito, quando num só dia converteu à verdade da fé e batizou três mil pessoas.
1 Número de abluções
Pouco importa que se faça uma só ablução, ou que se façam três. Antigamente, o Batismo era de fato ministrado de uma e outra maneira, e ainda hoje o poderá ser, conforme se deduz claramente de uma carta, que São Gregório Magno escreveu a Leandro. Os fiéis, porém, devem ater-se ao rito observado em sua própria igreja.
2 modo da ablução
Mas, o que vem muito ao caso é advertir que não se faz a ablução em qualquer parte do corpo, mas de preferência na cabeça, que é o centro onde convergem todos os sentidos interiores e exteriores; — e que o ministro do Batismo deve proferir as palavras da forma sacramental, no mesmo instante de derramar a água, não antes, nem depois da ablução. Dadas estas explicações, será ainda oportuno ensinar e lembrar aos fiéis, que o Batismo foi instituído por Cristo Senhor Nosso, assim como o foram os demais Sacramentos.
VIII Instituição do Batismo
1 Época da instituição
Desta matéria devem os pastores falar com assiduidade. Dirão que, [na instituição do] Batismo é preciso distinguir dois momentos determinados. O primeiro, quando Nosso Senhor o instituiu; o segundo, quando impôs a todos a obrigação de recebê-lo. Quanto ao primeiro, não resta dúvida que Nosso Senhor instituiu este Sacramento, quando conferiu à água a virtude de santificar, na ocasião que Ele mesmo se fez batizar por São João. Dizem São Gregório de Nazianzo e Santo Agostinho que, naquele instante, a água adquiriu a força de regenerar para a vida espiritual. Noutro lugar, escreve Santo Agostinho: “Desde que Cristo desceu na água, limpa a água todos os pecados”. E noutra parte ainda: “Nosso Senhor recebeu o Batismo, não porque precisasse de purificação, mas para que ao contato com o Seu Corpo puríssimo as águas se purificassem, e adquirissem a virtude de purificar”. Uma grande prova desta verdade é que por então a Santíssima Trindade, em cujo nome se confere o Batismo, manifestou a Sua divina presença. Ouviu-se a voz do Pai, estava ali a Pessoa do Filho, e o Espírito Santo desceu em figura de pomba. Além disso, abriram-se os céus, para onde já nos é dado subir pela graça do Batismo. Todavia, se alguém quiser indagar por que motivo Nosso Senhor conferiu à água uma força tão ampla e tão sobrenatural, [verá que] isto não fica ao alcance da inteligência humana. No entanto, poderemos ao menos compreender que a água, no Batismo de Nosso Senhor, ao tocar o Seu Corpo santíssimo e puríssimo, foi consagrada para o uso salutar do Batismo. Mas, conforme a fé nos ensina, isso acontece de tal maneira, que este Sacramento, com ser instituído antes da Paixão, só tirou sua virtude e eficácia da própria Paixão, que era por assim dizer o fim e a consumação de todas as obras de Cristo.
2 Época da Lei geral do Batismo
Acerca do outro momento, em que a lei do Batismo foi promulgada, não há lugar para incertezas. Todos os escritores eclesiásticos concordam em dizer que foi depois da Ressurreição de Nosso Senhor, quando Ele ordenou aos Apóstolos: “Ide, ensinai todos os povos, batizai-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Desde então, começou a vigorar a lei do Batismo para todos os homens, que queiram alcançar a eterna salvação. É o que provam as palavras autorizadas do Príncipe dos Apóstolos: “[Deus] nos fez renascer à esperança da vida, pela Ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos”. Prova igual se pode tirar daquela passagem, em que São Paulo falava da Igreja: “[Cristo] entregou-Se a Si mesmo por ela, para a santificar, purificando-a no banho da água pela palavra”. Ambos os Apóstolos parecem transferir a promulgação da lei do Batismo para uma época posterior à Morte de Nosso Senhor. Por conseguinte, não podemos duvidar, de modo algum, que as palavras do Salvador: “Se alguém não renascer da água e do Espírito Santo” — também se referem a esse mesmo tempo, que viria depois de Sua Paixão.
3 Fruto dessa explicação
Se os pastores forem zelosos na exposição destas verdades, os fiéis não deixarão por certo de reconhecer o insigne valor deste Sacramento, e de venerá-lo com a mais profunda piedade: mormente, se considerarem que, pela íntima operação do Espírito Santo, o Batismo a todos confere aqueles dons de grandiosa riqueza que, no Batismo de Cristo, se manifestaram exteriormente por meio de milagres. Realmente, se nossos olhos, à semelhança do que aconteceu ao servo de Eliseu, se abrissem a ponto de enxergarmos as coisas celestiais, ninguém seria tão carente de senso comum, que não sentisse a máxima admiração pelos divinos Mistérios do Batismo. Ora, não seria possível igual admiração de nossa parte, se os pastores revelassem de tal forma as riquezas deste Sacramento, que os fiéis as contemplassem, não com os olhos do corpo, mas com os olhos da razão, iluminados pelos clarões da fé?
IX Ministros do Batismo
Indicar, agora, quais são os ministros deste Sacramento, não é somente útil, mas até necessário: de um lado, para que os primeiros encarregados de tal ministério o exerçam com santo respeito; de outro lado, para que ninguém se ponha fora de suas atribuições, envolvendo-se afoitamente em direitos alheios, e lesando-os com presunção. De mais a mais, o Apóstolo admoesta-nos a ter ordem em todas as coisas.
1 Ministros ordinários: bispos e sacerdotes
Os fiéis devem, pois, saber que há três categorias de ministros. À primeira pertencem os Bispos e sacerdotes. Compete-lhes batizar, por direito inerente ao seu ministério, e não por faculdade extraordinária. Na pessoa dos Apóstolos, foi a eles que Nosso Senhor havia ordenado: “Ide… e batizai…”. Na prática, porém, costumam os Bispos ceder aos sacerdotes a administração do Batismo, para não terem de faltar ao dever mais imperioso de instruir o povo cristão. Os sacerdotes, porém, exercem essa função por direito próprio, e podem batizar, não obstante a presença do Bispo. É o que consta pela doutrina dos Santos Padres, e pela praxe comum da Igreja. Como foram instituídos para consagrar a Eucaristia, que é um Sacramento da paz e união, era conveniente lhes fosse conferido o poder de ministrar tudo o mais que é necessário, para tornar os homens participantes dessa mesma paz e unidade. Se alguns Padres afirmaram que os sacerdotes não tinham o direito de batizar, sem autorização do Bispo, parece que isto se aplicava ao Batismo ministrado, em certos dias do ano, com toda a solenidade.
2 Ministros extraordinários: os diáconos
A segunda categoria de ministros são os diáconos. Não podem, todavia, batizar sem a permissão do Bispo ou do sacerdote, segundo consta de muitas decisões dos tempos patrísticos.
3 Ministros de emergência: todos os homens
À última categoria pertencem aqueles que, em caso de urgência, podem batizar sem as cerimônias solenes. Deste número são todas as pessoas, também os leigos entre o povo, homens e mulheres, qualquer que seja a sua Religião. Em caso de necessidade, até os Judeus, os infiéis, e os hereges podem exercer este ministério, contanto que se proponham a fazer o que faz a Igreja Católica, quando confere o Batismo. Esta doutrina é confirmada por muitas determinações dos Santos Padres e dos Concílios. O Sagrado Concílio de Trento lançou formal anátema contra quem ousasse afirmar que não é verdadeiro o Batismo, que um herege administre em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, com a intenção de fazer o que faz a Igreja. E nisso devemos, realmente, admirar a suma bondade e sabedoria de Nosso Senhor. Como todos os homens estão estritamente obrigados a receber este Sacramento, [Nosso Senhor] escolheu a água como matéria dele, por ser a coisa mais comum que pode haver; e não quis, tampouco, excluir ninguém como ministro de sua válida administração. Naturalmente, como já foi dito, nem todos podem aplicar as cerimônias solenes, não porque os ritos e cerimônias tenham mais valor, mas porque são menos necessários que o próprio Sacramento.
4 Jerarquia entre os ministros
Não cuidem os fiéis que esse ministério seja a todos permitido sem nenhuma ressalva; é, pois, de suma conveniência estatuir-se uma certa jerarquia entre os ministros. Não compete à mulher batizar, se um homem estiver presente; nem ao leigo, se houver um clérigo; nem tampouco ao clérigo, quando se acha em presença de um sacerdote. No entanto, não merecem censura as parteiras, habituadas a batizar, se por vezes o fazem em presença de algum homem, que não saiba como se confere este Sacramento. Noutras circunstâncias, isto seria uma obrigação mais própria para o homem.
X Os padrinhos
Aos ministros que conferem o Batismo, nas condições já expostas, associam-se ainda outros auxiliares que, por costume antiguíssimo da Igreja Católica, eram geralmente admitidos nas cerimônias desta santa e salutar ablução. São eles os padrinhos, como dizemos hoje; os escritores eclesiásticos davam-lhes outrora o nome genérico de patronos, abonadores, fiadores. Tratando-se de um ponto que interessa quase todos os leigos, devem os pastores explicar bem os deveres dos padrinhos, para que os fiéis saibam as condições mais essenciais para o bom desempenho de tal ministério.
1 Necessidade
Antes de tudo, é preciso averiguar as razões por que a Igreja admite ainda padrinho ou abonadores no Batismo, além dos ministros do Sacramento. Todos verão que essa praxe se justifica plenamente, se considerarem o Batismo em seu caráter de regeneração espiritual, como meio de renascermos na condição de filhos de Deus. É dessa regeneração que falava São Pedro: “Em vossa condição de criancinhas recém-nascidas, apetecei o puro leite espiritual”. Portanto, desde que nasce, a criança precisa ter ama e mestra que se incumbam de educá-la, e de instruí-la nas ciências e nas artes. Ora, os que pelo Batismo começam a viver uma nova vida espiritual, precisam também de ser confiados a uma pessoa cheia de fé e prudência, em condições de ensinar-lhes as normas da vida cristã, e de guiá-los na prática de todas as virtudes, para que vão crescendo em Cristo, até se tornarem homens perfeitos pela graça de Deus. Ora, tendo a seu cargo a direção geral da freguesia, não dispõem os párocos de folga bastante, para poderem dedicar-se, pessoalmente, a essa catequese particular das crianças.
2 Origem dessa praxe
Prova-se a remota origem desta instituição, através de uma formal declaração de São Dionísio: “Nossos guias divinos — assim chama ele aos Apóstolos — entenderam e decidiram que as crianças fossem recebidas [na Igreja], segundo aquele santo costume, que levava os pais carnais a confiarem a criança a alguém, que a fosse instruindo nas coisas de Deus, e assumisse junto dela as obrigações de mestre e educador. Debaixo de sua direção, devia a criança passar o resto da vida, como que sujeita a um pai espiritual e fiador de sua eterna salvação”. Esta opinião tem a seu favor a autoridade de Santo Higino.
3 Laços espirituais
Por conseguinte, prova é de muita sabedoria que a Santa Igreja estabelecesse parentesco por afinidade, não só do batizante com o batizado, mas também do padrinho com o afilhado, e com os pais carnais deste. Os laços espirituais são de tal caráter, que não permitem legítimo matrimônio entre todas essas pessoas, e anulam qualquer matrimônio que venha a ser contraído.
4 Obrigações
Além disso, devem os pastores instruir os fiéis acerca das obrigações de padrinho. Este cargo está sendo muito descuidado na Igreja. O nome, vazio de sentido, já parece exprimir uma simples formalidade. Muitos fiéis nem vislumbram o que nele há de sagrado. No entanto, todo padrinho deve lembrar-se que sua obrigação principal é velar sempre pelos filhos espirituais: orientá-los em tudo quanto se refira à vida cristã; empenhá-los, enfim, a moldarem todos os seus atos na solene promessa que o padrinho fizera por eles, durante as cerimônias do Batismo. Ouçamos o que São Dionísio escreve a esse respeito, interpretando as declarações do padrinho: “Logo que esta criança possa entender a Religião, eu prometo persuadi-la e exortá-la, com a instância, a renunciar categoricamente a tudo o que se oponha à virtude; e a cumprir assim, por palavras e obras, a santa promessa que acaba de fazer”. Santo Agostinho externa-se no mesmo sentido: “Antes de tudo, eu vos exorto a todos, homens e mulheres, que levastes afilhados à pia batismal, para ficardes sabendo que, diante de Deus, vos fizestes fiadores por aqueles que, à vista de todo o povo, haveis recebido da fonte batismal”. Na verdade, quem assume algum encargo, tem o grande dever de honra de não fraquejar em sua fiel execução. Ora, quem publicamente se obrigou a ser mestre e protetor de alguém, não poderá, de modo algum, abandonar aquele que tomou debaixo de sua fiança e proteção, enquanto ver que ele precisa de sua valia e assistência. Numa instrução sobre os deveres dos padrinhos, Santo Agostinho resume, em poucas palavras, o que hão de ensinar a seus filhos espirituais: “Devem exortá-los, diz ele, a guardar a castidade, amar a justiça, e exercer a caridade. Devem, antes de tudo, ensinar-lhes o Credo, o Pai-Nosso, o Decálogo, bem como as noções mais rudimentares da Religião cristã”.
5 Escolha
Diante de tais normas, fácil é distinguirmos a que pessoas não se pode confiar o exercício desta santa tutela. São as que não querem cumpri-la fielmente, ou que não podem desempenhá-la com zelo e perfeição. Por conseguinte, não podem os pais carnais assumir tal ofício, para que melhor se veja a diferença entre a criação natural e a formação sobrenatural. Além dos pais, devem ser absolutamente excluídos desta função os hereges, os Judeus e infiéis, cujo empenho é sempre denegrir as verdades da fé, por meio de calúnias, e destruir radicalmente a piedade cristã.
6 Número dos padrinhos
Para o mesmo afilhado, não devem também ser admitidos vários padrinhos. Seja um apenas, homem ou mulher; quando mais dois, padrinho e madrinha. Assim o decretou o Concílio de Trento, já porque o ensino e a educação poderiam sofrer, se houvesse um sem-número de mestres; já porque era preciso cuidar que o parentesco espiritual não abrangesse maior contingente de pessoas, pois viria a impedir uma difusão mais ampla das legítimas uniões conjugais entre os homens.
XI Sujeito do Batismo
É muito útil, para os fiéis, o conhecimento das verdades que até agora temos ensinado. Urge mais ainda explicar-lhes que Deus impôs a todos os homens uma lei, obrigando-os a receberem o Batismo. Por conseguinte, os que não renascerem para Deus pela graça do Batismo, são criados para a eterna miséria e condenação, quer sejam filhos de pais fiéis, quer de pais infiéis. Devem, pois, os pastores explicar mais vezes aquela passagem do Evangelho: “Se alguém não renascer da água e do Espírito [Santo], não pode entrar no reino de Deus”.
1 Infantes
a Provas do pedobatismo
Esta lei não obriga os adultos exclusivamente, mas também as crianças desde a mais tenra idade. A Igreja assim a interpretou, por tradição apostólica, conforme no-lo garantem a doutrina e a autoridade comum dos Santos Padres. Além disso, não é de crer que Cristo Nosso Senhor quisesse negar o Sacramento e a graça do Batismo às crianças, das quais dizia: “Deixai vir a Mim os pequeninos, e não os embaraceis, porque deles é o reino dos céus”. Ele que as apertava aos braços, que lhe impunha as mãos, e que as abençoava. Ainda mais. São Paulo, pelo que lemos, havia batizado uma família inteira. Nesse caso, é evidente que tenha batizado também as crianças dessa família. Por ser figura do Batismo, a circuncisão encerra igualmente uma recomendação desse costume. Como todos sabem, era de praxe circuncidar os meninos, ao oitavo dia de seu nascimento. Ora, se para eles sortia efeito a circuncisão, praticada com a mão “para despojar a carne”, não há dúvida que às crianças também aproveita o Batismo, essa “circuncisão de Cristo, a qual não é praticada por mão humana”. Afinal, como diz o Apóstolo, “se pelo delito de um só, e por causa de um só, veio a reinar a morte, muito mais reinarão na vida, graças a um só, que é Jesus Cristo, todos quantos receberem abundantemente a graça e o dom da justificação”. Logo, se por culpa de Adão as crianças contraem o pecado original, tanto mais podem elas receber por Cristo Nosso Senhor a graça e a justiça, para reinarem na vida. Isto, porém, seria absolutamente impossível sem o Batismo.
b Provas da catequese às crianças
Os pastores, portanto, devem ensinar que é rigorosa obrigação batizar as crianças; depois, educá-las gradualmente, desde a primeira infância, para uma vida de genuína piedade, segundo as normas da religião cristã. Pois, como diz o Sábio com muito acerto: “O jovem, que tenha o seu caminho, dele não se apartará, nem depois de ficar velho”.
Corolário A que título são batizadas as crianças
Não padece dúvida que as crianças, ao serem batizadas, recebem de fato o Sacramento da fé, não porque creiam por ato pessoal de sua inteligência, mas porque são assistidas pela fé dos próprios pais, se estes forem cristãos: em todo o caso, pela fé de toda a agremiação dos Santos, se assim quisermos afirmar com Santo Agostinho. Na verdade, podemos dizer que as crianças são levadas ao Batismo por todos aqueles que desejam vê-las batizadas, e que por sua caridade ajudam a serem admitidas na comunhão do Espírito Santo.
c Época de batizar as crianças
Sendo assim, é preciso exortar seriamente os fiéis a levarem seus filhinhos à igreja, logo que possam fazê-lo sem perigo, para ali receberem o Batismo solene. Para as crianças, o único meio de salvação é a administração do Batismo. Compreende-se, pois, que grave é a culpa de quem as deixa sem a graça deste Sacramento, por mais tempo do que seja estritamente necessário. O motivo principal é que, nesse período precário, a vida da criança fica exposta a uma infinidade de perigos.
2 O Batismo de adultos — Pressupõe catequese
Manda a praxe antiga da Igreja que se proceda de outra maneira com pessoas adultas, já em pleno uso da razão, mormente com pessoas oriundas de pais infiéis. Em primeiro lugar, é preciso explicar-lhes as verdades cristãs. Com todo o carinho, devemos depois exortá-las e convidá-las a abraçarem a fé.
a durante certo tempo
Desde que façam tenção de se converter a Deus Nosso Senhor, cumpre advertir-lhes não dilatem a recepção do Sacramento, além do tempo prescrito pela Igreja. Pois está escrito: “Não tardes em converter-te ao Senhor, e não deixes de dia para dia a tua conversão”. Devemos, portanto, explicar-lhes que a perfeita conversão consiste na regeneração pelo Batismo. Quanto mais demorarem o Batismo, tanto mais tempo ficarão privados do uso e do efeito dos outros Sacramentos, pelos quais se mantém a Religião Cristã. Sem o Batismo, ninguém está em condições de recebê-los. Privam-se, ainda por cima, do fruto principal que recebemos do próprio Batismo. A água batismal não só lava e remove inteiramente as nódoas e impurezas de todos os pecados anteriores, mas também nos reveste da graça divina, com o auxílio da qual podemos dali por diante evitar a prevaricação, persistir na justiça e na inocência. Ora, todos reconhecem que nisso precisamente se resume a vida cristã.
b mas com alguma demora
Sem embargo, a Igreja nunca teve por costume conferir o Batismo sem mais delongas, quando se tratava de tais pessoas. Pelo contrário. Determinava, até, que o diferissem por certo espaço de tempo. Essa demora, porém, não envolve o mesmo perigo que ameaça as crianças pequenas, como dizíamos há pouco. Tratando-se de pessoas já em uso da razão, a firme vontade de receber o Batismo, unida ao arrependimento das faltas da vida anterior, é quanto basta para conseguirem a graça da justificação, se sobrevier algum acidente repentino, que as impeça de receber a ablução sacramental.
c para melhor seleção
De outro lado, essa dilação acarreta muitas vantagens. Antes de tudo, porque a Igreja deve tomar todas as precauções, para que ninguém receba este Sacramento por disfarce ou hipocrisia. A demora permite-lhe averiguar melhor as intenções do batizando. Por isso, lemos nos antigos Concílios uma disposição, segundo a qual os Judeus, desejosos de abraçar a fé católica, deviam fazer alguns meses de catecumenato, antes de serem admitidos à regeneração do Batismo.
d para melhor instrução
Em segundo lugar, porque assim os catecúmenos adquirem uma noção mais nítida da fé que vão professar, e de todas as leis e normas que regem a vida cristã.
e para maior decoro do Sacramento
Como última razão, podemos alegar o maior culto religioso que se tributa ao Sacramento, porquanto os catecúmenos só recebem o Batismo em dias determinados, com todo o esplendor das cerimônias litúrgicas.
Corolário Casos excepcionais
De vez em quando, há razões de peso para não se diferir a administração do Batismo, como acontece em perigo de vida iminente, sobretudo se os batizandos já estão bem instruídos nos mistérios da fé. Assim procederam [o diácono] Filipe e o Príncipe dos Apóstolos. Aquele batizou o camareiro da rainha de Candace, e este a Cornélio, sem mais tardanças. Conferiram o Batismo, logo que os candidatos se prontificaram a seguir a fé.
XII Disposições do sujeito
1 Intenção
É forçoso também ensinar e explicar ao povo, em que disposições devem as pessoas apresentar-se, para a recepção do Batismo. A primeira é que tenham desejo e vontade de serem batizadas. Já que pelo Batismo o homem morre ao pecado, e começa uma vida nova, é justo que o Batismo não seja conferido a quem o recusa e repele, mas tão somente aos que o aceitam com prazer e boa vontade. Por isso, vemos sempre observada a santa tradição de nunca se conferir o Batismo a quem quer que seja, sem lhe perguntar antes se deseja [realmente] ser batizado. Nem das crianças se pode afirmar que lhes falte tal intenção, porque nesse ponto manifesta é a vontade da Igreja, que por elas responde.
Corolário Batismo de dementes e furiosos
Dementes e furiosos que, antes da loucura, tinham juízo normal, e não mostraram vontade de receber o Batismo, não podem ser batizados, senão em perigo de vida. Achando-se, pois, tais pessoas em perigo de vida, devem ser batizadas, se antes da doença deram algum sinal que indicasse a sua vontade. Se o não deram, é preciso desistir de administrar o Batismo. Aplica-se a mesma regra aos letárgicos. As pessoas, porém, que nunca lograram plena consciência de si mesmas, a ponto de não terem uso da razão, devem ser batizadas sob a tutela da Igreja, assim como o são as criancinhas que ainda não alcançaram o uso da razão. Esta é, evidentemente, a praxe autorizada da Igreja.
2 Fé
Além da intenção de se receber o Batismo, há necessidade absoluta da fé, para se conseguir a graça sacramental. As razões são idênticas às que já foram expostas relativamente à intenção; porquanto Nosso Senhor e Salvador declarou: “Quem crer, e for batizado, será salvo”.
3 Contrição e propósito
Depois, é necessário que a pessoa se arrependa das faltas cometidas, das desordens que tenha havido em sua vida anterior, e se proponha de evitar todos os pecados para o futuro. De forma alguma poderia ser admitido quem pedisse o Batismo, sem querer todavia abandonar sua vida pecaminosa. Nada é mais contrário à graça e aos efeitos do Batismo, do que a íntima disposição de quem não quer jamais romper com o pecado. Ora, se o homem deseja o Batismo, é para se revestir de Cristo e ficar em união com Ele. Por essa razão não devem ter acesso à fonte sagrada todas as pessoas que se obstinam em seus pecados e vícios.
Corolário O Batismo em más disposições
Outra consideração. Não é lícito baldar o uso de alguma coisa, que tenha relação com Cristo e Sua Igreja. Ora, quanto à graça da justificação, é claro que o Batismo não terá nenhum valor para quem se propõe a “viver segundo a carne, e não segundo o espírito”. Quanto ao valor do Sacramento, não pode haver dúvida alguma. A pessoa [mal disposta] recebe o caráter sacramental, contanto que, ao ser batizada na forma prescrita, tenha a intenção de receber o [Sacramento] que a Igreja administra. Por esse motivo, respondeu o Príncipe dos Apóstolos àquela grande multidão de homens, que, “cheios de compunção” — como diz a Escritura — lhe perguntavam, a ele e aos Apóstolos, o que deveriam fazer: “Obrai penitência, e cada um de vós seja batizado”. Noutra ocasião, disse-lhes ainda: “Arrependei-vos, e convertei-vos, para que sejam perdoados os vossos pecados”. Na epístola aos Romanos, São Paulo também diz, de maneira positiva, que todo aquele que recebe o Batismo, deve absolutamente morrer ao pecado. Admoesta-nos, por conseguinte, a não entregarmos “nossos membros ao pecado, como instrumentos de iniqüidade”, mas a consagrarmo-nos a Deus, “como tais que da morte tornaram à vida”.
4 Conseqüências para a vida cristã
Pela assídua meditação destas verdades, os fiéis hão de mover-se, antes de tudo, a admirar profundamente a infinita bondade de Deus, que nos outorgou o Batismo, esse dom tão singular quão divino, sem nenhum merecimento de nossa parte, mas só por um efeito de Sua misericórdia. Ainda mais. Quando lhes calar bem no espírito quão longe de qualquer culpa devem manter-se, em sua vida, aqueles que foram agraciados de tão grande benefício, os fiéis não deixarão de reconhecer que o primordial dever do cristão é levar, todos os dias, uma vida tão santa e temente a Deus, como se cada dia acabassem de receber a graça sacramental do Batismo. Ora, para atear no coração dos fiéis este amor à verdadeira piedade, não há meio mais eficaz do que explicarem os pastores, com toda a diligência, quais são os efeitos do Batismo.
XIII Efeitos do Batismo
Destes efeitos, é preciso falar muitas vezes, para que os fiéis reconheçam melhor a sua eminente dignidade, e dela não se deixem jamais esbulhar pelas tricas e violências do inimigo.
A Isenção dos males
1 Perdão de todos os pecados
Em primeiro lugar, importa dizer que, pela admirável virtude deste Sacramento, é remitido o pecado, quer o original que herdamos de nossos primeiros pais, quer os pecados pessoais, ainda que eles sejam de uma malícia indescritível. Muito tempo antes, Deus havia falado pela boca do profeta Ezequiel, que assim vaticinou: “Derramarei sobre vós uma água pura, e sereis purificados de todas as vossas contaminações”. E São Paulo, depois de enumerar aos Coríntios uma longa série de pecados, acrescentou: “Na verdade, assim fostes antigamente, mas agora estais purificados, agora estais santificados”. Consta também, com evidência, que a Igreja sempre ensinou esta mesma doutrina. No seu livro sobre o Batismo das crianças, Santo Agostinho se exprime nestes termos: “Pela geração da carne, o homem só contrai o pecado original; mas, pela regeneração do espírito, consegue a remissão não só do pecado original, mas até dos pecados voluntários”. E São Jerônimo escreve a Oceano: “No Batismo, são perdoados todos os pecados”. Para desfazer de vez todas as dúvidas, o Concílio de Trento confirmou as definições de outros Concílios, e lançou anátema contra quem ousasse ter outra opinião, e afirmasse que, apesar de perdoados no Batismo, os pecados não seriam inteiramente extirpados ou desarraigados, mas só como que raspados exteriormente, de sorte que suas raízes continuariam ainda cravadas na alma. Pois, para repetirmos as palavras textuais do Concílio, “Deus nada aborrece naqueles que foram regenerados, porque não existe nenhum motivo de condenação naqueles que, em virtude do Batismo, foram verdadeiramente sepultados com Cristo para a morte; naqueles que não vivem segundo a carne, e se desapegaram do homem velho, para se revestirem do homem novo, criado à imagem de Deus, e dessa maneira se tornaram inocentes, imaculados, puros, irrepreensíveis, e agradáveis a Deus”.
embora remanesça a concupiscência
Conforme o que o Concílio definiu no mesmo decreto, verdade é que nas pessoas batizadas remanesce a concupiscência ou aguilhão do pecado. Essa, porém, não é pecado no rigor da palavra. Como Santo Agostinho também diz, “a culpa [resultante] da concupiscência é perdoada às crianças, mediante o Batismo, mas fica-lhes a própria concupiscência, para as exercer na luta”. Noutro lugar, reafirma ele a mesma verdade: “No Batismo, destrói-se a culpa [provinda] da concupiscência, mas persiste a fragilidade”. Com efeito, a concupiscência vem do pecado, mas em si não é outra coisa senão um apetite da alma que, por sua natureza, repugna à razão. Porém seus movimentos não envolvem nenhuma malícia de pecado, contanto que a vontade não consinta neles, nem se deixe arrastar por qualquer negligência. Quando São Paulo declarou: “Eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissera: Não cobiçarás!” — queria ele referir-se à aberração da vontade, e não à própria concupiscência.
mas os pecados são totalmente extintos
São Gregório sustenta a mesma opinião, porquanto escreve: “Dizem alguns que, no Batismo, os pecados são remitidos só pela rama. Haverá, no entanto, opinião que exprima maior descrença? Na realidade, pelo Sacramento da fé fica a alma radicalmente livre de pecados, para só viver unida a Deus”. Em confirmação desta verdade, alega as palavras de Nosso Salvador, que diz no Evangelho de São João: “Quem tomou banho, não precisa senão lavar os pés, e todo ele estará limpo”.
Quem quiser contemplar uma imagem concreta desta realidade, ponha-se a refletir na história de Naamã, o Sírio leproso. Depois de se ter banhado sete vezes nas águas do Jordão, de tal modo ficou limpo da lepra, que sua pele, como diz a Escritura, se assemelhava à pele de uma criancinha. Daí nasce que o efeito propriamente dito do Batismo é a remissão total dos pecados, quer do original, quer dos pessoais, contraídos por malícia nossa. Para esse fim é que Nosso Senhor e Salvador instituiu o Batismo, conforme o declarou o Príncipe dos Apóstolos, com toda a evidência: “Convertei-vos, e faça-se cada um de vós batizar em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos pecados”. E aqui não faremos menção de outros testemunhos.
2 Remissão de todas as penas dos pecados pessoais
No Batismo, Deus não só remite os pecados, mas por um efeito de sua bondade perdoa também todas as penas de nossos pecados e iniqüidades. Ainda que todos os Sacramentos possuam o efeito comum de comunicar a virtude da Paixão de Cristo Nosso Senhor, contudo só do Batismo dizia o Apóstolo que, por meio dele, morremos e somos sepultados com Cristo. Por tal motivo, a Santa Igreja sempre julgou que seria grave profanação do Sacramento impor aos batizados aquelas obrigações de piedade, que os Santos Padres de ordinário chamam obras de satisfação. No entanto, não contradiz a esta doutrina a velha praxe, pela qual a Igreja impunha antigamente quarenta dias de jejum consecutivos aos Judeus que se batizavam. Este preceito não tinha o caráter de satisfação. Era um meio de induzir os neófitos a intensificarem por algum tempo os seus jejuns e orações, em sinal de respeito à dignidade do Sacramento.
Corolário As penas civis do pecado
Apesar da absoluta certeza de serem perdoadas pelo Batismo as penas dos pecados, ninguém fica livre das penalidades do foro cível, que tenha porventura incorrido, em conseqüência de algum delito grave. Quem for réu de morte, não escapa pelo Batismo à pena capital prevista pela legislação civil. Sem embargo, digna seria dos maiores encômios a religiosa clemência, com que os chefes da nação perdoassem aos culpados também essa pena [temporal], para exaltarem a glória de Deus em Seus Sacramentos.
3 Remissão das penas do pecado original após a morte
Outro efeito do Batismo é apagar todas as penas que decorrem do pecado original, depois desta vida terrena. Mas a possibilidade de consegui-lo nos advém dos merecimentos da Morte de Nosso Senhor; pois, como já ficou dito, o Batismo nos faz morrer com Ele. “Certamente, diz o Apóstolo, se com Ele estivermos unidos pela participação de Sua Morte, também o estaremos pela participação na Sua Ressurreição”.
mas não dos sofrimentos nesta vida
Poderia alguém indagar por que a recepção do Batismo não nos livra dos sofrimentos, já nesta existência mortal; por que também a sagrada ablução não nos restitui, de sua virtude, aquele grau de vida perfeita em que, antes de pecar, se achava Adão, o primeiro pai do gênero humano? Responder-se-á que assim não acontece por duas razões principais.
a porque Cristo os quis tolerar
A primeira é a seguinte. Pelo Batismo, fomos unidos ao Corpo de Cristo e tornamo-nos membros Seus. Como tais, não nos competia receber honras maiores do que as outorgadas a Ele, que é a nossa Cabeça. Ora, apesar de possuir, desde o primeiro instante de Sua conceição, a plenitude da graça e da verdade, Cristo Nosso Senhor havia assumido a fragilidade da natureza humana, e dela não se despojou, antes que sofresse os tormentos da Paixão e a própria morte; [só] depois é que ressurgiu para a glória de uma vida imortal. Não é, pois, de admirar que os fiéis, não obstante a justificação pela graça do Batismo, continuem num corpo fraco e mortal; pois terão de sofrer muitos trabalhos por amor a Cristo, de passar pela morte e de ressurgir para uma vida nova, antes de serem dignos, afinal, de desfrutar com Cristo a eterna bem-aventurança.
b porque nos dão ocasiões de virtude
A segunda razão por que, depois do Batismo, remanesce em nós a fraqueza física, a doença, o sentido da dor, o ímpeto da concupiscência, é para que nos sirvam de campo e sementeira de virtudes, donde poderemos colher maiores frutos de glória e prêmios mais abundantes. Realmente, levando com paciência os sofrimentos da vida; submetendo, com o auxílio de Deus, nossos baixos instintos ao império da razão, podemos seguramente confiar que, se houvermos combatido o bom combate, consumado a carreira, e conservado a fé, como o fez o Apóstolo: Nosso Senhor, que é juiz justo, dar-nos-á naquele dia da retribuição a coroa da justiça, que também nos está preparada.
Como acontece aos Judeus
Evidentemente, não foi de outra forma que Nosso Senhor se houve com os filhos de Israel. Salvou-os da servidão dos Egípcios, submergindo Faraó com seu exército nas ondas do mar. Entanto, não os introduziu logo na venturosa terra da Promissão, mas sujeitou-os primeiro a muitas e variadas provações. Depois, quando os investiu na posse da terra prometida, expulsou de suas sedes uma parte dos antigos habitantes, mas deixou algumas tribos que os israelitas não puderam exterminar, para que ao povo de Deus nunca faltasse ocasião de adestrar sua força e valor na guerra.
c porque excluem nos neófitos motivos inconfessáveis
Acresce ainda outra razão. Se além dos dons celestiais com que o Batismo exorna a alma, fossem também conferidos benefícios para o corpo, seria para recear que muitos procurassem o Batismo, motivos antes pelas vantagens da vida presente, do que pela aspiração da glória futura. De feito, o cristão não deve ter na mente os bens falsos e incertos que aparecem aos olhos, mas os eternos e verdadeiros, que não se podem ver.
d porque o cristão é consolado nos sofrimentos
Mas, apesar das misérias que a infestam, nossa vida na terra não deixa de ter as suas alegrias e doçuras. Para nós que, pelo Batismo, fomos enxertados em Cristo, à maneira de pimpolhos, poderá haver alegria mais suave que a de tomar a cruz aos ombros, seguir o Divino Chefe, não arrefecer diante de nenhum trabalho, não recuar com qualquer perigo, que nos tolha de aspirar ardentemente ao galardão, para o qual nos chamou nas alturas? Uns hão de receber de Nosso Senhor a coroa da virgindade; outros, a láurea de mestres e pregadores; outros, a palma do martírio; outros, enfim, a remuneração que corresponde às suas virtudes. Entretanto, nenhum de nós seria agraciado com tais honras e distinções, se antes não nos adestrássemos na arena das tribulações da vida, e não saíssemos vencedores do campo de batalha.
B Dotação de bens
1 Graça santificante
Tornemos agora aos efeitos do Batismo. É preciso explicar que, por sua virtude, este Sacramento não só nos livra dos males, por maiores que sejam em si, mas também nos enriquece de preciosos dons e prerrogativas. Nossa alma se enche da graça divina, pela qual nos tornamos justos, filhos de Deus, e herdeiros da eterna salvação; pois está escrito: “Quem crer e for batizado, será salvo”. O Apóstolo por sua vez atesta que a Igreja foi purificada no banho da água pela palavra. Ora, o Concílio de Trento a todos propõe a crer, sob pena de excomunhão, que a graça não consiste apenas na remissão dos pecados, mas é uma qualidade divina que inere à alma, é um certo esplendor, é uma espécie de luz que destrói todas as manchas de nossas almas, e torna nossas almas mais formosas e mais brilhantes. Isso é o que a Sagrada Escritura dá claramente a entender, quando diz que a graça é comunicada por efusão, e quando habitualmente lhe chama penhor do Espírito Santo.
2 virtudes infusas
A graça, porém, é acompanhada pelo sublime cortejo de todas as virtudes, que Deus infunde na alma juntamente com a graça. Por isso, naquela declaração do Apóstolo a Tito: “Ele nos salvou pelo banho da regeneração, e pela renovação no Espírito Santo, que derramou sobre nós com abundância, por Jesus Cristo Nosso Salvador” — Santo Agostinho, explicando as palavras “derramou com abundância”, acrescentou o comentário: “Isto quer dizer, para remissão dos pecados e abastança de virtudes”.
3 Inserção no Corpo de Cristo
Além do mais, o Batismo une-nos estreitamente com Cristo, como membros que se unem à [sua própria] cabeça. Ora, da cabeça dimana a força, que impele as várias partes do corpo a bem exercerem suas respectivas funções. De forma análoga, é da plenitude de Cristo Nosso Senhor que também se difunde em todos os justificados uma força e graça divina, que os habilita para todas as obrigações da vida cristã.
Corolário Razão das lutas no cristão
Todavia, ninguém deve estranhar que, apesar de dotados e providos de tanta abundância de virtudes, ainda assim não podemos começar, e muito menos concluir, sem grande luta e trabalho, as obras que são boas e agradáveis a Deus. Se tal acontece, não é porque a bondade divina não nos conceda a força que engendra as [boas] obras; mas, porque a concupiscência continua, depois do Batismo, a mover tenaz guerra contra o espírito. Nessa luta, porém, seria indigno que o cristão se encolhesse e desanimasse; porquanto, confiados na bondade de Deus, devemos ter a firme esperança de que, pelo exercício cotidiano da virtude, se nos tornará também fácil e agradável “o que é digno, o que é justo, o que é santo”. Meditemos de boa mente estas verdades, e ponhamo-las em prática com íntima satisfação, para que o Deus da paz esteja sempre conosco.
4 Impressão do caráter batismal
Pelo Batismo, somos enfim marcados com um sinal que jamais poderá extinguir-se de nossa alma. Quanto a esse caráter batismal, não é preciso deter-nos em muitas explicações, porque neste lugar podemos recapitular quase tudo o que a respeito do caráter se tratou na doutrina dos Sacramentos em geral.
Corolário O Batismo não pode ser reiterado
Dada a natureza do caráter sacramental, a Igreja definiu como dogma que o Sacramento do Batismo não deve de modo algum ser reiterado. Com toda a solicitude, expliquem os pastores este ponto repetidas vezes, para que os fiéis não abracem opiniões errôneas. Esta é também a doutrina do Apóstolo, que declarou: “Um é o Senhor, uma é a fé, um é o Batismo”. Depois, quando exortava os Romanos a que, estando mortos em Cristo pelo Batismo, não perdessem a vida que d’Ele haviam recebido, expressou-se da seguinte maneira: “Quanto à Sua morte, Cristo morreu pelo pecado, uma vez para sempre”. Ora, esta linguagem indica abertamente que, se Cristo não pode morrer segunda vez, nós tampouco podemos tornar a morrer mediante o Batismo. Por essa razão, a Igreja professa de público a sua fé “num só Batismo”. Vê-se que isso condiz, de todo o ponto, com a natureza e a razão de ser do Sacramento, porquanto o Batismo constitui uma espécie de regeneração espiritual. Ora, pela lei da natureza, somos gerados e nascemos uma só vez, e, como diz Santo Agostinho, não nos é possível tornar ao seio materno. Assim também, só pode haver uma só geração espiritual, e o Batismo não deve jamais ser repetido.
senão condicionalmente
Na dúvida, se uma pessoa já foi batizada, não se deve julgar que a Igreja repita o Batismo, quando lho administra pela fórmula seguinte: “Se estás batizado, eu não te batizo de novo; mas, se não estás batizado, eu te batizo em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Não se trata, portanto, de uma pecaminosa repetição, mas de uma santa administração do Batismo, em forma condicional.
quando se duvida positivamente de sua validade
Nesta matéria, devem os pastores atender a um ponto, contra o qual se peca quase todos os dias, com grave profanação do Sacramento. Cuidam alguns não cometer falta nenhuma, batizando condicionalmente a quem quer que seja. Quando lhes apresentam uma criança, acham supérfluo indagar se já foi batizada. Logo a batizam, sem mais nem menos. Ainda pior. Embora saibam que o Sacramento foi administrado em casa, chegam a repetir condicionalmente a sagrada ablução com as solenes cerimônias na igreja. Assim, porém, cometem eles um sacrilégio, e contraem aquela mácula, a que os teólogos chamam irregularidade. Por decisão do Papa Alexandre, essa forma de Batismo só tem cabimento, quando, após sério exame, não se pode averiguar, se alguém foi validamente batizado. Do contrário, nunca é lícito conferir outra vez o Batismo a alguém, ainda que se fizesse sob condição.
5 O direito ao céu
Além dos já mencionados, o derradeiro efeito que em nós produz o Batismo, e ao qual todos os mais parecem subordinar-se, é o abrir para cada um de nós as portas do céu, que antes nos estavam vedadas. Os efeitos que em nós opera a virtude do Batismo, claramente os podemos inferir das ocorrências que, pela narração autorizada do Evangelho, acompanharam o Batismo de Nosso Salvador. Os céus abriram-se, o Espírito Santo apareceu em figura de pomba, e baixou sobre Cristo Nosso Senhor. Ora, para os que recebem o Batismo, é isto um sinal de que também a eles são conferidos os dons do Espírito Santo, e que a porta do céu lhes é franqueada; todavia, não para entrarem logo na posse da glória, por ocasião do Batismo, mas em tempo mais oportuno, quando passarem da condição mortal para a imortalidade, livres então de todas as misérias, que já não terão lugar na eterna bem-aventurança. São tais os frutos do Batismo. Atenta a eficácia sacramental, não resta a menor dúvida de que eles se destinam a todos os homens, da mesma maneira. Mas, se olharmos às disposições de quem se batiza, força é declarar que, de suas graças e frutos superiores, uns recebem mais, outros menos.
XIV As cerimônias batismais
Resta ainda explicar, com clareza e concisão, o que se deve saber acerca das orações, ritos e cerimônias deste Sacramento. Até certo ponto, podemos aplicar aos ritos e cerimônias [sacramentais] o que o Apóstolo afirmava do dom de línguas. Não traz ele nenhum proveito, se os fiéis não entenderem o que diz o iluminado.
1 Valor das cerimônias em geral
Ora, os ritos e cerimônias são imagens e sinais daquilo que se opera nos Sacramentos. Se o povo cristão ignorar o sentido e o alcance desses sinais, é claro que para ele não pode ser muita a utilidade das cerimônias. Devem, pois, os pastores empenhar-se em que os fiéis as compreendam, convencidos de que as cerimônias, apesar de menos essenciais, são muito valiosas e dignas do maior apreço e veneração. Em prova desta afirmativa, basta a autoridade de quem as instituiu — e foram inegavelmente os Apóstolos — bem como o fim para o qual eles as queriam aplicadas. É evidente que, por meio das cerimônias, a administração dos Sacramentos se reveste de maior respeito e santidade. Elas põem quase que à vista os admiráveis e grandiosos efeitos, que se ocultam no Sacramento; e fazem também calar mais ao vivo, no ânimo dos fiéis, a infinita grandeza dos benefícios de Deus.
2 Sentido das cerimônias batismais
Vamos aqui reduzir a três categorias todos os ritos e orações, que a Igreja aplica na administração do Batismo. Assim os pastores terão certa ordem na maneira de explicar, e os ouvintes poderão guardar mais facilmente as instruções que lhes são dadas. Entram na primeira categoria as cerimônias que se observam antes do acesso à pia batismal; na segunda, as cerimônias que se fazem junto ao próprio batistério; na terceira, as cerimônias que se acrescentam após a colação do Batismo.
a Antes do acesso à pia batismal — Bênção da água
Antes de tudo, torna-se mister preparar a água que serve para batizar. Benze-se, pois, a fonte batismal, e junta-se-lhe o óleo da unção mística. Todavia, não é lícito benzê-la em qualquer época do ano; porquanto uma praxe antiga manda esperar certos dias festivos, que são considerados como os mais santos e mais solenes de todos. Na vigília de tais festas é que se procede à bênção [solene] da água batismal. Salvo caso de emergência, era costume da Igreja primitiva que só nesses dias se administrasse também o Batismo. Atualmente, a Igreja houve por bem não conservar tal costume, em razão dos múltiplos perigos que assaltam a nossa vida cotidiana. Sem embargo, ela mantém ainda hoje esse caráter das vigílias de Páscoa e Pentecostes, porque as considera como dias solenes, reservados para a bênção da água batismal.
chegada do batizando
Explicada a bênção da água batismal, é preciso falar das outras cerimônias que precedem ao Batismo. Os batizandos são carregados ou conduzidos à entrada da igreja, mas não podem absolutamente ingressar no interior. São ainda indignos de penetrar na Casa de Deus, enquanto não sacudirem o jugo de sua torpe servidão, e não se consagrarem de corpo e alma a Cristo Nosso Senhor e ao Seu legítimo serviço.
o primeiro escrutínio
Em seguida, o sacerdote pergunta-lhes o que pretendem da Igreja. Recebida a resposta, expõe-lhes primeiro a doutrina da fé cristã, que no Batismo deverão professar. Esta instrução, porém, se faz em forma de catecismo. É uma praxe que se estriba, inegavelmente, naquele preceito que Nosso Senhor dera aos Apóstolos: “Ide pelo mundo universo, e ensinai todos os povos. Batizai-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observarem tudo o que vos tenho mandado”. Mostra-nos esta ordem que o Batismo não deve ser conferido, antes de se fazer, pelo menos, uma breve exposição dos principais artigos de nossa Religião.
ou catequese
Ora, a catequese se processa por meio de várias perguntas, às quais o batizando responde pessoalmente, se for de idade adulta; mas, se for criança sem uso da razão, o padrinho responde por ela, na forma do Ritual, e faz também as solenes promessas do Batismo.
exorcismos
Segue-se o exorcismo. Consta de santas e piedosas fórmulas e orações, cuja finalidade é expelir o demônio, rebatendo e anulando a sua força.
Ao exorcismo, emparelham-se depois outras cerimônias. Em seu caráter místico, cada qual encorpa uma idéia particular e profunda.
imposição do sal
Quando, pois, se deita sal na boca do batizando, é sinal evidente de que, pela doutrina da fé, ele há de livrar-se da podridão do pecado, tomar gosto pelas boas obras, e deliciar-se no alimento que lhe dá a Sabedoria Divina.
o sinal da Cruz
Faz-se-lhe então o sinal da Cruz na testa, olhos, peito, ombros e ouvidos. Todas essas persignações têm por fim indicar que a graça do Batismo abre e fortalece os sentidos do batizando, para que ele possa receber a Deus, bem como entender e observar os Seus Mandamentos.
a insalivação
Em seguida, umedecem-se com saliva o nariz e as orelhas do batizando. Sem mais tardar, é enviado à fonte batismal, à semelhança daquele cego que recuperou a vista no Evangelho. Nosso Senhor havia-lhe passado lodo por sobre os olhos, e dado ordem que os fosse lavar na piscina de Siloé. Assim compreendemos ser essa também a virtude da ablução sacramental. Dá luzes ao entendimento, para que conheça de modo perfeito as verdades da Revelação.
b Na pia batismal — Promessas do batismo
Findos estes ritos preliminares, chega-se à fonte batismal, onde os ritos e cerimônias são de outro caráter. Podemos considerá-los como que um breve apanhado da Religião Cristã. Em termos precisos, faz o sacerdote três perguntas ao batizando: “Renuncias a Satanás? — e a todas as suas obras? — e a todas as suas vaidades?”. Então o catecúmeno, ou o padrinho em seu nome, responde a cada interpelação, dizendo: “Renuncio”. Quem quer, pois, alistar-se nas fileiras de Cristo, deve antes de tudo prestar o santo e inviolável compromisso de que há de renunciar ao demônio e ao mundo, e que nunca em sua vida deixará de odiá-los como os seus mais terríveis inimigos.
profissão de fé
Parando depois junto à pia batismal, o sacerdote interroga o candidato nestes termos: “Crês em Deus Pai Todo-Poderoso?”. Ao que o batizando responde: “Creio”. Interrogado a seguir acerca dos outros artigos do Símbolo, ele faz assim por diante uma solene profissão de sua fé. Não se pode negar que este duplo compromisso abrange em si todos os princípios do dogma e da moral cristã.
o ato do Batismo
Chegado, portanto, o momento de conferir o Batismo, o sacerdote pergunta ao candidato se quer ser batizado. Afirmando este a sua vontade, quer por si mesmo, quer por intermédio do padrinho, quando se trata de um infante, o sacerdote logo o batiza em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Assim como o homem por sua vontade obedeceu à serpente, e por própria culpa mereceu a condenação, assim também não quer Nosso Senhor admiti-lo em Sua milícia, senão como soldado voluntário, que consiga a salvação eterna por livre obediência aos Preceitos Divinos.
c Após o batizado — Unção com o Crisma
Feita a ablução batismal, o sacerdote unge com Crisma o vértice do neófito, a fim de que este reconheça que, desde então fica unido a Cristo, como um membro se une à sua cabeça; que se tornou parte do Seu Corpo [Místico]; que como tal passou a chamar-se cristão, nome derivado de Cristo, assim como o nome de Cristo se derivou de “crisma”. Para entendermos facilmente o que significa “crisma”, basta-nos seguir, como diz Santo Ambrósio, as orações que o sacerdote recita nessa ocasião.
imposição da túnica
A seguir, o sacerdote reveste o neófito de uma túnica branca, enquanto diz as palavras: “Recebe a túnica branca, que deverás levar, sem mancha, até ao tribunal de Jesus Cristo Nosso Senhor, para poderes alcançar a vida eterna”. Às crianças, que não podem envergar a túnica, lançar-se-lhes por cima uma toalha branca, enquanto são proferidas as mesmas palavras. Ensinam os Santos Padres que a veste batismal simboliza a glória da ressurreição, para a qual somos regenerados em virtude do Batismo; o brilho e a formosura que adorna a alma, após a extinção do pecado; a inocência e pureza de costumes, que o neófito deve conservar durante toda a sua vida.
a vela acesa
Coloca-se então entre as mãos do neófito uma vela acesa, cujo simbolismo lhe recorda a obrigação de nutrir e aumentar, pela zelosa prática de boas obras, a fé inflamada de caridade que ele recebeu no Batismo.
XV Nome de Batismo
Por último, impõe-se um nome ao neófito. Deve tomar-se o nome de um Santo que tenha sido canonizado, graças à sua notável piedade e amor a Deus. A semelhança de nome induz facilmente o neófito à imitação da [mesma] santidade e virtude. Ainda mais. Em procurando imitar o Santo, o neófito não deixará também de invocá-lo, movido pela confiança de que o terá como defensor, para a salvação da alma e do corpo. À luz destas razões, devemos reprovar os cristãos que, para batizar os filhos, timbram em escolher nomes pagãos, e até nomes de personagens que se assinalaram pelos mais nefandos crimes. Sinal é de pouca estima pela Religião Cristã, quando alguém se compraz em avivar a memória dos ímpios, querendo assim que nomes tão profanos sejam continuamente pronunciados aos ouvidos dos fiéis cristãos.
XVI Frutos desta instrução
Se os pastores derem todas estas explicações acerca do Batismo, parece que não omitirão nenhum ponto essencial da respectiva doutrina. Expusemos o que significa o termo “Batismo”; em que consiste a sua natureza; e quais são as suas partes componentes. Dissemos por quem foi instituído; quais são os ministros necessários para a consumação do Sacramento; e quais pessoas convém tomar como mestras e educadoras, para protegerem a virtude ainda frágil do batizado. Vimos, ainda, a que pessoas devemos administrar o Batismo, e com quais disposições interiores devem elas recebê-lo; quais enfim os efeitos e a virtude deste Sacramento. Quanto o permitia o nosso programa, referimos, em último lugar, os ritos e cerimônias que devem ser observados. Lembrem-se, pois, os pastores que o fito principal destas explicações é incutir nos fiéis a amorosa solicitude de guardarem, religiosamente, as promessas feitas por ocasião do Batismo, e de levarem uma vida que corresponda à santíssima dignidade do nome cristão.