Catecismo Romano · Dos Sacramentos

Capítulo 1

Dos Sacramentos em geral

Dos Sacramentos em geral

I Importância dos Sacramentos

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Se a Doutrina Cristã, para ser exposta em todas as suas partes, já requer certo preparo e diligência, excepcional é a noção e perícia que do pároco exige a disciplina dos Sacramentos, não só porque Deus a prescreve como necessária, mas também porque ela encerra em si graças e vantagens superabundantes. Por meio de uma instrução firme e constante, devem os fiéis dispor-se de tal maneira, que lhes seja possível receber, digna e frutuosamente, esses dons de tanta grandeza e santidade, sem que haja para os sacerdotes o perigo de não respeitarem a norma proibitiva de Deus: “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas”.

II A explicação verbal

1 Sentido profano

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Como vamos primeiro tratar de todos os Sacramentos em geral, força é começar pelo sentido da própria palavra. Explicaremos as suas várias acepções e aplicações, para que nos seja mais fácil averiguar qual é aqui o seu sentido próprio. Diga-se, pois, aos fiéis que os escritores profanos empregavam o termo “sacramento” noutro sentido que os escritores eclesiásticos. Aqueles o tomavam para designar a obrigação de quem jura prestar algum serviço. Por isso, chamava-se “compromisso militar” o juramento, pelo qual os soldados se comprometiam a servir fielmente ao Estado. Esta parece ter sido, entre os profanos, a significação mais comum da palavra.

2 Sentido religioso genérico

Mas os Padres Latinos usavam em seus escritos a noção “sacramento”, para designar coisa sagrada, que se oculta ao olhar; corresponde este sentido ao que os Padres Gregos exprimiam com o termo “mistério”. Julgamos, pois, que, no mesmo sentido, se deve entender a expressão “sacramento” na epístola aos Efésios: “A fim de nos revelar o mistério de Sua vontade”; na epístola a Timóteo: “Sublime é o mistério da piedade”; no livro da Sabedoria: “Eles ignoram os secretos desígnios de Deus”. Nestes lugares, e em muitos outros, cumpre notar que o termo “sacramentum” designa apenas uma coisa sagrada, inteiramente oculta.

3 Sentido religioso específico

Por esse motivo, os Doutores Latinos assentaram que havia propriedade em chamar-se “Sacramentos” certos sinais sensíveis, que produzem a graça, ao mesmo tempo que a designam exteriormente, e a tornam quase visível aos olhos. Podem também chamar-se “Sacramentos”, na opinião de São Gregório, porque a Onipotência divina neles opera ocultamente a salvação, sob o véu de coisas corpóreas.

de origem patrística

Não vá alguém julgar que o termo seja de introdução recente na linguagem eclesiástica. Quem for versado em São Jerônimo e Santo Agostinho, verá logo que os antigos escritores eclesiásticos, quando volviam a matéria, empregavam amiúde o termo “Sacramento”, outras vezes também as expressões “símbolo”, “sinal místico”, “sinal sagrado”. Até aqui as explicações em torno da palavra “Sacramento”. São aplicáveis, com a mesma congruência, aos Sacramentos da Antiga Aliança, dos quais todavia não precisam os párocos falar ao povo, uma vez que foram abolidos pela Lei e a graça do Evangelho.

III Explicação real: Noção dos Sacramentos

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Após a explicação etimológica, devemos agora analisar atentamente a natureza do próprio objeto, e mostrar aos fiéis o que é “Sacramento”. Ora, não padece nenhuma dúvida que os Sacramentos pertencem à categoria dos meios, pelos quais se logra a salvação e a justificação. Embora haja várias explicações boas e admissíveis, nenhuma iguala à justa e luminosa definição de Santo Agostinho, perfilhada mais tarde por todos os teólogos escolásticos. “Sacramento, diz ele, é o sinal de uma coisa sagrada”. Noutros termos, que exprimem a mesma idéia: “Sacramento é o sinal visível de uma graça invisível, instituído para a nossa justificação”.

1 O sinal sacramental

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Para melhor compreensão, devem os pastores decompor o definido em suas partes. Comecem por explicar que as coisas de percepção sensível se reduzem a duas classes principais. Umas são feitas exclusivamente como sinais de alguma coisa. Outras não são sinais de coisa nenhuma, mas têm em si mesmas toda a razão de ser. Nesta categoria se enquadram quase todas as coisas, produzidas pela natureza. À primeira pertencem o nome das coisas, a escrita, as bandeiras, as imagens, as trombetas, e outros objetos congêneres. Se tirarmos às palavras a função de significar algum sentido, sem dúvida perderiam a finalidade, para a qual são formadas. Tais coisas são sinais propriamente ditos. No sentir de Santo Agostinho, sinal é tudo aquilo que, além de atuar por si em nossos sentidos, nos leva também ao conhecimento de outra coisa concomitante. Assim, pelos vestígios impressos na terra, facilmente conhecemos que ali passou alguém, cujas pegadas aparecem.

designativo de um efeito interior

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Isto posto, é muito claro que os Sacramentos pertencem à categoria dos sinais, porquanto nos mostram exteriormente, por certa imagem e semelhança, o que Deus opera interiormente, em nossa alma, pelo Seu poder invisível. Um exemplo esclarece melhor a nossa explicação. No Batismo, recebemos uma ablução do corpo, acompanhada de certa fórmula sacramental. Ora, essa ablução é o sinal de que, pela virtude do Espírito Santo, se lava interiormente toda mancha e torpeza do pecado, e que nossas almas são ornadas e enriquecidas com o elevado dom da justiça celestial. Como mais adiante se dirá, essa ablução do corpo produz simultaneamente, na alma, o efeito por ela simbolizado.

documentado pelas Escrituras

Através das Escrituras, facilmente se deduz também que os Sacramentos entram na classe dos sinais. Falando da circuncisão, Sacramento da Antiga Aliança, que foi dado a Abraão, pai de todos os crentes, São Paulo assim se exprime na epístola aos Romanos: “E ele recebeu o sinal da circuncisão, como distintivo da justificação em virtude da fé”. Noutro lugar, quando diz: “Nós que fomos batizados em Sua morte” — dá a entender que considera o Batismo como sinal de algum Mistério, porquanto, no dizer do mesmo Apóstolo, “pelo Batismo fomos com Ele sepultados na [Sua] morte”.

como prova da bondade divina

Grande vantagem haverá em saberem os fiéis que os Sacramentos pertencem à classe dos sinais, pois assim lhes será mais fácil compenetrar-se dos santos e sublimes efeitos, que simbolizam, encerram e produzem. Levados por esta convicção, os fiéis prestarão maior culto e adoração à bondade de Deus para conosco.

a não é sinal natural

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Agora vem a explicação dos termos “coisa sagrada”, que constituem a segunda parte da definição. Será mais cômodo fazê-la, se ampliarmos ligeiramente a penetrante análise, que Santo Agostinho fez das várias espécies de sinais. Uns se chamam sinais naturais. Além da impressão de si mesmos, dão-nos a idéia de outra coisa a mais. Ora, como já se demonstrou, isto é um caráter comum de todos os sinais. Assim, onde há fumaça, conclui-se logo que ali há também fogo. Este sinal se chama natural, porque a fumaça faz lembrar o fogo, não por uma convenção arbitrária, mas pela experiência natural de que nos basta enxergar fumaça, para logo concluirmos que por ali há fogo em ação, embora não apareça ainda à nossa vista.

b nem convencional

Outros sinais há, que não o são por natureza, mas por invenção e instituição humana, para que os homens possam comunicar-se entre si, transmitir a outrem suas próprias idéias, e conhecer as idéias e intenções de seus semelhantes. Grande é seu número e variedade, como se vê pelo fato que alguns sinais são próprios para a vista, muitos para os ouvidos, e os restantes para os outros sentidos. Por exemplo, quando acenamos a alguém, ou erguemos um pendão, é lógico que tais sinais se destinam à percepção da vista; assim como os sons de trombetas, flautas e cítaras, que se empregam não só para deleitar, mas também para exprimir alguma coisa convencional, são sinais acomodados ao ouvido. É também pelo ouvido que principalmente nos chegam as palavras, como os meios mais eficazes de exprimir as íntimas sensações de nossa alma.

c mas instituído por Deus

Além destes sinais já considerados, que se baseiam em convenção humana, existe ainda uma terceira categoria de sinais, instituídos diretamente por Deus. Na opinião unânime dos teólogos, subdividem-se em várias espécies. Uns foram dados por Deus aos homens, só para lhes significarem ou recordarem alguma coisa. De tal simbolismo eram as purificações legais, o pão ázimo, e muitas outras cerimônias, que faziam parte do culto mosaico.

d com a força de produzir o que simboliza

Outros, porém, Deus os instituiu com a virtude, não só de simbolizar, mas também de produzir alguma coisa. A este número de sinais pertencem, sem contestação, os Sacramentos da Nova Aliança. São sinais de instituição divina, que não de invenção humana; possuem também a virtude de produzir os santos efeitos que simbolizam. Assim o cremos com fé inabalável.

2 A “coisa sagrada” por ele designada

a a santificação da alma

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Como os sinais são múltiplos, pelo que acabamos de ver, assim também a “coisa sagrada” pode ter vários sentidos. Na definição de “Sacramento”, por “coisa sagrada” entendem os teólogos a graça de Deus, que nos santifica e nos reveste com o hábito de todas as virtudes sobrenaturais. Com razão concordam em darem, a esta graça, o nome de “coisa sagrada”, visto que por sua mediação nossa alma se consagra e se une a Deus.

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Para chegarmos a uma definição mais explícita, devemos dizer que Sacramento é uma coisa sensível que, por instituição divina, tem em si a virtude não só de significar, mas também de produzir a santidade e a justiça. Por conseguinte, todos convirão em que as imagens de Santos, as cruzes, e outros objetos semelhantes, são sinais de coisas sagradas, mas nem por isso podem, [por definição], chamar-se Sacramentos.

mediante qualquer Sacramento

Seria rápido aferir a justeza de nossa definição pelo exemplo de todos os Sacramentos, averiguando se neles se opera um processo análogo ao que já vimos antes no Batismo. Dizíamos então que a ablução sacramental do corpo era, ao mesmo tempo, sinal e causa eficiente de uma “coisa sagrada” que, interiormente, se produzia pela virtude do Espírito Santo. Outro caráter importante destes sinais místicos, obras de Deus, é que foram instituídos para significar não só uma coisa, mas também várias outras ao mesmo tempo.

b a Paixão de Cristo como causa eficiente de toda santidade

É de notar, por exemplo, que cada um dos Sacramentos exprime não só a nossa santificação e justificação, mas também dois fatos intimamente ligados à própria santificação: a Paixão de nosso Redentor, que é causa [eficiente] de toda a santidade, bem como a vida eterna e a bem-aventurança do céu, que são uma finalidade de nossa santificação. Ora, como esta [dupla] relação é visível em todos os Sacramentos, os teólogos ensinam acertadamente que em cada Sacramento existe uma tríplice virtude de significar. Em primeiro lugar, cada qual recorda um fato pretérito; depois, assinala e mostra um fato presente; por último, anuncia um fato vindouro. Ninguém julgue, todavia, que se trata aqui de uma opinião teológica, sem mais provas da Sagrada Escritura. Quando diz, por exemplo: “Nós que fomos batizados em Cristo, fomos batizados em [Sua] morte” — o Apóstolo prova, à luz meridiana, ser o Batismo um sinal que nos recorda a Paixão e Morte de Nosso Senhor. Se depois acrescenta: “Pelo Batismo fomos com Ele sepultados na [Sua] morte; para que, assim como Cristo ressuscitou da morte pela glória do Pai, assim vivamos nós também uma vida nova”; — vê-se nessas palavras que o Batismo é um sinal que simboliza a infusão da graça santificante em nossas almas, [dessa graça] que nos dá a possibilidade de começar uma vida nova, e de cumprir, com facilidade e alegria, todos os deveres da verdadeira Religião. Finalmente, quando observa: “Se fomos enxertados n’Ele pela semelhança com Sua Morte, sê-lo-emos também pela semelhança com Sua Ressurreição” — é porque no Batismo há uma insinuação muito evidente da vida eterna, que por ele havemos de alcançar. Além destes modos de significar, conforme os deixamos indicados, acontece às vezes que um Sacramento pode ser sinal não só de uma, mas também de várias coisas presentes. Como facilmente averiguamos, tal é o caso do Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Quem lhe considera a natureza, verá que assinala a presença do verdadeiro Corpo e Sangue de Nosso Senhor, e ao mesmo tempo a graça destinada aos que recebem os Sacrossantos Mistérios, com toda a pureza do coração. Valendo-se da presente exposição, os pastores já não terão falta de provas para mostrarem aos fiéis que, nos Sacramentos da Nova Lei, se encerra toda a grandeza do poder divino e uma infinidade de ocultos milagres. Destarte, podem facilmente convencer todos os fiéis da obrigação de venerarem e receberem os Sacramentos, com a mais acendrada piedade.

3 Motivos para se instituir os Sacramentos

a fraqueza do espírito humano

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Ora, para ensinar a maneira de se fazer bom uso dos Sacramentos, o meio mais eficaz é expor cuidadosamente as razões determinantes de sua instituição. Entre as muitas que se costumam alegar, a primeira é a natural fraqueza do espírito humano. Consta, por experiência, ser ele tão limitado, que o homem não pode chegar ao conhecimento de coisas puramente intelectuais, senão por intermédio de percepções sensíveis. Assim, com o intuito de nos facilitar a compreensão das operações invisíveis de Sua onipotência, quis o Supremo Criador de todas as coisas, em Sua infinita sabedoria, manifestar essa oculta virtude [dos Sacramentos] por meio de sinais sensíveis, que fossem também uma prova de Seu amor para conosco. São João Crisóstomo diz com toda a clareza: “Se o homem não tivera corpo, os bens espirituais lhe seriam propostos a descoberto, sem nenhum véu que os ocultasse. Mas, desde que a alma se acha unida ao corpo, era de todo necessário que, para a compreensão daqueles bens, ela se valesse de objetos adaptáveis aos sentidos”.

b maior confiança nas promessas divinas

A segunda razão é que nosso espírito dificilmente põe fé nas promessas que nos são feitas. Por isso é que, desde o início do mundo, Deus sempre tornava a anunciar Seus desígnios por meio da palavra. Mas, às vezes, quando decretava alguma obra, cuja grandeza podia abalar a confiança em Sua promessa, acrescentava às palavras ainda outros sinais, que não raro tinham o caráter de milagres. Deus enviou, por exemplo, Moisés que libertasse o povo de Israel. Aquele, porém, sem confiar sequer no auxílio de Deus que assim ordenava, receou que a empresa superasse suas forças, ou que também o povo não desse crédito às decisões e palavras divinas. Então Deus confirmou Suas promessas com uma série de vários milagres. Ora, assim como Deus fizera no Antigo Testamento, confirmando por sinais a firmeza de Suas promessas: assim também Cristo Nosso Senhor, quando nos prometeu na Nova Lei a remissão dos pecados, a graça santificante, a comunicação do Espírito Santo, instituiu simultaneamente certos sinais sensíveis, nos quais víssemos empenhada a Sua palavra, de molde a excluir toda dúvida na realização do prometido.

c pronta medicação da alma pela Paixão de Cristo

No dizer de Santo Ambrósio, a terceira razão é que os Sacramentos deviam proporcionar, como os remédios do Samaritano no Evangelho, uma pronta medicação que nos restituísse, ou conservasse a saúde da alma. A virtude que dimana da Paixão de Cristo, isto é, a graça que nos mereceu no altar da Cruz, deve chegar-nos dos Sacramentos, como que por uns canais de comunicação. Sem estes meios, não restaria nenhuma esperança de salvar-nos eternamente. Levado de grande clemência, Nosso Senhor empenhou Sua palavra, e quis deixar à Igreja os Sacramentos. De nossa parte, temos a firme obrigação de crer que eles realmente nos comunicam os frutos de Sua Paixão, contanto que cada um de nós use tais remédios, com a devida fé e piedade.

d senha e divisa para distinguir os fiéis

Existe uma quarta razão, pela qual se pode julgar necessária a instituição dos Sacramentos. Deviam servir de senha e divisa para os fiéis se reconhecerem entre si. Conforme disse Santo Agostinho, nenhum grupo de homens pode constituir corpo jurídico, a título de verdadeira ou falsa religião, se os membros componentes se não ligarem entre si, pela convenção de alguns sinais distintivos da sociedade. Ora, os Sacramentos da Nova Lei satisfazem essa dupla exigência, porquanto distinguem dos infiéis os seguidores da fé cristã, e unem os fiéis entre si, mediante um vínculo sagrado.

e profissão pública de fé

Outra razão ponderável para a instituição dos Sacramentos vem expressa nas palavras do Apóstolo: “Crê-se de coração para ser justificado. Mas, para ser salvo, se faz confissão de boca”. Ora, pelos Sacramentos fazemos pública profissão de nossa fé, e damo-la a conhecer na face dos homens. Quando, por exemplo, comparecemos para o Batismo, damos público testemunho de acreditarmos que, pela virtude da água, em que somos purificados pelo Sacramento, se opera também a ablução espiritual de nossa alma.

f aumento do amor fraterno

Além disso, os Sacramentos são de grande eficácia, não só para ativar e nutrir a fé em nossos corações, mas também para inflamar aquela caridade, pela qual devemos amar uns aos outros; porquanto nos recordam que, pela participação dos mesmos Mistérios, nos unimos uns aos outros pelos laços mais estreitos, e nos tornamos membros de um só corpo.

g repressão do orgulho

Há, por último, uma razão de suma importância para a vida cristã. Os Sacramentos domam e reprimem o orgulho do espírito humano. São para nós uma escola de humildade, pois que nos obrigam a submeter-nos a elementos sensíveis, em obediência a Deus, de quem nos havíamos impiamente separado, para nos fazermos escravos das coisas deste mundo. São estes os pontos principais, que deverão ser explicados ao povo cristão, acerca do nome, natureza e instituição dos Sacramentos.

IV Os componentes essenciais dos Sacramentos

Depois de passá-los todos, com a devida exatidão, incumbe ainda aos pastores explicar as partes constitutivas de cada Sacramento, suas respectivas classificações, bem como os ritos e cerimônias que lhes foram acrescentados.

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Em primeiro lugar, deve expor-se que a coisa sensível, de que fala a definição, não é um todo indiviso, embora se tenha de admitir que constitui um só sinal.

Matéria e forma

Duas são as partes constitutivas de cada Sacramento. Uma tem a função de matéria, e chama-se “elemento”. A outra tem o caráter de forma, e leva a designação comum de “palavra”. Assim reza a doutrina tradicional dos Santos Padres. Está em uso vulgar a célebre explicação de Santo Agostinho: “Unindo-se a palavra ao elemento, daí nasce o Sacramento”. Por “coisa sensível” entendem eles não só a matéria ou elemento que é perceptível à vista, como a água no Batismo, o crisma na Confirmação, o óleo na Extrema-Unção, — mas também as palavras que servem de forma, e são perceptíveis ao ouvido. O Apóstolo indica expressamente ambas as partes, quando declara: “Cristo amou a Igreja, e por ela se entregou, a fim de santificá-la, purificando-a no banho de água pela palavra da vida”. Esta passagem exprime tanto a matéria, como a forma do Sacramento.

1 necessidade de sua junção

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Era necessário juntar palavras à matéria, para que mais claro e evidente se tornasse o processo sacramental. De todos os sinais, as palavras têm a maior eficiência. Se faltassem, não seria óbvio averiguar o que designa e demonstra a matéria dos Sacramentos. Senão, vejamos pelo exemplo do Batismo. De per si, serve a água tanto para refrigerar, como para lavar. Pode, pois, simbolizar estes dois efeitos. Não se lhe juntassem as palavras, alguém poderia conjeturar, mas nunca afirmar com certeza, qual dos dois efeitos a água significa no Sacramento do Batismo. Todavia, como se juntam as palavras correspondentes, logo sabemos que a água produz e assinala aqui a virtude de purificar.

2 infalibilidade de seu efeito

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Neste ponto é que os nossos Sacramentos se avantajam de muito aos Sacramentos da Antiga Aliança. Quanto sabemos, estes não se administravam em forma determinada. Eram, por conseguinte, de efeito muito incerto e obscuro. Em nossos Sacramentos, porém, a forma das palavras é prescrita de tal maneira que, se não for observada, deixa de haver Sacramento. Por isso, são elas muito evidentes, e não dão lugar a nenhuma dúvida. Tais são as partes que pertencem à natureza e substância dos Sacramentos, e das quais se compõe cada um deles, com necessidade absoluta.

V As cerimônias sacramentais

1 Razão de ser

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Temos ainda de tratar das cerimônias. Não podem omitir-se sem pecado, a não ser que haja necessidade. Contudo, em caso de omissão, devemos crer que se não reduz, de modo algum, a validade do Sacramento, porque as cerimônias não entram como partes essenciais. Desde os primórdios da Igreja, sempre se observou o costume de administrar-se os Sacramentos com certas cerimônias solenes. Primeiro, era muito conveniente usar certos ritos solenes na administração dos Sacramentos, para que assim déssemos prova de tratarmos santamente as coisas santas. Depois, as cerimônias tornam mais claros e quase visíveis os efeitos dos Sacramentos, e incutem mais ao vivo, no ânimo dos fiéis, a noção de sua santidade. Afinal, quando são religiosamente observadas, as cerimônias despertam nos corações sentimentos sobrenaturais, e afervoram os participantes na prática da fé e da caridade.

2 Obrigação de explicá-las

Pela evidência destas razões, o pároco ajuizará quanto lhe importa instruir bem os fiéis, para que compreendam as cerimônias na administração de cada Sacramento.

VI Número dos Sacramentos

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A seguir, deve indicar-se o número dos Sacramentos. Esta explicação tem a vantagem de levar o povo a engrandecer a singular bondade de Deus para conosco. E ele o fará com tanto mais fervor da alma, ao reconhecer quão abundantes são os auxílios que Deus aprestou, para a nossa eterna salvação e bem-aventurança. São sete os Sacramentos da Igreja. Disso temos prova nas Escrituras, na doutrina tradicional dos Santos Padres, e na autoridade dos Concílios.

1 Razão de serem sete

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A razão de não ser maior, nem menor o seu número, podemos mostrá-la, de modo provável, por uma analogia entre a vida natural e a sobrenatural. Para viver, conservar-se, levar uma vida útil a si mesmo e à sociedade, precisa o homem de sete coisas: nascer, crescer, nutrir-se; curar-se, quando adoece; recuperar as forças perdidas; ser guiado na vida social, por chefes revestidos de poder e autoridade; conservar-se a si mesmo e ao gênero humano, pela legítima propagação da espécie. Todas estas funções também se adaptam, indubitavelmente, àquela outra vida pela qual a alma vive para Deus. Dessa correlação se pode obviamente inferir o número dos Sacramentos.

2 Sua enumeração

O primeiro é o Batismo, a bem dizer, a porta dos outros Sacramentos, e pelo qual renascemos para Cristo. Depois vem a Confirmação, por cuja virtude crescemos e nos fortalecemos na graça divina. Como observa Santo Agostinho, só depois de batizados é que Nosso Senhor disse aos Apóstolos: “Deixai-vos ficar na cidade, até serdes revestidos da força que vem do alto”. Em seguida, temos a Eucaristia, alimento verdadeiramente celestial, que nutre e conserva nossa alma, conforme disse Nosso Salvador: “Minha carne é verdadeiramente uma comida, e Meu Sangue é verdadeiramente uma bebida”. O quarto lugar ocupa a Penitência, por cuja virtude recobramos a saúde, se a tivermos perdido com as lesões do pecado. Depois, a Extrema-Unção nos tira os remanescentes do pecado, e restaura as forças da alma. Com relação a este Sacramento, declarou São Tiago: “E se estiver em pecados, ser-lhe-ão remitidos”. A seguir, vem a Ordem que confere o poder de perpetuar a administração pública dos Sacramentos e o exercício de todas as funções sagradas no seio da Igreja. Como derradeiro, existe o Matrimônio, instituído a fim de que da legítima união do homem com a mulher procedam os filhos, e sejam piamente educados para o serviço de Deus, e para a conservação do gênero humano.

VII Diferença dos Sacramentos

1 quanto à necessidade

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Há, porém, um ponto que reclama muita atenção. É que todos os Sacramentos comportam em si uma virtude admirável e divina, mas nem todos são igualmente necessários, nem possuem a mesma graduação e finalidade. Entre eles, existem três que são considerados mais necessários que os outros, embora não o sejam por razões idênticas. Do Batismo, por exemplo, declarou Nosso Salvador ser absolutamente necessário para todos os homens. Suas palavras são as seguintes: “Quem não renascer da água e do Espírito [Santo], não pode entrar no reino de Deus”. A Penitência só se faz necessária para aqueles que, após o Batismo, tiverem contraído algum pecado mortal; não poderão escapar à eterna condenação, se não expiarem devidamente os pecados que cometeram. Quanto à Ordem, a necessidade é absoluta, não para os fiéis individualmente, mas para a Igreja coletivamente.

2 quanto à dignidade

Se, porém, atentarmos à dignidade dos Sacramentos, a Eucaristia sobrepuja a todos os mais, sendo-lhes muito superior pela santidade, número e grandeza de Seus mistérios. Todos esses aspectos serão mais fáceis de compreender, quando a seu tempo explicarmos cada um dos Sacramentos em particular.

VIII Ministro dos Sacramentos

1 O ministro divino

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Agora temos que ver de quem recebemos estes sagrados e divinos Mistérios. Não padece dúvida, uma dádiva preciosa cresce muito de valor, em razão da dignidade e excelência de quem faz o presente. Nesta questão, a resposta não oferece dificuldade. Se Deus é quem justifica os homens, e os Sacramentos são os maravilhosos instrumentos para se adquirir essa justificação, força é reconhecer que o único e o mesmo Deus opera, por Cristo, a justificação e produz os Sacramentos. Outra prova ainda. Os Sacramentos possuem tal eficácia, que invadem os mais íntimos recônditos da alma. Ora, penetrar nos corações e nas inteligências é um apanágio exclusivo da onipotência divina. Daí se conclui, portanto, que foi Deus quem instituiu os Sacramentos por obra de Cristo; que de nossa parte devemos crer, com inabalável constância, ser Ele também que os administra interiormente. Este é um testemunho que São João [Batista] declarou ter recebido do próprio Cristo. Eis suas palavras: “Aquele que me enviou a batizar em água, disse-me: Sobre quem vires descer e pairar o Espírito, esse é que batiza no Espírito Santo”.

2 O ministro humano

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Deus é, pois, o autor e o ministro propriamente dito dos Sacramentos. Quis, porém, que na Igreja fossem dispensados, não pelos Anjos, mas pelos homens. Para a feitura dos Sacramentos, a ação dos ministros humanos não é menos necessária do que a matéria e a forma. Assim o confirma a constante tradição dos Santos Padres.

em nome de Cristo

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No ato sacramental, os ministros não representam a sua própria pessoa, mas a Pessoa de Cristo. Desta forma, sejam eles bons, ou sejam maus, produzem e administram validamente os Sacramentos, se aplicarem a forma e a matéria que a Igreja sempre observou por instituição de Cristo, e se tiverem a intenção de fazer o que faz a Igreja na administração dos Sacramentos. Por conseguinte, não há o que possa impedir o fruto da graça, salvo se as pessoas que recebem os Sacramentos, quiserem por indisposição própria privar-se de tão grande benefício, e resistir à ação do Espírito Santo. Tal foi sempre a doutrina firme e inabalável da Igreja. Disso temos provas evidentíssimas, nas disputas que Santo Agostinho escreveu contra os donatistas.

Corolário O ministro indigno

Se pretendemos também testemunhos da Escritura, ouçamos as próprias palavras do Apóstolo: “Eu plantei, diz ele, Apolo regou; mas quem fez crescer foi Deus. Por isso, o que vale não é quem planta, nem quem rega, mas Deus que dá o crescimento”. Desta passagem se infere, com bastante fundamento, que, assim como às árvores não empece a maldade daqueles que as plantaram: assim também não contraem nenhum dano próprio os que foram incorporados em Cristo, pelo ministério de homens indignos e pecadores. Por esse motivo, como os Santos Padres deduziram do Evangelho de São João, Judas Iscariotes também batizou muitas pessoas, e não lemos que alguma delas fosse novamente batizada. Santo Agostinho teve, a respeito, estas belas considerações: “Judas batizou, e depois de Judas não se fez novo Batismo. João batizou, e depois de João foi rebatizado, porque o Batismo ministrado por Judas era Batismo de Cristo, e o Batismo de João era [simplesmente] Batismo de João. Isto não é preferir Judas a João. Com razão preferimos o Batismo de Cristo — ainda que dado pelas mãos de um Judas — ao Batismo de João, embora seja conferido pelas mãos de um João”.

3 Deveres do ministro

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Ouvindo tais verdades, não cuidem os párocos, e outros ministros dos Sacramentos, que basta só atenderem ao modo de ministrá-los validamente, pondo de parte a correção de costumes e a pureza de consciência. Sem dúvida, é necessário atender cuidadosamente às condições de validade, mas nisso não está tudo quanto pertence ao exercício de tal ministério.

sancta sancte

Continuamente, devem eles lembrar-se que de per si os Sacramentos nunca perdem a virtude divina, que lhes é inerente; mas que acarretam a ruína e a morte eterna de quem os ministrar com a consciência pervertida. Força é inculcar e repetir sempre de novo: Coisas santas só devem ser tratadas com santo respeito. No Profeta, lemos a seguinte passagem: “Ao pecador disse Deus: Por que falas tu dos Meus preceitos, e tomas a Minha aliança em tua boca? Na realidade, tu tens ódio à disciplina”. Ora, se ao homem metido em pecados não convém que se ponha a falar das coisas divinas, quão nefando não será o crime de quem tem consciência de muitos pecados, e ainda se atreve a consumar os santos Mistérios com lábios impuros, ou a tocá-los, e distribuí-los a outrem, com mãos abomináveis? São Dinis escreve que aos maus não é sequer permitido tocar os “símbolos”. Assim é que ele chamava aos Sacramentos. Por conseguinte, é mister que os ministros dos Sacramentos se consagrem, antes de tudo, à prática da santidade. Preparem-se para administrar os Sacramentos na pureza de consciência. Exerçam-se de tal modo na piedade, que com o favor de Deus possam, pelo trato e freqüência dos santos Mistérios, alcançar dia por dia graças cada vez mais abundantes.

IX Efeitos dos Sacramentos

1 graça santificante

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Prosseguindo, deve o pároco falar agora dos efeitos dos Sacramentos. Essa explicação elucida melhor a definição de Sacramento que acima foi apresentada. São dois os seus efeitos principais. Em primeiro lugar, pomos com razão a graça que, na linguagem dos teólogos, se chama graça “justificante”. Assim no-lo ensinou o Apóstolo, com a maior clareza, quando dizia que “Cristo amou a Sua Igreja, e por amor dela Se entregou a Si mesmo, para a santificar, purificando-a pelo banho de água em [Sua] palavra”. O modo, porém, pelo qual o Sacramento produz um efeito tão grande quão admirável, de sorte que, na bela frase de Santo Agostinho, “a água banha o corpo, para purificar o coração” — constitui um mistério que o engenho humano não poderá jamais deslindar. O certo é que, por virtude da própria natureza, nenhuma coisa sensível pode atingir a alma. Pela luz da fé, sabemos, todavia, que nos Sacramentos se põe em ação a virtude de Deus Todo-Poderoso; e que por essa virtude os Sacramentos produzem efeitos de que as coisas sensíveis seriam incapazes, por sua própria natureza.

comprovada às vezes por milagres

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Para remover dos ânimos dos fiéis toda a dúvida que jamais pudesse surgir acerca desse efeito sacramental, quis a bondade de Deus que, nas primeiras administrações, os efeitos internos fossem comprovados por meio de milagres. Assim, pois, devemos crer, com toda a segurança, que tais efeitos sempre se produzem interiormente, por mais que subtraiam à percepção de nossos sentidos. Por esse motivo, deixamos de parte que, depois do Batismo de Nosso Salvador no Jordão, os céus se abriram, e o Espírito Santo apareceu em figura de pomba, para nos advertir que Sua graça nos é infundida na alma, por ocasião do banho salutar do Batismo. Mas, como dizíamos, não nos detemos nesse fato, porque se reporta antes à significação e importância do Batismo, do que à administração dos Sacramentos. Entretanto, não lemos porventura que, quando os Apóstolos receberam o Espírito Santo no dia de Pentecostes, e por Sua virtude se tornaram mais fortes e mais animosos, para anunciar a verdade da fé, e arrostar perigos pela glorificação de Cristo: — então “se ouviu de repente, como vindo do céu, um ruído semelhante ao soprar de um vento impetuoso, e sobre eles pousaram línguas que se repartiam, como se fossem de fogo?”. Este milagre nos dá a entender que o Sacramento da Crisma nos confere o mesmo Espírito, e nos dá as mesmas forças [como aos Apóstolos], para que possamos resistir valorosamente à carne, ao mundo e ao demônio, nossos inimigos declarados. Milagres assim se repetiam, por algum tempo, nos primórdios da Igreja, quando os Apóstolos administravam os Sacramentos. Deixaram de ocorrer, desde que a fé ficou bem arraigada nos corações.

Corolário Os Sacramentos da Antiga Lei

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As explanações sobre o primeiro efeito dos Sacramentos, qual é a graça justificante, mostram com evidência que os Sacramentos da Nova Lei possuem maior virtude e sublimidade do que os Sacramentos da Lei Antiga. Estes eram “elementos fracos e pobres”, que santificavam os contaminados mediante a purificação do corpo, e não da alma. Foram, portanto, instituídos apenas como figuras dos efeitos, que deviam produzir os nossos Sacramentos. Porém os Sacramentos da Nova Aliança manaram do lado de Cristo, que pelo Espírito Santo Se ofereceu a Si mesmo sem mácula a Deus, e purificou nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo. Desta forma, produzem a graça que significam, em virtude do Sangue de Cristo. Se os compararmos com os Sacramentos da Antiga Aliança, não só possuem maior eficácia, mas são também mais abundantes em frutos, e mais elevados em santidade.

2 O caráter indelével

a próprio de três Sacramentos

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O segundo efeito dos Sacramentos não é comum a todos, mas é próprio de três somente: do Batismo, da Confirmação e da Ordem. Consiste no caráter que imprimem na alma. Diz o Apóstolo: “Foi Deus quem nos ungiu, quem nos marcou com o Seu selo, e pôs em nossos corações o penhor do Espírito”. Ora, com as palavras “marcou com o Seu Selo” designou bem claramente esse “caráter”, cuja propriedade natural é pôr selo ou fazer marca. Caráter é, pois, uma espécie de distintivo gravado na alma, que nunca pode apagar-se, e nela se conserva para sempre. Santo Agostinho faz a seguinte comparação: “Terão os Sacramentos cristãos menos valor, do que a marca que o soldado recebe? Quando um soldado desertor volta às fileiras, não se lhe imprime nova marca, porque a antiga serve de sinal para conhecer e identificar”.

b sua dupla finalidade

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O caráter tem por fim capacitar-nos para a recepção ou para o exercício dos santos Mistérios, e servir de distintivo entre os cristãos. O caráter batismal encerra ambos os efeitos. Dá-nos aptidão para receber os demais Sacramentos, e faz com que o povo fiel se distinga dos pagãos, que não professam a fé. O mesmo se verifica no caráter da Crisma e da Ordem. O caráter da Confirmação nos arma soldados de Cristo; apresta-nos para anunciar e defender o Seu nome, para lutar contra o inimigo em nosso interior, e contra os espíritos malignos nas alturas; distingue-nos, ao mesmo tempo, dos neo-batizados que são ainda, por assim dizer, criancinhas recém-nascidas. O Caráter da Ordem confere o poder de fazer e administrar os Sacramentos, e distingue dos outros fiéis os detentores de tal poder. Por conseguinte, devemos aceitar o dogma da Igreja Católica, pelo qual estes três Sacramentos imprimem caráter, e não podem jamais ser reiterados. São estes os pontos, que entram na explicação dos Sacramentos em geral.

X Escopo da catequese sobre os Sacramentos

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Propondo o presente tratado, os pastores farão tudo para alcançar uma dupla finalidade. Em primeiro lugar, que os fiéis compreendam quanto esses dons divinos e celestiais são dignos de honra, respeito e veneração. Em segundo lugar, que os fiéis os recebam com fé e devoção, por serem os meios que a misericórdia divina instituiu para a salvação geral de todos os cristãos; que se inflamem de tal desejo da perfeição cristã, que para eles seja grande perda ficarem, por algum tempo, privados dos Sacramentos, principalmente do uso tão salutar da Penitência e da Eucaristia. Conseguirão os pastores estes dois fins, sem maior dificuldade, se muitas vezes inculcarem aos ouvidos dos fiéis o que deixamos dito acerca da origem divina, e da utilidade dos Sacramentos. Primeiro, que foram instituídos por Nosso Senhor e Salvador, de quem só nos pode vir o que há de mais perfeito. Depois, que na sua administração se faz sentir a onipotência do Espírito Santo, que logo penetra o íntimo de nossos corações com Sua graça eficacíssima. Mais ainda, que os Sacramentos são dotados de uma virtude admirável e infalível para curarem as nossas almas; e que por eles chegam até nós as imensas riquezas da Paixão de Nosso Senhor. Por fim, mostrarão os pastores que todo o edifício do cristianismo, apesar de assente no fundamento inabalável da pedra angular, viria em grande parte a tremer e ruir por terra, se o não sustentasse, de todos os lados, a pregação da palavra de Deus e o uso dos Sacramentos. Assim como os Sacramentos nos fazem entrar na vida da graça, assim também são a bem dizer um alimento que nos sustenta, conserva, e faz crescer.

Fonte
Tradução de Frei Leopoldo Pires Martins, OFM — Editora Vozes, Petrópolis, 1951. Transcrição revisada a partir do PDF de referência do Serviço de Animação Eucarística Mariana.