Artigo do dia · 10 de May
São João de Ávila
Em Montilla, na Espanha, nasceu para o Céu São João de Ávila, sacerdote e pregador. Tendo distribuído tudo o que tinha aos pobres, percorreu por mais de quarenta anos as terras da Andaluzia, anunciando Cristo com palavra inflamada, formando clero e leigos e clamando pela reforma dos costumes. Mestre de santos e Doutor da Igreja, deixou escritos de profunda doutrina espiritual.
Martirológio Romano
Sobre o santo
São João de Ávila é um dos maiores exemplos de zelo apostólico que a Igreja já conheceu — aquele fogo interior pela salvação das almas que faz um homem gastar a vida inteira pregando, reformando, formando outros pregadores. Em uma Espanha do século XVI cheia de contradições, ele abriu mão de tudo para anunciar Cristo com palavra de fogo, e fez isso com tanta força que a Andaluzia inteira o reconheceu como apóstolo. Vamos conhecer a história desse santo extraordinário e ver como o amor ardente pelas almas o conduziu até as últimas consequências, custasse o que custasse — inclusive a prisão na Inquisição.
História
João de Ávila nasceu em 6 de janeiro de 1499, em Almodóvar del Campo, na província de Ciudad Real, na Espanha. Era filho único de Alfonso de Ávila, descendente de conversos judeus, e de Catalina Xixón, um casal rico e profundamente piedoso. Aos quatorze anos, em 1513, foi enviado para estudar Direito na célebre Universidade de Salamanca — mas em 1517 abandonou o curso sem se graduar e voltou para casa.
Os três anos seguintes foram de uma vida austera e recolhida em oração. A santidade do jovem chamou a atenção de um frade franciscano que passava por Almodóvar; foi ele quem aconselhou João a retomar os estudos, agora em Alcalá de Henares, mergulhando em filosofia e teologia. Lá teve por mestre o famoso dominicano Domingo de Soto. Enquanto estudava, seus pais faleceram. Ordenado sacerdote na primavera de 1526, celebrou sua primeira Missa exatamente na igreja onde estavam sepultados — depois vendeu todo o patrimônio da família e entregou aos pobres, num gesto de despojamento que selava sua entrega total a Deus.
Cortado dos laços naturais, sentiu-se chamado às missões e partiu para Sevilha em janeiro de 1527, com o desejo de embarcar para o México junto do dominicano Julián Garcés, que seria o primeiro bispo de Tlaxcala. Mas Deus tinha outros planos: a devoção que mostrava ao celebrar a Missa e seu dom incomum de pregar e catequizar chamaram a atenção de Hernando de Contreras, e por meio dele do arcebispo de Sevilha e Inquisidor-Geral, Alonso Manrique de Lara. O arcebispo viu naquele jovem um instrumento poderoso para reavivar a fé cristã na Andaluzia, e depois de muita insistência conseguiu convencê-lo a desistir da viagem para a América. Ainda em 1527, atendendo ao pedido da jovem Sancha Carrillo, irmã de um dos seus discípulos, começou a escrever Audi, filia (“Escuta, filha”), obra que continuaria expandindo até o fim da vida.
O primeiro sermão na Andaluzia foi pregado em 22 de julho de 1529 — e bastou para firmar sua fama de orador extraordinário. Por nove anos as igrejas ficaram lotadas para ouvi-lo. Mas seu apelo radical à reforma e suas denúncias contra o comportamento da aristocracia tiveram preço: em 1531 foi denunciado à Inquisição de Sevilha, e no verão de 1532 acabou preso, acusado de exagerar nos perigos da riqueza e de “fechar o céu aos ricos”. Refutadas as acusações, foi declarado inocente e libertado em julho de 1533. No fim de 1534 ou início de 1535 foi incardinado na Diocese de Córdoba, que se tornou a base de onde dirigia seus discípulos e percorria a Andaluzia, fundando escolas e colégios em cidades como Granada, Baeza, Montilla e Zafra. Em 1538, por bula do Papa Paulo III, foi fundada a Universidade de Baeza, da qual João foi o primeiro reitor — e que se tornou modelo de formação para o clero. Por essa época recebeu também o título de Mestre em Sagrada Teologia, provavelmente em Granada.
Faleceu em Montilla em 10 de maio de 1569, depois de mais de quarenta anos gastando-se pelas almas da Andaluzia. A Igreja o reconheceu como o “Apóstolo da Andaluzia”, e foi proclamado santo e Doutor da Igreja pela sua doutrina espiritual sólida e luminosa, espelhada em obras como a já citada Audi, filia.
Por que celebramos hoje
A Igreja celebra São João de Ávila no dia 10 de maio, data de seu falecimento (dies natalis) em Montilla, no ano de 1569 — o nascimento para o Céu, como sempre marca o calendário litúrgico para os santos.
Para nossa vida
O zelo apostólico de João de Ávila não nasceu de talento natural ou de ambição religiosa: nasceu de um coração que, antes de pregar, se entregou inteiro a Deus. Ele só pôde dizer aos outros “deixem tudo por Cristo” porque já tinha vendido o próprio patrimônio e dado aos pobres. É essa coerência que dá fogo à palavra. Para quem hoje sente o desejo de evangelizar — em casa, no trabalho, no grupo de amigos — o santo de Ávila ensina que o caminho começa silencioso: três anos em oração austera antes do primeiro sermão, retomar os estudos quando se acha já saber o bastante, deixar Deus reconduzir o plano quando o “México” sonhado não se realiza. Hoje, ao pensar onde Deus está nos pedindo mais entrega, vale fazer essa pergunta de João de Ávila: o que ainda guardo para mim que poderia, livre, deixá-lo usar para o bem das almas?
E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura.
Mc 16,15 (Figueiredo)
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