Artigo do dia · 12 de June
Sagrado Coração de Jesus
Na solenidade do Sagrado Coração de Jesus, a Igreja volta os olhos para o Coração do Redentor, símbolo vivo do amor infinito de Deus pelos homens. Trespassado pela lança na cruz e coroado de espinhos, esse Coração arde como fornalha de caridade, e dele brotam sangue e água, fonte de toda misericórdia. A devoção, amadurecida ao longo dos séculos no silêncio dos mosteiros e confirmada nas revelações a Santa Margarida Maria de Alacoque, convida cada cristão a uma só resposta: confiar.
Martirológio Romano
Sobre o santo
De todas as devoções que a Igreja nos confiou, talvez nenhuma toque tão fundo quanto a do Sagrado Coração de Jesus. Não é uma ideia, é uma imagem: o Coração de Cristo aberto por uma lança, cercado de espinhos, em chamas — uma fornalha de amor ardente que se entrega por nós até a última gota de sangue. Antes de ser doutrina, o Sagrado Coração é um convite a confiar, porque Deus nos ama com um amor que sofre, que espera e que não desiste. Vamos conhecer como essa devoção nasceu e cresceu pelos séculos, e o que esse Coração tem a dizer à nossa vida hoje.
História
A história do Sagrado Coração é antiga, e as próprias fontes reconhecem ser impossível precisar quem foram seus primeiros devotos ou textos nos mosteiros medievais. Reunimos aqui o que a tradição da Igreja preservou, apoiados nas referências enciclopédicas disponíveis.
Nos primeiros dez séculos do cristianismo, nada indica que se prestasse um culto particular ao Coração ferido de Jesus. A devoção foi brotando aos poucos, como fruto do amor à humanidade santa de Cristo e, sobretudo, às suas chagas — em especial à ferida aberta em seu lado. Foi o reflorescimento da vida religiosa nos séculos XII e XIII, com o zelo de São Bernardo de Claraval e de São Francisco de Assis, somado ao fervor dos cruzados que voltavam da Terra Santa, que reacendeu na cristandade o amor à Paixão do Senhor. As primeiras pegadas dessa devoção aparecem nos séculos XI e XII, no clima fervoroso dos mosteiros beneditinos e cistercienses — e as próprias fontes reconhecem ser impossível dizer com certeza quais foram seus primeiros textos ou devotos.
São Bernardo de Claraval, falecido em 1153, ensinava que a abertura do lado de Cristo revelava sua bondade e a caridade de seu Coração por nós. Daquele tempo nos chegou o mais antigo hino conhecido ao Sagrado Coração, o Summi Regis Cor Aveto, atribuído a um cônego norbertino de Colônia, que começa saudando o altíssimo Coração real. Nos claustros, místicas como Santa Gertrudes, a Grande, e Santa Lutgarda — cisterciense de Aywières, falecida em 1246 — são apontadas pela tradição entre as grandes precursoras da devoção, narrando esta última uma misteriosa troca de corações com o Senhor.
Entre os séculos XIII e XVI a devoção se espalhou, praticada por almas piedosas e por congregações inteiras: franciscanos, dominicanos, cartuxos. Entre os franciscanos teve campeões como São Boaventura, falecido em 1274, que em sua Vitis Mystica, a “Videira Mística”, deixou escrito: “Quem haveria que não amasse este Coração ferido? E quem não amaria, em troca, Aquele que tanto nos ama?”; e também o Beato João de la Verna. Ainda era, porém, uma devoção particular, de almas místicas — faltava o impulso que a tornaria patrimônio de toda a Igreja.
Esse impulso começou no século XVII, com o zelo de São João Eudes (1602-1680), grande promotor do culto aos Corações de Jesus e de Maria. Mas o ponto decisivo veio na França, entre 1673 e 1675, quando Santa Margarida Maria de Alacoque, religiosa da Visitação, recebeu uma série de aparições em que o próprio Jesus lhe ensinou a devoção ao seu Coração, com as suas doze promessas a quem a ela se consagrasse. Dali a devoção tomou a forma moderna que conhecemos e se espalhou pelo mundo.
Já no século XIX, em Portugal, a Beata Maria do Divino Coração Droste zu Vischering, religiosa do Bom Pastor, pediu em nome de Cristo que o Papa Leão XIII consagrasse o mundo inteiro ao Sagrado Coração de Jesus. A devoção firmou-se também na prática das primeiras sextas-feiras de cada mês e numa oração simples, que tantos repetimos até hoje: “Sagrado Coração de Jesus, eu confio em vós.”
Por que celebramos hoje
A solenidade do Sagrado Coração de Jesus é móvel: a Igreja a celebra na sexta-feira seguinte à solenidade de Corpus Christi — a terceira sexta-feira depois de Pentecostes. Por isso a data muda a cada ano, e em 2026 ela recai em 12 de junho. No dia seguinte, a liturgia honra o Imaculado Coração de Maria, num par que a piedade da Igreja sempre manteve unido.
Para nossa vida
Imagino que temos muito a aprender com este Coração que se deixou abrir por amor a nós. Quando olhamos para a nossa vida — o cansaço do trabalho, as contas, as feridas que carregamos calados, os pecados que se repetem —, é fácil duvidar que sejamos amados assim, de graça. O Sagrado Coração nos responde justamente aí: não somos amados porque somos bons, mas porque Ele é bom. Podemos começar pequeno: rezar a primeira sexta-feira do mês, fazer uma confissão sincera, ou simplesmente repetir ao longo do dia, no meio da correria, “Sagrado Coração de Jesus, eu confio em vós”, entregando a Ele aquilo que não conseguimos resolver sozinhos. E somos gratos a Deus por nos deixar contemplar este Coração e por nos atrair, devagar, mais para perto dele, no caminho da nossa fé.
Vinde a mim todos os que andais em trabalho, e vos achais carregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim que sou manso, e humilde de coração: E achareis descanso para as vossas almas.
Mt 11,28-29 (Figueiredo)
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