Artigo do dia · 24 de May
Pentecostes
Solenidade de Pentecostes, cinquenta dias depois da Páscoa, em que a Igreja celebra a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos reunidos no Cenáculo com Maria, em Jerusalém, como narram os Atos dos Apóstolos: vieram do céu um ruído como de vento impetuoso e línguas como de fogo que se pousaram sobre cada um deles, e começaram a anunciar as maravilhas de Deus em todas as línguas. É a festa do nascimento da Igreja e do envio do Paráclito prometido por Cristo.
Martirológio Romano
Sobre o santo
Pentecostes é uma das maiores festas que a Igreja celebra no ano — e talvez a mais arrebatadora. Aqui não se festeja um santo no céu, mas o próprio Espírito Santo descendo do céu, e uma virtude que está na raiz de toda santidade: a docilidade a Deus, esse deixar-se mover pelo sopro que vem do alto. Os Apóstolos eram homens medrosos, trancados a sete chaves; saíram do Cenáculo em chamas, falando todas as línguas, dispostos a morrer pelo Nome. Vamos voltar àquele dia em Jerusalém para entender o que aconteceu — e o que ainda acontece toda vez que um cristão se abre ao Espírito.
História
A narrativa essencial vem dos Atos dos Apóstolos (capítulos 1 e 2), apoiada pela tradição litúrgica da Igreja Católica; alguns detalhes históricos sobre o desenvolvimento da festa permanecem objeto de estudo entre os comentaristas bíblicos.
A festa que celebramos não nasceu do nada: ela tem raízes profundas no povo de Israel. Pentecostes vem do grego pentēkostē, “quinquagésimo”, e correspondia à antiga Festa das Semanas (Shavuot), uma das três grandes peregrinações que reuniam os judeus em Jerusalém. Era a festa da colheita do trigo, das primícias dos frutos, celebrada cinquenta dias depois da Páscoa. Com o tempo, ela passou também a comemorar a entrega da Torá no Monte Sinai — o dia em que Deus selou sua aliança com o povo no meio do fogo, do trovão e da nuvem.
Foi neste dia, exatamente, que o Espírito Santo escolheu descer. Os Atos dos Apóstolos narram a cena com economia desconcertante: os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar, perseverando na oração com Maria, mãe de Jesus, quando, de repente, “veio do céu um ruído, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde se encontravam”. Línguas como de fogo se dividiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes inspirava.
Jerusalém estava cheia de judeus piedosos vindos “de todas as nações que há debaixo do céu” — partos, medos, elamitas, gente da Mesopotâmia, do Egito, da Líbia, da Frígia, romanos, cretenses, árabes. E todos ouviam os Apóstolos proclamar as maravilhas de Deus na própria língua materna. Era a inversão de Babel: onde o orgulho dos homens havia dispersado as línguas, o Espírito agora as reunia numa só fé. Pedro, que poucas semanas antes negara Cristo três vezes diante de uma criada, levantou-se com os Onze e pregou o primeiro sermão da história da Igreja. Naquele dia, cerca de três mil pessoas se converteram e foram batizadas.
Por isso a tradição cristã chama Pentecostes de “aniversário da Igreja”. Não porque ela não existisse antes — Cristo já a fundara sobre Pedro —, mas porque foi nesse dia que ela saiu pelo mundo, animada pelo Espírito, capaz de pregar, sofrer e converter. O fogo do Cenáculo nunca se apagou: passou aos mártires, aos Padres, aos missionários, aos santos de todos os séculos. É o mesmo Espírito que age hoje em cada Confirmação, em cada Eucaristia, em cada alma que se converte.
No Rito Romano, Pentecostes é uma das poucas Solenidades que conserva uma sequência própria, o belíssimo Veni, Sancte Spiritus, conhecido como Sequência Áurea: “Vinde, Espírito Santo, e mandai do céu um raio da vossa luz”. Encerra o Tempo Pascal e abre o tempo da Igreja peregrina — esta Igreja que somos nós, sustentada pelo mesmo fogo que pousou sobre os Apóstolos.
Por que celebramos hoje
Pentecostes é uma festa móvel: ocorre sempre no quinquagésimo dia depois do Domingo de Páscoa, encerrando o Tempo Pascal. Como em 2026 a Páscoa caiu em 5 de abril, a contagem leva a Solenidade exatamente ao dia 24 de maio. Por isso a Igreja, em todo o mundo, celebra hoje a descida do Espírito Santo e o nascimento da Igreja.
Para nossa vida
Pentecostes não é apenas memória de um acontecimento de dois mil anos atrás — é promessa atualizada para você, agora. O mesmo Espírito que tirou os Apóstolos do medo e os enviou ao mundo quer fazer o mesmo na sua vida. Quantas vezes ficamos trancados nas nossas próprias preocupações, como aqueles homens no Cenáculo, esperando uma força que não vem porque não a pedimos? O segredo de Pentecostes está naquela frase discreta dos Atos: “perseveravam unanimemente na oração, com Maria, mãe de Jesus”. O Espírito vem onde se ora, onde se persevera, onde se está junto da Mãe.
Hoje, peça especificamente os dons do Espírito Santo — sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade, temor de Deus. Reze a antífona antiga: “Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor”. Não tenha medo de pedir que Ele transforme aquilo em você que está parado, frio, com medo. O Cenáculo continua aberto. O fogo ainda desce.
E, quando se completaram os dias de Pentecostes, estavam todos juntos no mesmo lugar. E de repente veio do Céu um estrondo, como de vento que soprava com ímpeto, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E lhes apareceram, repartidas, como que línguas de fogo, e pousou sobre cada um deles. E foram todos cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em várias línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.
At 2,1-4 (Figueiredo)
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