Artigo do dia · 4 de June
Corpus Christi: o Corpo e Sangue de Cristo
Imagine que Alguém muito amado prometesse ficar com você para sempre — e cumprisse de um jeito tão concreto que pudesse ser recebido dentro de você, adorado em silêncio e carregado em procissão pelas ruas. É isso que celebramos em Corpus Christi: a fé de que Jesus está realmente presente na Eucaristia, não como lembrança nem como figura, mas em pessoa. Neste dia a Igreja para tudo para dizer ao mundo aquilo em que crê desde a Última Ceia. E nos convida a olhar de novo, com olhos lavados, para o que talvez já tenhamos visto mil vezes sem perceber.
Corpus Christi quer dizer, em latim, “Corpo de Cristo”. O nome completo da festa é Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, e ela celebra um dos pontos mais altos da nossa fé: a presença real de Jesus na Eucaristia. Quando o sacerdote, na Missa, repete as palavras que o próprio Senhor disse na Última Ceia — “isto é o meu corpo”, “isto é o meu sangue” —, o pão e o vinho deixam de ser apenas pão e vinho. Tornam-se, de verdade, o Corpo e o Sangue do Senhor, com sua alma e sua divindade. É Jesus inteiro que ali se entrega.
Isso muda tudo. Se Ele está mesmo presente na hóstia consagrada, então o sacrário da sua paróquia não guarda um objeto sagrado: guarda Alguém. A Igreja chama essa transformação de transubstanciação — uma palavra grande para uma realidade simples e imensa: a substância do pão e do vinho passa a ser o Corpo e o Sangue de Cristo, ainda que aos nossos olhos continuem com a aparência de pão e de vinho. O Concílio de Trento definiu essa fé com toda a clareza, e ela atravessa os séculos sem mudar. Não é força de expressão nem poesia devota; é o realismo da fé católica.
Por isso o Concílio Vaticano II pôde dizer que a Eucaristia é “fonte e cume de toda a vida cristã”. Fonte, porque dela brota a graça que sustenta tudo o mais — os outros sacramentos, a oração, a caridade. Cume, porque para ela tudo converge: não há nada maior que possamos receber neste mundo do que o próprio Deus se dando como alimento. Tudo na vida da Igreja, de algum modo, gira em torno deste mistério.
A festa nasceu no século XIII. A religiosa Juliana de Liège, na atual Bélgica, sentia no coração que faltava no calendário um dia dedicado só a esse mistério. O desejo foi crescendo até que, em 1264, o papa Urbano IV estendeu a celebração a toda a Igreja pela bula Transiturus de hoc mundo. Coube a São Tomás de Aquino compor os textos litúrgicos da festa — dele vêm hinos que cantamos até hoje, como o Pange Lingua, que termina no Tantum Ergo da bênção do Santíssimo, e o Adoro te devote. Foram escritos por um dos maiores teólogos da história, mas brotam de joelhos diante do sacrário.
Daí vêm os dois gestos que marcam o dia. A procissão, em que o Santíssimo Sacramento é levado pelas ruas dentro do ostensório, para fora das igrejas — Jesus que sai a caminhar no meio do seu povo, abençoando casas, praças e cidades. E a adoração, esse ficar diante d’Ele sem pressa, em silêncio, só olhando e sendo olhado. No Brasil, a fé do povo se expressa de um jeito lindo nos tapetes coloridos de serragem, sal, flores e borra de café que cobrem o chão por onde o Senhor vai passar.
Hoje, 4 de junho, a Igreja no Brasil celebra exatamente esta solenidade. Por tradição antiga, Corpus Christi cai sempre na quinta-feira seguinte à festa da Santíssima Trindade — uma quinta-feira, como foi quinta-feira a Última Ceia, em que Jesus instituiu a Eucaristia. É feriado em muitas cidades, e não por acaso: a Igreja quer o dia livre para que possamos parar, ir à Missa, acompanhar a procissão e adorar. Num tempo que corre o tempo todo, somos convidados a gastar um pouco dele só com Ele.
O risco, para quem frequenta a Igreja, é a familiaridade virar distração: comungar no automático, passar diante do sacrário sem ajoelhar o coração. Corpus Christi é o empurrão para recomeçar. Que tal, neste dia, ir à Missa com a consciência viva de Quem você vai receber — e, se houver algo pesando, procurar antes a confissão para comungar de coração limpo? Se na sua cidade houver procissão, vá; deixe-se ver caminhando atrás do seu Senhor pelas ruas. E mesmo num dia comum, experimente entrar numa igreja só para uma visita ao Santíssimo, sentar em silêncio por cinco minutos e dizer com simplicidade: “eu creio que és Tu, e fico aqui Contigo”. Para ir mais fundo, vale ler a encíclica Ecclesia de Eucharistia, de São João Paulo II, dedicada inteira a este mistério. A fé na presença real não se prova num argumento: ela se descobre ajoelhado.
Eu sou o pão vivo, que desci do Céu.
Jo 6,51 (Figueiredo)
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