Artigo do dia · 20 de June
Como o Rosário é formado: o terço, os mistérios e como se reza
Quase todo católico já segurou um terço — talvez herdado de uma avó, esquecido numa gaveta ou no fundo da bolsa. Mas, na hora de rezar, bate a dúvida: por onde começo? O que vem primeiro, e por que tantas contas? A boa notícia é que o Rosário, por mais antigo e venerável que seja, foi feito para gente simples, para a vida comum. Hoje vamos entender, sem pressa, como ele é formado e como se reza.
O Rosário é uma oração mariana e contemplativa: enquanto os lábios repetem orações conhecidas, o coração medita os principais momentos da vida de Jesus e de Maria. Por isso São João Paulo II o chamou de “compêndio do Evangelho” — é o Evangelho inteiro passando pelas nossas mãos. A palavra “terço” tem duas pontas: é o próprio cordão de contas que seguramos e também cada conjunto de cinco “dezenas” que rezamos de uma vez.
O nome “terço” vem de “terça parte”. Durante séculos, o Rosário completo tinha 150 Ave-Marias — em eco aos 150 Salmos —, divididas em três blocos de cinquenta: os mistérios Gozosos, os Dolorosos e os Gloriosos. Cada bloco era um “terço”, isto é, um terço do todo. Em 2002, na carta apostólica Rosarium Virginis Mariae, São João Paulo II propôs os Mistérios Luminosos, dedicados à vida pública de Jesus. Com isso, o Rosário completo passou a reunir quatro conjuntos de mistérios e vinte cenas do Evangelho — e a palavra “terço” acabou nomeando, no uso comum, qualquer dessas séries de cinco dezenas.
Os quatro conjuntos são os Gozosos (a infância de Jesus, da Anunciação ao encontro no Templo), os Luminosos (a vida pública, do Batismo à Eucaristia), os Dolorosos (a Paixão, da agonia no Horto à Cruz) e os Gloriosos (a Ressurreição, a vinda do Espírito e a glória de Maria). A Igreja sugere um conjunto para cada dia: Gozosos na segunda e no sábado, Luminosos na quinta, Dolorosos na terça e na sexta, Gloriosos na quarta e no domingo. Não é regra que obriga, mas um ritmo que ajuda a percorrer toda a vida de Cristo ao longo da semana.
E como se reza, conta por conta? Começa-se com o sinal da cruz e o Creio, rezado no crucifixo. Vêm então um Pai-Nosso, três Ave-Marias (tradicionalmente pela fé, pela esperança e pela caridade) e o Glória ao Pai. Depois entram as cinco dezenas: anuncia-se o mistério, reza-se um Pai-Nosso, dez Ave-Marias meditando aquela cena e termina-se com o Glória ao Pai — muitos acrescentam a oração que Nossa Senhora pediu em Fátima, “Ó meu Jesus, perdoai-nos”. Ao final das cinco dezenas, encerra-se com a Salve Rainha.
Pode parecer repetitivo, e é justamente esse o segredo. A repetição serena das Ave-Marias não é palavra vazia: é como o ritmo de quem ama e não se cansa de dizer o mesmo. Ela acalma o coração e o segura junto ao mistério, para que a mente não corra e a alma contemple. O Rosário não é uma corrida de orações a vencer; é um caminhar de mãos dadas com Maria, olhando para Jesus. Para quem quer ir mais fundo, um clássico é O Segredo Admirável do Santíssimo Rosário, de São Luís Maria de Montfort.
Hoje é sábado, dia que a Igreja, desde muito cedo, dedica de modo especial a Nossa Senhora — não à toa, é justamente nos sábados (e nas segundas) que se propõem os Mistérios Gozosos, que se abrem com a Anunciação, quando o Anjo dirige a Maria o “Ave” que repetimos em cada conta. Sendo uma féria, sem grande festa a celebrar, o dia comum é o terreno próprio do Rosário: uma oração feita para a estrada, a fila, a cozinha, o fim do expediente. Não há momento mais oportuno do que um sábado simples para tomar o terço nas mãos.
Talvez você termine esta leitura querendo rezar e ainda achando tudo muito longo. Então comece pequeno: reze uma só dezena hoje, com calma, sem culpa pelo resto. Aproveite os tempos mortos do dia — o trânsito, a caminhada, os minutos antes de dormir — e deixe o terço virar âncora, não tarefa. Não corra atrás de terminar; demore-se em cada cena e deixe Maria conduzir seu olhar até o rosto do Filho. Se hoje você conseguir só o sinal da cruz e um Pai-Nosso, já é um começo, e Deus recebe começos com alegria. Que tal pegar o terço agora, antes que o dia o engula?
Entretanto Maria conservava todas estas coisas, conferindo lá no fundo do seu coração umas com outras.
Lc 2,19 (Figueiredo)
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