Artigo · 15 de junho
Beata Albertina Berkenbrock
Em Imaruí, no sertão de Santa Catarina, a Beata Albertina Berkenbrock, mártir, que, ainda menina de doze anos e filha de humildes agricultores, preferiu entregar a vida a consentir no pecado: degolada por um empregado de seu pai a quem resistira em defesa da castidade, selou com o próprio sangue a fidelidade a Cristo que aprendera no catecismo e na oração de cada dia. A Igreja a venera como uma flor de pureza nascida no chão do Brasil.
Martirológio Romano
Sobre o santo
A Beata Albertina Berkenbrock é uma das provas mais comoventes de que a castidade não é assunto de adulto, de teólogo ou de claustro — é um dom que pode florescer no coração de uma menina de doze anos criada na roça. Num tempo em que tantas vozes nos dizem que o corpo é mercadoria e que dizer “não” é coisa ultrapassada, faz bem olharmos para uma criança que preferiu morrer a manchar aquilo que entendia ser de Deus. Ela não escreveu tratados nem fundou ordens: viveu, simplesmente, o que rezava. Vamos conhecer a história dessa pequena mártir brasileira e ver como a graça a sustentou até as últimas consequências.
História
Os fatos essenciais da vida e do martírio da Beata Albertina estão bem documentados. Alguns detalhes — como o nome do agressor e o episódio do sangue que voltava a jorrar diante de seu corpo — aparecem com variações entre os relatos, e os apresentamos conforme a tradição local os preservou.
Albertina nasceu em 11 de abril de 1919, na comunidade rural de São Luís, no município de Imaruí, em Santa Catarina. Era filha de Henrique e Josefina Berkenbrock, agricultores de ascendência alemã — a família guardava raízes em Schöppingen, perto de Münster — e uma entre nove irmãos. Foi batizada poucas semanas depois do nascimento, em 25 de maio daquele mesmo ano, e cresceu respirando a fé católica no ritmo simples e duro do trabalho no campo.
Desde cedo a menina chamava atenção pela piedade. Crismada em 9 de março de 1925, fez a primeira comunhão em 16 de agosto de 1928 — dia que ela mesma descreveria como o mais bonito de toda a sua vida. Tinha devoção especial a Nossa Senhora e a São Luís Gonzaga, padroeiro de sua comunidade, e levava a sério a oração diária, a missa e a confissão. Os que conviviam com ela elogiavam sua obediência, sua modéstia e seu coração generoso: ensinava catecismo às outras crianças, nunca revidava as provocações dos irmãos e dos colegas, e chegava a cuidar com carinho dos próprios filhos do homem que viria a tirar-lhe a vida.
No dia 15 de junho de 1931, Albertina saiu à procura de um animal que havia se perdido. Pelo caminho encontrou Maneco Palhoça, empregado de seu pai, que carregava feijão numa carroça. Quando ela perguntou se ele tinha visto o boi, o homem a apontou de propósito para uma área de mato, onde planejava atacá-la. Ali, tentou forçá-la ao pecado. A menina resistiu com todas as forças; e o agressor, percebendo que não conseguiria o que queria e que seria denunciado, agarrou-a pelos cabelos e a degolou com uma faca. Tinha apenas doze anos.
Maneco ainda tentou esconder o crime e jogar a culpa sobre um inocente, João Candinho, que chegou a ser preso. Mas a verdade não demorou a vir à tona: conta a tradição da época que, levado para perto do corpo da menina, o sangue do pescoço voltava a jorrar como sinal de sua culpa. Detido poucos dias depois, o agressor confessou não apenas o assassinato de Albertina — que, segundo admitiu, matara porque ela havia resistido —, mas também outros crimes. Foi julgado, condenado e cumpriu pena na cidade de Laguna. O povo de Imaruí, porém, já não tinha dúvidas: aquela criança havia morrido para não pecar.
A fama de santidade de Albertina atravessou as décadas. O processo que investigava sua vida e seu martírio começou em Tubarão em 30 de dezembro de 1954 e se estendeu até o início dos anos 2000. Sob São Papa João Paulo II ela recebeu, em 2001, o título de Serva de Deus, e em 2002 seus restos mortais foram transladados. Em 16 de dezembro de 2006, o Papa Bento XVI reconheceu que ela fora morta “in defensum castitatis” — em defesa da castidade —, abrindo caminho para a beatificação. A solene cerimônia aconteceu no Brasil em 20 de outubro de 2007, presidida, em nome do Papa, pelo Cardeal José Saraiva Martins. Desde então a Igreja a venera como beata, e seu túmulo, em Imaruí, é destino de peregrinos que ali buscam e agradecem graças.
Por que celebramos hoje
A Igreja celebra a Beata Albertina Berkenbrock em 15 de junho, dia em que, em 1931, ela entregou a vida — seu dies natalis, o “nascimento para o céu”, como a tradição cristã chama o dia da morte dos mártires. A festa coincide de propósito com o dia do martírio: é justamente esse testemunho de sangue, o derramamento da própria vida por fidelidade a Cristo e à pureza, que a Igreja reconhece e propõe à nossa veneração.
Para nossa vida
Imagino que temos muito a aprender com a Beata Albertina, essa menina simples da roça catarinense que se tornou luz para a nossa caminhada. A castidade que ela guardou com a própria vida não é um peso antigo que a Igreja nos impõe: é o jeito de amar com o corpo e o coração inteiros, sem usar ninguém e sem nos deixarmos usar. No nosso dia a dia somos provocados o tempo todo a tratar o corpo — o nosso e o do próximo — como objeto descartável; e ali, naquele “não” firme de uma criança, encontramos coragem para também dizermos não àquilo que nos afasta de Deus. Não precisamos de grandes gestos: podemos começar guardando o coração nas pequenas escolhas, rezando como ela rezava, voltando à confissão quando caímos. E que Deus seja louvado por nos deixar conhecer a história de santos assim — pequenos aos olhos do mundo, gigantes aos olhos do céu —, para que, olhando para eles, possamos dar mais um passo no caminho da nossa fé.
Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.
Mt 5,8 (Figueiredo)
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