Artigo · 16 de junho
A caridade: a maior das virtudes teologais
Usamos a palavra amor para quase tudo: amamos um time, um prato de comida, um filme. Mas existe um amor que não é gosto passageiro nem emoção do momento — é a maior das virtudes, aquela que São Paulo ousa colocar acima da própria fé e da esperança. A Igreja a chama de caridade. E ela não se resume a dar esmola ou ser gentil: é amar a Deus sobre todas as coisas e, por amor a Ele, amar cada pessoa que cruza o nosso caminho. É, segundo a Escritura, a única virtude que nunca vai passar.
Caridade, no vocabulário da fé, traduz a palavra latina caritas e a grega agápe: o amor que vem de Deus e nos torna capazes de amar como Ele ama. O Catecismo da Igreja Católica (n. 1822) a define como a virtude pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas, por Ele mesmo, e o nosso próximo como a nós mesmos por amor de Deus. Repare que são dois movimentos de um só amor: subir até Deus e, descendo dele, alcançar o irmão. Um não vive sem o outro.
Mas por que ela é a maior das três virtudes teologais? Porque a fé e a esperança são para esta vida: cremos no que ainda não vemos e esperamos o que ainda não temos. Quando enfim contemplarmos a Deus face a face no Céu, não precisaremos mais crer nem esperar — restará amar. Por isso São Paulo escreve que três coisas permanecem, a fé, a esperança e a caridade, mas a maior delas é a caridade. Ela é a única que atravessa a morte e entra inteira na eternidade.
A tradição da Igreja chama a caridade de “forma das virtudes”: é ela que dá vida e direção a todas as outras. Uma fé sem caridade seria estéril; uma coragem sem amor não passaria de dureza. Santo Agostinho resumiu tudo numa frase ousada — “Ama, e faz o que quiseres” — não como licença para o egoísmo, mas porque quem ama de verdade já não deseja senão o bem. E essa caridade não nasce só do nosso esforço: é dom de Deus, derramado em nós pelo Espírito Santo, que cresce com a oração e os sacramentos. Quem quiser ir mais fundo encontra um belo guia na encíclica Deus Caritas Est, de Bento XVI, dedicada inteiramente ao amor cristão.
É preciso, porém, desfazer um mal-entendido: caridade não é sentimento. Posso não sentir simpatia alguma por uma pessoa e, ainda assim, amá-la com caridade — querendo o seu bem, rezando por ela, tratando-a com justiça e respeito. O amor cristão se prova menos no que sentimos e mais no que fazemos. É por isso que a fé católica fala em obras de misericórdia: dar de comer a quem tem fome, visitar o doente, perdoar quem nos ofendeu, consolar o aflito. São gestos pequenos, ao alcance de qualquer um, e é neles que a caridade ganha mãos e pés.
Estamos no Tempo Comum, esse tempo sem grandes festas em que a Igreja nos pede para viver o Evangelho no meio do dia a dia — e não há virtude mais cotidiana do que a caridade. Vale lembrar que há poucas semanas celebramos Pentecostes, quando o Espírito Santo derrama o amor de Deus em nossos corações, e Corpus Christi, a festa da Eucaristia, que é o próprio sacramento da caridade. Meditar hoje sobre o amor é, no fundo, recolher os frutos dessas festas e deixá-los amadurecer na vida concreta.
Então, como amar um pouco mais hoje? Comece pequeno e concreto. Escolha uma pessoa difícil da sua vida — aquele parente, aquele colega — e, em vez de esperar sentir algo por ela, faça um gesto de bem: uma mensagem, um perdão silencioso, uma oração pelo nome dela. Aproxime-se dos sacramentos, sobretudo da Confissão e da Eucaristia, porque é de lá que a caridade brota e se refaz quando esfria. E peça a Deus — peça mesmo — o dom de amar, porque a caridade é graça antes de ser esforço. Que a gente termine este dia tendo amado um pouco mais do que ontem: é assim, em silêncio e sem alarde, que o Céu começa já aqui.
Jesus lhe disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o máximo, e o primeiro mandamento. E o segundo semelhante a este é: Amarás a teu próximo, como a ti mesmo.
Mt 22,37-39 (Figueiredo)
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