Orações · Mistérios da Fé

Símbolo Atanasiano — Quicumque vult salvus esse

O Símbolo Atanasiano — também chamado Quicumque vult pelas suas palavras iniciais — é a mais clara e completa profissão da fé trinitária e cristológica da Igreja latina. Atribuído pela tradição a Sto Atanásio de Alexandria († 373), grande defensor da divindade do Verbo contra o arianismo no Concílio de Niceia (325), o Símbolo é hoje atribuído pela crítica histórica a um autor latino da Gália, do século V ou VI — possivelmente S. Cesário de Arles († 542) ou alguém do círculo de S. Vicente de Lerins († c. 450). A atribuição a Atanásio reflete a fidelidade do texto à doutrina trinitária e cristológica que o santo Doutor defendeu. Composto em 44 versos rítmicos, o Símbolo expõe nas duas partes (vv. 3-26 sobre a Trindade; vv. 27-40 sobre a Encarnação) a fé católica como condição para a salvação. Uso litúrgico: prescrito pelo Breviário Romano de São Pio V (1568) para os Primeiros Vésperas dos Domingos comuns; mantido como opção devocional após a reforma de São Paulo VI (1971). Permanece norma dogmática inquestionável da fé católica e profissão de fé exigida em ocasiões solenes. Apresenta-se aqui o texto integral em latim (versão Breviário Romano), tradução portuguesa literal e tradução inglesa literal.

I. Sobre a Trindade

  1. Todo aquele que quiser salvar-se, antes de tudo é necessário que conserve a fé católica.
  2. Quem não a guardar íntegra e inviolada, sem dúvida perecerá eternamente.
  3. Ora, a fé católica é esta: que veneremos um só Deus na Trindade, e a Trindade na Unidade,
  4. sem confundir as Pessoas, nem dividir a substância.
  5. Pois uma é a Pessoa do Pai, outra a do Filho, outra a do Espírito Santo;
  6. mas uma só é a divindade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, igual a glória, coeterna a majestade.
  7. Tal qual é o Pai, tal o Filho, tal o Espírito Santo.
  8. Incriado o Pai, incriado o Filho, incriado o Espírito Santo;
  9. imenso o Pai, imenso o Filho, imenso o Espírito Santo;
  10. eterno o Pai, eterno o Filho, eterno o Espírito Santo;
  11. e, contudo, não três eternos, mas um só eterno.
  12. Assim como não três incriados nem três imensos, mas um só incriado e um só imenso.
  13. Do mesmo modo, onipotente o Pai, onipotente o Filho, onipotente o Espírito Santo;
  14. e, contudo, não três onipotentes, mas um só onipotente.
  15. Assim Deus é o Pai, Deus o Filho, Deus o Espírito Santo;
  16. e, contudo, não três deuses, mas um só Deus.
  17. Assim Senhor é o Pai, Senhor o Filho, Senhor o Espírito Santo;
  18. e, contudo, não três senhores, mas um só Senhor.
  19. Porque, assim como pela verdade cristã somos obrigados a confessar individualmente cada Pessoa como Deus e Senhor,
  20. assim a religião católica nos proíbe dizer três deuses ou três senhores.
  21. O Pai por ninguém foi feito, nem criado, nem gerado.
  22. O Filho é só do Pai: não feito, nem criado, mas gerado.
  23. O Espírito Santo é do Pai e do Filho: não feito, nem criado, nem gerado, mas procedente.
  24. Há, portanto, um só Pai, não três Pais; um só Filho, não três Filhos; um só Espírito Santo, não três Espíritos Santos.
  25. E nesta Trindade nada é anterior ou posterior, nada maior ou menor;
  26. mas as três Pessoas são entre si inteiramente coeternas e coiguais.

II. Sobre a Encarnação

  1. Assim, em tudo, como acima foi dito, deve adorar-se a Unidade na Trindade e a Trindade na Unidade.
  2. Quem, pois, quiser salvar-se, deve assim sentir da Trindade.
  3. Mas é necessário ainda para a salvação eterna que creia fielmente também na Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo.
  4. É, portanto, fé reta crermos e confessarmos que Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, é Deus e homem.
  5. Deus, da substância do Pai, gerado antes dos séculos; homem, da substância da mãe, nascido no tempo:
  6. perfeito Deus e perfeito homem, subsistente de alma racional e de carne humana;
  7. igual ao Pai segundo a divindade, menor que o Pai segundo a humanidade.
  8. O qual, embora seja Deus e homem, não é, contudo, dois, mas um só Cristo.
  9. Um só, não por conversão da divindade em carne, mas por assunção da humanidade em Deus.
  10. Um só, absolutamente, não por confusão de substância, mas por unidade de Pessoa.
  11. Porque, assim como a alma racional e a carne é um só homem, assim Deus e homem é um só Cristo.
  12. O qual padeceu pela nossa salvação, desceu aos infernos, ao terceiro dia ressuscitou dos mortos;
  13. subiu aos céus, está sentado à direita de Deus Pai onipotente; donde há de vir julgar os vivos e os mortos.
  14. À vinda dele, todos os homens devem ressuscitar com seus corpos e prestar contas de seus próprios atos.
  15. E os que fizeram o bem irão para a vida eterna, e os que fizeram o mal para o fogo eterno.
  16. Esta é a fé católica: quem não a crer fiel e firmemente não poderá salvar-se.

Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo. Assim como era no princípio, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.

Em latim

Quicumque vult salvus esse, ante omnia opus est ut teneat catholicam fidem; quam nisi quisque integram inviolatamque servaverit, absque dubio in aeternum peribit. Fides autem catholica haec est, ut unum Deum in Trinitate, et Trinitatem in Unitate veneremur; neque confundentes personas, neque substantiam separantes. Alia est enim persona Patris, alia Filii, alia Spiritus Sancti; sed Patris et Filii et Spiritus Sancti una est divinitas, aequalis gloria, coaeterna maiestas. Qualis Pater, talis Filius, talis Spiritus Sanctus. Increatus Pater, increatus Filius, increatus Spiritus Sanctus. Immensus Pater, immensus Filius, immensus Spiritus Sanctus. Aeternus Pater, aeternus Filius, aeternus Spiritus Sanctus. Et tamen non tres aeterni, sed unus aeternus. Sicut non tres increati, nec tres immensi, sed unus increatus, et unus immensus. Similiter omnipotens Pater, omnipotens Filius, omnipotens Spiritus Sanctus. Et tamen non tres omnipotentes, sed unus omnipotens. Ita Deus Pater, Deus Filius, Deus Spiritus Sanctus. Et tamen non tres dii, sed unus est Deus. Ita Dominus Pater, Dominus Filius, Dominus Spiritus Sanctus. Et tamen non tres Domini, sed unus est Dominus. Quia, sicut singillatim unamquamque personam Deum ac Dominum confiteri christiana veritate compellimur, ita tres deos aut dominos dicere catholica religione prohibemur. Pater a nullo est factus, nec creatus, nec genitus. Filius a Patre solo est, non factus, nec creatus, sed genitus. Spiritus Sanctus a Patre et Filio, non factus, nec creatus, nec genitus, sed procedens. Unus ergo Pater, non tres Patres; unus Filius, non tres Filii; unus Spiritus Sanctus, non tres Spiritus Sancti. Et in hac Trinitate nihil prius aut posterius, nihil maius aut minus; sed totae tres personae coaeternae sibi sunt et coaequales. Ita ut per omnia, sicut iam supra dictum est, et Unitas in Trinitate et Trinitas in Unitate veneranda sit. Qui vult ergo salvus esse, ita de Trinitate sentiat. Sed necessarium est ad aeternam salutem ut Incarnationem quoque Domini nostri Iesu Christi fideliter credat. Est ergo fides recta, ut credamus et confiteamur quia Dominus noster Iesus Christus, Dei Filius, Deus et homo est. Deus est ex substantia Patris ante saecula genitus, et homo est ex substantia matris in saeculo natus. Perfectus Deus, perfectus homo: ex anima rationali et humana carne subsistens. Aequalis Patri secundum divinitatem, minor Patre secundum humanitatem. Qui licet Deus sit et homo, non duo tamen, sed unus est Christus. Unus autem non conversione divinitatis in carnem, sed assumptione humanitatis in Deum. Unus omnino, non confusione substantiae, sed unitate personae. Nam sicut anima rationalis et caro unus est homo, ita Deus et homo unus est Christus. Qui passus est pro salute nostra, descendit ad inferos, tertia die resurrexit a mortuis; ascendit ad caelos, sedet ad dexteram Dei Patris omnipotentis; inde venturus est iudicare vivos et mortuos. Ad cuius adventum omnes homines resurgere habent cum corporibus suis, et reddituri sunt de factis propriis rationem. Et qui bona egerunt, ibunt in vitam aeternam; qui vero mala, in ignem aeternum. Haec est fides catholica, quam nisi quisque fideliter firmiterque crediderit, salvus esse non poterit. Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto. Sicut erat in principio, et nunc, et semper, et in saecula saeculorum. Amen.

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