Da última cláusula da Oração Dominical: “Amém”
I Importância desta conclusão
1 Sinete do Pai-Nosso
Em seus comentários ao Evangelho de São Mateus, diz São Jerônimo que esta partícula é o “sinete da Oração Dominical”, e isso corresponde à realidade.
Se antes instruímos os fiéis acerca da preparação que lhes incumbe fazer, quando se põem a rezar a Oração Dominical, agora nos parece necessário ensinar-lhes, também, o sentido e razão de ser desta cláusula final da mesma oração. Pois tanto importa começar a oração com diligência, como terminá-la com toda a devoção.
2 Penhor das graças pedidas
Saiba o povo fiel que muitos são, e abundantes, os frutos que podemos tirar deste remate da Oração Dominical, mas que o mais rico e o mais consolador de todos está em conseguirmos as graças pedidas. Disso, porém, já se falou bastante nos capítulos anteriores. Todavia, por esta cláusula final da oração, logramos não só o bom despacho de nossas petições, mas também outros favores, tão grandes e invulgares, que a linguagem humana não os pode exprimir com propriedade.
II Processo misterioso da oração
1 Deus torna-se mais acessível
Como diz São Cipriano, quando os homens privam com Deus na oração, opera-se um processo misterioso, pelo qual a Majestade de Deus se torna acessível a quem reza, mais do que aos outros homens, e lhe confere além disso dons singulares. Até certo ponto, os que rezam, podemos compará-los a quem se aproxima do fogo. Se sentem frio, aquecem-se; se sentem calor, abrasam-se. Assim, também, os que se aproximam de Deus pela oração, tornam-se mais fervorosos, na medida de sua devoção e confiança. Seu coração abrasa-se pela glória de Deus, sua inteligência ilumina-se de clarões admiráveis, e todo o seu ser é cumulado de dons divinos. Assim o doutrinam as Sagradas Escrituras: “Vós lhe fostes ao encontro com a doçura de Vossas bênçãos”.
Sirva de exemplo, para todos, o grande Moisés. Ao retirar-se do trato íntimo com Deus, resplandecia a tal ponto, no fulgor da Divindade, que os Israelitas não podiam contemplar-lhe os olhos e a face.
2 Faz sentir os efeitos de Sua bondade
Realmente, os que rezam com tal fervor do coração, experimentam de modo admirável os efeitos da bondade e majestade divina. “Desde a manhã, me porei na Vossa presença, e erguerei os olhos, porque não sois um Deus que tenha prazer no pecado”.
3 Afervora-nos no Seu serviço
Quanto mais os homens se compenetrarem desta verdade, tanto mais se afervorarão no culto e serviço de Deus, tanto maior será a alegria de sentirem como o Senhor é suave, e como são verdadeiramente felizes todos aqueles que n’Ele põem a sua esperança.
4 Faz-nos reconhecer nossa miséria
No clarão dessa luz que os envolve, eles reconhecem então a que ponto vai a sua própria baixeza, e quão imensa é a majestade de Deus. Serve-lhes de norma aquela palavra de Santo Agostinho: “Que eu Vos conheça, a Vós, qual sois, e que eu me conheça a mim, qual sou!”
Daí nasce que, desconfiados de sua própria suficiência, eles se entregam totalmente à bondade de Deus, e não duvidam, nem de longe, de que Deus os há de acolher com o Seu admirável amor de Pai, e lhes dispensará com abundância todos os meios, que são necessários para a vida presente e para a eterna salvação.
5 Desperta em nós a gratidão
Desde logo, entram a agradecer a Deus, com todo o afeto de que é capaz o seu coração, e de todas as maneiras que pode exprimir a linguagem humana. Nas Sagradas Escrituras, lemos que assim o fez o magnânimo Davi. Começou sua oração pelas palavras: “Salvai-me de todos os que me perseguem”. Mas terminou-a com esta declaração: “Renderei graças ao Senhor, pela Sua justiça, e entoarei louvores ao Nome do Altíssimo”.
6 Exemplos de Davi
Entre os Santos, encontramos um sem-número de orações desse gênero. Começam cheias de temor, e terminam com transportes de alegre confiança. Mas, nesse ponto, é de admirar a perfeição a que chegavam as orações de Davi.
Transido de pavor, começou a rezar: “Muitos se levantam contra mim, muitos dizem à minha alma: Para ele, não há salvação do seu Deus”. Pouco depois, acrescentava animado e cheio de alegria: “Não temerei os milhares de inimigos que me cercam”. Noutro Salmo, deplora primeiro a sua miséria, mas depois põe sua confiança em Deus, e exulta sobremaneira, ante a perspectiva da eterna felicidade: “Por isso mesmo, diz ele, dormirei e descansarei em paz”.
E que dizer daquelas palavras: “Senhor, não me acuseis em Vossa cólera, nem me castigueis em Vossa indignação?” Não é de crer que o Profeta as proferisse no maior sobressalto e angústia? Entretanto, aquilo que continuou a dizer revela confiança e entusiasmo: “Apartai-vos de mim, vós todos que obrais iniquidade, porque o Senhor ouviu o clamor do meu pranto”.
Atemorizado com os ímpetos raivosos de Saul, com que humildade e aniquilamento de si mesmo não implorava Davi o auxílio divino: “Deus, salvai-me pelo amor de Vosso Nome, e com o Vosso poder julgai a minha causa”. Não obstante, no mesmo Salmo acrescentou com alegre confiança: “Mas eis que Deus acode em meu auxílio, e o Senhor é quem protege a minha vida”.
Portanto, o que vai fazer oração, ponha-se cheio de fé e confiança diante de Deus seu Pai, e de modo algum descreia da possibilidade de alcançar tudo quanto necessita.
III Significação do “amém”
1 Seu valor nos lábios de Cristo
Como derradeiro termo da Oração Dominical, o “amém” encerra, como que em embrião, muitas das verdades e sugestões que acabamos de apresentar.
Com efeito, esse termo hebraico era tão frequente na boca do Salvador, que ao Espírito Santo aprouve, por isso mesmo, conservá-la na Igreja de Deus. Ela quer dizer, mais ou menos, o seguinte: Fica ciente de que as tuas orações foram atendidas.
2 Uma resposta de Deus à oração
De certo modo, significa também que Deus responde e dá bom despacho a quem lhe faz a súplica. Esta interpretação é abonada por uma praxe constante da Igreja. Na recitação do Pai-Nosso, durante o Sacrifício da Missa, ela não permite ao acólito acrescentar “amém”, na ocasião que deve responder: “Mas livrai-nos do mal”. Por resposta, reserva-o ao próprio sacerdote. Como mediador entre Deus e os homens, ele é quem responde ao povo, para dizer que Deus atendeu benigno a oração.
3 Esperança de quem reza
Este rito, porém, é privativo do Pai-Nosso, porque nas demais orações da Missa são os acólitos que devem responder “amém”. Nessas outras orações, o “amém” só exprime o desejo unânime do povo; mas, naquela, é a resposta de que Deus acede aos pedidos de quem faz a oração Dominical.
IV Traduções do “amém”
Ao ser traduzida, a partícula “amém” teve muitas e várias interpretações de sentido. Os “Setenta” traduziram-na por “assim seja”; outros tradutores, por “deveras”; Áquilas deu o sentido de “certamente”.
Mas pouco importa esta ou aquela versão, contanto que se admita o sentido já explicado de que o sacerdote assim confirma o bom despacho da petição.
Esta interpretação é corroborada pelo testemunho do Apóstolo, na epístola aos Coríntios: “Todas as promessas de Deus encontraram um ‘sim’ n’Ele; por isso, graças a Ele, dizemos ‘amém’ a Deus, para glória nossa”.
V Efeitos de sua recitação
Em nossa boca, essa palavra contém, por assim dizer, uma confirmação de todas as petições anteriores. Além do mais, aguça a atenção de quem reza; pois não raro acontece que os homens divagam na oração, em se deixando levar por pensamentos estranhos.
Ela nos induz também a pedir, com todo o fervor, que tudo aconteça, isto é, que tudo nos seja dado, conforme o que antes havíamos pedido. O que mais é, percebendo que já fomos atendidos, e vendo a realidade do auxílio divino, prorrompemos naquele júbilo do Profeta: “Eis que Deus vem em meu auxílio, e o Senhor é quem defende a minha vida”.
Com efeito, ninguém pode duvidar de que Deus Se não enterneça com o Nome de Seu Filho, e com a palavra que o Mesmo usava tantas vezes, Ele que, no dizer do Apóstolo, “foi sempre atendido, por causa de Sua reverência”.