Catecismo Romano ·

Capítulo 16

Da sétima Petição: “Mas livrai-nos do mal”

Da sétima Petição: “Mas livrai-nos do mal”

I Importância desta petição

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A derradeira petição, com que o Filho de Deus remata esta prece divina, vale por todas as precedentes. Para nos mostrar seu sentido e importância, ao rogar a Deus pela salvação dos homens, quando estava pois na iminência de morrer, Ele se serviu desta mesma fórmula de oração: “Peço, diz Ele, que os preserveis do mal”. Na presente fórmula deprecatória, que Ele nos dava como preceito, e confirmava com o Seu exemplo, abrangeu, como num breve sumário, a verdadeira razão de todas as outras petições.

No sentir de São Cipriano, se tivermos alcançado o objeto desta petição, nada mais nos resta que pedir. Pois, desde que pedimos a proteção de Deus contra o mal, e realmente a conseguimos, ficamos livres e garantidos contra todas as tramas que o demônio e o mundo nos possam preparar.

Logo, sendo esta petição de tanta importância, como acabamos de afirmar, deve o pároco esmerar-se na maneira mais perfeita de explicá-la aos fiéis cristãos.

No entanto, esta petição difere da anterior, porque numa pedimos preservação de culpa, e noutra libertação de castigo.

II Sua necessidade

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Por isso mesmo, já não se faz mister lembrar ao povo fiel quanto o homem sofre com trabalhos e provações, nem quanto precisa da proteção divina. Pois, sem levar em conta as alentadas exposições de escritores sagrados e profanos, cada qual sabe, por si mesmo e pelo sofrimento alheio, quão numerosas e graves são as misérias, a que está sujeita a vida humana.

Todos se convenceram daquela verdade que nos legou Job, modelo de paciência: “O homem, nascido que é da mulher, tem uma vida breve e cheia de muitas misérias. Desabrocha como uma flor, e logo fenece. Dissipa-se como uma sombra, e jamais permanece na mesma condição”.

Não passa um dia sequer que não seja assinalado por algum incômodo ou sofrimento, consoante o testemunho de Cristo Nosso Senhor: “Basta para cada dia o mal que traz consigo”. Esta condição da vida humana transparece, claramente, naquela advertência do mesmo Senhor, quando fala da obrigação de tomarmos nossa cruz todos os dias, e de aprendermos a segui-l’O.

Ora, como todos sentem quanto a vida humana é trabalhosa e arriscada, fácil será persuadir o povo fiel da necessidade de implorar a Deus que o livre de todos os males. E isso se fará com mais razão, porque nada move tanto os homens a rezar, como o desejo e a esperança de se livrarem dos males que os oprimem, ou que os ameaçam.

No coração humano, há uma tendência inata de recorrer logo a Deus, quando aparece o sofrimento. Aí está a razão de ser daquelas palavras da Escritura: “Cobri, Senhor, o seu rosto de ignomínia, e eles buscarão o Vosso Nome”.

III Maneira de fazê-la

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Ainda que para os homens seja um ato quase espontâneo invocar a Deus em perigos e desgraças, devem contudo aprender a fazê-lo acertadamente. Isto, porém, é tarefa primordial daqueles a cuja fidelidade e prudência está confiado o negócio de sua salvação. Pois não faltam pessoas que, no uso desta oração, invertem a ordem, contrariando o preceito de Cristo Nosso Senhor.

1 Pedir livramento dos males

Na verdade, quem nos mandou recorrer a Si no dia da tribulação, prescreveu também uma ordem na maneira de rezar. Quis, portanto, que, antes de pedirmos livramento do mal, pedíssemos a santificação do Nome de Deus, o advento de Seu Reino e outras intenções, pelas quais devíamos chegar, gradualmente, a esta petição.

Entanto, se lhes dói a cabeça, o lado, o pé; se perdem bens de fortuna; se temem ameaças de inimigos; se estão no meio da fome, da peste e da guerra: muitos há que omitem os graus intermédios da Oração Dominical, e pedem somente que se vejam livres de tais calamidades. Ora, o proceder assim vai de encontro ao preceito de Cristo Nosso Senhor: “Buscai primeiro o Reino de Deus”.

2 Subordinado à glória de Deus

Por conseguinte, os que rezam com as devidas disposições, subordinam tudo à glória de Deus, quando pedem o afastamento de suas penas, dores e males. Assim é que David, ao fazer a súplica: “Senhor, não me castigueis em Vossa cólera!” — aduzia uma razão que revelava seu grande zelo pela glória de Deus. Pois acrescentou: “Porque na morte não há quem se lembre de Vós, e nos infernos quem Vos louvará?” Da mesma forma, quando implorava a misericórdia de Deus, aduziu a cláusula: “Ensinarei aos maus os vossos caminhos, e os ímpios se converterão a Vós”.

O que importa é exortar os fiéis ouvintes a praticarem esta espécie salutar de oração, e a imitarem o exemplo do Profeta. Ao mesmo tempo, devemos mostrar-lhes quanta é a diferença que há entre a oração dos infiéis e a dos cristãos.

3 Não confiando apenas em recursos humanos

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Aqueles também pedem a Deus, com a maior instância, para que possam guarecer de doenças e ferimentos, e escapar de grandes e iminentes calamidades. Mas a principal confiança de seu livramento, eles a põem em remédios dados pela natureza, ou aviados pelo engenho humano. Sem nenhum escrúpulo, aceitam medicação de quem quer que seja, e pouco se lhes dá ser ela preparada com bruxaria, malefício, e intervenção diabólica, contanto que haja alguma esperança de reaver a saúde.

Muito diversa é a prática dos cristãos. Nas doenças e outras calamidades, procuram em Deus o seu melhor refúgio e garantia de salvação; só a Ele reconhecem e veneram, como Autor de todo o bem, e como seu Libertador. Quanto aos remédios, estão convencidos de que sua virtude medicinal vem de Deus, e admitem que só aproveitam aos enfermos, na medida que Deus mesmo determinar.

Ora, foi Deus quem deu aos homens a arte médica para curar as enfermidades. Nesse sentido, declarou o Eclesiástico: “O Altíssimo é quem produziu os medicamentos, e o homem prudente não terá repugnância por eles”.

Portanto, os fiéis discípulos de Jesus Cristo não põem, nos remédios, a sua maior esperança de recuperarem a saúde, mas confiam sobretudo em Deus, que é o próprio Autor da medicina.

Corolário: a função da medicina

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Esta é também a razão por que as Sagradas Escrituras repreendem aqueles que só confiam na medicina, e nenhum auxílio pedem a Deus. Os que regulam sua vida pelos preceitos divinos deixam de usar qualquer remédio, se não tiverem a certeza de que Deus o instituiu como medicamento. Ainda que o uso de tais remédios desse a esperança de sarar, contudo não deixariam de aborrecê-los como encantos e artifícios diabólicos.

Nesse particular, é necessário exortar os fiéis a confiarem em Deus. Como Pai todo-bondoso, Deus nos mandou pedir livramento de todos os males, com o intuito de que, na Sua própria ordem, tivéssemos a esperança de sermos atendidos.

A esse respeito, são muitos os exemplos que se nos deparam nas Sagradas Escrituras. Ora, tal cópia de exemplos deve mover à confiança os que dificilmente se entregariam à esperança só por meio de raciocínios. Diante dos olhos temos Abraão, Jacob, Lot, José, David, que são testemunhas cabais da bondade divina. Os textos sagrados do Novo Testamento mencionam tantas pessoas que se salvaram dos maiores perigos pela oração bem feita, que não se faz mister alegar mais exemplos.

Contentar-nos-emos com uma palavra do Profeta, por ser de molde a revigorar o mais pusilânime dos homens: “Clamaram os justos, e o Senhor os atendeu, livrando-os de todas as suas tribulações”.

IV Conteúdo desta petição

1 De que males pedimos livramento

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Segue-se, agora, explicar o sentido e a importância desta petição. Os fiéis devem alcançar de que modo pedimos, aqui, a isenção de todos os males. Na verdade, existem muitas coisas que se consideram males, mas que são de proveito para quem as padece. Dessa natureza era o aguilhão que empolgava o Apóstolo. Mediante a graça de Deus, devia “a virtude aperfeiçoar-se na fraqueza”. Estas coisas enchem os justos de sumo prazer, desde que eles conheçam a sua finalidade. Nem de longe lhes acode a ideia de pedir que Deus as faça desaparecer.

Aqui, portanto, só pedimos livramento de tais males que nenhum proveito podem trazer à nossa alma; mas de modo nenhum nos referimos aos demais, enquanto deles se pode esperar algum fruto para a salvação.

a Quanto aos males interiores e exteriores

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Os termos desta petição exprimem, cabalmente, que, livres do pecado, sejamos também preservados de tentações perigosas e dos males interiores e exteriores; que estejamos a salvo da água, do fogo e do corisco; que a saraiva não destrua as novidades; que não soframos falta de mantimentos, nem passemos por sedições e guerras. Pedimos a Deus afaste as doenças, a peste, as depredações; que nos guarde de grilhões, masmorras, desterros, traições, ciladas, e todos os mais flagelos que costumam aterrar e oprimir sobremaneira a vida humana; que destrua, afinal, todas as causas de crimes e maldades.

b Quanto a coisas que são bens apreciáveis

Porém, pela nossa súplica, não queremos, apenas, ficar livres daquilo que é mau, na opinião geral; mas queremos também alcançar o que quase todos consideram bens apreciáveis, como sejam riquezas, honras, saúde, robustez, e a própria vida. Pedimos, entretanto, que tais bens não nos redundem para o mal, nem para a ruína de nossa alma.

Rogamos, ainda, a Deus a graça de não sermos acometidos de morte repentina; de não atrairmos sobre nós a cólera divina; de não incorrermos nos castigos reservados aos réprobos; de não termos que sofrer no fogo do Purgatório, do qual pedimos, com santa confiança, sejam libertados também os nossos semelhantes.

Assim é que a Igreja interpreta esta petição, tanto na Missa como na ladainha de Todos-os-Santos, porquanto nos faz pedir que sejamos livres dos “males presentes, passados e futuros”.

2 Maneira de Deus atender

a Afasta desgraças iminentes

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É de vários modos que a Bondade Divina nos livra dos males. Deus afasta, por exemplo, as desgraças iminentes. Lemos nas Sagradas Escrituras que, desta forma, livrou o grande Patriarca Jacob de seus inimigos, que estavam enfurecidos contra ele, por causa da matança entre os moradores de Siquém. O texto diz assim: “O terror de Deus invadiu todas as cidades circunvizinhas, e não se atreveram a persegui-los na retirada”.

Na verdade, todos os bem-aventurados que reinam nos céus com Cristo Nosso Senhor, estão absolutamente livres de todos os males, por efeito da graça divina. Com relação a nós, enquanto peregrinamos neste mundo, não quer Deus forrar-nos de todos os incômodos, mas ainda assim nos livra de alguns em particular.

b Jamais nos deixa sem consolo nos sofrimentos

Assemelha-se, pois, a um resgate de todos os males, essa consolação que Deus, por vezes, concede aos que sofrem tribulações. Tal conforto sentia o Profeta, quando se desafogou nas seguintes palavras: “Na medida que as muitas dores invadiam o meu coração, as Vossas consolações alegraram a minha alma”.

c Acode milagrosamente

Além disso, Deus livra os homens dos males, quando os conserva sãos e salvos no meio do maior perigo, como lemos, nas Escrituras, que fez com os três jovens lançados na fornalha ardente, e com Daniel, a quem os leões nenhum mal fizeram, da mesma forma que o fogo nem sequer chamuscara os adolescentes.

3 O demônio é o “maligno”

a Autor do pecado

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Pela doutrina de São Basílio Magno, São João Crisóstomo e Santo Agostinho, dizemos que o demônio é mau, principalmente por ser ele a causa da culpa dos homens, isto é, de sua queda e pecado.

b Instrumento de castigos

Deus também se serve dele, como Seu instrumento, para castigar os malvados e criminosos; pois Deus é quem manda aos homens todo o mal que eles sofrem, em consequência do pecado. Por isso, dizem as Sagradas Escrituras: “Acontecerá alguma desgraça na cidade, que não seja por disposição do Senhor?” E noutro lugar: “Eu sou o Senhor, e não há outro, que forme a luz, produza as trevas, faça a paz, e estabeleça a correção”.

c Seu ódio contra os homens

Dizemos, também, que o demônio é maligno, porque nos promove uma guerra sem tréguas, e nutre contra nós um ódio de morte, sem lhe termos feito injúria alguma. Muito embora não consiga prejudicar-nos, enquanto formos protegidos pelo escudo da fé e inocência, ele todavia não cessa nunca de tentar-nos com males de fora, e atormentar-nos por todos os meios que estiverem ao seu alcance. Por isso é que pedimos a Deus nos livre do “maligno”.

d Instigador para o mal

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Dizemos, porém, do “mal”, e não “dos males”, porque atribuímos ao “maligno”, como seu autor e instigador, todos os males que nos infligem os nossos semelhantes. Donde se segue que não é propriamente contra o próximo que devemos melindrar-nos; todo o nosso ódio e indignação deve recair sobre o próprio demônio, que instiga os homens a praticarem o mal.

Portanto, se o próximo te ofender com alguma coisa, quando fizeres oração a Deus nosso Pai, pede-Lhe não só que te livre do mal, isto é, das ofensas que o próximo te faça, mas também que salve o teu próprio semelhante das garras do demônio, por cuja malícia os homens são levados à prevaricação.

V Sugestões práticas

a Com resignação

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Finalmente, precisamos atender a uma particularidade. Se pelas nossas orações e promessas não conseguimos livrar-nos dos males, devemos contudo suportar com paciência as tribulações que nos oprimem, considerando ser do agrado da Majestade Divina que as soframos com toda a resignação.

Não temos, portanto, nenhum direito de mostrar-nos irritados ou tristes, porque Deus não escuta as nossas preces; antes, pelo contrário, devemos submeter tudo ao Seu poder e vontade, nutrindo a convicção de que útil e salutar só pode ser aquilo que agrada a Deus, e não o que bem nos parece.

b Com alegria

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Como última instrução, cumpre explicar aos fiéis que, no decurso desta vida mortal, convém estarmos dispostos a sofrer qualquer incômodo ou desgraça, não só com serenidade, mas até com sentimentos de alegria. “Pois todos os que querem levar uma vida piedosa em Cristo Jesus, diz a Escritura, hão de sofrer perseguição”. Mais ainda: “Por muitas tribulações é que devemos entrar no Reino de Deus”. E nesta outra passagem: “Não foi preciso que Cristo padecesse estas coisas, para assim entrar na Sua glória?”

Não é, pois, razoável que o servo seja mais do que o seu senhor. Da mesma forma, seria uma vergonha, no dizer de São Bernardo, se debaixo de uma cabeça coroada de espinhos houvesse membros entregues à moleza.

2 Exemplo dos Santos

Nesse particular, temos para nossa imitação o grandioso exemplo de Urias. Quando David lhe aconselhava de ficar em casa, respondeu ele: “A Arca de Deus, e Israel e Judá moram debaixo de tendas... e haveria eu de entrar em minha casa?”

Se nos dispusermos a rezar, preparados por tais ideias e reflexões, conseguiremos a graça de ficar intactos, no meio das ameaças e perigos que nos cercam e oprimem de todos os lados, assim como os três jovens ficaram ilesos do fogo; ou, pelo menos, como os Macabeus, suportaremos com valor e constância todas as adversidades.

No meio das afrontas e tormentos, imitaremos os Apóstolos. Depois de serem açoitados, exultaram sobremaneira, por serem julgados dignos de sofrer injúrias por amor de Jesus Cristo.

Se nos deixarmos possuir de iguais sentimentos, cantaremos com o maior enlevo de nossa alma: “Os grandes me perseguiram sem motivo, e o meu coração só teve temor de Vossos preceitos. Eu me alegrarei com as Vossas promessas, como quem alcançou ricos despojos”.

Fonte
Tradução de Frei Leopoldo Pires Martins, OFM — Editora Vozes, Petrópolis, 1951. Transcrição revisada a partir do PDF de referência do Serviço de Animação Eucarística Mariana.