Catecismo Romano ·

Capítulo 15

Da sexta Petição: “E não nos deixeis cair em tentação”

Da sexta Petição: “E não nos deixeis cair em tentação”

I Motivo desta petição

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Desde que alcançam o perdão de seus pecados, os Filhos de Deus afervoram-se em render culto e veneração a Deus, desejando ansiosamente o Reino do céu, cumprindo todos os seus deveres de filhos para com a Majestade Divina, abandonando-se inteiramente à Sua paternal vontade e providência.

1 Sanha do demônio contra os bons

Mas coisa é averiguada que, então, o inimigo do gênero humano mais se esforça em usar contra eles todas as astúcias, em lhes assestar todas as baterias, em cercá-los de todos os lados. Isso dá motivo para temer que, mudando de resolução, venham eles a titubear e a reincidir nos antigos vícios, e se tornem muito piores do que antes eram. Com razão se lhes aplicaria aquele princípio do Príncipe dos Apóstolos: “Melhor lhes fora não terem jamais conhecido o caminho da justiça, do que, depois de conhecê-lo, voltarem atrás e afastarem-se da santa Lei que lhes foi ensinada”.

2 Ordem formal de Cristo

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Este é o motivo por que Cristo Nosso Senhor nos mandou recitar a presente petição. Devemos todos os dias encomendar-nos a Deus, implorar a Sua paternal proteção e assistência, não tendo a menor dúvida de que, se nos desamparasse o favor divino, ficaríamos presos nos laços do mais ardiloso inimigo.

De mais a mais, não foi só na Oração Dominical que Ele nos ordenou pedir a Deus não nos deixasse cair em tentação, mas também naquelas palavras que dirigiu aos Santos Apóstolos pouco antes de Sua Morte. Embora dissesse que todos estavam limpos, lembrou-lhes essa mesma obrigação: “Rezai, para não entrardes em tentação”.

Esta advertência, mais uma vez inculcada por Cristo Nosso Senhor, impõe aos párocos o rigoroso dever de induzirem o povo fiel ao uso frequente desta petição. Como o demônio, nosso inimigo, lança os homens, a cada instante, em tantos perigos dessa natureza, recorram eles a Deus, que unicamente pode conjurá-los, e peçam com toda a instância: “Não nos deixeis cair em tentação”.

II Sua importância se demonstra

1 Pela fraqueza humana

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Sem embargo, o povo fiel há de compreender melhor quanto se lhe faz mister esse auxílio divino, se tiver lembrança de sua própria fraqueza e ignorância, se não olvidar aquelas palavras de Cristo Nosso Senhor: “O espírito está aparelhado, mas a carne é fraca”; se considerar quão graves e ruinosas são as quedas dos homens, a que o demônio os pode arrastar, se não forem sustentados pela poderosa destra de Deus.

Poderá haver exemplo mais impressionante da fraqueza humana, do que a sagrada junta dos Apóstolos? Pouco antes, estavam cheios de coragem; mas, aos primeiros sinais de perigo, abandonaram o Salvador, e fugiram desatinados. Mais palpável, ainda, é o exemplo do Príncipe dos Apóstolos. Com grande veemência, havia proclamado, pouco antes, a sua coragem e particular afeição a Cristo Nosso Senhor, e cheio de confiança em si mesmo chegara a dizer: “Ainda que seja preciso morrer convosco, eu não Vos negarei”. Todavia, logo se atemorizou com a interpelação de uma única mulherzinha, e afirmou sob juramento que não conhecia o Senhor. O fato é que suas forças não corresponderam à grande prontidão de seu espírito.

Ora, se homens de eminente virtude pecaram gravemente, por fragilidade da natureza humana, em que punham demasiada confiança: quanto não devem temer os demais, que muitíssimo se distanciam de tal santidade?

2 Dos perigos em que vivemos

a Por parte da má concupiscência

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Por isso mesmo, devem os párocos falar, ao povo fiel, das lutas e perigos a que assiduamente nos achamos expostos, enquanto a alma viver em corpo mortal, e de todos os lados nos assediarem a carne, o mundo e o demônio. Que mal incalculável podem fazer em nós a cólera e a cobiça! Quantos já não o sentiram com grande prejuízo próprio! Quem não é atormentado por tais aguilhões? Quem não sente tais acicates? Quem não se queima com tais brasidos? A bem dizer, tão variados são os golpes, tão imprevistos os assaltos, que muito difícil será escapar alguém, sem graves ferimentos.

b Por parte dos demônios

Além desses inimigos, que moram e vivem conosco, sobejam aqueles assanhados inimigos, dos quais dizem as Escrituras: “A nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos malignos nas alturas”.

c Poderosos no seu intento

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Aos combates interiores, acrescem, de fora, os ataques e investidas dos demônios, que não só nos agridem de frente, como também se insinuam com tanto disfarce em nossas almas, que mal podemos acautelar-nos contra eles.

Chama-lhes o Apóstolo “príncipes” pela eminência de sua natureza, pois em virtude de seus dotes naturais sobrepujam aos homens e às demais criaturas sensíveis. Chama-lhes também “potestades”, porque nos são superiores, já pela própria natureza, já pelo âmbito de seu poder.

Dá-lhes o nome de “dominadores deste mundo tenebroso”, porque não governam o mundo formoso e luminoso, quais são os bons e justos, mas antes o mundo confuso e tenebroso, que se compõe daqueles que, obcecados pelas imundas trevas de uma vida dissoluta e criminosa, se comprazem em seguir ao demônio, príncipe das trevas.

Diz igualmente que os demônios são “espíritos malignos”; pois, havendo malícia da carne, há também uma malícia do espírito. A malícia carnal provoca o apetite dos gozos e prazeres sensuais. A malícia espiritual consta dos maus desejos e paixões desregradas, que empolgam as potências superiores da alma. É, pois, tanto mais funesta do que a outra, quanto mais nobre e elevada é a razão e a inteligência.

Como a malícia de Satanás visa, sobretudo, privar-nos da herança celestial, por isso é que o Apóstolo especificou “nas alturas”. Donde devemos inferir que são grandes as forças de nossos inimigos, inflexível a sua coragem, cruel e imenso o seu ódio contra nós; que nos movem uma guerra contínua, de sorte que nem paz, nem tréguas podemos fazer com eles.

d Tremendos pelo seu poder

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A que ponto vai a sua arrogância, bem o mostra aquela palavra de Satanás, referida pelo Profeta: “Hei de subir até ao céu”. E de fato, acercou-se dos primeiros homens no Paraíso, investiu contra os Profetas, chegou-se aos Apóstolos, para os joeirar como o trigo, conforme dizia Nosso Senhor no Evangelho. Não se vexou de se pôr na presença do próprio Cristo Nosso Senhor. Dessa infrene cobiça e obstinada astúcia do demônio nos fala São Pedro naquela passagem: “O demônio, vosso inimigo, anda em redor como um leão a rugir, buscando a quem devorar”.

Além disso, Satanás não é o único que tenta os homens. Muitas vezes, os demônios se congregam para investir contra um indivíduo. Assim o confessou aquele demônio, a quem Cristo Nosso Senhor perguntara pelo nome, porquanto respondeu: “Meu nome é Legião”. Era, na verdade, um tropel de demônios que havia atormentado o pobre homem. E de outro demônio está escrito: “Toma consigo outros sete espíritos, piores do que ele, e, entrando, fazem ali a sua morada”.

Corolário: Por que os maus não são tão tentados

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Muitos julgam que tudo não passa de imaginação, só porque de modo algum experimentam, em si mesmos, as tentações e ataques dos demônios. Todavia, não admira não sejam tais pessoas acometidas pelos demônios, uma vez que se entregaram a eles de própria vontade.

Não possuem piedade, nem caridade, nem virtude alguma própria de um cristão. Daí nasce estarem, inteiramente, no poder do demônio. E o demônio não precisa valer-se das tentações para as derribar, desde que consentiram, espontaneamente, em lhe dar morada no coração.

Entretanto, os que se consagraram a Deus, e levam na terra uma vida toda celestial, são por isso mesmo atingidos, mais do que todos, pelos furores de Satanás, que nutre contra eles um ódio implacável, e lhes arma ciladas a cada instante. A História Sagrada está cheia de exemplos, relativos a santos varões que ele derribou, por violência e traição, não obstante terem lutado corajosamente. Adão, David, Salomão, e outros mais, que seria difícil enumerar, sofreram violentos ataques e pérfidas traições dos demônios, a que a mera prudência e força humana não pode resistir.

Sendo assim, quem poderia julgar-se seguro, se contasse somente com o seu próprio resguardo? Com piedade e pureza de intenção, pois, devemos pedir a Deus não permita sermos tentados além do que podem as nossas forças, e nos faça, antes, tirar alento da própria tentação, para podermos resistir com firmeza.

e Limites da tentação

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Neste ponto, devemos também acoroçoar os fiéis, se alguns por covardia ou ignorância ficam transidos com o poder dos demônios, para que, na tormenta das tentações, se acolham ao porto seguro desta petição.

Mau grado seu grande poder e obstinação, e seu ódio mortal contra o gênero humano, o demônio não pode tentar-nos e importunar-nos, com a força ou pelo tempo que ele queira, pois toda a sua influência é regulada pela vontade e permissão de Deus.

Disso temos em Job o exemplo mais conhecido. Não tivesse Deus dito ao diabo a seu respeito: “Tudo quanto ele possui está em tuas mãos” — não poderia Satanás tocar em nada que fosse dele. Todavia, se o Senhor não tivesse acrescentado: “Só não estendas tua mão contra a sua pessoa” — um único golpe do demônio o teria fulminado, juntamente com seus filhos e todos os cabedais. A tal ponto está ligado o poder dos demônios, que sem permissão de Deus não poderiam sequer entrar nos porcos, de que falam os Evangelistas.

III Explicação real da petição

1 Sentido de “tentar”

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Para se compreender o pleno sentido desta petição, força é explicar o que, neste lugar, significa “tentação”, bem como o que quer dizer “cair em tentação”. Ora, tentar é pôr em situação perigosa a quem desejamos experimentar, a fim de fazê-lo trair seus sentimentos acerca de alguma coisa. Nessa modalidade, não se pode admitir nenhuma tentação da parte de Deus. Pois que coisa pode haver que Deus não saiba de antemão? Diz o Apóstolo: “Tudo está franco e descoberto aos Seus olhos”.

a Deus não tenta para apurar a verdade

Outra espécie de tentação consiste em exagerar alvitres, que costumam sortir efeitos contrários, tanto para o bem, como para o mal. É para o bem, quando dessa forma se experimenta a virtude de alguma pessoa, com o fito de deixá-la bem averiguada, de cumular de honras e benefícios a quem a pratica, de propor tal exemplo à imitação dos outros, e de incitar a todos que, por isso mesmo, rendam louvor a Deus. Esta maneira de tentar é a única possível da parte de Deus.

Exemplo de tal tentação são aquelas palavras do Deuteronômio: “O Senhor vosso Deus vos põe à prova, para que se torne manifesto, se O amais, ou não”.

b Mas para provar a virtude

Também se diz que Deus tenta os seus, quando os aflige com pobreza, doença e outras adversidades. Assim procede, para lhes apurar a paciência, e para os apresentar aos outros homens como exemplos do dever cristão.

c Máxime pelo sofrimento

Nesse sentido, lemos que Abraão foi tentado, porquanto devia imolar seu próprio filho; e, pelo seu procedimento, se tornou um exemplo singular de obediência e resignação, que jamais se apagará da lembrança dos homens. De forma análoga, dizem as Escrituras a respeito de Tobias: “Porque eras benquisto de Deus, foi preciso que a tentação te provasse”.

d O demônio tenta para o mal

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É para o mal, a tentação dos homens, quando estes são induzidos ao pecado, ou à sua ruína espiritual. Nisso vai um mister próprio do diabo, que tenta os homens, com o fito de enganá-los e perdê-los. Por isso, as Sagradas Escrituras lhe chamam simplesmente “o tentador”.

e Pela rebeldia da concupiscência e por meios externos

Em tais tentações, ele ora produz em nós uma rebelião interior, valendo-se dos apetites e inclinações de nossa alma; ora nos persegue exteriormente, lançando mão de fatores extrínsecos, uns favoráveis, para nos levar à soberba, outros prejudiciais para nos tirar a coragem. Às vezes, dispõe também de homens perdidos como seus emissários e batedores, entre os quais se destacam os hereges que, sentados na cadeira da pestilência, lançam por toda a parte a semente mortífera de suas perversas doutrinas, para fazerem a ruína completa dos fracos e vacilantes, que de si mesmos propendem para o mal, e não possuem nenhum critério para julgar entre a virtude e os vícios.

2 Sentido de “cair em tentação”

a Deus não quer o pecado

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Dizemos “cair em tentação” todas as vezes que sucumbimos às tentações. Ora, há dois modos de cair em tentação. Primeiramente, quando nos deixamos conturbar, e nos rendemos ao pecado, para o qual alguém nos arrastou por sua instigação. Mas é certo que, deste modo, Deus não induz ninguém em tentação, porque Deus não pode ser causa de pecado para ninguém, pois até odeia “todos aqueles que praticam a iniquidade”. Assim o declarou também o Apóstolo Santiago: “Quando alguém for tentado, não diga que é tentado por Deus, pois Deus não tenta para o mal”.

b Mas permite tentações e quedas

Em segundo lugar, de quem não nos tenta propriamente, nem contribui para sermos tentados, dizemos todavia que tenta da mesma forma, porquanto não nos atalha as ocasiões de tentação, ou não impede nossa derrota, embora lhe seja possível fazê-lo. Deus, por sua vez, permite que os bons e justos sejam tentados dessa maneira, mas não os deixa sem o auxílio de Sua graça. Algumas vezes, por um justo e secreto juízo de Deus, que nossos pecados provocaram, ficamos entregues às nossas próprias forças, e sucumbimos miseravelmente.

c Nem impede o abuso das Suas graças

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Afirma-se, ainda, que Deus nos induz em tentação, quando, por desgraça nossa, abusamos dos dons e benefícios que Ele nos dispensou para nossa salvação, e, como o filho pródigo, desbaratamos a fortuna paterna na libertinagem, vivendo ao sabor de nossas paixões. A nosso respeito podemos repetir o que o Apóstolo havia dito da Lei: “Conforme averiguei, o preceito que devia levar à vida, tornou-se ocasião de morte”.

Disso temos um exemplo apropriado na cidade de Jerusalém, de acordo com o testemunho do profeta Ezequiel. Deus a tinha provido de todas as preciosidades, e chegou ao ponto de declarar pela boca do Profeta: “Tu eras perfeita no Meu ornato, qual Eu havia lançado sobre ti”.

Todavia, em vez de ser grata a Deus, pelo muito que lhe fizera, e continuava fazendo, e de aproveitar os dons celestes como meios que recebera, para garantir a sua eterna bem-aventurança: aquela cidade, dotada de tantas mercês divinas, se mostrou ingratíssima para com Deus seu Pai, abandonou toda a esperança e recordação dos bens celestiais, para só gozar das riquezas terrenas, na mais ruinosa devassidão. Assim Ezequiel o descreve, largamente, no mesmo capítulo.

Por igual motivo, são ingratos para com Deus, os homens que com Sua permissão empregam em vícios os abundantes favores que Deus lhes concede para a prática da virtude.

Idiomatismos da Bíblia nesse sentido

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Mas aqui é preciso levar em conta a linguagem da Sagrada Escritura. Para designar a permissão de Deus, usa certas locuções que, em seu sentido próprio, indicaram um ato positivo da parte de Deus. No Êxodo, por exemplo, está escrito assim: “Eu endurecerei o coração de Faraó”. Em Isaías: “Hás de cegar o coração deste povo”. Na epístola aos Romanos, escreve o Apóstolo: “Deus os entregou a paixões vergonhosas e sentimentos depravados”. Ora, em tais passagens e noutras semelhantes, não se deve absolutamente entender que Deus tal fizesse, mas que o tinha apenas permitido.

3 Vantagens das tentações

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Em vista do que foi exposto, não será difícil compreender o que se pretende nesta cláusula da petição. Nem de longe pedimos isenção completa de tentações, pois a vida do homem é uma provação sobre a terra. Elas são úteis e proveitosas para o gênero humano, porque nas tentações ficamos conhecendo a nós mesmos, isto é, as nossas próprias forças.

Por esse motivo é que também nos humilhamos, debaixo da poderosa mão de Deus, e, depois de combatermos varonilmente, esperamos “uma coroa imarcescível de glória”. Pois “quem porfia na arena não é coroado, se não tiver lutado de acordo com todas as regras”. Ou, também, como diz Santiago: “Feliz o homem que sofre tentação, porque, depois de provado, receberá a coroa da vida, que Deus prometeu aos que O amam”.

Se os inimigos, por vezes, nos acossam com tentações, muito nos confortará a lembrança de que temos, para nos auxiliar, “um Pontífice que pode compadecer-Se de nossas fraquezas, uma vez que Ele mesmo foi provado em todas as coisas”.

Por conseguinte, que havemos de pedir aqui? Que não nos falte o auxílio divino, para não consentirmos — iludidos — nas tentações, nem cedermos a elas por falta de coragem; que prontamente nos acuda a graça de Deus, para nos confortar e alegrar, quando desfalecerem as nossas próprias forças.

4 Sentido básico desta petição

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Por isso, devemos pedir, em geral, o auxílio de Deus em todas as tentações, e rezar de modo particular, todas as vezes que formos tentados. Lemos, nas Escrituras, que David assim procedia em quase todas as espécies de tentação. Contra a mentira rezava assim: “Não tireis jamais de minha boca a palavra da verdade”. Nas tentações de cobiça: “Inclinai o meu coração para os Vossos Preceitos, e não para a avareza”. Contra as vaidades desta vida e as seduções da má concupiscência, usava a oração seguinte: “Desviai os meus olhos, para que não vejam a vaidade”.

Pedimos, portanto, a graça de não cedermos aos maus apetites; de não arrefecermos na luta contra as tentações; de não nos arredarmos do caminho do Senhor; de conservarmos igualdade e constância de ânimo, tanto na desgraça, como na ventura; que nenhuma parcela de nosso ser careça da proteção de Deus. Instamos, afinal, que Ele “esmague a Satanás debaixo de nossos pés”.

IV Sugestões práticas

1 Desconfiar das próprias forças

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Resta, pois, que o pároco esclareça os fiéis sobre as ideias e reflexões, que devem principalmente acompanhar esta petição. Já que conhecemos nossa grande fragilidade, o melhor alvitre será desconfiar de nossas próprias forças, colocar na bondade divina toda a esperança de nossa salvação, entregar-nos cegamente à proteção de Deus, e ter assim uma coragem inabalável em face dos maiores perigos. Isso tanto mais, se cuidarmos como Deus já livrou da goela aberta de Satanás a muitos que estavam compenetrados dessa esperança e coragem.

2 Entregar-se à bondade divina

Pois não foi Deus que salvou José do maior perigo, e lhe conferiu as mais subidas honras, quando ele já se via envolto, de todos os lados, pelos loucos ardores de uma mulher libidinosa? Não conservou Ele a vida de Susana que, assediada pelos agentes de Satanás, estava prestes a sofrer a morte, em consequência de uma sentença injusta? Mas não admira que assim acontecesse, pois “seu coração punha toda a confiança no Senhor”. Insigne é também a honra e glória de Job, por ter triunfado do mundo, da carne, e do demônio. Muitos são os exemplos dessa natureza, a que o pároco deve recorrer assiduamente, para exortar o povo fiel à prática de tal esperança e confiança.

3 Fitar os olhos em Cristo

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Por seu lado, devem os fiéis considerar qual é o chefe que lhes assiste nas tentações dos inimigos, a saber, Cristo Nosso Senhor, que nessa luta já alcançou a vitória. Ele em pessoa venceu o demônio. Ele é o mais forte, que atacou e prostrou o inimigo armado, a quem subtraiu as armas e os despojos.

A respeito da vitória, que Ele alcançou sobre o mundo, diz São João no Evangelho: “Tende confiança, Eu venci o mundo”. No Apocalipse, é chamado o Leão triunfante, que saiu “como vencedor, para vencer”, porque pela Sua vitória deu aos Seus seguidores a possibilidade de também triunfarem. A epístola do Apóstolo aos Hebreus está cheia de vitórias obtidas por santos varões, “que pela fé venceram impérios... fecharam a boca dos leões”, e outras coisas mais.

4 Pensar nos triunfos de Cristo

Essas façanhas, que lemos nas Escrituras, devem levar-nos a pensar nas vitórias que todos os dias alcançam, em lutas internas e externas contra os demônios, as pessoas animadas de verdadeira fé, esperança e caridade. São vitórias tão numerosas e tão brilhantes, que, se nossos olhos pudessem percebê-las, teríamos a convicção de que não acontece outra coisa no mundo, com mais frequência e grandeza. À derrota dos inimigos que atacam tais pessoas, se referem as palavras de São João: “Eu vos escrevo, jovens, porque sois fortes, porque a palavra de Deus permanece dentro de vós, e porque vencestes o maligno”.

5 Usar os meios condizentes

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O demônio, naturalmente, não é vencido por meio da vadiagem, da sonolência, da bebedeira, da glutonaria e da luxúria, mas tão somente pela oração, pelo trabalho, pela vigilância, pela abstinência, pelo domínio de si mesmo, e pela castidade. Diz uma passagem da Bíblia, citada anteriormente: “Vigiai e orai, para não entrardes em tentação”. Ora, quem usa destas armas para lutar, afugenta os inimigos, pois o demônio foge daqueles que lhe fazem resistência.

Considerando, porém, as vitórias dos Santos, que acabamos de referir, ninguém presuma de si mesmo, ninguém tenha a vaidosa confiança de poder resistir, por si mesmo, às rijas tentações e ataques dos demônios. Tal vitória não é mérito de nossa natureza, nem obra da fragilidade humana.

6 Pedir forças a Deus

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As forças, para vencermos o demônio e seus apaniguados, nos são dadas por Deus, que faz de nossos braços um arco de bronze. Por Sua bondade, é quebrado o arco dos fortes, e os fracos são cingidos de força. Ele nos dá a defesa da salvação, e nos sustenta com a Sua direita; aparelha nossas mãos para o combate, e nossos punhos para a guerra.

Sendo assim, a Deus somente devemos render todas as graças pela vitória, porque só pela Sua força e direção podemos sair vencedores. Tal era a atitude do Apóstolo, quando dizia: “Graças a Deus, que nos deu a vitória por Jesus Cristo Nosso Senhor”. No Apocalipse, uma voz misteriosa do céu também O proclamava como autor da vitória: “Agora foi estabelecida a salvação, o poder, e o reinado de nosso Deus, e a soberania do Seu Ungido; porque acaba de ser precipitado o acusador de nossos irmãos... E eles o venceram pelo Sangue do Cordeiro”. O mesmo Livro fala, noutro lugar, da vitória que Cristo Nosso Senhor alcançou sobre o mundo e a carne: “Eles lutarão contra o Cordeiro, mas o Cordeiro há de vencê-los”.

Tanto dizemos das condições essenciais para vencer. E quanto basta.

7 Almejar os prêmios da vitória

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Depois dessas explicações, os párocos falarão ao povo fiel das coroas que Deus prepara aos vencedores, e das infinitas recompensas que lhes destinou na eternidade. Em abono de tal doutrina, poderão aduzir os divinos testemunhos do mesmo Apocalipse: “Quem sair vencedor, nada terá que sofrer da segunda morte”. E alhures: “Quem vencer, será adornado de vestiduras brancas. Eu não apagarei o seu nome do Livro da Vida, mas proclamarei o seu nome diante do Meu Pai, e na presença de Seus Anjos”.

Mais adiante, Deus Nosso Senhor mesmo diz a São João as seguintes palavras: “Ao que vencer, fá-lo-ei coluna no templo do Meu Deus, e dali não será jamais removido para fora”. E noutra passagem: “Quem vencer, Eu o farei sentar Comigo no Meu trono, assim como Eu mesmo também venci, e Me sentei com Meu Pai no Seu trono”. Afinal, depois de descrever a glória dos Santos, e a eterna abundância de bens que hão de gozar no céu, acrescenta o Apocalipse: “Aquele que vencer, possuirá todas estas coisas”.

Fonte
Tradução de Frei Leopoldo Pires Martins, OFM — Editora Vozes, Petrópolis, 1951. Transcrição revisada a partir do PDF de referência do Serviço de Animação Eucarística Mariana.