Da quinta Petição
I Importância desta petição
Sem conta são as provas do infinito poder de Deus, a que se une igual sabedoria e bondade. Para onde quer que volvamos nosso olhar e pensamento, deparam-se-nos sinais absolutos de Seu imenso poder e clemência.
1 Como fruto da Paixão de Cristo
Mas não há nenhum que nos mostre mais ao vivo os extremos de Seu amor e a Sua admirável afeição para conosco, do que o inefável mistério da Paixão de Jesus Cristo. Dela prorrompeu a fonte inesgotável que purifica as nódoas do pecado. Sob a ação da Bondade Divina, é nessa fonte que desejamos lavar-nos e justificar-nos, quando a Deus fazemos a súplica: “Perdoai-nos as nossas dívidas”.
2 Como meio para a vida eterna
Esta petição enfeixa, por assim dizer, todos os bens de que Jesus Cristo cumulou o gênero humano. Assim o ensinou Isaías, quando dizia: “Perdoada será a iniquidade da casa de Jacob, e o maior fruto está na eliminação de seu pecado”. A mesma verdade demonstrou David, apregoando a ventura daqueles que puderam lograr esse fruto de salvação. Suas palavras são estas: “Felizes daqueles, a quem foram perdoadas as suas iniquidades”.
Em vista disso, devem os párocos esmerar-se na maneira de expor e considerar o sentido desta petição, pois lhe reconhecemos a grande importância para se conseguir a vida eterna.
3 Como início de nova espécie de oração
Nesta altura do Padre-Nosso, iniciamos uma nova espécie de oração. Até aqui pedíamos a Deus não só bens eternos e espirituais, mas também valores temporais e vantagens terrenas. Doravante, rogaremos que de nós se afastem os males da alma e do corpo, tanto nesta vida, como na eternidade.
II Disposições para a petição
Sendo, porém, necessário pedir com boas disposições, se quisermos alcançar o que pedimos, força nos parece indicar com que sentimentos se deve dirigir esta petição a Deus.
1 Reconhecer os próprios pecados
Os párocos exortarão o povo fiel que a primeira exigência para quem reza nessa intenção, é a de reconhecer os seus próprios pecados. A segunda é arrepender-se deles sinceramente. A terceira é admitir, sem mais dúvida, que Deus se apraz em perdoar aos pecadores que tiverem as disposições já explicadas, para que, à dolorosa lembrança e consideração dos pecados, ninguém ceda àquela desesperança de perdão, que outrora empolgou os ânimos de Caim e Judas, porquanto só viam em Deus um juiz irado e vingador, em vez de julgá-Lo benigno e misericordioso.
Nesta petição, devemos compenetrar-nos de sentimentos que nos induzam a reconhecer pesarosos os nossos pecados, e a volver-nos a Deus como nosso Pai, e não como nosso Juiz, para Lhe pedirmos não nos trate com o rigor de Sua justiça, mas antes com a brandura de Sua misericórdia.
Baseando-nos na doutrina da Bíblia
Chegaremos, facilmente, a reconhecer os nossos pecados, se dermos ouvido às advertências que, a esse respeito, nos faz o próprio Deus nas Sagradas Escrituras. Pela boca de David falou-nos assim: “Todos se transviaram, e prevaricaram sem exceção. Não há quem pratique o bem, não há nem um sequer”. No mesmo sentido se manifesta Salomão: “Na terra, não há homem justo que faça o bem, e que não peque”. Aqui se enquadra aquela outra passagem: “Quem pode afirmar: Limpo está o meu coração, eu estou livre de pecado?”
Para prevenir os homens contra tal presunção, São João expressou-se de maneira análoga: “Se dissermos que não temos pecado, iludimo-nos a nós mesmos, e conosco não está a verdade”. E Jeremias também escreveu: “Tu disseste: Estou sem pecado, e inocente. Por isso, aparte-se de mim a Vossa cólera. Porém Eu vou entrar contigo em Juízo, porque sustentaste: Não pequei”.
Todas essas declarações, Cristo Nosso Senhor as fez pela boca dos Profetas, e as confirma pelo preceito desta petição, em que nos manda confessar nossa condição de pecadores.
Outra interpretação iria contra a autoridade do Concílio de Mileve, que assim definiu: “Aprouve-nos decretar: Quem afirmar que as palavras da Oração Dominical — perdoai-nos as nossas dívidas — são proferidas pelos Santos só por humildade, e não por íntima convicção, seja ele excomungado. Pois quem sofrerá uma pessoa que, na oração, esteja a mentir, não aos homens, mas ao próprio Senhor, dizendo de boca que pede perdão, mas protestando interiormente que não tem culpa, para lhe ser perdoada”.
2 Arrepender-nos deles
O reconhecimento dos pecados é pois indispensável, e não basta recordá-los ligeiramente. A lembrança de nossos pecados deve encher-nos de amargura, deve afligir nosso coração, sacudir nossa consciência, e abrasar nosso íntimo da mais forte compunção.
Os párocos devem, portanto, extremar-se na explicação desta matéria, para que os fiéis ouvintes não só se lembrem de seus pecados e delitos, mas que também o façam com toda a dor e consternação; que recorram a Deus Pai, quando o remorso os atormenta, e peçam com instância lhes arranque da alma os aguilhões do pecado.
a Pela sua hediondez
Para esse fim, não devem apenas desvendar aos fiéis a torpeza dos pecados que se cometem, mas também a extrema abjeção do próprio homem. Pois nós, que nada somos senão carne corruptível, objeto do mais vil desprezo, temos contudo a incrível ousadia de ofender a Deus, tanto em Sua incompreensível majestade, como em Sua indescritível grandeza, e isso depois que por Deus fomos criados, remidos, e agraciados com um sem-número de inestimáveis benefícios.
b Pelo desprezo de Deus
c Pelo cativeiro do demônio
E que nos adianta tal ofensa? Largamos a Deus Pai, que é o Sumo Bem, e, como infame vantagem de nosso pecado, nos vinculamos ao demônio, pela mais desconsoladora escravidão. Nem se pode descrever com quanta crueldade ele domina nas almas daqueles que sacodem o suave jugo de Deus, rompendo os laços dulcíssimos de amor que unem nossa alma a Deus Pai, para se bandearem com aquele figadal inimigo, a quem as Escrituras chamam “príncipe” e “dominador do mundo”, “príncipe das trevas”, “rei de todos os filhos da soberba”.
Aos que gemem sob a tirania do demônio, aplicam-se na verdade as palavras de Isaías: “Senhor, Deus Nosso, desde que fostes excluído, outros senhores tomaram posse de nós”.
d Pelos castigos
Se pouco se nos dá havermos rompido os laços da caridade, deveríamos pelo menos impressionar-nos com os castigos e desgraças, em que nos faz cair o pecado. Com efeito. Profana-se a santidade da alma, da qual sabemos ser esposa de Cristo. Conspurca-se o templo de Deus, e contra seus violadores invectivou o Apóstolo: “Se alguém profanar o templo de Deus, Deus o deitará a perder”.
Inumeráveis são então os males que o pecado desencadeia sobre o homem. Essa perdição quase sem limites, David a caracterizou com as seguintes palavras: “Por causa de Vossa cólera, não há nada de são em minha carne; e nos meus ossos não há quietação, por causa de meus pecados”.
Bem conhecia ele a gravidade desse mal, quando confessava que nenhuma parte do seu ser ficara livre da pestilência do pecado; penetrara-lhe nos ossos o vírus do pecado, isto é, pervertera-lhe a razão e a vontade, que são as mais firmes potências da alma. Desta contagião falam as Sagradas Escrituras, quando aos pecadores chamam de coxos, surdos, cegos e entrevados.
Mas, além de compungir-se de suas faltas, como de verdadeiros crimes, maior pavor ainda tinha David da cólera divina, que sabia estar contra ele, por causa de seu pecado. Pois Deus guerreia os ímpios, dos quais recebe as mais incríveis afrontas, conforme disse o Apóstolo: “Cólera e indignação, tribulação e angústia invadirão a alma de todo homem que pratica o mal”. Na verdade, ainda que o ato pecaminoso já tenha passado, todavia remanesce a ofensa e culpa do pecado, que Deus ameaça com a Sua cólera, e persegue continuamente, como a sombra acompanha o corpo.
Corolário: Doutrina do arrependimento
Como os remorsos lhe cruciavam a alma, sentia David a necessidade de pedir perdão de seus pecados. Do Salmo Quinquagésimo, podem os párocos deduzir a prática e os motivos de tal penitência, e por aí instruirão os seus fiéis ouvintes, para que estes, a exemplo do Profeta, se movam ao arrependimento, ou melhor, à verdadeira penitência e à esperança de lograrem perdão.
A grande vantagem que traz esse método, de ensinar como devemos arrepender-nos de nossos pecados, Deus a encareceu numa declaração que se encontra no profeta Jeremias. Ao exortar o povo de Israel à penitência, insistia que tomasse a sério os efeitos calamitosos do pecado. Dizia Ele: “Olha, pois, que é coisa má e amarga o haveres abandonado o Senhor teu Deus, e o não teres temor de Mim, diz o Senhor Deus dos exércitos”.
Os homens que carecem deste dom imprescindível, qual é o conhecimento de si mesmo e a compunção dos pecados, possuem “um coração duro, de pedra, e de diamante”, conforme dizem os profetas Isaías, Ezequiel e Zacarias. São iguais a uma pedra, não se enternecem com nenhuma dor, não têm nenhum senso de vida, isto é, de salutar reflexão.
3 Confiar na misericórdia divina
a Deus pronto a perdoar
Contudo, para que o povo, aterrado com o peso de seus pecados, não descreia da possibilidade de alcançar perdão, devem os párocos concitá-lo à esperança, por meio das seguintes considerações. Cristo Nosso Senhor não só deu à Igreja o poder de perdoar pecados, conforme se diz no sagrado Símbolo, mas também revelou, na presente petição, quanto Deus é bom e liberal para com o gênero humano.
Não estivesse Deus pronto e disposto a perdoar os pecados aos que deles se arrependem, nunca nos teria prescrito esta fórmula de oração: “Perdoai-nos as nossas dívidas”. Por conseguinte, em nossos corações deve gravar-se a absoluta convicção de que, para conosco, usará de Sua paternal misericórdia quem nestes termos nos mandou invocá-la expressamente.
b Mas quer ser rogado
Pois, em seu sentido mais profundo, esta petição nos dá a entender que Deus nos é tão afeiçoado, que de boa mente perdoa aos verdadeiros arrependidos. Com efeito, é Deus, a quem ofendemos pela negação de obediência; é a ordem estabelecida por Sua sabedoria, que procuramos subverter de todos os modos; a Ele mesmo é que provocamos e ofendemos por palavras e obras.
Entretanto, esse mesmo Deus é um Pai bondosíssimo, que tudo pode perdoar; que não só declarou ser de Sua vontade fazê-lo, mas até obrigou os homens a pedir-Lhe perdão, ensinando as palavras de que se devem servir, para tal súplica. Portanto, ninguém pode duvidar que, com o auxílio de Deus, está em nós o podermos recuperar a graça de Sua amizade.
Ora, o fato de sabermos que a vontade divina está propensa a perdoar-nos, aumenta a fé, fortalece a esperança, e inflama a caridade. Vale, pois, a pena ilustrar esta doutrina com alguns lugares bíblicos, e com os exemplos de homens, a quem Deus concedeu o perdão dos maiores crimes. Já que desenvolvemos bastante esta matéria, no proêmio desta petição e na parte do Símbolo relativa à remissão dos pecados, de lá tomarão os párocos o que acharem a propósito, e o mais colherão das fontes da Sagrada Escritura.
III Explicação verbal da petição
Sigam aqui os párocos o mesmo método que adotamos nas petições anteriores, e façam os fiéis compreenderem o que, neste lugar, se entende por “dívidas”, para que se não enganem com a ambiguidade do termo, e peçam coisa diferente do que devem pedir.
1 Sentido de “dívidas”
a Como obrigação
Antes de tudo, importa saber que, de nenhum modo, pedimos dispensa da obrigação de amarmos a Deus de todo o coração, de toda a nossa alma, de todos os nossos sentimentos. É uma dívida formal, que temos para com Deus, e cuja solvência é indispensável para a salvação. Por dívida se entende também a obediência, o culto, a adoração a Deus, e outras obrigações da mesma natureza. Delas, igualmente, não pedimos livramento.
b Como transgressão
Na verdade, o que pedimos é que Deus nos livre de nossos pecados. Assim o entendia São Lucas, quando em lugar de “dívidas” escreveu “pecados”. Certamente, porque nos tornamos culpados diante de Deus, todas as vezes que os cometemos, e nos expomos às penas devidas, que então temos de resgatar, quer pela satisfação, quer pelo sofrimento.
Desta espécie era a dívida, a que Cristo Nosso Senhor se referia, pela boca do Profeta: “Tive de pagar o que não devia”. Esta palavra, proferida por Deus, nos dá a entender que somos, não só devedores, mas até devedores insolventes, porque o pecador não pode, absolutamente, satisfazer por si mesmo.
c Como objeto do perdão divino
Por isso mesmo, devemos recorrer à misericórdia de Deus. Ora, esta se põe em igualdade com Sua justiça, da qual Deus é guarda zelosíssimo. Devemos, portanto, valer-nos da oração, e defender-nos com a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, sem a qual ninguém jamais conseguiu o perdão de seus pecados; pois dela promana, como de uma fonte, toda a eficiência de qualquer satisfação.
Na verdade, o preço que Cristo Nosso Senhor pagou na Cruz, e nos comunica pelos Sacramentos, quando realmente os recebemos, ou quando desejamos recebê-los, esse preço é tão grande, que nos alcança e nos outorga o objeto colimado nesta petição: o perdão de nossos pecados.
E aqui não pedimos apenas a remissão de pecados leves, os mais fáceis de perdoar, mas também dos graves e mortais. Naturalmente, quanto aos pecados graves, não terá esse efeito a oração, como já dissemos, se não for acompanhada pela recepção real do Sacramento da Penitência, ou pelo vivo desejo de recebê-lo de fato.
2 Sentido de “nossas dívidas”
Dizemos “nossas dívidas”, mas em sentido muito diverso daquele, com que há pouco dizíamos “pão nosso”. Pois o pão é nosso, porque Deus no-lo concede em Sua liberalidade; mas os pecados são nossos, porque sobre nós recai toda a sua malícia. Nascem do nosso querer, e deixariam de ser pecados, se não fossem voluntários.
Logo, reconhecendo e confessando nossa culpa, imploramos a misericórdia divina, sem a qual não pode haver expiação de pecados. Nesse mister, não lançamos mão de nenhuma escusa, nem atribuímos a culpa a quem quer que seja, como o fizeram Adão e Eva, os primeiros homens. Pelo contrário, nós nos acusamos a nós mesmos, e repetimos com cordura aquela oração do Profeta: “Não permitais que meu coração se transvie com palavras de malícia, para forjar desculpas de meus pecados”.
3 Obrigação de pedir pelos outros
Também não dizemos “perdoai-me”, mas antes “perdoai-nos”. Assim o exige a união e caridade fraternal entre os homens. Devemos interessar-nos pela salvação comum de nossos semelhantes, pedindo igualmente por eles, quando rezamos em nossa própria intenção.
Este modo de orar foi ensinado por Cristo Nosso Senhor. Era da prática muito pessoal dos Apóstolos, que o introduziram entre os demais cristãos. Deste ardoroso amor e zelo em rezar pela salvação do próximo, temos no Antigo e Novo Testamento o notável exemplo de Moisés e Paulo. O primeiro orava a Deus nestes termos: “Ou perdoai-lhes esta culpa, ou, se o não fazeis, riscai-me do Vosso Livro”. O segundo dizia assim: “Quisera eu ser excomungado por Cristo, em lugar de meus irmãos”.
4 Perdoar ao próximo, condição de perdão
A partícula “assim como” admite dois sentidos. Significa uma equação, pela qual pedimos a Deus nos perdoe nossos pecados, da mesma forma que nós perdoamos as injúrias e afrontas a quem nos tenha ofendido.
a Preceito positivo de perdão
Indica, também, uma cláusula de perdão, conforme o sentido que Cristo Nosso Senhor deu a esta fórmula: “Se perdoardes aos homens as suas faltas para convosco, também Vosso Pai Celestial perdoará vossos pecados. Porém, se não perdoardes aos homens, nem o Vosso Pai vos perdoará vossos pecados”.
Ora, ambos os sentidos demonstram por igual a necessidade de perdoar. Se queremos, portanto, que Deus nos perdoe os nossos delitos, força é que também nós perdoemos aos que nos fizeram algum agravo. A tal ponto exige Deus, de nós, o esquecimento das injúrias e provas recíprocas de amor e benevolência, que Ele chega a rejeitar e desprezar as ofertas e sacrifícios de quantos se não puseram em boas pazes, uns com os outros.
b Lei da natureza
De mais a mais, é uma lei da natureza que sejamos para com os outros o que desejamos sejam eles para conosco. Seria, pois, a maior desfaçatez pedir alguém que Deus lhe relaxe a punição de suas culpas, enquanto ele próprio se obstina em sentimentos rancorosos contra o próximo.
Por conseguinte, todos os que receberam injúrias devem estar prontos e dispostos a perdoar. A tanto os deve levar o caráter desta petição, e aquela ordem expressa de Deus no Evangelho de São Lucas: “Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; e se ele se penitenciar, perdoa-lhe. E se pecar sete vezes contra ti e sete vezes for procurar-te, dizendo: Estou arrependido, — perdoa-lhe da mesma maneira”.
E, no Evangelho de São Mateus, está escrito assim: “Amai os vossos inimigos”. O Apóstolo também escreveu, e antes dele Salomão: “Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber”. Afinal, em São Marcos Evangelista se encontra escrito: “Quando vos puserdes a orar, perdoai, se tiverdes queixa contra alguém; para que Vosso Pai Celestial também vos perdoe os vossos pecados”.
5 Motivos para perdoar
Entanto, como nada mais custa ao homem, em sua natureza decaída, do que perdoar a quem lhe faz injúrias, devem os párocos empregar todo o ardor do sentimento e toda a força da inteligência, para demover os corações dos fiéis, e reduzi-los a essa brandura e clemência, que é absolutamente necessária ao homem cristão.
Detenham-se na explicação dos oráculos bíblicos, que nos fazem ouvir como Deus manda perdoar aos inimigos. Preguem a firme verdade de que os homens possuem um grande penhor de serem Filhos de Deus, se não sentem dificuldade em perdoar as injúrias, e se amam os inimigos de todo o seu coração. Pois, quando temos amor aos inimigos, transparece em nós uma certa semelhança com Deus nosso Pai, que Se reconciliou com o gênero humano, Seu mais odioso e irredutível adversário, e pela Morte de Seu Filho o resgatou da eterna condenação.
Seja remate deste aviso e preceito uma ordem formal de Cristo Nosso Senhor, que não podemos desatender, sem a maior vergonha e desgraça nossa: “Orai pelos que vos perseguem e caluniam, para serdes filhos de Vosso Pai, que está nos céus”.
Corolário: Perdão e rancor
Sem embargo, a presente matéria requer dos pastores um grau invulgar de prudência, para que ninguém desespere da salvação, ao reconhecer a dificuldade e a necessidade de se cumprir o preceito.
De fato, pessoas há que reconhecem a obrigação de não só eliminar as injúrias, esquecendo-as voluntariamente, mas também de amar aqueles que as perpetraram. Assim o desejam, e para isso envidam todos os seus esforços. Sentem, todavia, que não lhes será possível varrer da mente toda a recordação das ofensas recebidas, pois lhes ficam, por dentro, alguns ressaibos de malquerença. Sofrem, por conseguinte, grande abalo de consciência, e receiam não terem obedecido ao preceito de Deus, porquanto não se desfizeram das inimizades com bastante prontidão e franqueza.
Aqui devem os párocos falar, claramente, da oposição entre a carne e o espírito. Apaixonada, aquela forceja pela vingança; ponderado, este se inclina para o perdão. Daí nasce entre ambos uma contínua luta e desavença. Incumbe, pois, aos párocos demonstrar que, embora os apetites da natureza depravada clamem e se insurjam contra a razão, ninguém deve absolutamente desesperar da própria salvação, contanto que o espírito persista no cumprimento do dever, e na sincera vontade de perdoar as injúrias, e de amar ao próximo.
6 A virtude conciliatória da própria petição
Pode também haver alguns apavorados com a cláusula desta petição, deixem de rezar a Oração Dominical, porque não acabam consigo de esquecer as afrontas e de amar os inimigos. Diante disso, devem os párocos aduzir as duas razões seguintes, para os desviar de tão funesto engano.
Em primeiro lugar, cada um dos fiéis faz esta oração em nome de toda a Igreja. Ora, na Igreja há, certamente, pessoas conscienciosas que perdoaram as dívidas aos seus devedores, no sentido que as entendemos aqui.
Acresce, então, outra circunstância. Quando dirigimos a Deus esta petição, pedimos ao mesmo tempo todas as disposições, que de nossa parte se tornam necessárias para sermos atendidos. Pedimos tanto o perdão dos pecados, como o dom da verdadeira penitência. Pedimos a graça do sincero arrependimento, e ao mesmo tempo a força de abominar os pecados, e de acusá-los ao sacerdote, com toda a compunção e sinceridade.
Portanto, como somos também obrigados a perdoar aos que nos causaram algum dano ou agravo, quando rogamos a Deus o perdão de nossos pecados, pedimos ao mesmo tempo nos dê o espírito de conciliação para com nossos desafetos. Devemos, pois, dissuadir de sua opinião todos aqueles que se deixam levar pelo temor vão e prejudicial de que Deus se torne mais implacável contra eles, se recitarem a presente petição. Pelo contrário, é preciso exortá-los a que façam uso frequente desta prece, mediante a qual conseguirão de Deus Pai as disposições necessárias, para perdoarem aos ofensores, e amarem aos inimigos.
IV Sugestões práticas
1 Ter compunção dos pecados
Todavia, para que a nossa súplica seja de todo o ponto frutuosa, devemos primeiro compenetrar-nos de que comparecemos diante de Deus como necessitados, e Lhe pedimos um perdão, que se não concede senão a quem está verdadeiramente arrependido. Logo, devemos estar animados daquele amor e piedade que caracteriza os penitentes; pois a estes, a atitude que mais lhes convém, é a de terem diante dos olhos os seus pecados e crimes, para os lavarem com lágrimas de compunção.
2 Evitar as ocasiões de pecado
A este sentimento, deve aliar-se a precaução de evitar, para o futuro, tudo o que motivou qualquer pecado, ou que possa dar ocasião de ofender a Deus Nosso Pai. Outra não era a preocupação de David, quando dizia: “O meu pecado está sempre diante de mim”. E noutro Salmo: “De lágrimas banharei o meu catre todas as noites, e com elas regarei o lugar do meu descanso”.
3 Imitar os arrependidos
Além disso, tenhamos sempre diante dos olhos quanto se afervoram em rezar todos aqueles que, pela oração, impetraram de Deus a remissão de seus pecados. Assim o fez o publicano. Não podendo consigo, de tanta confusão e arrependimento, se deixava ficar à distância, punha os olhos no chão, e só batia ao peito, para dizer de coração: “Ó Deus, sede-me propício a mim, que sou pecador!”
E também aquela mulher pecadora que, recurvada diante de Cristo Nosso Senhor, lhe banhava os pés com as suas lágrimas, e os enxugava com os cabelos, para depois cobri-los de ósculos. E afinal temos São Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, “que saiu para fora, e chorou amargamente”.
4 Receber amiúde os Sacramentos
É preciso também levar em conta que, quanto mais fracos são os homens, e mais propensos a doenças da alma — quais são os pecados — tanto mais necessitam de uma medicação abundante e frequente. Ora, os remédios da alma enferma são a Penitência e a Eucaristia. Força é que o povo fiel os receba com a maior frequência possível.
Depois, como ensinam as Sagradas Escrituras, a esmola é um remédio apropriado para curar as feridas da alma. Portanto, quem deseja recitar frutuosamente esta prece, faça todo o bem que puder aos necessitados.
5 Ser esmoler
Quanta eficácia tem a esmola para tirar as manchas de pecados, claramente o manifesta o Anjo do Senhor São Rafael, por aquelas palavras que proferiu no Livro de Tobias: “A esmola livra da morte, sendo ela que apaga os pecados, e faz encontrar a misericórdia e a vida eterna”. Outra testemunha é Daniel, que exortava o rei Nabuco nestes termos: “Resgata os teus pecados com esmolas, e as tuas injustiças pela comiseração para com os pobres”.
6 Esquecer as injúrias e rogar pelos inimigos
Porém a melhor dádiva e a maior prova de caridade que se deve praticar, está em esquecermos as injúrias, e nutrirmos benevolência para com quem nos tiver lesado, em nossa fortuna, em nossa fama, em nosso corpo, na pessoa de nossos parentes.
Quem quiser, pois, que Deus lhe seja todo-misericordioso, deve depor as suas malquerenças nas mãos do próprio Deus, perdoar toda e qualquer injúria, rogar fervorosamente pelos inimigos, e aproveitar todas as ocasiões para lhes fazer algum benefício. Como, porém, este ponto foi desenvolvido, quando se tratou do homicídio, para lá remetemos os párocos.
Contudo, a fim de rematar as explicações desta petição, digam eles que nada se pode imaginar de mais injusto do que ser alguém duro para com os seus semelhantes, e não usar de compaixão para com pessoa alguma, ao mesmo tempo que, para si mesmo, pede a Deus clemência e bondade.