Catecismo Romano · Dos Sacramentos

Capítulo 5

Do Sacramento da Penitência

Do Sacramento da Penitência

I Necessidade de uma ampla explicação

1 A doutrina da Penitência deve ser inculcada aos ouvidos dos cristãos, com toda a minúcia e frequência

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Em vista da fraqueza e inconstância da natureza, qual todos conhecemos e facilmente sentimos, por experiência própria, ninguém pode ignorar de quanta necessidade é o Sacramento da Penitência. Ora, se a importância e gravidade do assunto serve de critério para a diligência que os párocos devem empregar na exposição de cada ponto, diremos categoricamente que nunca será demais o zelo que consagrarem à explicação da presente doutrina. Vamos mais adiante. Deste Sacramento devem eles tratar mais explicitamente que do Batismo, pois o Batismo é administrado uma só vez, e não pode ser reiterado, ao passo que a Penitência se impõe como obrigação, quantas vezes o homem caia em pecado, depois do Batismo. Neste sentido, declarou o Concílio de Trento que o Sacramento da Penitência não é menos necessário para quem tenha pecado depois do Batismo, do que o Batismo para a salvação dos que ainda não foram regenerados. Conhecida é a comparação de São Jerônimo, muito apreciada por todos os teólogos posteriores. A Penitência, diz ele, é uma segunda tábua de salvação. Com efeito, quando naufraga uma embarcação, o único recurso para salvar a vida está em agarrar, por sorte, uma prancha da carcaça. Assim também, depois de perdida a inocência do Batismo, se a pessoa se não agarrar à tábua da Penitência, é certo que devemos desesperar de sua salvação. Não dizemos estas verdades para exortar não só os pastores, mas também os simples fiéis, a fim de não se tornarem culpados de indiferença em negócio da mais alta importância. Conscientes da fragilidade comum a todos os homens, o mais ardente desejo de todos será poderem, com o auxílio de Deus, progredir no caminho do Senhor, sem nenhuma queda ou deslize. Mas, se caírem uma vez e outra, tenham ante os olhos a suprema clemência de Deus que, à maneira do Bom Pastor, Se compraz em ligar e curar as feridas de Suas ovelhas. Assim nunca lhes acudirá a ideia de deixarem, para mais tarde, o salubérrimo remédio da Penitência.

II Espécies de penitência

2 Como são vários os sentidos da palavra penitência

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Ao entrarmos agora no assunto propriamente dito, explicaremos primeiro as várias acepções da palavra, para evitar que a ambiguidade do conceito não induza alguém a opiniões errôneas. Alguns tomam penitência no sentido de satisfação. Outros fazem-na apenas consistir numa vida nova, julgando que a penitência não deve levar em conta a vida passada, e com isso se apartam completamente da doutrina da fé católica. Eis por que se torna necessário explicar as várias significações da palavra. Em primeiro lugar, fala-se de penitência, quando alguém se desgosta de uma coisa que antes lhe agradava, sem atender de modo algum à sua bondade ou malícia. Assim se penitenciam todos aqueles que se entristecem segundo as máximas do mundo, e não segundo os sentimentos de Deus. Tal penitência não traz salvação, mas gera a morte. Outra espécie de penitência consiste em doer-se alguém de um pecado cometido, não por atenção a Deus, mas por causa de si próprio. Uma terceira espécie de penitência consiste, não só em doer-nos intimamente do pecado cometido, e darmos até algum sinal externo de nossa compunção, mas também em nos afligirmos unicamente por causa de Deus. A todas essas espécies, que acabamos de mencionar, é aplicável a definição de penitência. Trata-se, evidentemente, do sentido figurado, quando lemos nas Sagradas Escrituras que Deus se penitenciou. Com tal modo de falar, acomodado aos sentimentos dos homens, as Sagradas Escrituras querem simplesmente exprimir que Deus decretou mudar alguma coisa. Realmente, os homens fazem assim. Quando se arrependem de alguma coisa, empregam todos os meios a fim de mudá-la. Neste sentido se diz na Escritura: "Deus se arrependeu de ter criado o homem". Noutro lugar também: "[Deus] se arrependeu de ter constituído rei a Saul".

3 Qual a diferença entre as várias acepções de penitência

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Cumpre, todavia, estabelecer uma grande diferença entre estas três espécies de penitência. Pois a primeira deve ser considerada pecaminosa. A segunda é um estado natural da alma, proveniente de comoção e perturbação. A terceira constitui, como dizemos, uma virtude e parte integrante do Sacramento. Esta última é a noção própria de penitência, que ora passamos a considerar. Primeiro, falaremos da penitência como virtude, não só porque aos pastores incumbe instruir os fiéis em todas as virtudes, mas também porque os atos dessa virtude proporcionam, por assim dizer, a matéria em que se opera este Sacramento. Ademais, se os fiéis não tiverem antes uma noção exata do que seja a virtude da penitência, não lhe será possível compreender deveras a eficácia do Sacramento.

III A virtude da Penitência

4 Que é penitência interior

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É preciso, antes de tudo, advertir e exortar os fiéis a procurarem, com todo o esforço e cuidado, aquela profunda penitência interior, a que chamamos virtude. Sem ela, muito pouco lhes pode aproveitar a prática da penitência exterior. Consiste a penitência interior em converter-nos a Deus de todo o coração; em aborrecer e odiar os pecados cometidos; em firmar-nos no determinado propósito de mudar de vida e corrigir os maus costumes: mas tudo isso na esperança de conseguirmos perdão da misericórdia divina. A esta penitência se associa, quase como companheira da detestação dos pecados, uma certa dor e tristeza, uma perturbação sensível a que muitos dão o nome de paixão. Por isso, alguns Santos Padres viam nesse tormento da alma uma definição da Penitência.

5 A fé não é parte da penitência

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Entretanto, na pessoa do penitente, é necessário que a fé preceda à penitência. Sem possuir a fé, ninguém pode converter-se a Deus. Esta é a razão por que a fé não pode, de modo algum, ser tida como parte integrante da penitência.

6 A penitência interior do coração deve ser considerada uma virtude

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Prova irrefragável de que a penitência interior constitui uma virtude, conforme dizíamos há pouco, são as muitas prescrições promulgadas acerca da penitência. Pois a Lei só pode preceituar atos que se cumprem com virtude. Mais ainda. Ninguém negará que seja ato de virtude o entregar-se à penitência no tempo, modo e medida que for determinada. Ora, é um efeito da virtude da penitência que tudo isso se faça como deve ser. Acontece, por vezes, não terem os homens dor suficiente dos pecados que cometeram. Como escreve Salomão, homens há que até se regozijam do mal praticado. Outros, pelo contrário, se entregam de tal maneira à dor e aflição, que desesperam inteiramente da salvação. Tal era, provavelmente, a disposição de Caim, quando bradou: "Muito grande é a minha iniquidade, para que eu mereça perdão". Mas tal era, certamente, a disposição de Judas. "Tocado de arrependimento", enforcou-se, e perdeu assim a vida e a própria alma. Portanto, é precisamente a virtude da penitência que nos ajuda a regular a justa expansão de nosso arrependimento.

7 Quais devem ser os sentimentos de quem possui a verdadeira penitência

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O caráter de virtude na penitência se deduz também dos fins, que a si mesmo se propõe o pecador verdadeiramente arrependido. Seu primeiro propósito é extinguir o pecado, e purificar a alma de toda culpa e mancha. O segundo é satisfazer a Deus pelos pecados cometidos. Nisso vai evidentemente um postulado de justiça. Ainda que entre Deus e os homens não pode haver estrita relação de justiça, por estarem separados numa distância infinita, todavia existe uma espécie de justiça, semelhante à que vigora entre pai e filhos, entre senhor e escravos. O terceiro é voltar o homem às boas graças de Deus, cujo ódio e inimizade havia contraído pela torpeza do pecado. Todos estes considerandos provam, à saciedade, que a penitência constitui uma virtude.

8 Por onde se sobe, à guisa de degraus, a esta divina virtude da penitência

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Os pastores ensinarão, ainda, por quais degraus nos elevamos à prática dessa virtude sobrenatural. Em primeiro lugar, é a misericórdia de Deus que nos predispõe, e converte a Si os nossos corações. Em suas súplicas, o Profeta pedia essa graça: "Convertei-nos a Vós, Senhor, e nós nos converteremos". Depois, iluminados por essa luz, a fé nos faz tender interiormente para Deus, assim como atesta o Apóstolo: "Quem se aproxima de Deus, deve crer que Ele existe, e que é o remunerador daqueles que O procuram". Sobrevém, então, um sentimento de temor, pois a alma se desapega do afeto ao pecado, quando medita nos acerbos tormentos que ele lhe acarreta. Ao que parece, cabem neste lugar as palavras de Isaías: "Aconteceu-nos a nós, como à mulher grávida que, na iminência do parto, se contorce e brada no meio de suas dores". Acresce, porém, a esperança de alcançar a misericórdia divina. Reanimados por essa esperança, tomamos a resolução de emendar nossa vida e nossos costumes. Por fim, inflama-se a caridade em nossos corações, e dela nasce aquele amor filial, digno de filhos bons e nobres. Só com o receio de agravar em alguma coisa a majestade de Deus, largamos então definitivamente o hábito de pecar. Tais são, por assim dizer, os degraus que nos fazem chegar a esta inestimável virtude da penitência.

9 Qual é o fruto principal da virtude da penitência

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Na verdade, devemos considerá-la como uma virtude toda divina e celestial, a que as Sagradas Escrituras fazem a promessa do Reino dos Céus, conforme o que escreve São Mateus: "Fazei penitência, porque está próximo o Reino dos Céus". E o Profeta Ezequiel: "Se o ímpio fizer penitência e todos os pecados que cometeu; se guardar todos os Meus Mandamentos; se proceder com equidade e justiça: é certo que terá a vida". Noutro lugar ainda: "Não quero a morte do pecador, mas que o pecador se converta de seu caminho, e tenha a vida". Incontestavelmente, são palavras que devem entender-se da vida eterna e bem-aventurada.

IV O Sacramento da Penitência

10 Que devemos pensar da penitência exterior, e por que razão quis Cristo integrá-la no número dos Sacramentos

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Acerca da penitência exterior, devemos ensinar que nela propriamente consiste a essência do Sacramento. Consta de alguns atos exteriores e sensíveis, que exprimem os efeitos que se operam interiormente na alma. Antes de tudo, convém explicar aos fiéis por que Cristo Nosso Senhor quis incluir a Penitência entre o número dos Sacramentos. O motivo principal foi tirar-nos todas as dúvidas sobre a remissão dos pecados, que Deus prometeu com as palavras: "Se o ímpio fizer penitência, etc.". Realmente, se assim não fosse, muitas dúvidas ficariam a respeito de nossa penitência interior, pois ninguém pode, e com razão, fiar-se da maneira de ajuizar, pessoalmente, as suas próprias ações. A fim de nos livrar dessa inquietação, Nosso Senhor instituiu o Sacramento da Penitência, para que tivéssemos a confiança de serem perdoados os nossos pecados, pela absolvição do sacerdote; para que nossas consciências ficassem mais tranquilas, por causa da fé que justamente devemos ter na eficácia dos Sacramentos. Pois, quando o sacerdote nos perdoa os pecados, na forma sacramental, suas palavras têm o mesmo sentido que as palavras de Cristo Nosso Senhor ao paralítico: "Tem confiança, filho, teus pecados te são perdoados". Depois, como ninguém pode conseguir a salvação senão por Cristo, e na virtude de Sua Paixão, havia conveniência em si e muita utilidade para nós que fosse instituído um Sacramento, por cuja eficácia corresse sobre nós o Sangue de Cristo, a fim de nos purificar dos pecados cometidos depois do Batismo; e assim reconhecemos que devemos unicamente a Nosso Salvador a graça da reconciliação.

11 De que modo a Penitência é um Sacramento da Nova Lei

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Sendo assim, nenhuma dificuldade terão os pastores em demonstrar que a Penitência é um Sacramento. O Batismo é Sacramento, porque apaga todos os pecados, e de modo particular o pecado original. Ora, pela mesma razão, a Penitência deve chamar-se Sacramento, em sentido próprio e verdadeiro, pois tira todos os pecados cometidos depois do Batismo, quer por desejos, quer por obras. De mais a mais, a razão principal é que os atos exteriores, tanto do penitente, como do sacerdote, são os sinais sensíveis daquilo que se opera interiormente na alma. Quem pois poderia duvidar de que a Penitência não tenha o caráter próprio de verdadeiro Sacramento? Sacramento é sinal de uma coisa sagrada. Ora, o pecador arrependido professa, claramente, por palavras e ações, que seu coração já se apartou da torpeza do pecado. Da mesma forma, nos atos e palavras do sacerdote reconhecemos a misericórdia de Deus, que perdoa esses mesmos pecados. Isto é o que provam, abertamente, as palavras do Salvador: "Eu te darei as chaves do Reino dos céus... tudo o que desligares na terra, será desligado também no céu". Portanto, a absolvição enunciada pelas palavras do sacerdote exprime a remissão dos pecados, que se opera dentro da alma.

12 O Sacramento da Penitência pode ser reiterado

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Devem os fiéis aprender que a Penitência não só pertence ao número dos Sacramentos, mas figura também entre os que podem ser reiterados. Quando Pedro perguntou se podia dar o perdão de um pecado até sete vezes, Nosso Senhor lhe retorquiu: "Eu não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete". Por isso, ao tratarem com pessoas que pareçam desconfiar da bondade e misericórdia divina, devem os pastores incutir-lhes coragem, e confortá-las, para que tenham esperança do perdão divino. Será fácil de consegui-lo, se desenvolverem esta e outras passagens, tão frequentes nas Sagradas Escrituras; se recorrerem também às razões e argumentos, que se encontram na obra de São João Crisóstomo sobre os que prevaricaram e nos livros de Santo Ambrósio sobre a Penitência.

V Matéria e forma

13 Que é matéria da Penitência, e qual deve ser

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Como o povo cristão deve mormente conhecer o que diz respeito à matéria deste Sacramento, cumpre adverti-lo que, nesse ponto, vai uma grande diferença entre este e os demais Sacramentos. Nos outros, a matéria consta de alguma coisa física, natural ou artificial; porém no Sacramento da Penitência, conforme o definiu o Concílio de Trento, há uma quase-matéria constituída pelos atos do penitente, a saber, contrição, acusação, e satisfação. Estes atos chamam-se partes da Penitência, porque da parte do penitente são necessários por instituição divina, para que haja integridade do Sacramento, e perfeita remissão dos pecados. O Sagrado Sínodo dá a estes atos o nome de quase-matéria, não porque não tenham o caráter de verdadeira matéria, mas porque não são matéria de aplicação exterior, como a água no Batismo e o crisma na Confirmação. Outros asseveram que a matéria deste Sacramento são os próprios pecados. No fundo, tal opinião não difere da doutrina exposta, se a considerarmos com mais atenção. Assim como dizemos que matéria do fogo é a lenha, que a ação do fogo consome: assim também há razão de chamarmos matéria deste Sacramento aos pecados, que são destruídos pela Penitência.

14 Qual é a forma do Sacramento da Penitência

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Os pastores não deixarão tampouco de explicar a forma, pois tal conhecimento só pode levar os fiéis a receberem com a máxima devoção a graça deste Sacramento. A forma é a seguinte: "Eu te absolvo..." Estriba-se, é verdade, nas célebres palavras: "Tudo o que desligares sobre a terra, será desligado também nos céus". Mas, em seu teor, nós a recebemos da própria doutrina de Cristo Nosso Senhor, conforme reza a Tradição dos Apóstolos. Ora, como os Sacramentos produzem o que significam, as palavras "Eu te absolvo" mostram que, na administração deste Sacramento, se opera a remissão dos pecados. Assim, torna-se evidente que são elas a forma perfeita da Penitência. Os pecados comparam-se a uns laços que prendem as almas, e dos quais as desliga o Sacramento da Penitência. Isso não deixa de se verificar, quando o sacerdote absolve uma pessoa que já tenha alcançado o perdão da parte de Deus, em virtude de uma ardorosa contrição, unida ao desejo de confessar-se sacramentalmente.

15 Com que vantagem são acrescentadas preces à forma sacramental

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Ajuntam-se então algumas preces, que não são de valor essencial para a forma. Sua finalidade é remover qualquer obstáculo que, por culpa do penitente, possa talvez prejudicar os plenos efeitos do Sacramento.

16 Em quanto difere o poder dos sacerdotes de Cristo em julgar da lepra do pecado, do poder que tinham os sacerdotes da Lei Antiga

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Sobejas razões têm os pecadores para render infinitas graças a Deus, porque outorgou tão amplos poderes aos sacerdotes da Igreja. Já não acontece, como na Antiga Lei, que os sacerdotes só testemunhavam se alguém estava realmente livre de sua lepra. Agora, na Igreja, os sacerdotes não têm apenas o poder de declarar que alguém está absolvido de seus pecados, mas são eles próprios que os absolvem na qualidade de ministros de Deus. Este efeito vem do próprio Deus, que é o Autor e Doador da graça e da justificação.

VI As cerimônias

17 Com que atitude e compostura devem os penitentes encarecer sua obrigação

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Ponham os fiéis todo o empenho em observar as cerimônias que acompanham este Sacramento. Destarte se gravarão mais profundamente, em seus corações, os frutos que alcançam mediante o Sacramento, isto é, a reconciliação de servos com o mais bondoso dos senhores, ou antes de filhos com o melhor dos pais. Assim também reconhecerão, com menor esforço, o que lhes incumbe fazer, se quiserem - e todos o devem querer - mostrar-se gratos e reconhecidos por tão grande benefício. Quem está, pois, arrependido de seus pecados, prostra-se humildemente aos pés do sacerdote, para que esse ato exterior de humildade lhe faça reconhecer como é necessário arrancar da alma todas as raízes do orgulho, donde nasceram e vingaram todos os pecados que agora lamenta. No sacerdote, que se conserva sentado, como seu legítimo juiz, venera ele a pessoa e o poder de Cristo Nosso Senhor. Pois na administração da Penitência, como dos demais Sacramentos, o sacerdote exerce o ministério de Cristo. Depois, o penitente enumera os seus pecados, mas de maneira que se reconheça digno do maior e mais duro castigo, e pede com instância o perdão de seus delitos. Nas obras de São Dionísio, encontram-se testemunhos formais de que todas estas práticas são antiquíssimas.

VII Efeitos da Confissão

18 Quais são os frutos principais que se auferem do Sacramento da Penitência

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Nada será mais útil aos fiéis, nem lhes proporcionará maior alegria em receberem o Sacramento da Penitência, do que a frequente explicação que os párocos façam de suas inestimáveis vantagens para as nossas almas. Eles verão com quanta verdade se pode dizer da Penitência, que as sua raízes são amargas, mas os seus frutos extremamente doces. Toda a virtude da Penitência se resume em reconciliar-nos com Deus, e unir-nos a Ele pela mais íntima amizade. Em pessoas piedosas, que recebem este Sacramento com santas disposições, tal reconciliação costuma, não raro, produzir profunda paz e tranquilidade de consciência, acompanhada de inefável alegria espiritual. De mais a mais, não pode haver delito tão grave e abominável, que não seja apagado pelo Sacramento da Penitência, por sinal que não só a primeira vez, mas também a segunda e outras vezes mais. Disso nos falou o Senhor, pela boca do Profeta: "Se o ímpio fizer penitência de todos os pecados por ele cometidos, se observar os Meus Mandamentos, se proceder com equidade e justiça, terá a vida, e não morrerá. De todas as iniquidades que praticou, não guardarei lembrança". E São João diz assim: "Se confessarmos nossos pecados, [Deus] é fiel e justo, para nos perdoar nossos pecados". E logo acrescenta: "Se alguém pecou" - o Apóstolo não exclui, pois, nenhuma espécie de pecado - "temos junto ao Pai um Advogado, Jesus Cristo, o Justo. Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos pecados do mundo inteiro".

19 Em que sentido se diz que alguns pecados não podem ser perdoados

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Quando lemos, nas Escrituras, que alguns homens não conseguiram do Senhor nenhuma misericórdia, apesar de a terem pedido com instância, devemos entender que tal aconteceu, porque eles não tinham verdadeiro e sincero arrependimento de seus pecados. Outrossim, quando nas Sagradas Escrituras, ou nos Santos Padres, ocorrem passagens em que parece afirmar-se que certos pecados não podem ser perdoados, devemos por elas entender que é muito difícil alcançar-se o perdão de tais pecados. Assim como uma moléstia é tida como incurável, se a pessoa atacada sente horror ao remédio, que lhe pode restituir a saúde: assim há também certa espécie de pecados, para os quais não se dá nenhum perdão, porque levam a repelir o remédio próprio da salvação, que é a graça de Deus. Neste sentido se pronunciou Santo Agostinho, quando escrevia: "Se alguém que, pela graça de Cristo, chegou ao conhecimento de Deus, mas combate seus irmãos na fé, e resiste à própria graça, para se entregar aos ardores da inveja, esse chega a tão malignas disposições, que já não tem a humildade de pedir perdão, embora seja forçado, pelos remorsos de consciência, a reconhecer e confessar o pecado".

20 Sem penitência, ninguém pode lograr a remissão de seus pecados

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Mas voltemos à Penitência. A virtude de apagar os pecados lhe é tão própria, que sem a Penitência não podemos absolutamente alcançar, nem sequer esperar uma remissão de pecados. Pois está escrito: "Se não fizerdes penitência, todos vós perecereis da mesma maneira". Verdade é que Nosso Senhor se refere aos pecados mais graves e mortais, embora os pecados mais leves, ditos veniais, também careçam de alguma penitência. Santo Agostinho já dizia: "Havendo uma espécie de penitência, que na Igreja se faz, todos os dias, pelos pecados veniais, ela seria completamente inútil, se os pecados veniais pudessem ser perdoados sem penitência".

VIII Partes integrantes da Confissão

21 Quantas são as partes integrantes da Penitência

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Em matéria de aplicação prática, como esta, não bastam as explicações genéricas. Por isso mesmo, devem os pastores entrar em todos os pormenores necessários, para que os fiéis possam ter uma compreensão da verdadeira penitência e de seus efeitos salutares. Ora, além da matéria e forma, que ocorrem em todos os Sacramentos, é próprio deste Sacramento ter também aquelas partes já mencionadas, que constituem, por assim dizer, a perfeita integridade da Penitência: contrição, acusação, satisfação. Delas fala São João Crisóstomo nestes termos: "A penitência impele o pecador a suportar tudo de boa vontade. Em seu coração está o arrependimento; em sua boca, a acusação; em suas obras, plena humildade e proveitosa satisfação". Dizemos partes, e nisso seguimos a linguagem comum, porque elas se assemelham a partes que são necessárias para constituir um todo perfeito. Por exemplo, o corpo humano compõe-se de muitos membros, mãos, pés, olhos, e outras partes semelhantes. Com razão é tido por imperfeito, se lhe faltar uma dessas partes, e por perfeito, se lhe não faltar nenhuma. Assim, a Penitência de tal modo se compõe dessas três partes que, embora a contrição e acusação, justificando o homem, sejam bastantes para constituir a essência do Sacramento, todavia não fica aquela perfeitamente integrada, se não lhe acresce também a terceira das partes, que é a satisfação. Por isso, tão estreita é a conexão entre partes, que o arrependimento inclui o propósito de confessar e satisfazer; a contrição e a intenção de satisfazer precedem à acusação; a satisfação, afinal, pressupõe as duas outras partes.

22 Como se colige serem as três partes da Penitência

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Como razão de ser dessas três partes da Penitência, podemos alegar que os pecados contra Deus são precisamente cometidos por pensamentos, palavras e obras. Havia, pois, justiça e conveniência que, para nos sujeitarmos às chaves da Igreja, procurássemos aplacar a cólera de Deus, e conseguir d'Ele o perdão dos pecados, pelos mesmos meios com que havíamos ultrajado a santíssima Majestade Divina. Podemos, ainda, dar outra argumentação. A Penitência é uma espécie de compensação dos delitos, nascida da livre vontade do delinquente, mas sujeita ao arbítrio de Deus, contra quem se cometeu o pecado. Destarte, não só se requer a vontade de compensar, o que muito condiz com o caráter do arrependimento, mas também é necessária a submissão do penitente ao juízo do sacerdote, que faz as vezes de Deus, para que o mesmo possa determinar uma pena proporcional à gravidade dos pecados. Daí deduzimos, claramente, a razão e a necessidade, tanto da acusação, como da satisfação.

IX A contrição

23 Nesta matéria, que vem a ser propriamente contrição

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Dada a obrigação de se mostrar aos fiéis a essência e função destas três partes, devemos começar pela contrição, e explicá-la cuidadosamente. Pois a contrição não deve faltar nenhum instante dentro de nossa alma, quer nos venham à lembrança os pecados de outrora, quer tenhamos cometido alguma falta atual. Dela formularam os Padres do Concílio de Trento a seguinte definição: "Contrição é uma dor da alma, e uma detestação do pecado cometido, com o firme propósito de não tornar a pecar". Mais adiante, falando do caráter da contrição, acrescentam: "Assim, prepara afinal para a remissão dos pecados, contanto que seja acompanhada da confiança na misericórdia divina, e da intenção de fazer tudo o que se requer para a digna recepção deste Sacramento". Através desta definição, os fiéis hão de reconhecer que a essência da contrição não consiste apenas em deixar alguém de pecar, ou em decidir uma mudança de vida, ou até em começá-la realmente; mas, antes de tudo, em odiar e detestar os erros da vida passada. Confirmam esta doutrina os frequentes clamores que saíam da boca de santos varões da Antiga Lei, conforme lemos nas Sagradas Escrituras. Assim lamentava Davi: "Estou fatigado de tanto gemer. Todas as noites, chego a lavar meu catre com lágrimas". "O Senhor escutou o clamor do meu pranto". E outro profeta dizia também: "Diante de Vós, repassarei a conta de todos os meus anos, na amargura de minha alma". Certamente, estas e outras dolorosas exclamações só podiam irromper de um verdadeiro ódio e profundo arrependimento dos pecados da vida passada.

24 Por que os Padres do Concílio chamaram dor à contrição

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Já que definimos a contrição como uma dor, cumpre advertir os fiéis não suponham que seja uma dor perceptível aos sentidos corporais. Pois a contrição é um ato da vontade. Santo Agostinho explicava que a dor sensível é uma companheira da penitência, mas não é a própria penitência. Todavia, os Padres do Concílio usaram da expressão "dor", para designar a detestação e o ódio do pecado, já porque assim lhe chamam as Sagradas Escrituras - por exemplo, nas palavras de Davi: "Até quando nutrirei dúvidas em minha alma, e dor em meu coração, durante o dia inteiro?"; já porque, da própria contrição, nasce uma dor na parte inferior da alma, sede da concupiscência. Havia, pois, cabimento em se definir como dor a contrição, porque esta causa dor realmente. Como manifestação dessa dor, costumavam os penitentes trocar as suas vestes. A tal costume alude Nosso Senhor no Evangelho de São Mateus: "Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Pois se em Tiro e na Sidônia fossem operados os milagres que se efetuaram no meio de vós, desde muito teriam já feito penitência no cilício e na cinza".

25 Por que os Teólogos chamam, em geral, contrição à detestação dos pecados

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Há muita propriedade em chamar contrição à detestação dos pecados, de que estamos tratando, porque o termo exprime, perfeitamente, a ação violenta dessa dor. Baseia-se numa analogia tirada das coisas materiais, que são inteiramente trituradas por meio de uma pedra ou de outro objeto mais duro. Assim também deve a força do arrependimento contundir e triturar os nossos corações, que a soberba deixou empedernidos. Por isso, a nenhuma outra dor se aplica essa designação, nem a dor que sentimos pela morte de pais ou filhos, ou por qualquer outra desgraça. É um termo privativo, para exprimir a dor que nos empolga, quando perdemos a graça de Deus e a inocência da alma.

26 Quais outras expressões designam, de ordinário, essa mesma detestação dos pecados

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Sem embargo, existem ainda outras expressões para designar a detestação dos pecados. Chama-se também contrição do coração, porquanto as Sagradas Escrituras tomam amiúde a palavra "coração" no sentido de vontade. Assim como o coração é o centro dos movimentos do corpo, assim também a vontade acerta e regula todas as outras potências da alma. Os Santos Padres chamavam-lhe também compunção do coração, e gostavam desse termo, para intitular as obras que escreveram sobre a penitência. Pois, do mesmo modo que se cortam os tumores com um ferro, para que possa vazar o pus acumulado: assim também se cortam os corações com o escalpelo da contrição, para que possam eliminar o veneno mortal do pecado. Por essa mesma semelhança, o Profeta Joel considera a contrição como o ato de rasgar o coração: "Convertei-vos a Mim, de todo o vosso coração, com jejuns, com lágrimas, com lamentos. E rasgai os vossos corações".

27 Por que a dor dos pecados, expressa pelo termo contrição, deve ser suma e veementíssima

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A dor pelos pecados deve ser suma e máxima, de maneira que se não possa conceber outra maior. Fácil será demonstrá-lo pelas seguintes ponderações. A contrição perfeita é um ato de caridade, nascido do temor filial. É claro, pois, que a contrição e a caridade se medem pela mesma escala. Ora, como a caridade com que amamos a Deus é um amor sumamente perfeito, assim também a contrição deve envolver a mais viva dor da alma. Se devemos amar a Deus sobre todas as coisas, devemos pela mesma razão detestar, acima de tudo, o que nos traz inimizade com Deus. Aqui vem a propósito observar que as Sagradas Escrituras usam das mesmas expressões, para designar o âmbito da caridade e da contrição. Assim está escrito a respeito da caridade: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração". De outro lado, o Senhor incita à contrição pelo clamor do Profeta: "Convertei-vos de todo o vosso coração". Demais, se Deus é o maior bem, entre todas as coisas dignas de serem amadas, o pecado é o maior mal entre todas as coisas que o homem deve odiar. Portanto, pela mesma razão que nos leva a reconhecer, em Deus, o objeto de um amor absoluto e soberano, devemos também tomar-nos de um ódio inexcedível contra o pecado. O amor a Deus deve antepor-se a todas as coisas, de sorte que nunca será lícito pecar, nem até para salvar a vida, conforme no-lo ensinam claramente aquelas palavras de Nosso Senhor: "Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim". E noutro lugar: "Quem quiser salvar a sua vida, há de perdê-la". Mas aqui há lugar para uma outra observação. Como, no sentir de São Bernardo, a caridade não comporta limites, porque a medida de amar a Deus é amá-l'O sem medida, assim também não se pode pôr limites à detestação do pecado. Ora, esta não só deve ser máxima em sua extensão, mas também tão vibrante em sua eficiência, que exclua qualquer sinal de inércia e indiferença. Pois assim está escrito no Deuteronômio: "Quando buscares o Senhor teu Deus, encontra-l'O-ás, contanto que O busques de todo o teu coração, e com toda a angústia de tua alma". E no Profeta Jeremias: "Buscar-Me-eis, e haveis de achar-Me, se Me procurardes de todo o vosso coração. Então, deixar-Me-ei encontrar por vós, diz o Senhor".

28 A Contrição não deixa de ser verdadeira, ainda que não haja uma absoluta dor sensível sobre os pecados

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Embora não consigamos, talvez, uma contrição absolutamente perfeita, ainda assim pode ela ser verdadeira e eficaz. Acontece, muitas vezes, que as coisas sensíveis nos calam mais no sentimento, do que as coisas espirituais. Assim, pois, há pessoas que pela morte dos filhos experimentam uma dor mais sensível, do que pela torpeza do pecado. Aplique-se o mesmo princípio, quando as lágrimas não acompanham a veemência da contrição. Sem embargo, são elas desejáveis e muito recomendáveis na penitência, conforme o declaram as incisivas palavras de Santo Agostinho: "Não tens entranhas de caridade cristã, se choras um corpo de que a alma se separou, e não choras uma alma da qual Deus se apartou". Aqui cabem aquelas palavras de Nosso Senhor, já citadas anteriormente: "Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Pois se em Tiro e Sidônia fossem operados os milagres, que se efetuaram no meio de vós, desde muito teriam já feito penitência no cilício e na cinza". No entanto, para comprovar o valor das lágrimas, bastam os preclaros exemplos dos Ninivitas, de Davi, da mulher pecadora, do Príncipe dos Apóstolos; todos eles imploraram, com muitas lágrimas, a misericórdia de Deus, e conseguiram o perdão de seus pecados.

29 Na contrição, devemos detestar um por um todos os pecados mortais

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Com toda a instância, é preciso exortar e advertir os fiéis a que façam um ato de particular contrição, para cada pecado mortal que tiverem cometido. Assim descreve Ezequias a contrição, quando diz: "Em Vossa presença, repassarei pela lembrança todos os meus anos, na amargura da minha alma". Pois revolver todos os anos é examinar cada um de nossos pecados, para nos arrependermos deles. Em Ezequiel também está escrito: "Se o ímpio fizer penitência de todos os seus pecados... terá a vida". Nesse mesmo sentido, recomendava Santo Agostinho: "O pecador deve considerar a qualidade de seu pecado, pelas circunstâncias de lugar, de tempo, de espécie, e de pessoa".

30 Basta às vezes detestar em geral todos os pecados

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Mas, com isso não devem os fiéis perder a confiança na infinita bondade e misericórdia de Deus. Levado pelo mais ardente desejo de salvar-nos, Deus não faz delongas em nos dar o perdão, e com amor paternal acolhe o pecador, desde que este caia em si e se converta ao Senhor, detestando em geral todos os seus pecados, com a intenção de recordá-los mais tarde, na medida do possível, para detestar cada um deles em particular. Dessa forma, Deus nos manda ter esperança, pois Ele diz pela boca do Profeta: "A maldade do ímpio não o prejudicará, a partir do dia em que se converta de sua impiedade".

31 Dos requisitos principais para a verdadeira contrição

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Desta exposição podem os pastores inferir quais são, antes de tudo, as condições necessárias, para que haja verdadeiro arrependimento. E devem esmerar-se na explicação desta matéria ao povo cristão, para que todos conheçam por que meios poderão chegar ao verdadeiro arrependimento, e tenham ao mesmo tempo uma norma, para julgarem quão longe estão ainda da perfeição desta virtude. O primeiro requisito é aborrecer e detestar todos os pecados cometidos. Se nos arrependêssemos só de alguns, nossa penitência seria falsa e simulada, e não teria efeito salutar. Aplicam-se, nesse caso, as palavras de São Tiago Apóstolo: "Pode alguém observar toda a Lei; mas, se a transgredir num só ponto, torna-se culpado de quebrar todos os seus preceitos". O segundo é que a contrição deve incluir a vontade de confessar-se e de satisfazer. Mas deste ponto falaremos mais adiante. O terceiro é que o penitente tome a firme e inabalável resolução de emendar a sua vida. Claramente o exprimem as palavras do Profeta: "Se o ímpio fizer penitência de todos os pecados por ele cometidos, se observar todos os Meus Mandamentos, e se proceder com equidade e justiça, terá a vida, e não morrerá. De todas as iniquidades que praticou, nem guardarei lembrança". Pouco adiante acrescenta: "Se o ímpio se apartar da iniquidade que praticou, e proceder com equidade e justiça, ele mesmo fará viver a sua alma". Saltando alguns versículos, lemos ainda: "Convertei-vos, e fazei penitência de todas as vossas iniquidades, e a iniquidade não causará a vossa ruína. Arrojai para longe de vós todas as prevaricações, pelas quais vos tornastes culpados, e formai dentro de vós um novo coração e um novo espírito". A mesma ordem deu Cristo Nosso Senhor à mulher, que fora apanhada em adultério: "Vai, e não tornes a pecar". Da mesma forma falou ao paralítico, que Ele curara, na Piscina das Ovelhas: "Eis que ficaste são. Não peques mais!"

32 Prova-se que, para a contrição, é mister haver dor da culpa passada, e propósito de emenda para o futuro

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A natureza da coisa e a própria razão nos mostram claramente que, para a contrição, são necessárias duas condições: dor pelo pecado cometido, e previdente resolução de não tornar a cometê-lo. O indivíduo que deseja reconciliar-se com um amigo, a quem ofendera, deve não só mostrar-se pesaroso de tê-lo agravado, mas também precaver-se que nada, para o futuro, venha comprometer a amizade. Mas a estas duas condições deve unir-se necessariamente a obediência, pois é justo que o homem obedeça à Lei a que está ligado, seja ela lei natural, divina, ou humana. Por conseguinte, se o penitente tirou alguma coisa de seu próximo, por violência ou por fraude, está obrigado a restituir. Da mesma forma, deve dar satisfação, mediante qualquer serviço ou benefício, quem lesou a fama ou a vida de outrem, por atos e palavras. Tornou-se sentença vulgar o que a respeito escreveu Santo Agostinho: "Não se perdoa o pecado, sem se restituir o roubado".

33 Devemos perdoar aos outros, se quisermos ser perdoados

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Entre outros mais, é requisito essencial para a boa contrição que não haja menos cuidado e diligência em perdoarmos, plenamente, todas as afrontas recebidas de nosso próximo. Esta é a ordem formal de Nosso Senhor: "Se vós perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai Celeste vos perdoará os vossos pecados. Mas, se não perdoardes aos homens, o vosso Pai também não vos perdoará os vossos pecados". São estas as disposições a que os fiéis devem atender em matéria de contrição. Outras mais, que os pastores poderão facilmente aduzir, contribuem para tornar a contrição mais perfeita em seu gênero. Nem por isso devemos julgá-las tão essenciais, que sem elas não possa haver verdadeiro e salutar arrependimento.

34 Qual é propriamente a virtude e utilidade da contrição

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Não devem os pastores limitar-se a instruir os fiéis nas verdades necessárias à salvação, mas devem ainda envidar todos os esforços, para que eles conformem toda a sua vida com as normas que lhes são prescritas. Para esse fim, será de muito proveito explicar-lhes, com frequência, a natureza e a eficácia da contrição. Deus, por vezes, rejeita outros exercícios de piedade, como sejam esmolas aos pobres, jejuns, orações, e outras obras santas e honestas, por culpa das pessoas que as praticam. Mas é certo que a contrição nunca pode deixar de Lhe ser agradável e bem aceita, porquanto diz o Profeta: "Não desprezareis, ó Deus, um coração contrito e humilhado". Ainda mais. Apenas surge a contrição perfeita em nossos corações, Deus logo nos concede o perdão dos pecados, conforme o declaram, noutro lugar, as palavras do mesmo Profeta: "Eu disse: Contra mim mesmo confessei ao Senhor a minha iniquidade. E Vós perdoastes a malícia do meu pecado". Desta verdade, vemos uma concretização nos dez leprosos, que Nosso Senhor enviara aos sacerdotes, e que ficaram livres da lepra, antes de lá chegarem. Isto nos dá a conhecer que a verdadeira contrição, como vínhamos dizendo, tem a virtude especial de nos conseguir de Deus o perdão imediato de todos os nossos pecados.

35 De que modo se chega à contrição perfeita

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Para os fiéis, será um poderoso estímulo, se os pastores lhes ensinarem uma espécie de método, pelo qual possa cada um mover-se à contrição. Nesse sentido, importa exortá-los a que todos examinem amiúde a própria consciência, vendo se observaram os Mandamentos de Deus e da Igreja. E quem se reconhecer culpado de alguma transgressão, acuse-se logo a si mesmo, peça humildemente perdão a Deus, rogue que lhe conceda o tempo necessário, para confessar e satisfazer. Antes de tudo, peça também os auxílios da divina graça, para não recair nos mesmos pecados, que tanto lhe pesa haver cometido. Em seguida, os pastores farão por incutir, nos ânimos dos fiéis, um ódio extremo contra o pecado, não só pela sua indizível infâmia e torpeza, mas também pelos gravíssimos males e danos que nos acarreta. Com efeito, o pecado subtrai-nos a amizade de Deus, de quem recebemos os maiores bens, e de quem podemos esperar e conseguir outros muito maiores; sujeita-nos, pelo contrário, à morte eterna, e faz-nos sofrer perpetuamente os mais dolorosos suplícios. Eis o que tínhamos de dizer acerca da contrição. Passaremos agora a tratar da confissão, que é a segunda parte da Penitência.

X Confissão, ou acusação

36 Da excelência da Confissão, e como era necessário instituí-la para a salvação dos cristãos

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Os bons cristãos estão, geralmente, persuadidos de que as manifestações de santidade, piedade e religião que a imensa bondade de Deus até hoje conservou em sua Igreja, devem ser atribuídas, em grande parte, à Confissão. Ninguém estranha, portanto, que o inimigo do gênero humano, querendo arrasar a fé católica, faça seus escravos e apaniguados lançarem mão de todos os meios para investir contra esse baluarte da virtude cristã. Desta persuasão geral podem os pastores inferir o cuidado e interesse, com que lhes incumbe explicar esta parte da Penitência. Em primeiro plano, ensinarão que para nós havia muita vantagem, digamos até, absoluta necessidade de que fosse instituída a Confissão. Reconhecemos, sim, que a contrição apaga os pecados, mas quem ignora que ela deve ser tão forte, tão intensa, e tão ardente, que a veemência da dor esteja em justa proporção com a gravidade dos pecados? Ora, como são muito poucos os que chegam a esse grau de arrependimento, segue-se que muito poucos poderiam, por esse meio, esperar o perdão de seus pecados.

37 A Confissão aperfeiçoa a contrição

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Por isso, era necessário que Nosso Senhor, em sua grande clemência, providenciasse um meio mais fácil para a salvação dos homens em geral. Assim o fez realmente, quando por um desígnio admirável entregou as chaves do Reino dos céus à sua Igreja. Com efeito, a fé católica nos propõe um ponto de doutrina, que todos devem aceitar e professar como dogma: Quando alguém confessa, sinceramente, seus pecados ao sacerdote, estando arrependido de os haver cometido, tendo ao mesmo tempo o propósito de não tornar a cometê-los, todos os seus pecados lhe são plenamente perdoados, em virtude do poder das chaves, ainda que a dor de sua contrição, de per si, não seja suficiente para impetrar a remissão dos pecados. Com razão, pois, diziam os antigos Padres da Igreja, varões de insigne santidade, que as chaves da Igreja franqueiam as portas do céu. E ninguém pode, com razão, duvidar dessas palavras, pois lemos no decreto do Concílio de Florença que o efeito da Penitência é a absolvição dos pecados. Existe ainda um fato, que nos leva a reconhecer quantas vantagens se tiram da Confissão. Pois vemos, por experiência, que nada contribui tanto para emendar os costumes de pessoas desviadas e corrompidas, como o confiarem, de vez em quando, os seus ocultos sentimentos, suas palavras e obras a um amigo fiel e ponderado, que lhes possa valer com seus préstimos e conselhos. Pela mesma razão, devemos julgar de muito proveito que as pessoas, atormentadas pelos remorsos de suas culpas, exponham as doenças e chagas de sua alma ao sacerdote, que faz as vezes de Cristo aqui na terra, e ao qual foi imposta a mais estrita obrigação de sigilo. Nisso terão elas uma pronta medicação, não só para curar os seus achaques atuais, mas até para premunir a alma com um vigor celestial, que dali por diante há de preservá-la de futuras recaídas em tais pecados e misérias. Afinal, não devem os pastores passar em silêncio a grande importância da Confissão, para o bem-estar e segurança da sociedade. Se eliminarmos da vida cristã a Confissão Sacramental, é certo que em toda a parte se insinuarão crimes ocultos e nefandos; depois, os homens não terão vergonha de cometer, publicamente, outros crimes mais graves ainda, uma vez que se depravaram com o hábito de pecar. Ora, o pudor natural de confessar impõe uma espécie de freio à desenvoltura do pecado, e reprime os maus sentimentos do coração. Acabamos, pois, de expor as vantagens da Confissão, devem os pastores falar, agora, de sua natureza e virtude.

38 Descreve-se a Confissão Sacramental, e sua natureza

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A Confissão se define como uma acusação sacramental dos pecados, feita no intuito de alcançarmos perdão, mediante o poder das chaves. Com propriedade dizemos ser uma acusação, porque os pecados não devem ser relatados, como se quiséramos fazer gala de nossos atos condenáveis, à semelhança dos que "se alegram de terem procedido mal"; nem devemos dizê-los com displicência, como se estivéssemos a recrear ouvidos ociosos com histórias amenas. Não, na intenção de acusar-nos a nós mesmos, devemos enumerar de tal forma os pecados, que também sintamos, em nosso coração, o desejo de penitenciá-los. Todavia, se confessamos os pecados, é para alcançar o perdão. Nisso está, justamente, a enorme diferença entre este tribunal e as ações judiciais, que se movem contra crimes graves. Estas prevêem para o réu confesso pena e execução, em vez de isenção da culpa e condonação do delito. Embora usassem de outros termos, era quase neste mesmo sentido que os Santos Padres definiam a Confissão. Haja vista ao que declarava Santo Agostinho: "Ela é uma declaração, pela qual se descobre uma doença oculta, na esperança do perdão". E São Gregório: "Confissão é detestação dos pecados". Ambas as afirmações se reduzem facilmente à nossa definição, porque nela estão contidas.

39 Por que motivo, e em que ocasião instituiu Cristo a Confissão

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Agora vem um ponto, a que se deve ligar a máxima importância. Os párocos ensinarão e dirão aos fiéis, com plena segurança, que este Sacramento foi instituído como efeito da infinita bondade e misericórdia de Cristo Nosso Senhor, que "fez bem todas as coisas", unicamente por causa de nossa salvação. Pois, estando os Apóstolos reunidos no mesmo lugar, Cristo bafejou-os com o Seu hálito, e disse-lhes: "Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos".

40 De que outras passagens da Escritura se colige que a Confissão foi instituída por Cristo

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Ora, desde que Nosso Senhor conferiu aos sacerdotes o poder de reterem e perdoarem pecados, torna-se evidente que também os instituiu juízes dessa matéria. Nosso Senhor parece ter dado isso mesmo a entender, quando incumbiu os Apóstolos de desprenderem, das ataduras a que estava ainda ligado, Lázaro ressuscitado dentre os mortos. Desta passagem fazia Santo Agostinho o seguinte comentário: "Os sacerdotes já podem prestar maiores serviços [do que os simples leigos]. Podem também usar de maior clemência para com os confessados, a quem conferem o perdão das culpas. Sem dúvida, quando Nosso Senhor por meio dos próprios Apóstolos entregou Lázaro ressuscitado aos Discípulos, para que estes o desatassem, queria mostrar como o poder de desligar fora entregue aos sacerdotes". Foi também nesse sentido que Nosso Senhor mandou aos leprosos, curados durante o caminho, se apresentassem aos sacerdotes e se submetessem ao seu julgamento.

41 Como se colige das palavras de Nosso Senhor, que a Confissão deve necessariamente ser feita aos sacerdotes

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Desde que Nosso Senhor conferiu aos sacerdotes o poder de reterem e perdoarem pecados, torna-se evidente que também os instituiu juízes dessa matéria. Ora, o Santo Concílio de Trento ponderou, com muita justeza, que não se pode julgar nenhum processo, nem moderar a justiça na aplicação de penas aos delitos, sem que haja pleno e absoluto conhecimento de causa. Donde se deduz logicamente que, pela confissão dos penitentes, todos os pecados devem ser discriminados um por um aos sacerdotes. Esta é a doutrina que os pastores hão de ensinar, de acordo com a definição do Sagrado Concílio de Trento, e com a tradição constante da Igreja Católica. Se, pois, percorrermos com atenção os Santos Padres, encontraremos a cada passo os mais inequívocos testemunhos, a comprovarem que este Sacramento foi instituído por Cristo Nosso Senhor, e que o preceito da Confissão Sacramental, designada pelos Santos Padres com os vocábulos gregos de "exomológesis" e "exagóreusis", tem o caráter de uma lei evangélica. Se quisermos recorrer às figuras do Antigo Testamento, é indubitável que se referiam à confissão dos pecados, as diversas categorias de sacrifícios que os sacerdotes ofertavam, em expiação das várias espécies de pecados.

42 Com que vantagem a Igreja acrescentou certas cerimônias à Confissão Sacramental

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Além de saberem que a Confissão foi instituída por Nosso Senhor e Salvador, devem os fiéis tomar conhecimento de que a Igreja, por sua própria autoridade, lhe acrescentou certos ritos e cerimônias solenes. Embora não constituam a essência do Sacramento, fazem todavia realçar a sua grandeza e afervoram os piedosos corações dos penitentes, para que consigam, mais facilmente, a graça de Deus. Quando, pois, prostrados aos pés do sacerdote, de cabeça descoberta, com o rosto inclinado para a terra, com as mãos erguidas num gesto de súplica, e com outros sinais de humildade cristã, que não são necessários para a validade do Sacramento, confessamos então os nossos pecados: acode-nos logo a lembrança nítida de que devemos não só reconhecer a celestial virtude deste Sacramento, mas também procurar e pedir a misericórdia divina, com todas as veras de nossa alma.

43 Sem Confissão, não podem recuperar a salvação os que tiverem incorrido em pecados mortais

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Não pense alguém que Nosso Senhor instituiu a Confissão, mas sem determinar que fosse de uso obrigatório. Devem os fiéis estar certos de que toda pessoa, onerada de culpa grave, não pode reintegrar-se na vida sobrenatural, senão pelo Sacramento da Confissão. Disso temos um sinal evidente na belíssima metáfora usada por Nosso Senhor, quando Ele deu o nome de chave dos céus ao poder de administrar este Sacramento. Como ninguém pode entrar num recinto fechado, sem a intervenção de quem guarda as chaves: assim também não será admitida pessoa alguma no céu, se as portas lhe não forem abertas pelos sacerdotes, a cuja discrição Nosso Senhor entregou as chaves. Do contrário, nenhum valor teria, na Igreja, o exercício do poder das chaves. Se houvesse outro meio de franquear a entrada, debalde o detentor das chaves excluiria alguém de entrar no céu. Santo Agostinho reconheceu essa situação, com muita perspicácia, quando assim se externava: "Ninguém diga de si para consigo: Eu faço penitência às ocultas, na presença do Senhor. Deus sabe o que me vai na alma, e me dará perdão. Seriam, então, infundadas aquelas palavras: O que desligardes na terra, será desligado também no céu? Será que as chaves foram confiadas, inutilmente, à Igreja de Deus?" A mesma opinião expende Santo Ambrósio no seu Livro sobre a Penitência, onde confuta a heresia dos Novacianos, segundo os quais o poder de perdoar pecados deve reservar-se exclusivamente a Deus Nosso Senhor. "Queria eu saber, diz ele, quem honra mais a Deus: aquele que obedece às Suas ordens, ou aquele que Lhe opõe resistência? Deus mandou-nos obedecer aos Seus ministros. Quando, pois, lhes obedecemos, somente a Deus é que prestamos homenagem".

44 Em que idade e época do ano importa confessar

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Depois de averiguarmos, acima de toda dúvida, que o preceito da Confissão foi decretado pelo próprio Nosso Senhor, cumpre agora estabelecer para quais pessoas, para qual idade, e para qual época do ano entra em vigor a sua obrigação. Em primeiro lugar, pelo teor do cânon do Concílio de Latrão que começa pelas palavras - "Todos os fiéis de ambos os sexos" - vemos claramente que ninguém está obrigado ao preceito da Confissão, antes da idade em que tenha alcançado o uso da razão. Essa idade não é determinada por certo número de anos. Não obstante, podemos dar como norma geral que a criança fica obrigada a confessar-se, desde a época em que saiba distinguir entre o bem e o mal, e possa ter malícia em seu coração. Quando, pois, a pessoa chega à idade de tomar decisões acerca da eterna salvação, começa para ela a obrigação de confessar seus pecados ao sacerdote, visto que de outra maneira não pode esperar salvação, quem tenha a consciência oprimida de pecados. Quanto ao tempo em que urge a obrigação de confessar, a Santa Igreja já o determinou no cânon supracitado, porquanto decretou que os fiéis confessem seus pecados, ao menos uma vez cada ano.

45 Quantas vezes devem os cristãos utilizar-se deste benefício

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Além disso, não devemos negligenciar a Confissão, todas as vezes que o exija a segurança de nossa salvação, como acontece em perigo iminente de vida, ou quando nos dispomos para qualquer ação, que não seria lícita ao homem em estado de pecado, por exemplo, a administração ou recepção dos Sacramentos. A mesma obrigação se impõe, igualmente, quando receamos que nos esqueça alguma falta cometida. Não podemos confessar pecados de que já não temos lembrança; de outro lado, não alcançamos de Nosso Senhor o perdão de nossas culpas, a não ser que sejam eliminadas pela acusação, no Sacramento da Penitência.

46 Todos os pecados devem ser acusados, um por um, na Confissão

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Dos vários requisitos, que devemos observar na Confissão, uns se referem à essência do Sacramento, enquanto outros não são de absoluta necessidade. Por isso, é preciso desenvolver estas questões com bastante exatidão. Não faltam, porém, manuais e comentários, donde será fácil tirar explicações mais completas da matéria. Como ponto principal, ensinem os pastores os fiéis a cuidarem que a acusação seja completa e determinada, pois é de obrigação revelarem-se ao sacerdote todos os pecados mortais. Temos por costume confessar também as faltas veniais, que não nos privam da amizade de Deus, e nas quais caímos com mais frequência. Isto está certo, e traz proveito, conforme no-lo mostra a experiência de pessoas piedosas. Todavia, não vai nenhum pecado em omitir-se as faltas veniais, porque há muitos outros meios de repará-las. Quanto aos pecados mortais, como já dissemos, é preciso enumerá-los todos, por mais ocultos e encobertos que sejam, e talvez só pertençam aos pecados proibidos pelos dois últimos preceitos do Decálogo. Muitas vezes, tais pecados ferem mais profundamente a alma, do que os pecados que os homens costumam cometer de maneira pública e manifesta. De mais a mais, esta é uma doutrina definida pelo Sagrado Concílio de Trento, e sempre ensinada pela Tradição da Igreja Católica, conforme no-lo declaram os testemunhos dos Santos Padres. Santo Ambrósio, por exemplo, se pronunciou da seguinte maneira: "Ninguém pode justificar-se do pecado, sem fazer confissão do mesmo pecado". São Jerônimo corrobora esta mesma doutrina, dizendo no seu comentário do Eclesiastes: "Quando a serpente infernal morde alguém às ocultas, e o contamina com a peçonha do pecado, sem que pessoa alguma o saiba: não lhe poderá valer o mestre que tem a palavra para o curar, se o infeliz ficar em silêncio, não fizer penitência, e não quiser declarar seu ferimento a quem é seu irmão ou superior". No sermão sobre os que caíram em pecado de idolatria, São Cipriano ensina a mesma verdade, em termos bem declarados: "Embora não cometessem o crime de oferecer sacrifício, ou de aceitar uma patente de sacrifício aos ídolos, todavia tiveram tal intenção, e por isso mesmo devem acusá-la ao sacerdote de Deus, com todo o arrependimento de sua alma". Afinal, esta é doutrina e convicção comum, entre todos os Doutores da Igreja.

47 Na Confissão, devem ser declaradas as circunstâncias dos pecados

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Na acusação, devemos empregar aquele supremo esforço e diligência, que se costuma consagrar aos negócios de maior alcance. Cumpre-nos fazer todo o empenho para sanar as feridas da alma, e arrancar as raízes do pecado. Por esse motivo, torna-se mister indicar, na acusação, não só as faltas graves como tais, mas também todas as circunstâncias que, de modo notável, lhes aumentam ou diminuem a malícia. Algumas circunstâncias são tão graves, que só por elas já consta a espécie do pecado mortal; por isso, todas elas devem ser sempre acusadas na confissão. Por exemplo, quando alguém matou seu semelhante, deve especificar, se o morto era clérigo ou leigo; da mesma forma, quem pecou com alguma mulher, deverá indicar se foi com pessoa solteira, casada, parenta, ou ligada a Deus por voto religioso. Estas circunstâncias constituem várias espécies de pecado. Na linguagem dos teólogos moralistas, o primeiro desses casos seria simples fornicação; o segundo seria adultério; o terceiro, incesto; o quarto, sacrilégio. O furto, por exemplo, deve ser tido também como pecado; mas quem furta uma moeda de ouro, comete pecado menor do que a pessoa que furta cem ou duzentas moedas, ou até uma enorme quantia de ouro, sobretudo quando se trata de dinheiro destinado a fins sagrados. Aplicam-se os mesmos princípios às circunstâncias de lugar e tempo. Os exemplos atinentes se tornaram tão conhecidos, através das obras de muitos autores, que já não precisamos lembrá-los neste lugar. Como dissemos, são estas as circunstâncias que devem ser declaradas. Podemos, entretanto, omitir sem culpa alguma as circunstâncias que não aumentam, consideravelmente, a malícia formal de um pecado.

48 Deve repetir-se a Confissão, em que voluntariamente se calou algum pecado mais grave

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Consoante as explicações anteriores, a integridade perfeita é tão necessária para a confissão, que a pessoa não tiraria nenhum proveito dela, e até cometeria outro grande pecado, se deliberadamente omitisse uma parte daquilo que devia acusar, e só declarasse outra parte. Nessas condições, a enumeração dos pecados nem merece o nome de Confissão Sacramental. O penitente deve, pelo contrário, fazer nova Confissão, e acusar-se a si mesmo de ter profanado a santidade do Sacramento, por meio de uma Confissão simulada.

49 Não precisa repetir-se a Confissão, em que por esquecimento ou leve descuido foi omitida alguma falta

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Entanto, se por outro motivo houver falta de integridade na Confissão, seja porque o penitente esqueceu alguns pecados, seja porque não devassou bastante todos os recônditos da consciência, embora tivesse sempre a intenção de acusar integralmente todos os seus pecados: em tal emergência, não tem ele nenhuma obrigação de repetir a Confissão. Caso venha a lembrar-se dos pecados que esquecera, basta-lhe acusá-lo ao sacerdote noutra ocasião. É preciso, todavia, averiguar se talvez fomos tão distraídos e negligentes, no exame de consciência, tão descuidosos em lembrar-nos dos pecados cometidos, que com razão parecesse não querermos sequer recordá-los. Se tal aconteceu, será de absoluta necessidade repetir a Confissão.

50 A acusação deve ser clara, despretensiosa, e sincera

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Além do mais, é preciso cuidar que a acusação seja clara, singela e franca, sem aquelas divagações que muitos fazem, como se quisessem antes dar contas de sua vida em geral, em vez de acusar os seus pecados. Na acusação, devemos mostrar-nos ao sacerdote, da mesma maneira que nos conhecemos a nós mesmos, e apresentar como certo o que for certo, e como duvidoso o que for duvidoso. Ora, se não dissermos todos os pecados, ou se nos metermos em explicações fora de propósito, é claro que a acusação não terá as qualidades supracitadas.

51 A acusação deve ser criteriosa e recatada

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Muito para louvar são os fiéis que, na exposição de seus pecados, dão prova de certa discrição e reverência. Pois não devemos demasiar-nos em muitas palavras, mas com modesta brevidade dizer somente o que for necessário, para declarar a natureza e as circunstâncias de cada pecado.

52 A acusação não pode ser feita por mensageiro ou por carta

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Particular solicitude devem ter, assim o penitente como o sacerdote, em conservar secretas as palavras trocadas na Confissão. Esta é também a razão por que a ninguém formalmente se permite confessar, por intermédio de outra pessoa, ou por correspondência, porque assim não seria possível fazê-lo secretamente.

53 Para o cristão é de proveito confessar-se mais vezes

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Afinal, devem os fiéis empenhar-se, acima de tudo, em purificar a alma, pela frequente confissão de seus pecados. Em vista dos muitos perigos que ameaçam a vida humana, nada pode ser mais salutar para quem tem culpa grave na consciência, do que confessar sem demora os seus pecados. Ainda que uma pessoa pudesse contar com largos anos de vida, para nós, que tanto nos esmeramos em remover as imundícies do corpo e do vestuário, seria certamente uma vergonha não impedirmos, com igual solicitude, que a fulgurante beleza de nossa alma seja empanada pelas ignóbeis manchas do pecado.

XI Ministro da Confissão

54 De quantos poderes deve estar provido o ministro deste Sacramento

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Agora temos que falar sobre o ministro deste Sacramento. Com bastante clareza, mostram as leis da Igreja que esse ministro é o sacerdote, enquanto possui jurisdição ordinária ou delegada para absolver; pois quem deve desempenhar tal ministério deve ter não só o poder de ordem, mas também o poder de jurisdição. Uma brilhante afirmação desse ministério são aquelas palavras de Nosso Senhor no Evangelho de São João: "A quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados. E a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos". Como sabemos, essas palavras não foram ditas a todos, mas unicamente aos Apóstolos, cujos sucessores no ministério são os sacerdotes. Mas havia muita razão que assim fosse. Como todas as graças próprias deste Sacramento derivam de Cristo, enquanto é a cabeça que se comunica aos membros: assim também convinha ao Corpo Místico de Cristo, isto é, aos fiéis, que só pudessem administrá-lo àqueles que têm o poder de consagrar o verdadeiro Corpo do mesmo Cristo; tanto mais que, pelo Sacramento da Penitência, os fiéis são habilitados a receber a Sagrada Eucaristia nas devidas disposições. Com quanto escrúpulo se respeitava, na Igreja Primitiva, a jurisdição do simples sacerdote, fácil será depreender das antigas prescrições eclesiásticas que determinavam não oficiasse nenhum Bispo ou sacerdote em paróquia estranha, sem autorização do pároco competente, a não ser que houvesse urgente necessidade. Assim o havia estabelecido o Apóstolo, quando ordenou a Tito que, em todas as cidades, constituísse sacerdotes, para nutrirem e formarem os fiéis com o alimento celestial da doutrina e dos Sacramentos.

55 Em caso de necessidade, todo sacerdote pode absolver qualquer pecador

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Em perigo iminente de morte, quando não é possível chamar sacerdote da paróquia, sempre foi praxe da Igreja, conforme ensina o Concílio de Trento, que todo e qualquer sacerdote pudesse não só perdoar todos os pecados de qualquer espécie, sem embargo de reservação, mas até absolver dos vínculos de excomunhão, para que assim se evitasse a perda de alguma alma.

56 Qual Confessor devem escolher os que prezam, como devem, a sua salvação

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Além dos poderes de Ordem e jurisdição, que são absolutamente indispensáveis, deve o ministro deste Sacramento possuir antes de tudo a necessária ciência, experiência e tino pastoral, por isso que tem de exercer, a um tempo, os ofícios de juiz e de médico. Nessa primeira qualidade, é evidente que deve dispor de uma ciência acima das noções vulgares, para analisar os pecados, para discriminar entre as várias espécies de pecados, quais são graves, quais são leves, segundo o caráter e a condição da pessoa. Como médico, necessita também de suma prudência, porquanto lhe incumbe todo o cuidado em aplicar ao doente a medicação mais indicada, não só para lhe curar a alma, como também para a proteger, futuramente, contra os assaltos da enfermidade. Dessa averiguação, podem os fiéis deduzir com quanta diligência deve cada qual escolher um sacerdote recomendável pela integridade de vida, pelo preparo intelectual, pela segurança de suas decisões: [um sacerdote] que, lembrado das altas responsabilidades do seu ministério, saiba perfeitamente discernir quais penas merece cada pecado, e quais penitentes estão em condições de ser desligados ou ligados.

57 Não é jamais permitido revelar, por palavras ou sinais, o que se ouviu em Confissão

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Como é natural, todo homem sente o mais vivo desejo de que seus pecados e fraquezas permaneçam ocultos. Por isso, devemos advertir os fiéis que não há nenhum motivo para temer que o sacerdote descubra, jamais, as revelações feitas em confissão, ou que, da própria acusação, lhes possa um dia resultar qualquer perigo. Com efeito, os sagrados cânones estabelecem as mais rigorosas sanções contra os sacerdotes, que não guardarem perpétuo e absoluto silêncio acerca de todos os pecados, que alguém lhes tenha confessado. Nesse sentido, lemos uma determinação do Concílio Ecumênico de Latrão: "Tome o sacerdote todas as precauções, para não trair o pecador em nenhuma circunstância, nem por palavras, nem por sinais, nem por outra qualquer maneira".

58 A que deve atender o sacerdote, quando ouve a Confissão de outras pessoas

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Depois de termos falado do ministro, leva-nos a sequência do assunto a expor aqui alguns pontos capitais, que muito se recomendam para o bom exercício do ministério da Confissão. Existe avultado número de fiéis, para os quais em geral nada custa tanto passar, como os dias que a Igreja determinou para a Confissão. A tal ponto se afastaram de uma vida perfeitamente cristã, que mal se recordam dos pecados que deveriam acusar ao sacerdote, e nem observam as outras condições, as quais são de inegável eficácia para se conseguir a graça divina. Sendo, pois, necessário trabalhar com maior zelo pela salvação dessas almas, devem os sacerdotes, em primeiro lugar, investigar cuidadosamente, se o penitente tem verdadeiro arrependimento de seus pecados, e o firme e deliberado propósito de abandonar o pecado para o futuro. Se virem o penitente nessas disposições, advirtam-no e exortem-no, porfiadamente, a render graças a Deus por tão grande e singular benefício: a não deixar jamais de pedir-Lhe os auxílios da graça celestial, por cuja força e proteção possa, facilmente, repelir e vencer as más inclinações. Ensinem-lhe, também, que não deixe passar um só dia sem fazer alguma meditação dos mistérios da Paixão de Nosso Senhor, para se mover ao ardente desejo de segui-l'O e amá-l'O, no mais alto grau de caridade. Por efeito de tal meditação, há de sentir-se cada vez mais fortalecido contra todas as tentações do demônio. Na verdade, se nos ataques do inimigo esmorecemos e sucumbimos, tão depressa e tão facilmente, o único motivo está em não procurar, pela meditação das coisas sobrenaturais, inflamar-nos daquele fogo do amor divino, que enche nossa alma de nova força e coragem. Quando, porém, o sacerdote reconhece que o penitente não mostra tanta dor de seus pecados, de sorte que não possa considerá-lo verdadeiramente arrependido, faça tudo por lhe incutir forte desejo de contrição, para que o mesmo, inflamado pela cobiça desse dom inestimável, se resolva a pedir, com instância, que Deus lho conceda em Sua misericórdia. Antes de tudo, é preciso reprimir a soberba daqueles que, por meio de escusas, procuram justificar ou atenuar os seus pecados. Isso acontece, por exemplo, quando alguém confessa que se entregou a explosões de cólera, mas desde logo atribui a culpa dessa desordem a outra pessoa, da qual se queixa ter sido a primeira a injuriá-lo. Na exortação, façamos ver ao penitente como tais escusas denotam soberba de coração; como são próprias de pessoas que desprezam ou ignoram por completo a gravidade de seu próprio pecado; como as desculpas desse gênero contribuem antes para aumentar, do que para diminuir o pecado. Quem assim procura justificar seu modo de proceder, parece declarar que só terá paciência, quando ninguém lhe faça agravo. Isso, porém, seria o que há de mais indigno para um cristão. Em vez de deplorar, sinceramente, o estado de alma de quem o injuriou, ele não se dói da malícia do pecado, mas irrita-se contra o seu irmão. Quando se lhe oferece uma bela oportunidade para glorificar a Deus, por um ato de paciência, e corrigir seu irmão pelo exemplo de brandura, ele converte a ocasião de virtude em causa de própria ruína. De piores efeitos, ainda, é a culpa daqueles que, por descabida vergonha, não se atrevem a confessar os seus pecados. É preciso animá-los, com bons conselhos, exortá-los que não há motivo algum para se envergonharem de dizer os seus pecados. Pois ninguém deve admirar-se, quando reconhece que os homens pecam; trata-se de um achaque comum a todos os homens, que de per si deve ser atribuído à fragilidade humana. Outros cristãos, que raras vezes se confessam, ou que não põem a menor atenção e diligência no exame de suas faltas, não sabem por isso mesmo explicar os pecados em Confissão, nem sequer dar início ao desempenho dessa obrigação. Estes merecem, sem dúvida, uma admoestação mais enérgica. Como ponto primordial, devemos ensinar-lhes que, antes de chegarem ao sacerdote, procurem fervorosamente excitar-se à contrição de seus pecados; que isso, porém, será praticamente impossível, se não tiverem o cuidado de recordá-los, um por um, e assim conhecê-los todos. Por conseguinte, quando o sacerdote vê que tais pessoas não fizeram nenhuma preparação, trate de despedi-las, com termos de maior brandura, e não deixe de exortá-las a que levem algum tempo em recordar os pecados, para depois voltarem à Confissão. Se todavia retrucarem que nisso já puseram todo o esforço e boa vontade, deve o sacerdote atendê-las, por causa do grande receio de não voltarem, uma vez que sejam assim despachadas; [deve fazê-lo] principalmente quando mostram algum desejo de emenda, e podem ser levadas a acusarem essa negligência, com a promessa de repará-la oportunamente, por meio de um exame mais exato e cuidadoso. Ainda assim, em tais casos, terá o sacerdote de proceder com muita cautela. Se pela própria acusação o sacerdote ajuizar que o penitente não se descurou, inteiramente, de enumerar seus pecados, nem de aborrecê-los com compunção, pode absolvê-lo. Vendo, porém, que ao penitente lhe falta essa dupla disposição, procure levá-lo com boas razões a que ponha mais tento no examinar a sua consciência, da maneira que já foi explicada. Em seguida, despedirá a pessoa, depois de lhe ter assim dispensado as mais carinhosas atenções. Acontece, por vezes, que mulheres esquecem um pecado na Confissão, e não se atrevem a voltar ao sacerdote, receando que o povo as tenha em conta de grandes pecadoras, ou que lhes seja atribuída a presunção de procurarem singularidade na prática da Religião. Por esse motivo, cumpre repetir muitas vezes, assim em público, como em particular, que ninguém possui memória tão fiel a ponto de lembrar-se de tudo quanto tenha feito, dito e pensado; que nada, por conseguinte, deve intimidar os fiéis a tornarem ao sacerdote, se lhes ocorrer à lembrança algum pecado esquecido anteriormente. Estas e muitas outras normas devem os sacerdotes observar, quando ouvem confissões. Agora trataremos da terceira parte da Penitência. Chama-se satisfação.

XII A satisfação

59 Que é a satisfação, genericamente falando, e que representa em assunto de Confissão

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Antes de tudo, devemos explicar qual sentido e extensão se atribui ao termo "satisfação". Os inimigos da Igreja Católica tiraram dessa questão amplos pretextos para desavenças e discórdias, com o máximo prejuízo para a cristandade. Ora, satisfação é o pagamento integral de uma coisa devida; pois nada falta, se a coisa é bastante. Quando, por exemplo, nos referimos a uma reconciliação, "satisfazer" significa o mesmo que prestar a outrem quanto seja "bastante", para desagravar da injúria a pessoa indignada. Logo, satisfação vem a ser a reparação de uma injúria feita a outrem. Quanto ao sentido que neste lugar interessa, os teólogos empregam o termo "satisfação", para designarem a reparação que o homem presta a Deus, quando lhe tributa alguma coisa pelos pecados cometidos.

60 Quantos são os graus daquela satisfação, que envolve em si alguma compensação pelo pecado

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Como o modo de reparar admite muitos graus, daí resultam as várias acepções em que se toma o termo satisfação. A primeira espécie de satisfação, e a mais nobre de todas, resgata, plenamente, o que devemos pela gravidade de nossos pecados, ainda que Deus quisesse tratar-nos com o rigor de sua justiça. Nessas condições estava aquela reparação que aplacou a Deus, e no-Lo tornou propício; devemo-la unicamente a Cristo Nosso Senhor, que na Cruz pagou o resgate pelos nossos pecados, e assim prestou a Deus a mais perfeita satisfação. Nenhuma criatura teria em si tanto valor e préstimo, que pudesse livrar-nos de tamanha dívida. Por isso, como atesta São João, "Ele próprio é a propiciação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas pelos pecados do mundo inteiro". Esta é, pois, uma satisfação plena e superabundante, que em tudo corresponde à gravidade dos pecados que jamais se cometeram neste mundo. Pelo peso de tal satisfação, as obras dos homens adquirem grande valor e mérito aos olhos de Deus; sem ela, não seriam objeto de nenhuma estima e consideração. A este fato parecem referir-se aquelas palavras em que Davi prorrompeu, depois de tê-lo ponderado de si para consigo: "Que retribuirei ao Senhor por todos os benefícios que me tem feito?" E nada encontrando que fosse digno para retribuir tão grandes e tão numerosos benefícios, senão esta satisfação, a que dava o nome de "cálice", Davi acrescentou em seguida: "Tomarei o cálice da salvação, e invocarei o nome do Senhor". Outra espécie de satisfação é a que se chama satisfação canônica. Cumpre-se num prazo determinado. Na Igreja Primitiva, vigorava o costume de impor-se alguma pena aos pecadores, quando eram absolvidos. Ora, o cumprimento dessa pena veio a chamar-se satisfação. Dá-se, porém, o mesmo nome de satisfação a qualquer espécie de penitência, que escolhemos e cumprimos voluntariamente, sem nos ser prescrita pelo sacerdote. No entanto, essa espécie de satisfação não pertence de modo algum ao Sacramento. Como parte integrante do Sacramento, só podemos considerar aquela que o sacerdote nos manda prestar a Deus, em reparação dos pecados cometidos, mas com a condição de que nos decidamos a fugir, a todo o transe, qualquer pecado para o futuro. Alguns definiram a satisfação da maneira seguinte: Satisfazer é tributar a Deus a honra que Lhe é devida. Naturalmente, ninguém pode tributar a Deus a devida honra, se não tiver a inabalável resolução de evitar o pecado. Satisfazer é extirpar as causas dos pecados, e não dar ouvido às suas insinuações. Neste mesmo sentido, disseram outros que satisfação é um processo de purificação, pelo qual são lavadas todas as impurezas que encardiram a alma por causa da mancha do pecado; e mediante o qual alcançamos a remissão das penas temporais que nos estavam reservadas. Sendo assim, fácil será convencer os fiéis de que os penitentes precisam dedicar-se, zelosamente, à prática da satisfação.

61 Com a remissão da pena eterna, que se segue ao perdão da culpa, nem sempre se remite a pena temporal

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Diga-se-lhes, também, que todo pecado acarreta consigo duas consequências: culpa e castigo. Ainda que, pela extinção da culpa, seja também perdoado o suplício da morte eterna no inferno, todavia, como declarou o Concílio de Trento, Nosso Senhor nem sempre perdoa os remanescentes dos pecados e a pena temporal que lhes é devida. Dessa verdade, há exemplos formais na Sagrada Escritura: no terceiro capítulo do Gênesis, nos capítulos duodécimo e vigésimo segundo dos Números, e em muitos outros lugares. No entanto, o mais claro e o mais sugestivo dos exemplos, vemo-lo na pessoa de Davi. Natã lhe havia assegurado: "O Senhor também te perdoou o pecado, e não morrerás". Isso não obstante, Davi submeteu-se, voluntariamente, às mais duras penitências, e implorava dia e noite a misericórdia divina: "Lavai-me sempre mais de minha iniquidade, e purificai-me do meu pecado; porquanto reconheço a minha iniquidade, e meu pecado está continuamente diante dos meus olhos". Por estas palavras, pedia ele ao Senhor lhe perdoasse não só a culpa, mas também o castigo merecido pela culpa; que, depois de o purificar dos resquícios do pecado, lhe restituísse a antiga formosura e integridade da alma. Não obstante o fervor de suas preces, foi todavia punido por Nosso Senhor com a morte do filho que tivera do adultério; com a revolta e a morte de Absalão, a quem amava com particular carinho; com outros castigos e flagelos, que já antes lhe haviam sido cominados. Caso análogo se lê no Êxodo. Muito embora o Senhor, instado pelas súplicas de Moisés, perdoasse ao povo que caíra em idolatria, contudo ameaçou que, com graves castigos, iria punir tão grande crime. O próprio Moisés teve de anunciar que o Senhor tomaria a mais estrita vingança desse crime até a terceira e quarta geração. Esta é também a doutrina que os Santos Padres sempre ensinaram na Igreja Católica; demonstra-o, com toda a evidência, a autoridade de suas próprias declarações.

62 Por que Deus não perdoa tanto ao homem, pelo Sacramento da Penitência, quanto o faz pelo Batismo

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A razão por que a pena não é de todo perdoada no Sacramento da Penitência, ao contrário do que acontece no Batismo, o Concílio de Trento no-la explica, com muita clareza, pelo texto seguinte: "Em sua razão de ser, a justiça divina parece exigir que Deus tenha uma maneira para reabilitar na graça aqueles que, antes do Batismo, pecaram por ignorância; e outra diferente, para aqueles que não temeram profanar, advertidamente, o templo de Deus e contristar o Espírito Santo, uma vez que haviam sido libertados da escravidão do pecado e do demônio, e que haviam recebido o dom do Espírito Santo. Corresponde também à bondade divina que os pecados não nos sejam assim perdoados, sem nenhuma satisfação, para evitar que, na primeira ocasião, tenhamos os pecados por muito leves, e, com atrevida afronta ao Espírito Santo, caiamos em outros mais graves, cumulando ira sobre nós para o dia da ira. Sem dúvida alguma, estas penas satisfatórias são de grande eficácia para apartar do pecado; reprimem à semelhança de freios, e tornam os penitentes mais precavidos e vigilantes para o futuro". Outra razão ainda. As penas satisfatórias constituem, por assim dizer, uma documentação pública da dor, que sentimos, pelos pecados cometidos. Assim damos também uma reparação à Igreja, que fica gravemente prejudicada com os nossos pecados. Nesse sentido, disse Agostinho: "Deus não despreza um coração contrito e humilhado. Todavia, a dor de um coração quase sempre se mantém oculta aos demais, e nem chega ao conhecimento de outrem, por palavras ou sinais de qualquer espécie. Por isso, tiveram razão os prelados da Igreja em determinar tempos para penitência, a fim de se dar satisfação também à Igreja, dentro da qual são remitidos os próprios pecados".

63 De que modo as penas que nos são infligidas, são de proveito a outros

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Ademais, os exemplos de nossa penitência mostram aos outros como eles devem regular a sua própria vida, e entregar-se aos exercícios de piedade. Ao verem as penitências que nos foram impostas, por causa de nossos pecados, os outros homens se capacitarão de que precisam governar bem todos os atos de sua vida, e corrigir os velhos modos de proceder. Por isso, a Igreja determinou, com muito acerto, fosse imposta uma penitência pública aos fiéis que pecaram publicamente, para que os outros, escarmentados pelo castigo, pusessem maior cautela em não pecar para o futuro. De vez em quando, costumava a Igreja fazer assim até com os pecados ocultos de maior gravidade. Mas, quanto aos pecados públicos, como já dissemos, sempre foi disciplina eclesiástica não absolver os responsáveis, sem que antes se sujeitassem a uma penitência pública. Durante a penitência pública, os pastores rogavam a Deus pela salvação dos penitentes, e não cessavam de exortá-los fizessem outro tanto por si mesmos. Nesse particular, teve Santo Ambrósio um zelo excepcional. Conta-se que, por suas lágrimas, abrandou a muitos que se aproximavam empedernidos do Sacramento da Penitência, de sorte que chegaram a sentir a dor de uma verdadeira contrição. Posteriormente, o rigor da antiga disciplina diminuiu tanto, e a caridade arrefeceu de tal maneira que, para alcançarem o perdão dos pecados, na maior parte os fiéis já não julgam necessária a dor íntima da alma, nem o gemer do coração, mas dão-se por satisfeitos com as aparências de arrependimento.

64 Pela Penitência, tornamo-nos semelhantes a Cristo

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Pela sujeição a tais penas, conseguimos também reproduzir, em nós mesmos, a imagem e semelhança de Jesus Cristo, nossa Cabeça, que como tal padeceu, e foi tentado. Nada mais repugnante, diz São Bernardo, do que ser um membro mimoso ligado a uma cabeça coroada de espinhos. Pois, como afirma o Apóstolo, "somos co-herdeiros de Cristo; mas, isto somente, se sofrermos com Ele". E noutro lugar escreveu: "Se com Ele morrermos, com Ele também viveremos. Se perseverarmos no sofrimento, havemos também de reinar com Ele".

65 Como pode haver, apesar da misericórdia divina, lugar para a justiça no pecado

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Ensina São Bernardo que no pecado aparecem dois efeitos: conspurcação e ferimento da alma. A conspurcação, diz ele, é tirada pela misericórdia de Deus; mas, para curar os ferimentos do pecado, é muito necessária a medicação, que se faz com o remédio da Penitência. Pois, curada que for uma ferida, restam ainda certas cicatrizes que é preciso pensar. Assim também, perdoada a culpa, ficam na alma uns resíduos que exigem uma purificação. Esta doutrina é plenamente confirmada por São João Crisóstomo, quando declara: "Não basta arrancar a seta do corpo; força é também curar a ferida aberta pela seta. Assim, depois de alcançado o perdão da culpa, é preciso curar, pela penitência, a ferida que ainda permanece". Santo Agostinho também nos ensina, muitíssimas vezes, que na Penitência devemos atender a dois aspectos: a misericórdia e a justiça divina. Pela misericórdia, Deus perdoa os pecados e as penas eternas que lhes são consectárias; pela Sua justiça, castiga o homem com penas temporais.

66 Pela penitência, escapamos às penas que Deus nos tem preparado

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Finalmente, as obras de penitência que tomamos sobre nós, têm por efeito atalhar as penas e castigos que Deus nos havia reservado. Esta é a explicação que dá o Apóstolo pelas palavras: "Se nos julgássemos a nós mesmos, certamente não seríamos julgados. Mas, desde que somos julgados, é o Senhor que nos castiga, para não sermos condenados com este mundo". Se forem dadas estas explicações, é quase impossível que os fiéis não sintam grande entusiasmo pelas obras de penitência.

67 A que título nossas obras são não só meritórias, mas também satisfatórias

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Para se conhecer quão grande é a sua eficácia, basta notar que a satisfação se baseia, por completo, nos merecimentos da Paixão de Cristo Nosso Senhor. Em virtude desses merecimentos nossas obras surtem dois grandes efeitos. O primeiro é merecermos, por elas, o galardão da glória imortal, a ponto de não ficar sem recompensa nem o simples copo de água fria, que tivermos dado em Seu nome. O segundo é podermos satisfazer pelos nossos pecados.

68 Nossa satisfação não faz sombra à satisfação e ao merecimento de Cristo

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Esta doutrina não apouca a absoluta perfeição e plenitude da satisfação, prestada por Cristo Nosso Senhor. Pelo contrário, faz com que esta transpareça com muito mais brilho e evidência. Na verdade, a graça de Cristo afigura-se-nos mais abundante, enquanto nos comunica o que Ele mereceu e reparou, não só por Si mesmo, mas também por homens santos e justos, como cabeça em união com os seus membros. Através deste prisma, vemos logo por que se revestem de tanto valor e prestígio as obras boas e justas, praticadas por pessoas virtuosas. Pois Cristo Nosso Senhor não cessa de difundir Sua graça sobre aqueles que Lhe estão unidos pela caridade, como a cabeça se comunica aos membros, e a videira aos bacelos. Esta graça é que sempre precede, acompanha, e segue as nossas boas obras. Sem ela não podemos, de modo algum, granjear merecimentos, nem prestar a Deus qualquer satisfação. Assim, nada parece faltar aos justos; mediante as obras que praticam, com o auxílio de Deus, podem não só satisfazer à lei divina, na medida de sua condição humana e mortal, mas também merecer a vida eterna, que certamente hão de conseguir, se partirem da vida presente, adornados com a graça de Deus. Conhecida é aquela declaração de Nosso Salvador: "Quem beber desta água, que Eu hei de dar-lhe, não tornará a ter sede. A água, porém, que Eu lhe darei, tornar-se-á nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna".

69 Quais são as condições principais, para que uma obra tenha verdadeira virtude de satisfazer

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Na satisfação, cumpre ao homem respeitar dois requisitos principais. Primeiro, quem satisfaz deve ser justo e amigo de Deus. Em hipótese alguma, podem agradar a Deus as obras que se façam sem fé e sem caridade. Segundo, devemos para esse fim empreender obras que, de sua natureza, produzam dores e incômodos. Torna-se absolutamente necessário que tenham alguma amargura, pois são compensações pelas culpas passadas; no dizer do mártir São Cipriano, devem resgatar os pecados. Naturalmente, quando alguém se entrega a tais obras penosas, nem sempre lhe acontece ter sensação de dor. Frequentes vezes, o hábito de sofrer, ou a intensidade do amor divino, faz com que a pessoa não sinta sequer o que, aliás, seria duríssimo de suportar. Nem por isso perdem tais obras seu valor satisfatório; pois que o apanágio dos filhos de Deus é abrasarem-se, de tal forma, no amor e na consagração a Ele, que já não sintam quase nenhuma dor, quando atormentados pelos mais cruéis suplícios, ou que tudo sofram com os maiores transportes de alegria.

70 Quantas são as obras de satisfação

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Neste ponto, dirão os pastores que todas as obras satisfatórias se reduzem a estas três classes principais: oração, jejum, esmola. Correspondem a três ordens de bens, que todos recebemos de Deus: bens da alma, bens do corpo, e bens de fortuna. Com efeito, nada pode haver de mais próprio e consentâneo, para extirpar as raízes de todos os pecados. Como, na verdade, "tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos, e soberba da vida"; ninguém desconhece que a estas três causas de doença espiritual se contrapõem, acertadamente, outros tantos remédios: à primeira, o jejum; à segunda, a esmola; à terceira, a oração. Por outro lado, se considerarmos os que são atingidos pelos nossos pecados, poderemos, sem mais, compreender por que toda satisfação se reduz a estas três classes principais. Ora, os atingidos são: Deus, o próximo, e nós mesmos. Assim, pela oração aplacamos a Deus; pela esmola, damos satisfação ao próximo; pelo jejum, infligimos castigo a nós mesmos.

71 Se as aflições que os homens sofrem, por causas extrínsecas, possuem valor satisfatório

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Enquanto vivemos neste mundo, estamos sujeitos a muitos trabalhos e sofrimentos, que se apresentam nas mais variadas modalidades. Por isso mesmo, os fiéis devem, antes de tudo, ficar sabendo que adquirem amplo cabedal de méritos e satisfações todos aqueles que suportarem, com paciência, as dores e provações enviadas por Deus; mas que ficarão privados de todos os frutos satisfatórios, se sofrerem tais penas de má vontade e com repugnância, e terão de padecê-las, só como castigo e flagelo de Deus, que em Seus justos juízos assim vinga o pecado.

72 Uma pessoa pode fazer penitência por outra, e cumprir todas as condições correspondentes

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Com os maiores louvores e ações de graças, devemos exaltar a infinita bondade e misericórdia de Deus, porque a tal ponto condescendeu com a fraqueza humana, que nos deu o poder de satisfazer uns pelos outros. Isto constitui, realmente, um caráter privativo desta parte da penitência. Pois, em matéria de contrição e acusação, força é dizer que ninguém pode arrepender-se ou confessar-se em lugar de outrem. Mas quem está na graça de Deus, pode prestar, em nome de outrem, a satisfação que for devida a Deus. Desta forma acontece que, em dada proporção, "um leva o fardo do outro". E disso não pode haver dúvida alguma para nós, fiéis, que, no Símbolo dos Apóstolos, professamos a Comunhão dos Santos. Ora, se todos renascemos para Cristo pela ablução do mesmo Batismo; se temos parte nos mesmos Sacramentos; se cobramos forças, sobretudo com o comer e beber o mesmo Corpo e Sangue de Cristo Nosso Senhor: tudo são provas evidentes de que todos nós somos membros de um mesmo corpo. Assim, pois, como o pé exerce sua função, não só em próprio benefício, mas também em proveito dos olhos; e os olhos, por sua vez, não gozam da visão para sua exclusiva utilidade, mas para o bem-estar comum de todos os membros: assim devemos também admitir que as obras satisfatórias têm um valor comum que a nós todos aproveita. Há, porém, restrições que fazer, se levarmos em conta todas as vantagens resultantes da satisfação. As obras satisfatórias constituem uma espécie de medicação e tratamento, que se receita ao penitente, para lhe curar as paixões desordenadas. É claro que deste fruto se privam, absolutamente, os que não satisfazem por si próprios. Eis indicada a matéria que se deve explicar, com muita extensão e clareza, acerca das três partes da Penitência: contrição, acusação e satisfação.

XIII Obrigação do sacerdote antes de absolver

73 Se deve ser dada a absolvição a quem não promete restituir a coisa roubada

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Entretanto, resta ainda um ponto, a que os sacerdotes devem atender com toda a solicitude. Ouvida a acusação das culpas, antes de absolverem o penitente de seus pecados, cuidem, conscienciosamente, que o mesmo se comprometa a uma reparação especial, caso tenha lesado o próximo nos bens de fortuna ou de reputação, e mereça ser condenado por causa dessa culpa. Pois ninguém pode ser absolvido, sem que antes prometa restituir ao próximo o que lhe pertence. Havendo muitos que, com belas palavras, prometem cumprir a sua obrigação, ao mesmo tempo que estão firmemente decididos a nunca executar a promessa, é de todo necessário obrigá-los formalmente à restituição. Sempre de novo devemos martelar-lhes aquelas palavras do Apóstolo: "Quem furtava, já não furte; mas antes trabalhe, ocupando-se com suas mãos em algum mister honesto, para ter o que dar a quem padece necessidade".

74 Qual satisfação deve ser imposta ao penitente

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Na imposição da obra satisfatória, compreendam os sacerdotes que nada poderão estabelecer arbitrariamente, mas que em tudo devem governar-se pelos ditames da justiça, prudência e caridade. Para mostrar que aferem os pecados por essa forma, e para levar os penitentes a conhecerem melhor a graveza de suas culpas, é de vantagem que os párocos se ponham a explicar-lhes, de vez em quando, as penas que os antigos cânones, chamados penitenciais, estabeleciam contra certos pecados. Por conseguinte, a natureza da culpa determinará a medida de toda e qualquer satisfação. De todas as espécies de satisfação, a mais recomendável é impor aos penitentes que, em alguns dias determinados, se entreguem ao exercício da oração, e façam preces a Deus por todos, principalmente por aqueles que morreram na paz do Senhor. É preciso exortá-los a repetirem muitas vezes, por sua livre vontade, as mesmas obras de satisfação que lhes foram impostas pelo sacerdote; a reformarem de tal modo os seus costumes, que nunca deixem de cultivar a virtude da penitência, embora já tenham zelosamente cumprido tudo quanto exigia a integridade do Sacramento da Penitência. Se alguma vez for preciso exigir penitência pública, porque houve também escândalo público, não se deve facilmente atender às instâncias do penitente, quando procura esquivar-se dela. Pelo contrário, devemos persuadi-lo a sujeitar-se, de bom grado, a uma penitência que terá salutares efeitos, tanto para ele mesmo, como para os outros. Estas lições, relativas ao Sacramento da Penitência e todas as suas partes, devem ser dadas de tal forma, que os fiéis as entendam perfeitamente, e se resolvam, pela graça de Deus, a pô-las em prática com piedosa exatidão.

Fonte
Tradução de Frei Leopoldo Pires Martins, OFM — Editora Vozes, Petrópolis, 1951. Transcrição revisada a partir do PDF de referência do Serviço de Animação Eucarística Mariana.