Catecismo Romano · O Símbolo dos Apóstolos

Capítulo 7

Sexto Artigo do Símbolo: Subiu aos céus, está sentado à mão direita de Deus Pai Todo-Poderoso

Subiu aos céus, está sentado à mão direita de Deus Pai Todo-Poderoso

I Importância do Artigo

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Ao contemplar, cheio do Espírito de Deus, a bem-aventurada Ascensão de Nosso Senhor, o profeta Davi exorta o mundo inteiro a celebrar o Seu triunfo, em transportes de alegria e satisfação. “Nações todas, diz ele, batei palmas, louvai a Deus em cantos de alegria! Subiu Deus no meio de aclamações”. Desta passagem, o pároco verá com quanto zelo não deve expor este Mistério, e tomar a peito que os fiéis não só o creiam e conheçam, mas que procurem com a graça de Deus traduzi-lo o mais possível em todos os seus atos e sentimentos.

II Cristo subiu

1 Como homem

A explicação do sexto Artigo, cujo objeto versa principalmente este divino Mistério, deve pois começar pela primeira parte, e descortinar toda a sua significação. Os fiéis devem crer, sem a menor dúvida, que Jesus Cristo, depois de consumar o mistério de nossa Redenção, subiu aos céus enquanto Homem, com corpo e alma; enquanto Deus, nunca de lá se ausentou, pois que enche todos os lugares com Sua Divindade.

2 Por própria virtude

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Ensinará, todavia, que subiu por virtude própria. Não foi arrebatado por uma força estranha, como Elias que fora levado ao céu num carro de fogo, nem como Habacuc ou o diácono Filipe que, transportados através dos ares por uma virtude divina, venceram as distâncias de terras longínquas.

como Deus e como homem

Entretanto, não subiu aos céus só pela virtude de Sua Onipotência, mas também em Sua condição de homem. Isto não podia acontecer por força da natureza; mas, pela virtude de que estava munida, podia a gloriosa Alma de Cristo mover o corpo a seu grado. Tendo já a posse da glória, o corpo obedecia, sem dificuldade, a direção que a alma lhe dava, em seus movimentos. Desta maneira é que acreditamos ter Cristo subido aos céus, por virtude própria, como Deus e como Homem.

III “Está sentado à direita de Deus Pai”

1 Necessidade da figura

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Na segunda parte do Artigo estão as palavras: “Está sentado à direita de [Deus] Pai”. Esta expressão encerra uma figura de linguagem, muito usada nas Escrituras. Para maior facilidade de compreensão, atribuímos a Deus afetos e membros humanos, apesar de não podermos imaginar nada de corpóreo em Deus, porque é [puro] espírito. Mas, como nas relações sociais julgamos dar maior honra a quem colocamos à nossa direita, assim aplicamos também o mesmo princípio às coisas do céu. Confessamos que Cristo está à direita do Pai, para exprimir a glória que, como Homem, alcançou acima de todas as criaturas.

2 Significação

O “estar sentado” não exprime aqui uma postura de corpo, mas põe em evidência a posse segura e inabalável do régio poder e da glória infinita, que [Cristo] recebeu de Seu Pai. Disso fala o Apóstolo: “Ressuscitou-O da morte, e colocou-O à Sua direita no céu, acima de todos os principados e potestades, virtudes e dominações, e de todas as dignidades que possa haver não só neste mundo, mas também no mundo futuro. Pôs-Lhe aos pés todas as coisas”. Destas palavras inferimos que tal glória é tão própria e particular de Nosso Senhor, que não pode convir a nenhuma outra natureza criada. Eis por que o Apóstolo declara em outro lugar: “A qual dos Anjos disse jamais: Senta-te à Minha direita?”.

IV Avisos práticos

1 Expor o histórico

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Para mostrar mais amplamente o sentido deste Artigo, o pároco seguirá a história da Ascensão, conforme a descreveu com admirável precisão o Evangelista São Lucas, nos Atos dos Apóstolos.

a em suas relações com os outros mistérios

Na explicação, será preciso antes de tudo observar que todos os outros mistérios se referem à Ascensão como a um ponto final, que resume a perfeição e consumação de todos. Com efeito, assim como pela Encarnação do Senhor começam todos os mistérios de nossa Religião, assim também pela Ascensão é que termina a peregrinação [de Cristo] neste mundo. Os demais Artigos do Credo, relativos a Cristo Nosso Senhor, dão a conhecer Sua extrema humildade; pois nada se pode conceber de mais baixo e aviltante que o Filho de Deus Se revista, por nosso amor, da natureza humana e de sua fragilidade, e queira sujeitar-Se ao sofrimento e à morte.

b e sua sublimidade

Ora, como no Artigo anterior confessamos que [Cristo] ressuscitou dos mortos; e no presente, que subiu aos céus, e está sentado à direita de Deus Pai, não existe expressão mais sublime e grandiosa, para nos dar uma idéia de Sua glória suprema e divina majestade.

2 Enumerar os motivos

a dar ao corpo uma morada gloriosa

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Depois desta exposição, é preciso ainda explicar bem as razões por que Cristo subiu aos céus. Antes de tudo, subiu aos céus, porque a Seu Corpo, dotado de glória imortal desde a Ressurreição, já não lhe convinha esta obscura morada da terra, mas antes a elevada e esplendorosa mansão dos céus.

b diligenciar nossa glorificação

E não foi só para tomar posse do trono de glória e poder, merecido pelo [Seu próprio] Sangue; mas também para diligenciar tudo o que diz respeito à nossa salvação.

c mostrar que seu reino não é deste mundo

Além disso, foi para provar realmente que “Seu Reino não é deste mundo”. Os reinos do mundo são terrenos e passageiros, apóiam-se em grandes cabedais e na força proveniente da carne. Ora, o Reino de Cristo não era terrestre, como os judeus esperavam, mas espiritual e eterno. Colocando Seu trono nos céus, o próprio Cristo demonstrou que as forças e riquezas de Seu reino eram de natureza espiritual. Neste Reino, os mais ricos e os mais providos com a abundância de todos os bens são aqueles que [na terra] procuram com maior ardor as coisas de Deus. São Tiago, com efeito, declara que Deus escolheu “os pobres neste mundo, para serem ricos na fé, e herdeiros do Reino que Deus prometeu àqueles que O amam”.

d elevar ao céu nosso pensamento

Pela Ascensão, Nosso Senhor queria que, subindo Ele aos céus, continuássemos nós a seguí-l’O com saudosos pensamentos. Com efeito, pela Sua Morte e Ressurreição, deixou-nos um exemplo que nos mostra como devemos morrer e ressurgir espiritualmente. Pela Sua Ascensão também nos ensina e educa a erguermos nossa mente ao céu, enquanto vivemos ainda aqui na terra; a reconhecermos que, na terra, somos hóspedes e peregrinos à procura da [verdadeira] pátria, concidadãos dos Santos e membros da família de Deus, pois como diz o mesmo Apóstolo: “Nosso viver é no céu”.

e enviar-nos o Espírito Santo

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A eficácia e a grandeza dos inefáveis benefícios que a bondade de Deus derramou sobre nós [por meio deste Mistério], desde muito as havia vaticinado o santo profeta Davi: “Subindo ao alto, arrebatou consigo os escravos, e distribuiu Seus dons aos homens”. Neste sentido é que o Apóstolo interpreta esta passagem. Efetivamente, ao cabo de dez dias, enviou [Cristo] o Espírito Santo, de cuja virtude e exuberância encheu a multidão de fiéis ali presentes. Então é que cumpriu verdadeiramente aquela grandiosa promessa: “Para vós convém que Eu me vá. Se Eu não for, não virá a vós o Consolador; mas, se for, Eu vo-l’O enviarei”.

f ser nosso advogado

Pela doutrina do Apóstolo, [Cristo] também subiu aos céus “para Se apresentar agora ante a face de Deus em favor nosso”, e exercer perante o Pai o ofício de advogado. “Filhinhos meus, diz São João, eu vos escrevo para que não venhais a pecar. No entanto, se alguém pecar, por advogado junto ao Pai temos a Jesus Cristo, o Justo. Ele próprio é propiciação pelos nossos pecados”. Nada pode inspirar aos fiéis maior alegria e felicidade, do que verem a Jesus Cristo feito patrono de nossa causa, e intercessor pela nossa salvação, Ele que goza junto ao Eterno Pai de suma influência e autoridade.

g preparar-nos um lugar

Afinal, preparou-nos um lugar, conforme o havia prometido. Foi em nome de todos nós que Jesus Cristo, como nosso Chefe, entrou na posse da glória celeste. Com Sua ida para o céu, abriu as portas que se tinham fechado, em conseqüência do pecado de Adão. Franqueou-nos um caminho para chegarmos à celestial bem-aventurança, conforme predissera aos Discípulos na última Ceia. Para confirmar Sua promessa com a realidade dos fatos, levou consigo, para a mansão da eterna bem-aventurança, as almas dos justos que tinha arrancado dos infernos.

3 Indicar os frutos imediatos

a aumenta-nos a fé

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Esta admirável abundância de dons celestes vem acompanhada de uma valiosa série de frutos e vantagens. Primeiramente, o mérito de nossa fé cresce até o último grau; porquanto a fé se refere a coisas que são inacessíveis à nossa vista, e que ficam fora de alcance para nossa razão e inteligência. Portanto, se o Senhor Se não apartara de nós, diminuir-se-ia o mérito de nossa fé; pois Ele próprio exalta como bem-aventurado “os que não viram, mas creram”.

b confirma-nos a esperança

Ademais, a subida de Cristo aos céus tem a grande força de confirmar a esperança que se aninha em nossos corações. Crendo que Cristo subiu aos céus, enquanto Homem, e colocou [Sua] natureza humana à direita de Deus Pai, grande é a nossa esperança de que também nós para lá havemos de subir, como membros Seus, e de unir-nos [a Ele] como nossa cabeça. Foi o que Nosso Senhor asseverou pessoalmente: “Pai, quero que, onde Eu estou, estejam comigo também aqueles, que Vós me destes”.

c espiritualiza nosso amor

Além disso, um dos maiores benefícios que auferimos [da Ascensão], foi o de Cristo arrebatar consigo para o céu o nosso amor, e de abrasá-lo no Espírito de Deus. É uma grande verdade o que se disse: “Nosso coração está onde estiver o nosso tesouro”.

e tira-lhe o caráter terreno

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Realmente, permanecesse Jesus Cristo conosco na terra, todas as nossas considerações se concentrariam em Seu porte e trato humano. Nele veríamos apenas um homem, que nos cumulou de assinalados benefícios, e por Ele teríamos certa afeição natural e terrena. No entanto, pelo fato de ter subido aos céus, [Cristo] espiritualizou nosso amor; fez-nos amar e venerar, como Deus, Aquele que sabemos estar ausente [com Sua humanidade]. Nós o verificamos no exemplo dos Apóstolos. Enquanto o Senhor estava no meio deles, parecia que O consideravam por um prisma muito humano. De outro lado, o próprio Senhor no-lo afirma com Sua palavra: “Para vós é bom que Eu vá”. Aquele amor perfeito com que [os Apóstolos] amavam a Jesus Cristo humanamente presente, devia ser aperfeiçoado pelo amor divino, e por sinal à vinda do Espírito Santo. Razão porque Cristo logo acrescentou: “Se Eu não me ausentar, não virá a vós o Consolador”.

d dilata a sua Igreja

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Acresce que assim Nosso Senhor dilatou Sua casa na terra, que é a Igreja, cujo governo devia ser dirigido pela virtude e assistência do Espírito Santo. Como pastor e chefe supremo de toda a Igreja deixou entre os homens a Pedro, o Príncipe dos Apóstolos. Além disso, “a uns constituiu Apóstolos, a outros profetas, a outros evangelistas, a outros pastores e mestres”. E sentado que está à direita do Pai, não cessa de distribuir, a uns e a outros, os dons que lhes convém a eles, como diz o Apóstolo: “A cada um de nós foi dada a graça, segundo a medida com que Cristo a distribuiu”.

4 Aplicação prática

Ao fato da Ascensão devem os fiéis aplicar os mesmos princípios que expusemos, anteriormente, a propósito do mistério da Morte e Ressurreição. Nossa perfeita salvação, nós a devemos aos sofrimentos de Cristo; e Seus méritos patentearam aos justos a entrada para o céu. Isto não obstante, a Ascensão de Cristo se nos apresenta como um modelo, que nos ensina a olhar para o alto, e transportar-nos ao céu em espírito. [Dizemos mais], ela também nos dá uma força divina, que nos põe em condições de fazê-lo.

Fonte
Tradução de Frei Leopoldo Pires Martins, OFM — Editora Vozes, Petrópolis, 1951. Transcrição revisada a partir do PDF de referência do Serviço de Animação Eucarística Mariana.