Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado
I Importância e significação
1 Importância
Pela declaração de “não conhecer outra coisa senão a Jesus Cristo, e por sinal que Crucificado”, o Apóstolo apregoa a grande necessidade de conhecermos este Artigo, e o zelo que deve ter o pároco em exortar os fiéis a meditarem, o mais possível, a Paixão de Nosso Senhor. O pároco desvelar-se-á em explicar esta verdade com a maior clareza, para que a lembrança de tão insigne benefício comova os fiéis, e os induza a estimar, devidamente, o amor e a bondade de Deus para conosco.
2 Significação deste Artigo
A primeira parte deste Artigo — da segunda se falará mais adiante — nos propõe a crer que Cristo Nosso Senhor foi crucificado, quando Pôncio Pilatos governava, em nome de Tibério César, a província da Judéia. Fora encarcerado, escarnecido, coberto de toda a sorte de opróbrios e tormentos, e finalmente arvorado no madeiro da Cruz.
II Realidade de sofrimento
Ninguém deve supor que a parte inferior de Sua Alma ficasse talvez isenta das torturas. Uma vez que Cristo assumiu, realmente, a natureza humana, força é reconhecer que também na alma sentiu dores fortíssimas. Esta é a razão de ter dito: “Minha alma está triste, a ponto de morrer”. É certo que a natureza humana estava unida à Pessoa Divina, mas nem por isso deixou de sentir menos a amargura da Paixão. Era como se tal união não existisse; na Pessoa única de Cristo se conservavam as propriedades de ambas as naturezas. Por conseguinte, o que era passível e mortal, permaneceu passível e mortal; por sua vez, o que era impassível e imortal — como cremos ser a natureza divina — conservou esta sua propriedade.
III Por que indicada à época da Paixão?
Neste Artigo, notamos uma certa insistência em indicar-se que Jesus Cristo sofreu durante o tempo que Pôncio Pilatos governava a Judéia. O pároco ensinará que assim se fez, porque a notícia de um fato tão importante e tão necessário seria mais acessível para todos, desde que se notificasse a época certa de sua ocorrência. Conforme se lê na Escritura, o Apóstolo São Paulo também a indicou. Outra razão era para que víssemos, por tais indicações, como realmente se cumpriu a predição de Nosso Salvador: “Entregá-l’O-ão aos gentios, para ser escarnecido, flagelado e crucificado”.
IV Escolha do suplício e mistério da Cruz
1 Escolha do suplício
a desígnio de Deus
Devemos também atribuir a um desígnio de Deus que Cristo, para morrer, escolhesse o madeiro da Cruz. Foi “para que dali mesmo [nos] renascesse a vida, por onde [nos] tinha vindo a morte”. Com efeito, a serpente que por uma árvore vencera nossos primeiros pais, foi vencida por Cristo na árvore da Cruz. Poderíamos, ainda, alegar muitas outras razões, que os Santos Padres desenvolveram mais largamente, e por elas demonstrar, quanto convinha que Nosso Redentor sofresse, de preferência, a morte na Cruz.
b o meio mais adequado
O pároco, porém, advertirá os fiéis que lhes basta crer a seguinte razão: Nosso Salvador escolheu tal gênero de morte, porque [Lhe] parecia o mais próprio e conveniente para a redenção do gênero humano. Certamente, não havia outro que fosse mais vergonhoso e humilhante. Não eram os pagãos os únicos a verem no suplício da cruz a maior repulsão, infâmia e vergonha; também a Lei de Moisés chama de “maldito o homem que pende do madeiro”.
2 O mistério da Cruz
a o fato histórico
Não deixe o pároco de narrar o fundo histórico deste Artigo, tão exatamente consignado pelos santos Evangelistas. Fará que os fiéis conheçam, pelo menos, os pontos principais deste Mistério, os que parecem mais necessários para confirmar a verdade de nossa fé. Neste Artigo assentam, como que em sua base, a religião e a fé cristã. Estando bem lançado este fundamento, todas as outras verdades se mantêm firmes e inabaláveis.
b sinal de salvação
Se há o que ofereça dificuldades, ao espírito e ao coração humano, será sem dúvida o mistério da Cruz, que de todos é considerado o mais difícil e impenetrável. Todo esforço é pouco, para chegarmos a compreender que nossa salvação depende da própria Cruz, e d’Aquele que nela foi pregado por nossa causa.
c objeto da Providência
No entanto, o Apóstolo ensina que neste mistério devemos [justamente] admirar a soberana Providência de Deus. Uma vez que “o mundo, com sua sabedoria, não reconheceu a Deus em Sua divina sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação”. Não admira, pois, que os Profetas antes da vinda de Cristo, e os Apóstolos depois de Sua Morte e Ressurreição, tanto fizessem por convencer os homens de que era Ele o Redentor do mundo, e submetê-los ao poder e obediência do Crucificado.
d meios de compreendê-lo
Por não haver nada que tanto se afaste da compreensão humana, como o mistério da Cruz, Deus não cessou, logo depois do pecado, de anunciar a morte de Seu Filho, já por figuras, já pelas predições dos Profetas.
figuras
Vamos falar de algumas figuras. Representavam, antecipadamente, a Paixão e Morte de Cristo Nosso Senhor. Em primeiro lugar, Abel morto pela inveja do irmão; depois a imolação de Isaac; o cordeiro sacrificado pelos judeus, ao saírem do Egito; afinal, a serpente que Moisés alçou no deserto.
profecias
Quanto aos Profetas, é por demais conhecido o número dos que vaticinaram sobre o mesmo assunto. Não se faz mister entrar aqui em pormenores. Sem falar de Davi que, nos Salmos, abrangeu todos os principais mistérios de nossa Redenção, distinguem-se, entre as mais, as predições de Isaías. São tão claras e evidentes que, com razão, se nos afiguram ser antes a narração de fatos consumados, do que uma previsão de coisas futuras.
Morto e sepultado
V Morte de Jesus
1 Realidade
O pároco terá de ensinar que estas palavras nos obrigam a crer que Jesus Cristo, depois de crucificado, morreu realmente, e foi sepultado. Não é sem motivo que aos fiéis se propõe esta verdade, como objeto de fé explícita; pois não faltaram homens que negassem a morte de Cristo no lenho da Cruz. A este erro julgaram os Apóstolos, com toda a razão, que se devia opor aquela doutrina de fé. E não nos é possível duvidar de sua veracidade, porquanto todos os Evangelistas concordam em afirmar que “Jesus entregou o Seu espírito”.
a Cristo podia morrer
Ademais, homem que era perfeito e verdadeiro, Cristo podia também morrer, no sentido próprio da palavra. Ora, o homem morre, quando a alma se aparta do corpo. Portanto, com o dizermos que Jesus morreu, queremos simplesmente declarar que Sua Alma foi separada do Corpo.
b como de fato morreu
Mas, por tal afirmação, não admitimos que do Corpo se tenha separado [também] a Divindade. Muito pelo contrário. Com fé inabalável confessamos que, depois de separada a Alma do Corpo, a Divindade permaneceu sempre unida, não só ao Corpo no sepulcro, como também à Alma nos infernos.
c por que morreu?
Convinha que o Filho de Deus morresse, “a fim de aniquilar aquele que tinha o poder da morte, isto é, o demônio; e libertar aqueles que, pelo temor da morte, passavam toda a vida em escravidão”.
2 Caráter voluntário
a morreu porque quis
O que houve de extraordinário em Cristo Nosso Senhor é ter morrido, quando Ele mesmo decretou morrer; é ter sofrido a morte por um ato de Sua vontade, e não por violência estranha. Foi Ele mesmo que determinou não só a Sua própria morte, mas até o lugar e o tempo em que havia de morrer.
segundo Isaías e suas próprias previsões
Assim, pois, profetizara Isaías: “Foi imolado, porque Ele próprio o quis”. E antes da Paixão, o Senhor mesmo disse de Si próprio: “Eu dou a Minha vida, para que a tome de novo. Ninguém a tira de Mim, mas sou Eu que a dou de Mim mesmo. Tenho o poder de dá-la, e tenho o poder de tomá-la de novo”.
quanto ao tempo e lugar
Quando Herodes espreitava a ocasião de Lhe dar a morte, Cristo mesmo Se declarou a respeito do tempo e lugar: “Ide dizer a essa raposa: Eis que lanço fora os demônios, e faço curas hoje e amanhã, e no terceiro dia morrerei. Mas, hoje e amanhã, e no dia seguinte, devo ainda caminhar, porque não convém que um profeta pereça fora de Jerusalém”.
b não sucumbiu por violência alheia, mas pela força de seu próprio amor
Cristo nada fez, portanto, contra a Sua vontade, ou por imposição alheia. Pelo contrário, foi voluntariamente que Se entregou a Si mesmo. Indo ao encontro de Seus inimigos, disse-lhes: “Sou Eu”. E de livre vontade aturou todos os iníquos e cruéis tormentos, que Lhe foram infligidos.
3 Fruto desta consideração
Quando nos pomos a meditar todas as Suas dores e padecimentos, esta é a circunstância que mais nos deve empolgar o coração. Se alguém tivera sofrido por nós todas as dores, não espontaneamente, mas só por não poder evitá-las, é certo que nessa atitude não veríamos uma mercê de grande valor. Mas, quando alguém sofre a morte só por nossa causa; quando o faz de livre vontade, ainda que lhe seja possível esquivar-se, — então é que nos dá realmente uma prova de extrema bondade. Por mais que desejasse, ninguém teria meios de lho agradecer, e muito menos de lho retribuir condignamente. Por tal critério podemos avaliar o soberano e extremado amor de Jesus Cristo, os direitos divinos e infinitos que adquiriu sobre o nosso coração.
VI Sepultura de Jesus
1 Motivos
Em seguida, confessamos que Cristo foi sepultado. Propõe-se esta parte do Artigo, não porque contenha nova dificuldade, além das que já foram resolvidas acerca de Sua morte. Na verdade, fácil será persuadir-nos de que foi também sepultado.
a provar a morte real
Acrescentou-se esta circunstância, antes de tudo, para que ficasse acima da menor dúvida a realidade de Sua morte. O sinal mais seguro de um trespasse está, pois, em provar-se que o corpo foi sepultado. Esse fato devia também dar maior realce ao milagre da Ressurreição.
b declarar que Deus foi sepultado
Conforme o dogma de fé expresso naquelas palavras, não cremos simplesmente que o Corpo de Cristo teve sepultura; mas confessamos antes de tudo que [o próprio] Deus foi sepultado. De maneira análoga, dizemos em toda a verdade, e conforme a regra de fé católica, que foi Deus quem morreu, e quem nascera de uma Virgem. De fato, assim como a Divindade nunca se apartou do corpo, quando encerrado no sepulcro, assim temos também toda a razão de confessar que Deus foi sepultado.
2 O fato como tal
a glória de incorrupção
Quanto à maneira e ao lugar da sepultura, basta que o pároco se atenha à exposição dos Santos Evangelhos. Dois fatos há, aos quais deve votar particular atenção. O primeiro é que o Corpo de Cristo ficou no sepulcro perfeitamente livre de toda decomposição, conforme havia vaticinado o Profeta: “Não permitires que o Vosso Santo sofra corrupção”.
b em que sentido foi Deus sepultado
O segundo é que todas as partes deste Artigo, a saber, a Sepultura, a Paixão e a Morte, são atribuídas a Cristo Jesus, enquanto Homem, e não enquanto Deus. O sofrer e o morrer são um quinhão exclusivo da natureza humana. Isto não obstante, enunciamos todas estas coisas também com relação a Deus. Como é evidente, podem ser ditas também daquela Pessoa que, ao mesmo tempo, é Deus perfeito e perfeito Homem.
VII Meditação da Paixão
Após a exposição destas verdades, o pároco procurará desenvolver, a propósito da Paixão e Morte de Cristo, algumas reflexões apropriadas, pelas quais os fiéis consigam, senão compreender, ao menos meditar a profundeza de tão grande Mistério.
1 Quem sofre?
Em primeiro lugar, devem considerar quem é Aquele que suporta todos esses sofrimentos. Realmente, não temos palavras para explicar Sua dignidade, nem inteligência capaz de compreendê-la.
a o Herdeiro do Universo
São João diz ser o “Verbo que estava com Deus”. O Apóstolo designa-O, em linguagem sublime, como sendo Aquele “a quem Deus constituiu Herdeiro do Universo, e pelo qual criou também os séculos; o qual é o resplendor de Sua Glória e a imagem de Sua essência; o qual sustenta o Universo com o poder de Sua palavra”. É Aquele que, “depois de dar resgate pelos pecados, está sentado à direita da Majestade nas alturas”.
b o Criador e Sustentador do mundo
Para dizer tudo numa só palavra, quem sofre é Jesus Cristo, Deus e Homem ao mesmo tempo. Sofre o Criador pelas suas criaturas. Sofre o Senhor pelos Seus escravos. Sofre Aquele que criou os Anjos, os homens, os céus e os elementos da natureza. Aquele, afinal, “em quem, por quem, e de quem subsistem todas as coisas”.
Aplicação
Se Cristo se contorcia, aos golpes de tantos tormentos, que muito se abalasse também toda a máquina do mundo, como diz a Escritura: “A terra tremeu, e partiram-se os rochedos”; “toda a terra se cobriu de escuridão, e o sol perdeu sua claridade?”. Ora, se até as criaturas mudas e insensíveis prantearam o sofrimento de Seu Criador, reconheçam os fiéis com que lágrimas devem exprimir a sua própria dor, eles que são “pedras vivas deste edifício”.
2 Por que sofre?
a pelo pecado original
Em seguida, é preciso também explicar os motivos da Paixão, para que melhor apareça a grandeza e intensidade do amor de Deus para conosco. Quem quiser saber por que razão o Filho de Deus Se sujeitou ao mais cruel dos sofrimentos, verá que, além da culpa hereditária de nossos primeiros Pais, a causa principal é os vícios e pecados que os homens cometeram, desde a origem do mundo até a presente data, e os que hão de cometer futuramente, até a consumação dos séculos.
b pelos crimes de todas as gerações
Pela Sua Paixão e Morte, o Filho de Deus e Salvador nosso tinha em mira resgatar e destruir os pecados de todas as gerações, e por eles oferecer ao Eterno Pai uma satisfação completa e exuberante.
3 Quem faz sofrer?
a os pecadores comuns
Sobe de ponto a sublimidade de Sua Paixão, não só porque Cristo sofreu pelos pecadores, mas porque os próprios pecadores foram também autores e instrumentos de todas as penas, pelas quais teve de passar. Lembra-nos o Apóstolo esta circunstância, quando escreve aos Hebreus: “Considerai Àquele que dos pecadores sofreu tanta contradição contra Si mesmo. Assim não desanimareis em vossas fadigas”.
b os consuetudinários
Devem julgar-se responsáveis de tal culpa todos aqueles que continuam a reincidir muitas vezes em pecados. Já que nossos pecados arrastaram Cristo Nosso Senhor ao suplício da Cruz, todos os que chafurdam em vícios e pecados, fazem de sua parte quanto podem, para de novo crucificar “em si mesmos o Filho de Deus, e cobri-l’O de escárnios”.
c os cristãos pecadores
Tal crime assume em nós um caráter mais grave, do que no caso dos judeus; porquanto estes, no sentir do Apóstolo, “nunca teriam crucificado o Senhor da glória, se [como tal] O tivessem conhecido”. Nós, porém, que [de boca] afirmamos conhecê-l’O, nem por isso deixamos, por assim dizer, de levantar as mãos contra Ele, todas as vezes que o negamos em nossas obras.
4 Por quem foi entregue? Pelo Pai e por Si mesmo
Pela doutrina da Sagrada Escritura, Cristo foi entregue não só pelo Pai, mas também por Si mesmo. Deus Pai diz pela boca do profeta Isaías: “Eu O feri, por causa da maldade do Meu povo”. E pouco antes, ao contemplar, por inspiração do Espírito Santo, o Senhor coberto de chagas e feridas, o mesmo Profeta havia declarado: “Todos nós nos desgarramos à maneira de ovelhas. Cada qual se extraviou para seu caminho [errado]. E o Senhor descarregou, sobre Ele, a iniqüidade de todos nós”. Do Filho, porém, está escrito: “Quando tiver sacrificado Sua vida pelo pecado, verá uma longa posteridade”. O Apóstolo confirma esta verdade em termos mais incisivos, ao mesmo tempo em que nos queria mostrar quanto podíamos esperar da imensa misericórdia e bondade de Deus. Diz ele: “Não poupou nem ao Seu próprio Filho, mas entregou-O por todos nós. Como não nos teria dado todas as coisas juntamente com Ele?”.
5 O que sofre?
O prelúdio no Horto
A seguir, o pároco deve explicar como foram cruéis as dores da Paixão. De per si, bastaria levar em conta o suor que, do Corpo do Senhor, “corria até a terra em gotas de sangue”, quando Ele se pôs a considerar os horrorosos tormentos que pouco depois haveria de sofrer. Desse fato, cada um de nós já pode compreender como aquela dor atingia o máximo grau de intensidade. Ora, se refletindo apenas nos males que O ameaçavam, Jesus Se tomou de tanta angústia, como se vê pelo suor de sangue, que não terá sido [para Ele] a Paixão propriamente dita? Não resta a menor dúvida de que Cristo Nosso Senhor realmente curtiu as maiores dores tanto no corpo, como na alma.
a Dores máximas no corpo
Em primeiro lugar, não houve parte do corpo que não sentisse dores extremas. As mãos e os pés, ei-los fixados com pregos no lenho da Cruz; a cabeça, ei-la ponteada de espinhos e ferida com uma cana; o rosto, ei-lo desfeito de escarros e moído de pancadas; o corpo todo, ei-lo enfim derreado de açoites.
quanto aos algozes
De mais a mais, homens de todas as raças e condições “conspiraram contra o Senhor e contra o Seu Ungido”. Eram gentios e judeus os que instigaram, promoveram, e executaram a Paixão de Cristo. Judas traiu-O, Pedro renegou-O, todos os outros Discípulos O abandonaram.
quanto à cruz
Na própria Cruz, que havemos de lamentar mais ao vivo? A crueza das dores, a afronta do pelourinho, ou ambas as coisas ao mesmo tempo? Não se podia realmente inventar outro gênero de morte que superasse a crucificação, quer em ignomínia, quer em crueldade. Era costume infligi-lo aos maiores perversos e criminosos. A lentidão da agonia [na Cruz] tornava mais aguda a sensação das dores e torturas que, de per si, já eram sobremaneira violentas.
quanto à compleição de Seu corpo
O que fazia acrescer ainda o ardor das penas, era a própria compleição do corpo de Jesus Cristo. Formado pela virtude do Espírito Santo, era muito mais perfeito e delicado do que o pode ser jamais o organismo dos outros homens. Tinha, portanto, maior sensibilidade; sofria mais vivamente todas as grandes torturas.
b na alma — o maior martírio
Quanto à dor íntima da alma, ninguém pode contestar que Cristo a sentiu em sumo grau de intensidade. Aos Santos, que padeciam dores e tormentos, Deus nunca lhes recusou consolações espirituais, para que pudessem arrostar inabaláveis a violência do martírio. Muitos houveram, entre eles, que até exultavam de íntima satisfação. De si mesmo dizia o Apóstolo: “Regozijo-me em tudo quanto devo sofrer por vós; e na minha carne completo o que falta aos sofrimentos de Cristo, a bem de Seu corpo que é a Igreja”. E noutro lugar: “Estou cheio de consolação, e transbordo de alegria no meio de todas as nossas tribulações”.
sem a menor consolação
Cristo Nosso Senhor não quis, todavia, temperar com nenhum alívio o cálice que bebeu, no amargo transe da Paixão. Tendo assumido a natureza humana, fê-la sentir todos os tormentos, como se Ele fora puro homem, que não Deus ao mesmo tempo.
VIII Frutos da Paixão
Agora, resta apenas que o pároco exponha cuidadosamente as graças e frutos, que recebemos da Paixão de Nosso Senhor.
1 Livra-nos do pecado
Em primeiro lugar, a Paixão do Senhor livrou-nos do pecado, conforme o declara São João: “Amou-nos, e no Seu Sangue nos lavou de nossos pecados”. E o Apóstolo diz também: “[Deus] vos fez reviver com Ele, perdoou-vos todos os pecados, cancelando e pregando na cruz o título de condenação, que contra nós fora lavrado”.
2 Livra-nos do demônio
Em segundo lugar, livrou-nos da tirania do demônio. O Senhor mesmo disse: “Eis chegado o julgamento do mundo. O príncipe deste mundo será expulso agora. E Eu atrairei tudo a mim, quando for elevado da terra”.
3 Satisfaz pelas penas do pecado
Em terceiro lugar, satisfez a pena devida pelos nossos pecados.
4 Reconcilia-nos com Deus
Em quarto lugar, como não se podia oferecer outro sacrifício mais agradável e mais bem aceito aos olhos de Deus, reconciliou-nos com o Pai, a quem aplacou e tornou propício para conosco.
5 Abre-nos o céu
Finalmente, destruindo o pecado, franqueou-nos a entrada para o céu, à qual punha embargo a culpa comum do gênero humano. É o que o Apóstolo nos dá a entender com as palavras: “Em virtude do Sangue de Cristo, temos a confiança de entrar no Santo dos Santos”. Na Antiga Aliança, não faltava uma figura deste mistério. Assim, por exemplo, aqueles proscritos, aos quais era defeso repatriar-se antes da morte do sumo-sacerdote, eram uma figura dos justos que, apesar de sua justiça e santidade, não podiam transpor o limiar da Pátria Celestial, antes da Morte de Jesus Cristo, o Sumo e Eterno Sacerdote. Logo que Cristo a sofreu, as portas do céu de pronto se abriram a todos os que, purificados pelos Sacramentos, possuídos de fé, esperança e caridade, se tornaram participantes de Sua Paixão.
IX Valor da Paixão
1 Satisfação cabal
O pároco demonstrará que todos estes dons divinos nos advêm da Paixão de Nosso Senhor. Em primeiro lugar, porque Sua Morte é uma satisfação cabal, e em todos os sentidos perfeita, que Jesus Cristo rendeu a Deus Pai pelos nossos pecados, de uma maneira toda particular. O resgate que pagou em nosso lugar, não só igualava com a nossa dívida, mas era-lhe até muito superior.
2 Sacrifício agradável a Deus
Em segundo lugar, por ter sido infinitamente agradável a Deus o sacrifício que o Filho Lhe ofereceu no altar da Cruz, e pelo qual abrandou inteiramente a cólera e indignação do Pai. Esta é a convicção do Apóstolo, quando nos afirma: “Cristo amou-nos, e por nosso amor Se entregou a Si mesmo, como Vítima de suave odor para Deus”.
3 Resgate inigualável
Em terceiro lugar, por ter sido o preço de nossa Redenção, conforme as palavras do Príncipe dos Apóstolos: “Fostes resgatados de vossa vida frívola, que herdastes de vossos pais, não a preço de coisas perecíveis, como o são ouro e prata; mas, pelo precioso Sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito”. E o Apóstolo ensina [por sua vez]: “Cristo nos livrou da maldição da Lei, tornando-Se Ele mesmo maldição por nossa causa”.
4 Exemplo de virtudes
A par destes imensos benefícios, recebemos ainda outro que de todos é talvez o maior. Naquele padecimento se descobrem os mais brilhantes exemplos de todas as virtudes: paciência, humildade, exímia caridade, mansidão, obediência; máxima constância, não só para sofrer dores, mas até para arrostar a própria morte, por amor da justiça. Disso nos faz [Cristo] tal demonstração, que na verdade podemos dizer: Num só dia de sofrimento, Nosso Salvador encarnou em Si mesmo todas as normas de virtude, que de boca nos havia ensinado, durante todo o tempo de Sua pregação.
X Última aplicação
Eis, em poucas palavras, o que importa saber da salutar Paixão e Morte de Cristo Nosso Senhor. Oxalá possamos sempre meditar estes mistérios no fundo do coração, para aprendermos a sofrer, morrer e sepultar-nos com Nosso Senhor. Se nos purificarmos então de toda mancha de pecado, e ressurgirmos com Ele para uma vida nova, seremos um dia, por Sua graça e misericórdia, dignos de ter parte na glória do Reino celestial.