A ressurreição da carne
I Importância do Artigo, segundo as Escrituras
O presente Artigo dá grande firmeza à verdade de nossa fé. A prova principal desta asserção é que as Escrituras não o propõem simplesmente à crença dos fiéis, mas confirmam-no também com vários argumentos. Com raras vezes observamos que tal aconteça nos outros Artigos do Símbolo, podemos inferir que a esperança de nossa salvação se apóia neste Artigo, como que num alicerce inabalável. Com efeito, temos a argumentação do Apóstolo: “Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. Mas, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã é também a vossa fé”. Na exposição deste Artigo, o pároco não deve ter menos zelo e amor [em defendê-lo], do que os ímpios se esforçam em destruí-lo. Mais adiante se verá que do conhecimento deste Artigo resultam grandes e apreciáveis vantagens para a vida espiritual dos cristãos.
II Sentido do termo “carne”
a realça a imortalidade da alma
Inicialmente, é digno de nota que, neste Artigo, a ressurreição dos homens se chama ressurreição da carne. E nisso houve intenção. Era um ponto fundamental que os Apóstolos queriam assim realçar a imortalidade da alma. De muitos lugares da Escritura, consta expressamente que a alma é imortal. Ora, o Artigo só fala de uma ressurreição da carne, para ninguém supor que a alma perece juntamente com o corpo, e que com o corpo há de recuperar nova vida.
b significa o homem todo
Verdade é que, na linguagem da Escritura, a expressão “carne” designa muitas vezes o homem todo, como se lê em Isaías: “Toda a carne é feno”; ou em São João: “E o Verbo Se fez carne”. Mas, neste Artigo, o termo “carne” significa corpo. Dá-nos, pois, a entender que das duas partes, alma e corpo, componentes da natureza humana, apenas uma — isto é, o corpo — se desfaz e torna ao pó da terra, do qual fora formada, enquanto a alma se conserva livre de toda corrupção. Como ninguém pode ressuscitar, sem ter morrido, não é em sentido próprio que se fala de uma ressurreição da alma.
c rebate a heresia de Himeneu e Fileto
Empregou-se o termo “carne” também para rebater a heresia de Himeneu e Fileto, a qual apareceu ainda em vida do Apóstolo. Afirmavam eles que, falando a Escritura de ressurreição, não é para se entender da ressurreição corporal, mas da espiritual que faz ressurgir, da morte do pecado, para a vida da graça e inocência. É pois evidente que o teor do presente Artigo exclui esse erro, e confirma a realidade da ressurreição corporal.
III Provas da Ressurreição
1 Fatos bíblicos e históricos
Será obrigação do pároco esclarecer esta verdade por meio de exemplos, tirados do Antigo e Novo Testamento, e de toda a História Eclesiástica. No Antigo Testamento, houveram ressurreições feitas por Elias e Eliseu. Além dos ressuscitados por Cristo Nosso Senhor, existem ressurreições operadas pelos santos Apóstolos, e por muitos homens de Deus. A ocorrência de tantas ressurreições comprova a doutrina do presente Artigo. Se cremos, pois, que muitos já ressurgiram da morte, devemos também crer que um dia todos os homens hão de ressuscitar. Realmente, como fruto principal de tais ressurreições milagrosas, devemos aceitar, com fé absoluta, a verdade contida no presente Artigo.
2 Testemunhos bíblicos
Os párocos que tenham alguma noção dos Livros Sagrados, encontrarão sem maior esforço ainda outros testemunhos. Do Velho Testamento, são mais notáveis as passagens que se encontram no livro de Jó, quando este declara que em sua própria carne havia de ver a seu Deus; e no Livro de Daniel, onde se fala “dos que dormem no pó da terra: uns acordarão para a vida eterna, e outros para a eterna humilhação”. Do Novo Testamento, existem as passagens de São Mateus, relativas à discussão que Nosso Senhor teve com os saduceus; além disso, tudo quanto os Evangelistas escrevem a respeito do Último Juízo. Entram aqui [também] os trechos das epístolas aos Coríntios e aos Tessalonicenses, em que o Apóstolo discorre sobre o assunto com todo o vagar.
3 Imagens e comparações
Ainda que pela fé temos absoluta certeza da ressurreição dos mortos, todavia será muito útil demonstrar, por exemplos e argumentações, que o Mistério proposto pela fé não repugna aos fenômenos da natureza, nem às leis da inteligência humana. Por isso, como alguém perguntasse de que maneira ressuscitariam os mortos, o Apóstolo respondeu: “Insensato, o que semeias não chega a viver, sem que antes morra. E o que semeias não é o corpo que se há de formar, mas um simples grão, por exemplo, de trigo ou de outro cereal. Deus, porém, é que lhe dá um corpo de Seu agrado”. E mais adiante acrescenta: “Semeado é na corrupção, mas há de ressurgir incorruptível”. A esta comparação, São Gregório mostra que se podem ainda emparelhar muitas outras: “A luz, diz ele, subtrai-se todos os dias à nossa vista, como se morresse; e de novo aparece, como se houvera ressuscitado. A vegetação perde a verdura, e de novo viceja como que por uma ressurreição. As sementes morrem, quando apodrecem; e de novo ressurgem, logo que germinam”.
4 Razões filosóficas
a correlação entre alma e corpo
Os escritores eclesiásticos alegam razões [intrínsecas], que são de boa lei para demonstrar o fato real da ressurreição. Em primeiro lugar, seria contrário à natureza, que as almas ficassem eternamente separadas de seus corpos. Sendo imortais, e fazendo parte da constituição do homem, sentem um pendor natural de se conservarem unidas aos corpos humanos. Ora, um estado que força e contraria a natureza, não pode prolongar-se por muito tempo. Há, pois, toda a congruência em que as almas se unam novamente a seus corpos. Deste arrazoado se conclui que haverá uma ressurreição dos corpos. É o raciocínio de que Se serviu Nosso Redentor, na discussão com os saduceus, quando inferiu, pela imortalidade das almas, que existe uma ressurreição dos corpos.
b postulado da justiça divina
Em segundo lugar, a suprema justiça de Deus estatuiu penas para os maus, e prêmios para os justos. Acontece, porém, que a maior parte dos maus se vai deste mundo, sem ter expiado seus crimes; assim como morrem também muitos justos, sem conseguirem [na terra] nenhum galardão de suas virtudes. É, pois, necessário que as almas tornem a unir-se aos corpos. Tendo servido aos homens, como instrumento de prevaricação, devem os corpos participar dos prêmios e castigos das almas, na proporção dos crimes ou das virtudes, que houverem praticado. Esta idéia foi bem focalizada numa homilia de São João Crisóstomo ao povo de Antioquia.
em consideração ao sofrimento como fenômeno geral
Por isso, discorrendo sobre a ressurreição, o Apóstolo chegou a dizer: “Se esperamos em Cristo só por consideração desta vida [mortal], somos então os mais deploráveis de todos os homens”. Palavras que não são para serem entendidas de alguma miséria da alma; sendo imortal, esta poderia ter a sua bem-aventurança na vida futura, ainda que não houvera ressurreição dos corpos. Aplicam-se, portanto, ao homem todo. Pois, se o corpo não recebesse a paga devida por seus sofrimentos, homens que no mundo sofrem, como sofreram os Apóstolos, tantas angústias e calamidades, seriam forçosamente as mais lastimáveis das criaturas.
em consideração às perseguições dos justos
Em termos muito mais penetrantes, exprime o Apóstolo a mesma verdade, ao escrever aos Tessalonicenses: “Ufanamo-nos, nas igrejas de Deus, de vossa paciência e espírito de fé, em todas as vossas tribulações. Vós as sofreis em prova do justo juízo de Deus, para vos tornardes dignos do Reino de Deus, pelo qual também padeceis. Justo é que Deus [por sua voz] pague com tribulações aos que vos atribulam; e a vós, que sois atribulados, vos dê descanso conosco, quando o Senhor Jesus Se manifestar, vindo do céu com os Anjos, ministros de Seu poder, entre chamas de fogo, para tomar vingança daqueles que não reconhecem a Deus, e dos que não obedecem ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo”.
c postulado da perfeita felicidade
Note-se [em terceiro lugar], que os homens, enquanto a alma estiver separada do corpo, não poderão lograr plena felicidade, acompanhada de todos os bens. Como uma parte separada do todo é imperfeita; assim também o é a alma, enquanto não se une [novamente] ao corpo. Logo, devemos concluir que a ressurreição dos corpos é indispensável, a fim de que a alma de nada tenha falta, para sua completa felicidade. Estas e outras ponderações semelhantes, poderá o pároco fazer, quando expuser aos fiéis a verdade do presente Artigo.
IV Âmbito da Ressurreição
a homens bons e maus
Agora, é preciso explicar, segundo a doutrina do Apóstolo, quais são os que devem ressuscitar. Aos Coríntios escreve: “Assim como todos morreram em Adão, assim todos serão vivificados em Cristo”. Por conseguinte, todos hão de ressurgir dos mortos, sem nenhuma distinção entre bons e maus; mas nem todos terão depois a mesma sorte. “Os que praticaram o bem, ressurgirão para a vida. Os que praticaram o mal, ressurgirão para a condenação”.
b todos os homens de todos os tempos
Dizendo “todos”, incluímos [na conta] não só os que já tiverem morrido, antes de começar o Juízo Universal, mas também todos aqueles que hão de morrer nessa ocasião. Conforme escreve São Jerônimo, a opinião de que todos os homens sem exceção hão de morrer, é perfilhada pela Igreja, e tida como a mais próxima da verdade. Santo Agostinho é do mesmo parecer.
Corolário como morrerão os últimos homens
Não lhe contradizem as palavras do Apóstolo aos Tessalonicenses: “Ressuscitarão primeiro os que morreram em Cristo. Depois, nós os que vivemos, os que ficamos, seremos com eles arrebatados, por sobre as nuvens, para irmos ao encontro de Cristo através dos ares”. No comentário desta passagem, diz Santo Ambrósio: “Nesse arrebatamento sobreviverá a morte. À semelhança de um sono, a alma se desprenderá, [mas] para voltar ao corpo no mesmo instante. Ao serem arrebatados, morrerão. Chegando, porém, diante do Senhor, novamente receberão suas almas, em virtude da [própria] presença do Senhor; porquanto não pode haver mortos na companhia do Senhor”. Esta interpretação tem por si também a autoridade de Santo Agostinho, que a expõe em sua obra “A Cidade de Deus”.
V Efeitos da Ressurreição
1 Ressurge o mesmo corpo
a Doutrina de São Paulo
Muito importa convencer-nos de que há de ressurgir o mesmo corpo que o homem teve neste mundo. Embora já esteja desfeito e reduzido a cinzas, esse corpo será chamado à nova vida. É um ponto que o pároco também deve explicar com atenção. O Apóstolo ensina: “É necessário que este [corpo] corruptível se revista de incorruptibilidade, e que este [corpo] mortal se revista de imortalidade”. Jó também o havia predito com toda a clareza: “Na minha própria carne verei o meu Deus, hei de vê-l’O eu mesmo; meus olhos hão de vê-l’O, eu que não outro”.
b definição de São João Damasceno
Chegamos a estas mesmas conclusões, se definirmos o que vem a ser ressurreição. Diz São João Damasceno que ressurreição é a restauração de um estado, do qual o homem havia decaído. Em conclusão, se considerarmos os motivos, pelos quais se provou a necessidade da ressurreição, já não haverá o que faça os ânimos duvidarem desta verdade.
c razões de equidade
Portanto, os corpos devem ressurgir, como havíamos ensinado, “para que cada um tenha retribuição pelo bem e pelo mal que houver praticado, em sua vida corporal”. O homem deve, pois, ressurgir no mesmo corpo, com que serviu a Deus ou ao demônio, a fim de que no mesmo corpo receba os diademas e louros da vitória, ou sofra então as mais cruciantes penas e suplícios.
2 Ressurge com integridade de membros
a aperfeiçoados
O corpo não ressurgirá simplesmente, mas ser-lhe-á restituído tudo o que pertença à integridade da natureza, as prendas e excelências do homem [como tal]. Santo Agostinho descreve-nos essa transformação de uma maneira interessante: “Nos corpos, diz ele, não restará então nenhuma deformidade. Era alguém muito nutrido e cheio de corpo, não retomará o mesmo volume. O que excede as proporções, é considerado supérfluo. Ao contrário, tudo o que velhice ou doença destruírem no corpo, será refeito pela divina virtude de Cristo. Tal acontece, por exemplo, com quem for de excessiva magreza, porque Cristo não Se limita a ressuscitar o corpo, mas repõe ao mesmo tempo o que [nele] definhou com as privações desta vida”. E noutro lugar diz a mesma coisa: “O homem há de reaver não só os cabelos que tinha [em vida], senão todos os que pertencem ao ornato natural, conforme o dito da Escritura: Estão contados todos os cabelos de vossa cabeça, isto é, os que na ressurreição a Sabedoria Divina houver por bem restituir”.
b restaurados
Antes de tudo, haverá uma restauração simultânea de todos os membros, porque são partes integrantes da natureza humana. Os cegos de nascença, os que perderam a vista por alguma enfermidade, os coxos e manetas, os paralíticos de algum membro, [todos] ressurgirão com um corpo íntegro e perfeito. Em caso contrário, não se satisfaria plenamente a tendência que a alma tem de viver unida ao corpo. Ora, cremos sem a menor dúvida que esta aspiração se tornará realidade, no momento da ressurreição. De mais a mais, é opinião assente que a ressurreição faz parte das grandes obras de Deus, em pé de igualdade com a [própria] Criação. Assim como, desde o início da Criação, Deus faz todas as coisas perfeitas, assim também o fará na ressurreição. É o que devemos crer, com certeza absoluta. Não se deve, tampouco, limitar esta reintegração unicamente aos mártires, dos quais afirma Santo Agostinho: “Não lhes faltarão aqueles membros [amputados]”, pois a mutilação deixaria o corpo disforme. Nesta última hipótese, deveriam os degolados ressurgir sem cabeça. Em seus membros ficarão, todavia, os sinais do cutelo, assim como ficaram as chagas [no Corpo] de Cristo; mas serão mais rutilantes do que toda a casta de ouro e gemas preciosas.
Corolário a reintegração corporal, tormento para os maus
Verdade é que também os maus recuperarão seus membros, ainda que lhes caiba [talvez] a culpa da amputação. Quanto mais completo o número de membros, tanto mais cruéis serão as dores e tormentos que os acabrunham. Portanto, a reintegração dos membros não lhes acarreta felicidade, mas só aflição e desgraça. Os méritos [ou deméritos] das ações humanas não se atribuem aos membros, mas à própria pessoa, de cujo corpo fazem parte. Os membros serão pois restituídos em sinal de recompensa, aos que fizeram penitência; em sinal de tortura, aos que desprezaram a conversão. Aos párocos que maduramente refletirem nestas verdades, sempre acudirão muitos conceitos e exemplos que lhes permitam excitar no coração dos fiéis um ardente desejo de piedade, para que, em face das misérias e aflições desta vida, aguardem ansiosamente aquela venturosa ressurreição que está reservada aos justos e virtuosos.
VI Dons do corpo ressuscitado
Quanto à natureza do corpo ressuscitado, os fiéis deverão saber que se achará em condição muito diversa [do que antes], embora o corpo que deve ressurgir dos mortos, seja o mesmo que sofreu a destruição da morte.
1 Imortalidade para todos
Sem falarmos de outros pontos, nos corpos ressuscitados haverá uma diferença capital, relativamente à sua condição anterior. Se nesta vida estavam sujeitos à lei da morte, hão de receber após a ressurreição o dom de imortalidade, sem que nisso se faça distinção entre bons e maus. Esta admirável reconstituição da natureza humana é um fruto da insigne vitória que Cristo alcançou sobre a morte. Assim no-lo dizem as seguintes passagens da Escritura: “Aniquilará a morte para sempre”. Noutro lugar: “Ó morte, Eu hei de ser a tua morte”. Como explicação desta passagem, diz o Apóstolo: “A morte é o último inimigo que será destruído”. E em São João lemos: “E já não haverá morte”.
como fruto da vitória de Cristo
Convinha, por todas as razões, que os méritos de Cristo Nosso Senhor, pelos quais foi destruído o império da morte, excedessem de muito o pecado de Adão. Era também muito conforme à justiça divina, que os bons desfrutassem uma vida de eterna bem-aventurança; ao passo que os maus, curtindo penas sem fim, “buscassem a morte, sem poder encontrá-la; desejassem morrer, e a morte a fugir deles”. Neste sentido, pois, a imortalidade será comum para os bons e os maus.
2 Imortalidade para os Santos em particular
Além da imortalidade, os corpos dos Santos hão de possuir, na ressurreição, certos adornos extraordinários, que lhes conferirão uma nobreza superior à que jamais tiveram [neste mundo]. Pela doutrina que os Santos Padres deduzem do Apóstolo [São Paulo], são quatro os adornos principais, e chamam-se [dons ou] dotes.
a impassibilidade
O primeiro é a impassibilidade, dom especial, cuja virtude é impedir que os corpos sintam qualquer dor, sofrimento ou incômodo. Aos corpos ressuscitados, não os poderá empecer nem a ação do frio, nem o ardor do fogo, nem a violência das águas. “Semeia-se [o corpo] na corrupção, diz o Apóstolo, e ressurgirá na incorruptibilidade”. Os [teólogos] escolásticos preferiam o termo “impassibilidade” ao de “incorruptibilidade”, para assim exprimir que é um caráter próprio dos corpos gloriosos. A impassibilidade não é comum aos condenados, cujos corpos podem, apesar de imperecíveis, arder de calor, tiritar de frio, e padecer toda a sorte de tormentos.
b claridade
A impassibilidade é acompanhada de claridade, pela qual os corpos dos Santos refulgirão como o sol. Di-lo Nosso Salvador no Evangelho de São Mateus: “Os justos resplandecerão como o sol, no Reino de seu Pai”. E para que ninguém o duvidasse, deu-nos o exemplo de Sua própria Transfiguração. Este dom, o Apóstolo o designa às vezes com o nome de “glória”, outras vezes com o nome de “claridade”. Diz ele: “Reformará o nosso corpo miserável, e torná-lo-á semelhante ao Seu Corpo glorioso”. E mais ainda: “Semeia-se [o corpo] na humilhação, e ressurgirá em estado de glória”. No deserto, viram os Israelitas uma imagem desta glória, quando Moisés, após a conversa com Deus, em Sua presença imediata, lhes apareceu com tanto fulgor no semblante, que o não podiam fitar. Esta claridade é um certo resplendor comunicado ao corpo pela suma bem-aventurança da alma. Vem a ser uma participação da felicidade, de que goza a própria alma; da mesma forma esta se torna feliz, porque nela recai uma parcela de felicidade divina.
em vários graus
Mas não devemos crer que todos sejam dotados da mesma claridade, como o serão da mesma incorruptibilidade. Diz o Apóstolo: “Uma é a claridade do sol, outra a das estrelas. Com efeito, uma estrela difere da outra em claridade. Assim acontecerá na ressurreição dos mortos”.
c agilidade
À claridade se une outro dom, que se chama agilidade. Libertará os corpos da gravidade, que os oprime no estado atual. Poderão os corpos mover-se para qualquer parte que a alma queira, e não há o que se compare à rapidez de tais movimentos. Assim o declaram Santo Agostinho no livro da “Cidade de Deus”, e São Jerônimo nos comentários de Isaías. Assim o explicou [também] o Apóstolo: “Semeia-se [o corpo] na fraqueza, ressurgirá na força”.
d sutileza
A estes acresce ainda o dom de sutileza, pelo qual o corpo ficará inteiramente sujeito ao império da alma, prestando-lhe serviço, e executando suas ordens com prontidão. Ensinam esta verdade as palavras do Apóstolo: “Semeia-se um corpo animal, ressuscitará um corpo espiritual”. Eis os pontos capitais que devem ser dados, na explicação do presente Artigo.
VII Frutos e aplicações
1 gratidão para com Deus
Os fiéis devem saber quais são os frutos, que se podem tirar do conhecimento de tão vários quão sublimes mistérios. Para este efeito, é necessário explicar-lhes que nosso primeiro dever é dar graças a Deus, de todo o coração, “por ter Ele ocultado estes segredos aos sábios, para os revelar aos pequeninos”. Entre os homens que se distinguem pelo saber, bom senso e fina educação, quantos não viveram totalmente cegos à evidência desta verdade! Se Deus, pois, nos revelou Mistérios, cujo conhecimento não ficava ao nosso alcance, sobejos motivos temos nós para exaltar, com eternos louvores, Sua bondade e clemência infinita.
2 Consolo no sofrimento e na morte de entes queridos
Outro fruto importante que se colhe da meditação deste artigo, é que nos dá [maior] facilidade de nos consolarmos, a nós e a outros, por ocasião da morte de pessoas parentas ou amigas. A esta fonte de consolação recorreu o Apóstolo, quando escrevia aos Tessalonicenses a respeito de seus mortos. Mas, em qualquer outra aflição ou calamidade, grande alívio traz às nossas dores, a lembrança da futura ressurreição. Vemo-lo no exemplo do santo Jó que, nas tribulações e tristezas, nutria sua coragem com a única esperança de que, na ressurreição, lhe chegaria o momento de ver o Senhor seu Deus.
3 Pureza de vida
Além de tudo, é uma verdade muito própria para convencer os cristãos da necessidade de levarem uma vida reta, honesta, livre de toda nódoa de pecado. Facilmente se deixarão afervorar na prática da religião e da virtude, se considerarem que lhes estão prometidas as imensas riquezas que acompanham a ressurreição. De outro lado, porém, nada é mais eficaz para reprimir as paixões, e converter os homens de seus pecados, do que a freqüente recordação das penas e suplícios, reservados aos que, no dia final, terão de ressurgir para o juízo de [sua] condenação.