Creio na Santa Igreja Católica
I Importância do Artigo
1 Sua ignorância leva ao erro
Duas considerações nos mostram, principalmente, com quanta atenção devem os pastores explicar aos fiéis as verdades deste nono Artigo. A primeira é a seguinte: Na opinião de Santo Agostinho, os Profetas insistiam mais em falar da Igreja que do [próprio] Cristo. Previam que muito maior podia ser o número de pessoas a errarem e iludirem-se neste ponto, do que a respeito do mistério da Encarnação. Realmente, à guisa do mono que se figura homem, não deixaria de haver, ímpios com a pretensão de que só eles são católicos, e com a maldosa e soberba afirmação de que só entre eles existe a [verdadeira] Igreja Católica.
2 Seu conhecimento preserva da heresia
A segunda consideração é que facilmente escapa ao tremendo perigo de heresia, quem assimila esta verdade, com plena convicção. Com efeito, a pessoa não se torna herege só por pecar contra a fé, mas antes por menosprezar a autoridade da Igreja, e defender obstinadamente suas ímpias afirmações. Por conseguinte, não é possível que alguém contraia a peste da heresia, enquanto aceita o que este Artigo [lhe] propõe a crer. Os pastores devem, pois, empenhar-se por que os fiéis conheçam [a fundo] este Mistério, e possam assim perseverar na verdade da fé, e defender-se contra as astúcias do inimigo.
3 Relação com o Artigo anterior
Entre este Artigo e o anterior existe uma correlação. Já foi demonstrado que o Espírito Santo é fonte e causa de toda santidade. Ora, no Artigo atual, confessamos que do mesmo Espírito Santo se deriva a santidade de que a Igreja foi dotada.
II Designações de “Ecclesia”
1 Designações
a assembléia
Agora é preciso dar a significação do termo “Igreja”. Os latinos tomaram-na dos gregos, e [só] depois da divulgação do Evangelho é que entrou no vocabulário [especificamente] religioso. Igreja quer dizer “convocação”. Mais tarde, porém, os escritores empregavam o termo no sentido de “assembléia” e “comício”. Não vem ao caso distinguir aqui se o povo [reunido] adorava ao Deus verdadeiro, ou se abraçava alguma falsa religião. Com referência ao povo de Éfeso, está escrito nos Atos dos Apóstolos que, depois de apaziguar as turbas, o escriba lhes dissera: “Se tendes mais algum agravo, poderá isto resolver-se em legítima assembléia do povo”. Chama, pois, de “assembléia legítima” ao povo de Éfeso, que se consagrava ao culto de Diana. Dava-se, às vezes, o nome de “assembléia”, não só às nações que não conheciam a Deus, mas até aos ajuntamentos de homens maus e ímpios. “Detesto a assembléia dos maus, diz o Profeta, e com os ímpios não andarei”.
b comunidade Cristã
Depois, pelo uso comum da Sagrada Escritura, passou o termo a designar unicamente a comunidade cristã, as reuniões dos fiéis, isto é, daqueles que pela fé foram “convocados” à luz da verdade e ao conhecimento de Deus, que renunciaram [enfim] às trevas da ignorância e do erro, para adorarem pia e santamente o Deus vivo e verdadeiro, e servi-l’O de todo o coração. Resumindo tudo numa só palavra: “A Igreja, como diz Santo Agostinho, é o povo fiel disseminado pelo mundo inteiro”.
como “convocação”
Não são de pouca monta os mistérios encerrados nesta palavra. Já na idéia de “convocação”, como significado de Igreja, fulgura a bondade e o resplendor da graça divina, e nisso reconhecemos que a Igreja difere, radicalmente, de todas as outras instituições de direito público. Estas se baseiam na razão e prudência humana; aquela, porém, foi organizada pela sabedoria e providência divina. Deus nos “convocou”, interiormente, pela inspiração do Espírito Santo; exteriormente, por obra e empenho dos pastores e pregadores.
para conhecimento e posse das coisas eternas
Para nós, o fim desta “convocação” não pode ser outro senão o conhecimento e a posse das coisas eternas. Disso ficaremos plenamente convencidos, se atendermos ao motivo por que o povo fiel, sujeito à lei de Moisés, tinha outrora o nome de “sinagoga”, isto é, aglomeração. No sentir de Santo Agostinho, foi-lhe dado este nome, porque só se concentravam nos bens terrenos e passageiros, à maneira dos animais, cujo instinto é viver em rebanho. Com muito acerto, o povo cristão não se chama sinagoga, mas “igreja”, porque despreza as coisas terrenas e passageiras, e só procura as celestiais e eternas.
2 Outras designações
a casa de Deus
Há outros nomes ainda, cheios de mistérios, que servem para designar a instituição cristã. O Apóstolo chama-lhe casa e edifício de Deus. “Se eu tardar, escreve a Timóteo, saberás como deves proceder na casa de Deus, pois é a Igreja de Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade”. A Igreja chama-se “casa”, porque constitui por assim dizer uma única família governada por um só pai de família, e na qual existe comunhão de todos os bens espirituais.
b rebanho de Cristo
Chama-se também “rebanho das ovelhas de Cristo”, das quais Ele é “porta e pastor”.
c esposa de Cristo
Dá-se-lhe o nome de “Esposa de Cristo”: “Prometi apresentar-vos, como Virgem pura, ao único Esposo Jesus Cristo”. Assim escreve o Apóstolo aos Coríntios. O mesmo disse aos Efésios: “Maridos, amais vossas esposas, como Cristo amou a Igreja”. A respeito do Matrimônio declarou: “Este Mistério é grande, mas eu o digo em sua relação com Cristo e a Igreja”.
d corpo de Cristo
Afinal, a Igreja é chamada “Corpo de Cristo”, como se pode averiguar nas epístolas aos Efésios e aos Colossenses. Todas estas designações são muito eficazes, para excitar nos fiéis o desejo de se mostrarem dignos da infinita clemência e bondade de Deus, que os escolheu para serem o Seu povo.
III Partes da Igreja
Concluídas estas explicações, será necessário enumerar as partes componentes da Igreja, e mostrar suas diferenças, para que o povo veja melhor a natureza, as propriedades, os dons e as graças desta Igreja tão amada de Deus, e por tal razão não deixe jamais de louvar a santíssima Majestade Divina.
1 Igreja triunfante
Na Igreja, há duas partes principais. Uma se chama triunfante, e outra militante. A Igreja triunfante é a mais luzida e ditosa comunhão dos espíritos bem-aventurados e de todos os [homens], que triunfaram do mundo, da carne, e da malícia do demônio, e que, livres e salvos das provações desta vida, já estão no gozo da eterna felicidade.
2 Igreja militante
A Igreja militante é o conjunto de todos os fiéis que ainda vivem na terra. Chama-se militante, porque move uma guerra sem tréguas aos mais assanhados inimigos: o mundo, a carne e o demônio. Nem por isso se deve crer que haja duas Igrejas. Como dizíamos, são duas partes da mesma Igreja. Uma das quais leva a dianteira, e já está na posse da Pátria Celestial; a outra vai avançando, dia por dia, até que por fim se una a Nosso Senhor, para repousar na eterna bem-aventurança.
a que se compõe de bons e maus
Há, porém, na Igreja militante duas categorias de homens: bons e maus. Certo é que os maus participam, com os bons, dos mesmos Sacramentos, professam a mesma fé, mas não lhes são semelhantes nem na vida, nem nos costumes. Os bons, na Igreja, são aqueles que estão unidos e ligados entre si, não só pela profissão de fé e a participação dos Sacramentos, mas também pelo espírito da graça e pelo elo da caridade. Deles é que se declarou: “O Senhor sabe quem são os Seus”. Nós homens podemos conjeturar, mas nunca saber com certeza, quais são os que pertencem ao número dos justos.
conforme o requer sua própria finalidade
Por isso, não se deve julgar que Cristo Nosso Senhor se referia a esta parte da Igreja, quando nos remeteu à Igreja, e ordenou que lhe obedecêssemos. Pois, não sendo conhecida esta parte [dos justos], quem poderia saber com certeza a que instância apelar, e a que autoridade recorrer?
assim a prevê a Sagrada Escritura
Por conseguinte, a Igreja [como tal] abrange homens bons e maus, conforme o atestam a Sagrada Escritura e as obras de santos varões. Nesse sentido, escreve o Apóstolo: “[Sois] um só corpo e um só espírito”.
como instituto de salvação
Esta Igreja [militante] é fácil de conhecer. Compara-se a uma cidade situada na montanha, e que pode ser vista de todos os lados. É preciso que seja reconhecível, porque todos lhe devem obedecer.
em muitas parábolas e figuras
A Igreja comporta não só os bons, senão também os maus. Assim o demonstra o Evangelho por muitas parábolas, quando diz, por exemplo, que o Reino dos céus, isto é, a Igreja militante, se compara a uma “rede lançada ao mar”; a um “campo semeado em que se espalhou joio”; a uma “eira, na qual o trigo se acha misturado com a palha”; a “dez virgens”, umas loucas, outras prudentes. Muito antes [de tais parábolas], a Arca de Noé, que continha animais puros e impuros, era também uma imagem e semelhança desta Igreja [militante].
b mas que não nivela bons e maus
A fé católica sempre ensinou, expressamente, que à Igreja pertencem bons e maus; não obstante, devemos explicar aos fiéis cristãos, em virtude das mesmas normas de fé, que entre ambas as partes há grande diferença de condição. Os maus assistem na Igreja, à semelhança da palha que na eira se mistura com o trigo, ou como os membros quase mortos, às vezes continuam ligados ao corpo.
Corolário Os que não pertencem à Igreja
Daqui se infere que só três classes de homens são excluídos da comunhão com a Igreja. Em primeiro lugar, os infiéis; em segundo, os hereges e cismáticos; por último, os excomungados. Os pagãos, realmente, porque nunca estiveram no seio da Igreja; não a conheceram, nem se tornaram participantes de nenhum Sacramento, na comunidade do povo cristão. Os hereges e cismáticos, porque apostataram da Igreja. Pertencem tampouco à Igreja, como os desertores fazem parte do exército, que abandonaram. É certo, todavia, que continuam sob o poder [coercitivo] da Igreja, que os pode julgar, punir, e excomungar. Afinal, os excomungados, que são excluídos judicialmente da Igreja, e já não pertencem à sua comunidade, enquanto se não reconsiderarem. Quanto aos demais, não há dúvida que continuam ainda no grêmio da Igreja, apesar de maus e perversos. Sejam os fiéis bem instruídos neste ponto, para que tenham a firme convicção de que os prelados da Igreja continuam no grêmio da mesma, não obstante qualquer deslize moral; e que nem por isso lhes fica diminuída a jurisdição [eclesiástica].
3 Igrejas parciais
a cristandades
Com o nome de “igrejas”, é costume designar-se também as comunidades parciais da Igreja universal. O Apóstolo fala da “igreja” que se acha em Corinto, Galácia, Laodicéia, e Tessalônica.
b famílias cristãs
Chama ele de “igrejas” as famílias particulares de fiéis; envia, pois, saudações à igreja que se acha em casa de Prisca e Áquilas. Noutro lugar escreve: “Muito vos saúdam, em o Senhor, Áquilas e Priscila com a cristandade que assiste em sua casa”. Na epístola a Filêmon emprega a mesma expressão.
c Igreja docente e discente
Muitas vezes, o termo “igreja” indica também seus [próprios] chefes e pastores: “Se não te ouvir, declarou Cristo, dize-o à Igreja”. A expressão refere-se aqui aos chefes eclesiásticos.
Corolário Igreja como edifício
Chama-se também “igreja” o lugar em que o povo se reúne, quer para o sermão, quer para outra função sacra. No Artigo que ora tratamos, por “igreja” se entende principalmente a reunião de bons [fiéis] junto com os maus, a qual abrange não só os chefes, mas também os subordinados.
IV Caracteres da Igreja
1 Unidade intrínseca e extrínseca
Os fiéis devem ainda conhecer as propriedades da Igreja, para [melhor] se compenetrarem do imenso benefício que Deus outorgou a todos os que tiveram a sorte de nascer, e educar-se no grêmio da mesma Igreja. O primeiro caráter que se propõe no Símbolo dos Padres, é a unidade. “Uma só é a minha pomba, diz a Escritura, uma só é a minha formosa”. Essa enorme multidão de homens dispersos em todas as direções é uma e una, em virtude das mesmas razões que São Paulo alegava aos Efésios para provar que há “um só Senhor, uma só fé, um só Batismo”. Nela há também um só que dirige e governa. Invisivelmente, é Cristo a quem o Eterno Pai constituiu “cabeça de toda a Igreja, que é Seu corpo”; visivelmente, porém, é aquele que ocupa a cátedra de Roma, como legítimo sucessor de São Pedro, o Príncipe dos Apóstolos.
a pelo Papado — Testemunho dos Santos Padres
São Jerônimo
Todos os Padres são unânimes em afirmar que era preciso uma cabeça visível, para assentar e manter a unidade da Igreja. Esta necessidade, São Jerônimo a reconhece e defende, de modo formal, em seus arrazoados contra Joviniano: “Um só é eleito, para que a instituição de um chefe remova toda ocasião de cisma”. E ao Papa Dâmaso escreve: “Fuja a inveja, desapareça a pretensão de aspirar [alguém] à suprema dignidade romana. Estou a falar com quem sucedeu ao Pescador, com o Discípulo da Cruz. Nenhum chefe supremo reconheço senão a Cristo; por isso me ponho em comunhão com vossa Santidade, isto é, com a cátedra de Pedro. Sei que sobre esta pedra está edificada a Igreja. Quem comer o Cordeiro fora desta casa, não pertence ao povo eleito. Quem se não recolher na Arca de Noé, há de perecer por ocasião do Dilúvio”.
S. Ireneu, S. Cipriano
Muito antes [de São Jerônimo], a mesma doutrina foi exposta por Santo Ireneu, e [também] por São Cipriano, que nestes termos discorreu sobre a unidade da Igreja: “Diz o Senhor a Pedro: Eu te digo, Pedro, que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Sobre um só é que edifica a Igreja, não obstante haver conferido, após a Ressurreição, o mesmo poder a todos os Apóstolos, com as palavras: Assim como o Pai Me enviou, assim Eu vos envio a vós. Recebei o Espírito Santo. No entanto, para estabelecer claramente uma unidade, quis pelo Seu poder que a mesma unidade se derivasse de um só [chefe], etc.
Optato de Mileve
Optato de Mileve também declara: “A ti não se pode atribuir ignorância, pois sabes que, na cidade de Roma, a cadeira episcopal foi conferida a Pedro em primeiro lugar, e foi Pedro que a ocupou na qualidade de chefe de todos os Apóstolos. E neste [chefe] único deviam todos guardar a unidade, a fim de que os Apóstolos não tivessem pretensões exclusivas a favor de suas próprias cadeiras. Seria, portanto, cismático e insubmisso quem quisesse opor outra cadeira a esta, que é a única”.
S. Basílio Magno
Mais tarde, escrevia São Basílio: “Pedro foi posto como fundamento. Quando dissera: Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo, — ouviu também [a resposta] que ele era a pedra, se bem que não fosse pedra, como o era Cristo. Pois, Cristo é a pedra verdadeiramente inabalável, ao passo que Pedro é pedra [só] em virtude desta pedra. Como Deus, [Cristo] comunica a outros Suas próprias excelências: É sacerdote, e instituiu sacerdotes; é rocha, e faz [que outro seja] rocha; o que Lhe é próprio, dá também a Seus servidores”. Finalmente, diz Santo Ambrósio…
Corolário Jesus Cristo e os chefes visíveis
Se alguém objetar que a Igreja deve contentar-se em ter Jesus Cristo como único chefe e esposo, sem pretender nenhum outro, a resposta não oferece dificuldade. Assim como Cristo Nosso Senhor não é só autor, mas até ministro interior de todos os Sacramentos, pois Ele é quem batiza e absolve, apesar de haver destinado homens para ministros externos dos Sacramentos; — assim também pôs um homem, como ministro e detentor de Seu poder, à testa da Igreja, que Ele mesmo dirige com a assistência interna do Espírito Santo. A Igreja visível precisa de um chefe visível. Por isso é que Nosso Salvador estabeleceu a Pedro como Chefe e Pastor de todo o rebanho dos fiéis, quando em termos graves o incumbia de apascentar as Suas ovelhas; e, por sinal, quis que os sucessores de Pedro tivessem, incontestavelmente, os mesmos poderes para reger e governar toda a Igreja.
b pela ação do Espírito Santo
Além destas razões, é “um só e o mesmo Espírito” que, no dizer do Apóstolo aos Coríntios, confere a graça aos fiéis, assim como a alma dá vida aos membros do corpo. Quando exortou os Efésios a conservarem esta unidade, dizia-lhes: “Sede solícitos em guardar a unidade do espírito, pelo vínculo da paz, porque sois um só corpo e um só espírito”. Assim como o corpo humano consta de muitos membros, e uma só alma os sustenta, dando vista aos olhos, audição aos ouvidos, e aos demais sentidos as faculdades que lhes são próprias: assim também o Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja, se compõe de muitos fiéis.
c pela identidade de vocação, esperança e batismo
No mesmo lugar, atesta o mesmo Apóstolo que “uma só é também a esperança a que fomos chamados”, porquanto todos nós aguardamos o mesmo objetivo, que é a bem-aventurança eterna. Afinal, uma só é a fé que todos devemos seguir e professar. “Não haja divisões entre vós”, admoesta o Apóstolo. E não há senão um só Batismo, que é o selo da vida cristã.
2 Santidade
a porque consagrada a Deus
Santidade é o segundo caráter da Igreja, conforme no-lo ensina o Príncipe dos Apóstolos: “Vós sois agora uma raça eleita, um povo santo”. Ora, dizemos que [a Igreja] é santa, por ser consagrada e dedicada a Deus. Há, pois, o costume de chamar-se santas as coisas, embora materiais, uma vez que sejam destinadas e consagradas ao culto divino, como o eram na Antiga Lei os vasos, as vestiduras, os altares. Os primogênitos que eram consagrados ao Altíssimo, [a Lei] também os considerava santos.
Corolário Os pecadores na Igreja
No entanto, não é de estranhar que a Igreja tenha o nome de santa, sem embargo de haver nela muitos pecadores. Pois são chamados santos os fiéis que se fizeram povo de Deus, e que pela fé e a recepção do Batismo se consagraram a Cristo, embora sejam fracos em muitos pontos, e não cumpram o que prometeram. De modo análogo, os que fazem profissão de uma arte, conservam o nome de artistas, ainda que não sigam os cânones de seu ofício. Assim é que São Paulo chama aos Coríntios de “santos e santificados”. Não obstante, sabemos que, em termos pesados, invectivou alguns deles por causa de seu espírito carnal.
b porque é o corpo místico de Cristo
A Igreja é ainda santa, porque está unida como corpo a uma cabeça santa, a Cristo Nosso Senhor, fonte de toda a santidade, e da qual dimanam os dons do Espírito Santo e as riquezas da bondade divina. Na bela explicação que faz das palavras do Profeta: “Guardai a minha alma, porque sou santo”, diz Santo Agostinho: “Atreva-se também o Corpo de Cristo, atreva-se o último homem [cristão] que clama nos confins da terra, [atreva-se] a dizer em união com a sua Cabeça, e debaixo de sua dependência: Eu sou santo. Pois, de fato, recebeu a graça de santidade, a graça do batismo e da remissão dos pecados”. — E mais adiante prossegue: “Se todos os cristãos e fiéis que se batizaram em Cristo, de Cristo se revestiram, como diz o Apóstolo: Todos vós que fostes batizados em Cristo, fostes revestidos de Cristo; se os que se tornaram membros de Seu Corpo, [ainda] afirmam que não são santos — fazem agravo à própria Cabeça, cujos membros são santos”.
c porque tem os meios de santificação
Uma razão a mais é que só a Igreja possui o culto legítimo do Sacrifício e o uso salutar dos Sacramentos. São estes os meios eficazes, pelos quais Deus opera a verdadeira santidade. Por conseguinte, é impossível haver verdadeiros santos fora desta Igreja. Torna-se pois evidente, que a Igreja é santa, e realmente santa, porque é Corpo de Cristo, sendo por Ele santificada, e purificada pelo Seu Sangue.
3 Catolicidade
a abrange todos os homens e lugares
O terceiro caráter da Igreja, é ser católica, quer dizer, universal. Assenta-lhe bem a designação, porque “os fulgores de uma só fé, como diz Santo Agostinho, se vão dilatando desde o Oriente até ao Ocidente”. [A Igreja] não se circunscreve aos limites de um só país, nem a uma só raça determinada, como acontece nas instituições políticas e nas agremiações heréticas. Abrange, pelo contrário, todos os homens no regaço de seu amor, sejam bárbaros ou citas, livres ou escravos, homens ou mulheres. Por isso está escrito: “De todas as tribos e línguas, povos e nações, Vós nos remistes para Deus em Vosso Sangue, e de nós fizestes um Reino para Deus”. Refere-se à Igreja o que Davi dizia: “Pede-Me, e eu te darei os povos em tua herança, e por domínio a redondeza da terra”. Do mesmo sentido são as passagens: “Lembrar-Me-ei de Raab e Babilônia, que Me são afeiçoadas”. — “Nela nasceu grande multidão de homens”.
b todos os tempos
De mais a mais, enquanto professa a fé verdadeira, todos os crentes que existiram desde Adão até hoje, ou que hão de existir até o fim do mundo, pertencem à mesma Igreja que “foi edificada sobre o fundamento dos Apóstolos e dos Profetas”. Todos foram postos e firmados naquela pedra angular, Cristo, que “congraçou numa só as duas partes”, e “anunciou a paz aos que estavam perto, e aos que estavam longe”.
c porque é necessária para todos
A Igreja chama-se também universal, porquanto os que desejam a salvação eterna, devem todos professá-la, e prestar-lhe obediência, assim como os que deviam entrar na Arca, para não perecerem nas águas do Dilúvio. Por conseguinte, esta é uma nota que devemos apresentar como muito segura, para se distinguir a Igreja verdadeira de [qualquer outra] igreja falsa.
4 Apostolicidade
a no magistério
A verdade da Igreja, também a conhecemos pela sua origem, que a graça da Revelação faz remontar até aos Apóstolos. Com efeito, a doutrina da Igreja não é recente, nem aparece como novidade, mas é a [mesma] que os Apóstolos já pregavam outrora, e que se espalhou como um germe por toda a superfície da terra. Portanto, ninguém pode duvidar que as ímpias opiniões dos hereges ficam muito longe da crença da verdadeira Igreja, por serem contrárias à doutrina que a Igreja sempre ensinou, desde os tempos dos Apóstolos até a presente data. Logo, para que todos pudessem saber qual era a Igreja Católica, foi por inspiração divina que os Padres acrescentaram ao Símbolo a palavra “apostólica”.
b no governo
Em verdade, o Espírito Santo que preside à Igreja, só a governa por ministros que sejam de sucessão apostólica. Este Espírito foi dado primeiro aos Apóstolos, mas depois permaneceu sempre na Igreja, graças à infinita bondade de Deus.
5 Infalibilidade
Constituída sob a direção do Espírito Santo, esta Igreja é a única que não pode errar no ensino da fé e da moral. Todas as outras, porém, que se arrogam o nome de “igrejas”, caem fatalmente nos erros mais perigosos, quanto à fé e aos costumes, porque são guiadas pelo espírito do demônio.
V Figuras da Igreja
Possuindo as figuras do Velho Testamento a grande virtude de comover os corações dos fiéis, e de [lhes] recordar os mais sublimes Mistérios, os Apóstolos as empregavam com particular predileção. Por sua vez, os párocos não deixarão de aproveitar esta parte da doutrina, que é tão rica de úteis aplicações.
1 A Arca de Noé
Ora, entre as figuras, existe uma de grande alcance: a “Arca de Noé”. Foi construída por ordem de Deus, só porque devia inegavelmente representar a própria Igreja. Deus instituiu esta de tal forma, que todos os homens que nela entram pelo Batismo, podem preservar-se de todo perigo da morte eterna. Mas, os que ficam fora dela, perecem afogados em seus próprios crimes, como sucedeu aos que se não abrigaram na Arca.
2 Jerusalém
Outra figura é aquela grandiosa cidade de Jerusalém, cujo nome as Escrituras empregam, não raras vezes, para designar a Santa Igreja. Só naquela [cidade] era lícito oferecer sacrifícios a Deus; assim também só na Igreja, e fora dela em parte alguma, se encontra o verdadeiro culto e o verdadeiro Sacrifício, que pode unicamente agradar a Deus.
VI O mistério da Igreja
1 Aspecto mais negativo
Rematando a instrução sobre a Igreja, os párocos devem explicar sob qual aspecto pertence aos artigos de fé a obrigação de crermos na Igreja. Tanto a razão, como os sentidos nos dão a conhecer que na terra existe uma Igreja, isto é, um conjunto de homens que se uniram e consagraram a Cristo Nosso Senhor. Nem se requer fé [propriamente], para admitirmos sua existência, pois que até judeus e turcos não a contestam. Mas, quanto aos Mistérios que a Igreja de Deus encerra em si mesma, — alguns dos quais já foram explicados, e outros o serão no Sacramento da Ordem — só o espírito iluminado pela fé é que os pode compreender. Nesse ponto, não são convincentes os raciocínios humanos. Logo, o presente Artigo excede, não menos que os demais, o alcance natural de nossa inteligência. Por isso, todos os motivos nos levam a confessar que não é pela força da razão, mas pelas luzes da fé, que se pode conhecer a origem [divina] da Igreja, e de todos os seus dons e ministérios.
2 Aspecto mais positivo
De certo, a Igreja não é obra dos homens. Seu autor é o próprio Deus imortal, que a edificou sobre uma rocha inabalável, como assegura o Profeta: “Ele mesmo, o Altíssimo, deitou os seus fundamentos”. Por isso, a Igreja se chama “herança de Deus” e “povo de Deus”. Humano não é o poder que recebeu, mas foi-lhe outorgado por mercê divina. Tais poderes não resultam de forças naturais; portanto, unicamente pela fé é que chegamos a compreender que na Igreja estão as chaves do Reino dos céus, e que a ela foi dado o poder de remitir pecados, de lançar anátemas, e de consagrar o verdadeiro Corpo de Cristo; afinal, que “os cidadãos que nela habitam, cá em baixo não têm morada permanente, mas aguardam a vindoura”. É, pois, necessário crermos que a Igreja é una, santa e católica.
3 Modo de exprimi-lo
Cremos nas três Pessoas da Santíssima Trindade, de feição que n’Elas assentamos a base de nossa fé. Quanto à Igreja, porém, usamos outra maneira de exprimir nossa fé, pois que professamos crer a santa Igreja, e não na santa [Igreja]. Pela diferença da fórmula, damos a entender a distinção entre Deus Criador e as coisas criadas, e nos admiráveis dons conferidos à Igreja não vemos senão benefícios da bondade divina.
A Comunhão dos Santos
VII A Comunhão dos Santos
1 A Comunhão dos Santos no céu
São João Evangelista, que costumava escrever aos fiéis acerca dos Mistérios Divinos, indicou [certa vez] o motivo por que lhes dava instrução: “Para que também vós tenhais comunhão conosco, e para que a nossa comunhão seja com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo”. Esta comunhão consiste na Comunhão dos Santos, da qual vai tratar o presente Artigo. Prouvera a Deus que, nesta explicação, os reitores das igrejas imitassem o zelo de São Paulo e dos outros Apóstolos. Não é apenas um comentário do Artigo anterior, e uma doutrina abundante de frutos, mas indica-nos também qual é a aplicação, que se deve tirar dos Mistérios contidos no Símbolo dos Apóstolos.
é a mira de todos os mistérios do Símbolo
Pois, se temos de estudar e considerar todos estes Mistérios, não o fazemos senão para sermos [um dia] admitidos à sublime e venturosa Comunhão dos Santos, e para depois perseverarmos nela com toda a fidelidade, “agradecendo jubilosos a Deus Pai, que nos fez dignos de partilhar, na luz, a herança dos Santos”.
e uma ampliação do Artigo anterior
Antes de entrar na matéria, devemos explicar aos fiéis que o Artigo presente é uma ampliação do anterior, que trata da Igreja una, santa e católica. Sendo, pois, um só Espírito que a governa, todas as graças conferidas à Igreja se tornam bem comum de todos. Os frutos de todos os Sacramentos aproveitam a todos os fiéis. Os Sacramentos são uma espécie de vínculos sagrados que os unem e prendem a Cristo; mormente o Batismo que, quase por uma porta, nos faz entrar no grêmio da Igreja.
2 Abrange
a a comunhão dos Sacramentos
Por Comunhão dos Santos devemos [de fato] entender uma comunhão dos [mesmos] Sacramentos. Provam-no os termos em que os Padres se expressaram no Símbolo: “Confesso um só Batismo”. Outro tanto se diga, em primeiro lugar, da Eucaristia; depois, então, dos mais Sacramentos que seguem ao Batismo. De per si, o nome [de comunhão] convém a todos os Sacramentos, porque nos unem a Deus, e nos tornam participantes d’Aquele, cuja graça recebemos. No entanto, é mais próprio da Eucaristia, por ser ela que [de modo particular] opera esta Comunhão.
b a comunhão das boas obras
Devemos ainda considerar que existe outra espécie de comunhão na Igreja. Como não busca seus próprios interesses, a caridade faz com que todas as obras pias e santas praticadas por um dos fiéis sejam também de proveito para todos os mais. Comprova esta verdade um testemunho de Santo Ambrósio. Quando comentava a passagem do Salmo: “Tenho aliança com todos os que Vos temem”; — exprimiu-se nestes termos: “Assim como dizemos que um membro participa [dos bens] de todo o corpo, assim também há uma união entre todos os que temem a Deus”. Por isso é que Cristo nos prescreveu uma fórmula de oração em que devíamos dizer: “O pão nosso”, e não “o pão meu”. Assim também, em outras petições, não devemos pensar em nós exclusivamente, mas atender à salvação e ao bem-estar de todos [os nossos semelhantes].
Corolários
1 Comparação da Escritura
Para dar uma idéia desta comunhão de bens, as Escrituras recorrem muitas vezes a uma comparação muito própria com os membros do corpo humano. Muitos são os membros do corpo. Apesar de serem muitos, formam, todavia um só corpo, no qual cada [membro] tem sua função própria, e todos não exercem a mesma atividade. Todos não possuem igual dignidade, nem desempenham funções de igual serventia e nobreza; porquanto nenhum deve pretender sua própria vantagem, mas [antes] o bem-estar e o proveito de todo o organismo. É tão íntima a conexão e adaptação entre os membros que, se algum deles sofre dor, todos os mais a sofrem também, por uma conseqüência natural do mesmo sangue e do mesmo sentimento; se pelo contrário sentir bem-estar, todos os outros terão a mesma sensação de prazer. Observa-se o mesmo fenômeno na Igreja. Seus membros são diversos, pois [contam] várias nações, Judeus e pagãos [convertidos], homens livres e escravos, pobres e ricos. No entanto, assim que recebem o Batismo, tornam-se um só corpo com Cristo, [corpo] do qual Ele próprio é a cabeça. Nesta comunidade da Igreja, cada membro recebe também um ministério especial. Uns são Apóstolos, outros são doutores, mas todos foram instituídos para o bem da coletividade; da mesma forma, a uns incumbe dirigir e ensinar, a outros obedecer e viver na submissão.
2 Os membros mortos
O gozo desses bens e favores, tão abundantes quão variados, destina-se, todavia, àqueles que levam uma vida cristã na caridade, e que [por isso] são justos e agradáveis a Deus. Os membros mortos, isto é, os homens cobertos de crimes e apartados da graça divina, não perdem propriamente a regalia de serem membros deste corpo; mas, como membros mortos, ficam privados do fruto espiritual que é a partilha dos justos e piedosos. Ainda assim, uma vez que permanecem no grêmio da Igreja, são ajudados por aqueles que vivem espiritualmente, a recuperarem a graça e vida perdida. Deste modo, recebem ainda alguns frutos, que escapam, sem dúvida alguma, aos que se separaram [totalmente] da Igreja.
c a comunhão das graças gratuitas
Além das graças, que tornam os homens justos e agradáveis a Deus, são também comuns a todos as graças gratuitas, entre as quais figuram a ciência, a profecia, o dom de línguas e de milagres, e outras da mesma natureza. Estes dons são concedidos até aos maus, não para sua vantagem pessoal, mas por causa do bem comum, para a edificação da Igreja. O dom de curar, por exemplo, é conferido por atenção ao enfermo, não por causa de quem o possui.
d a comunhão das obras de caridade
O verdadeiro cristão nada tem, afinal, que não deva considerar comum para si e para todos os outros. Por conseguinte, [todos] devem estar prontos e dispostos a mitigar as privações dos indigentes. Se alguém que dispõe de tais bens [materiais], vê seu irmão na penúria e não lhe presta auxílio, dá com isso uma prova cabal de que não tem amor a Deus. Sendo assim, é evidente que já gozam de certa bem-aventurança [todos] aqueles que pertencem a esta santa Comunhão. Na verdade, podem exclamar: “Quão amáveis são os Vossos Tabernáculos, Senhor dos exércitos! Minha alma suspira e desfalece ao contemplar a casa do Senhor”. “Ditosos aqueles que moram em Vossa casa!”.