Artigo do dia · 9 de June

São Jose de Anchieta

São Jose de Anchieta — O Apóstolo do Brasil: zelo de gigante num corpo que mal se sustentava de pé.

Em Reritiba, na costa do Brasil, o nascimento para o céu de São José de Anchieta, presbítero da Companhia de Jesus. Nascido nas Ilhas Canárias e enviado ainda jovem às terras recém-descobertas, gastou mais de quarenta anos entre os povos indígenas: aprendeu-lhes a língua, fundou colégios e povoações e anunciou o Evangelho com tamanho ardor que mereceu ser chamado, por todos, o Apóstolo do Brasil.

Martirológio Romano

Sobre o santo

São José de Anchieta é um dos maiores exemplos de zelo apostólico que a Igreja já viu — aquele fogo de querer que Cristo seja conhecido e amado por quem ainda não O conhece. O que mais nos comove nele é que esse fogo ardia dentro de um corpo doente e curvado, que parecia feito para ficar na cama, e não para atravessar o oceano. Ainda assim, ele se entregou inteiro a um povo que não era o seu, numa terra que não era a sua, por um motivo só: levar almas a Deus. Vamos conhecer um pouco da história desse santo extraordinário e ver como ele viveu esse zelo até as últimas consequências.

História

José de Anchieta nasceu em 19 de março de 1534, em San Cristóbal de La Laguna, na ilha de Tenerife, no arquipélago das Ilhas Canárias. Era filho de um pai basco — João López de Anchieta, devoto fervoroso da Virgem Maria e aparentado de Santo Inácio de Loyola — e de Mência Díaz de Clavijo, de família nobre das Canárias e com sangue de cristãos-novos. Foi batizado poucas semanas depois, em 7 de abril, na Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios. Aos quatorze anos atravessou o mar pela primeira vez, rumo a Coimbra, em Portugal, para estudar no Real Colégio das Artes.

Foi ali que o chamado de Deus se tornou claro. Em 1º de maio de 1551, com dezessete anos, José entrou na Companhia de Jesus como noviço. Era um rapaz de fé intensa e de austeridade tão severa que quase arruinou a própria saúde: uma lesão na coluna o deixou quase corcunda, e a tuberculose óssea que o acompanhava desde jovem só piorava. Foi justamente essa fragilidade que, por um desígnio que só Deus entende, lhe abriu a porta do Brasil — acreditava-se que o clima de lá poderia fazer bem ao seu corpo combalido.

Quando o padre Manuel da Nóbrega pediu mais missionários para a evangelização do Brasil, ainda que fracos de corpo, o nome de Anchieta foi indicado. Em 13 de julho de 1553, com menos de vinte anos, ele aportou em Salvador, na Capitania da Baía de Todos os Santos. Não ficou ali por muito tempo: logo seguiu para o sul e, no início de 1554, estava entre os treze jesuítas que subiram a Serra do Mar até o planalto de Piratininga. Foi lá, em 25 de janeiro de 1554, que se celebrou a primeira missa — e daquele pequeno colégio nasceu a cidade de São Paulo. Anos depois, em 1565, ele estaria também entre os fundadores do Rio de Janeiro.

O que torna Anchieta único é o modo como amou aquele povo. Para anunciar o Evangelho, mergulhou na língua dos índios e tornou-se o primeiro a dar uma gramática ao tupi antigo, com a obra Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil, de 1595. Escreveu poemas e peças de teatro de conteúdo religioso para catequizar — entre elas o célebre Auto de São Lourenço — e por isso é tido como o pai da literatura brasileira e o primeiro poeta, gramático e dramaturgo nascido nas Canárias. Por mais de quarenta anos gastou-se inteiro nessa missão, até ser conhecido por todos como o Apóstolo do Brasil.

São José de Anchieta morreu em Reritiba, na costa do atual Espírito Santo, em 9 de junho de 1597. A memória de sua santidade atravessou os séculos: foi beatificado em 1980 pelo São Papa João Paulo II e canonizado em 3 de abril de 2014 pelo Papa Francisco. No mesmo ano foi declarado padroeiro dos catequistas e, em 2015, co-padroeiro do Brasil pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Por que celebramos hoje

São José de Anchieta é celebrado em 9 de junho porque foi neste dia, em 1597, que ele partiu desta vida em Reritiba — o seu dies natalis, o nascimento para o céu. A Igreja no Brasil o festeja como memória obrigatória, recordando o missionário que entregou a vida inteira a esta terra.

Para nossa vida

Imagino que temos muito a aprender com São José de Anchieta, que é luz para a nossa caminhada. Ele nos mostra que a fraqueza do corpo não é desculpa diante de Deus: se um rapaz doente e curvado pôde atravessar o oceano e gastar a vida inteira por um povo, nós também podemos dar o que temos, mesmo cansados, mesmo limitados. No nosso dia a dia, esse zelo cabe em coisas pequenas — falar de Cristo com paciência aos nossos filhos, aprender a “língua” de quem está ao nosso lado para que o Evangelho chegue ao coração, não desistir de quem ainda não conhece o amor de Deus. Anchieta aprendeu o tupi por amor; nós podemos aprender a escutar, a ter paciência e a rezar por quem nos foi confiado. Que possamos pedir um pouco desse fogo apostólico, para não guardar a fé só para nós. E agradecemos a Deus por nos deixar conhecer a história de santos assim, que nos puxam para frente no caminho da nossa fé.

Ide, pois, e ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ensinando-as a observar todas as coisas que vos tenho mandado, e estai certos de que eu estou convosco todos os dias, até à consumação do século.

Mt 28,19-20 (Figueiredo)

O Lumen Lectio está em desenvolvimento contínuo. Encontrou um erro? Avise-nos em [email protected].