Artigo do dia · 6 de June

Devoção ao Sagrado Coração de Jesus

Devoção ao Sagrado Coração de Jesus — O amor de Deus tem um coração humano — e ele bate por você.

Há uma imagem que já estou acostumado a ver na casa de pessoas de mais idade — veja se por aí aconteceu com você também. É a imagem do coração de Jesus, aberto, envolto em chamas, cingido por uma coroa de espinhos e encimado por uma cruz. À primeira vista parece só um quadro antigo. Mas é, na verdade, o Evangelho inteiro resumido num símbolo: Deus nos amou primeiro, e nos amou com um coração de carne, capaz de ternura, de cansaço e de dor. Em junho, mês que a Igreja há séculos dedica ao Sagrado Coração, somos convidados a olhar de novo para esse amor e a deixá-lo nos alcançar.

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é, antes de tudo, o culto ao amor de Cristo, representado pelo seu coração. Não se trata de venerar um pedaço do corpo isolado, como se fosse um amuleto, e sim de contemplar a Pessoa inteira do Senhor a partir daquilo que o coração sempre significou na linguagem da Bíblia: o centro mais íntimo de cada um, o lugar de onde brotam o amor, as decisões e a entrega. Quando olhamos para o Coração de Jesus, olhamos para o quanto Deus nos ama de verdade.

Essa devoção tem raízes muito antigas — os Padres da Igreja já meditavam sobre o lado aberto de Cristo na cruz —, mas ganhou a forma que conhecemos sobretudo no século XVII. Em Paray-le-Monial, na França, entre 1673 e 1675, Jesus se manifestou a uma humilde religiosa, Santa Margarida Maria Alacoque, mostrando o seu coração e pedindo que esse amor fosse conhecido e correspondido. Seu confessor, o jesuíta São Cláudio La Colombière, ajudou a discernir e a difundir a mensagem. Antes dela, São João Eudes já havia promovido o culto litúrgico ao Coração de Jesus. Com prudência, ao longo do tempo, a Igreja examinou, aprovou e fez sua essa devoção.

Por que isso importa para a nossa vida cristã? Porque o cristianismo não é primeiro uma lista de regras, e sim a resposta a um Amor. O Coração traspassado na cruz, de onde o Evangelho diz que jorraram sangue e água, é o sinal de que Deus se entregou inteiro por nós. Diante de tanto amor, a fé católica nos propõe dois movimentos simples: confiar — abandonar-se nesse Coração que nunca se fecha — e reparar, isto é, responder com fidelidade e ternura à indiferença e ao pecado que tantas vezes ferem esse amor.

A Igreja falou muitas vezes sobre isso. O Catecismo, no número 478, recorda que Jesus nos conheceu e nos amou a cada um durante toda a sua vida e paixão, e que o seu Coração, traspassado pelos nossos pecados e para a nossa salvação, é considerado o sinal e o símbolo por excelência do amor com que o Redentor ama continuamente o Pai e todos os homens. No século XX, o Papa Pio XII dedicou ao tema a encíclica Haurietis Aquas (1956), mostrando que essa devoção não é sentimentalismo passageiro, mas contemplação séria do amor de Deus que se fez homem por nós.

Na prática, a Igreja aprovou caminhos concretos para viver essa devoção. Os mais conhecidos são a comunhão reparadora nas primeiras sextas-feiras do mês, a Hora Santa diante do Santíssimo, a consagração pessoal e a entronização do Coração de Jesus no lar, além da própria Solenidade do Sagrado Coração, celebrada em junho. Vale uma ressalva de bom senso: essas práticas não são fórmulas mágicas nem garantia automática de nada. Elas valem na medida em que nascem de fé viva, conversão e amor — caso contrário, viram superstição, justamente o oposto do que o Coração de Jesus pede.

Junho é, por longa tradição, o mês que a Igreja consagra ao Sagrado Coração de Jesus, e é neste tempo que celebramos a sua solenidade, na sexta-feira que se segue à festa do Corpo de Deus. O tema, porém, está longe de ser apenas um costume antigo: em 2024, o Papa Francisco voltou a colocá-lo no centro da vida da Igreja com a encíclica Dilexit Nos (“Ele nos amou”), lembrando que, num mundo apressado e endurecido, precisamos reencontrar o Coração que ama sem se cansar. Parar hoje para contemplar esse amor não é nostalgia: é voltar à fonte.

E você não precisa de nada complicado para começar. Reserve um instante diante de uma imagem do Sagrado Coração — ou simplesmente feche os olhos — e diga a Jesus, com as suas próprias palavras, que confia nele. Muitos fiéis vivem essa devoção pela comunhão nas primeiras sextas-feiras, por uma visita ao Santíssimo no meio da semana, pela consagração da própria família ao Coração de Jesus dentro de casa. Mas o essencial não está na técnica, e sim no amor: é responder ao amor com amor e oferecer, em reparação, os pequenos gestos de fidelidade do dia. Que tal, ainda hoje, entregar a Ele um cansaço, uma dor ou um perdão difícil? Comece por aí, abrindo o seu coração ao Coração que nunca se fecha para você.

Vinde a mim todos os que andais em trabalho, e vos achais carregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim que sou manso, e humilde de coração: E achareis descanso para as vossas almas.

Mt 11,28-29 (Figueiredo)

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