Artigo do dia · 30 de May
O Tempo Comum no ano litúrgico
Há tempos no calendário da Igreja que brilham forte: o Advento que espera, o Natal que canta, a Quaresma que purifica, a Páscoa que explode em alegria. Mas você já reparou que, somadas, essas grandes festas não chegam à metade do ano? O resto — mais de trinta semanas — é o que a Igreja chama de Tempo Comum, vestido de verde. E talvez seja justamente aí, no comum dos dias, que a nossa fé tenha mais a crescer.
O Tempo Comum — em latim, Tempus per annum, “o tempo ao longo do ano” — é o período do calendário litúrgico que não celebra um mistério específico da vida de Cristo, como faz o Natal com seu nascimento ou a Páscoa com sua ressurreição. Ele se divide em duas etapas: a primeira vai do fim do Tempo do Natal, logo após a festa do Batismo do Senhor, até a véspera da Quarta-feira de Cinzas; a segunda começa depois de Pentecostes e se estende até a chegada do Advento. Ao todo, são trinta e três ou trinta e quatro semanas, conforme o ano.
Sua cor é o verde — a mesma dos campos e das matas, a cor de tudo o que cresce. E não é por acaso. Se nas grandes festas a liturgia se reveste de branco, vermelho ou roxo para anunciar um acontecimento, no Tempo Comum o verde fala de outra coisa: da vida que segue, da seiva que sobe devagar, do amadurecimento paciente. É a cor da esperança que não desiste e do crescimento que ninguém vê acontecer, mas que acontece.
Por que isso importa? Porque a maior parte da nossa vida também é “tempo comum”. Não vivemos de festa em festa, de pico emocional em pico emocional. Vivemos o trabalho de segunda-feira, o trânsito, as contas, a louça, a rotina com a família. A genialidade do ano litúrgico é dizer que esse chão de todo dia não é vazio de Deus — é exatamente o terreno onde a santidade se faz. O Tempo Comum santifica o ordinário e nos lembra que seguir Jesus não é viver de emoções fortes, mas de fidelidade constante.
A Igreja explica que, nesses domingos e dias do ano, ela não recorda um aspecto isolado do mistério de Cristo, mas o próprio mistério de Cristo em sua plenitude. É quando, domingo após domingo, vamos acompanhando o Senhor que ensina, cura, perdoa e chama — percorrendo seu Evangelho aos poucos, como quem caminha ao lado dele pelas estradas da Galileia. O Concílio Vaticano II, ao tratar da sagrada liturgia, lembrou que, ao desdobrar o mistério de Cristo ao longo do ano, a Igreja abre aos fiéis as riquezas das virtudes e dos méritos do seu Senhor, tornando-os de algum modo presentes em todo o tempo.
Na prática, o Tempo Comum tem um ritmo discreto, mas vivo. É o tempo das parábolas do Reino, das bem-aventuranças, dos milagres e dos ensinamentos de Jesus, lidos com calma ao longo das semanas. É também o tempo em que solenidades como a Santíssima Trindade, o Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo e o Sagrado Coração aparecem como clareiras de luz no meio do verde. Não é, portanto, um “tempo de espera” entre coisas importantes: é o próprio tempo de viver, com profundidade, aquilo que celebramos nas festas.
Quem desejar se aprofundar encontra em O Ano Litúrgico, de Dom Prosper Guéranger, um guia clássico que percorre cada tempo da liturgia com beleza e devoção, ajudando a rezar o ano inteiro junto com a Igreja.
Hoje a liturgia se veste de verde. Há poucos dias celebramos Pentecostes, encerrando o tempo pascal, e a Igreja nos reconduz agora ao Tempo Comum — esse caminho longo que nos levará até o próximo Advento. É um sábado sem festa marcada no calendário, uma feria simples, e talvez seja por isso mesmo um bom dia para olhar com carinho o tempo “comum” da nossa própria vida e perguntar: o que Deus quer fazer crescer em mim ao longo destas semanas?
Que tal abraçar o verde deste tempo como um convite pessoal? O amadurecimento na fé raramente nasce de um grande momento; vem de pequenas fidelidades repetidas — a oração da manhã que você não abandona, a missa de domingo, a confissão que não fica para depois, a caridade miúda com quem mora ao seu lado. Escolha uma só coisa para cultivar nestas semanas e seja fiel a ela, sem pressa de ver o fruto. Lembre-se de que a semente cresce no escuro da terra antes de aparecer na luz, e de que Deus trabalha em nós também nos dias em que nada parece acontecer. O Tempo Comum não é tempo perdido: é o tempo em que a graça, silenciosa, vai nos tornando quem fomos chamados a ser. Que neste período o seu coração se deixe arar, plantar e regar — e confie no Lavrador.
E será como a árvore, que está plantada junto à margem dum ribeiro ameno, que a seu tempo dará o seu fruto: E cuja folha não cairá: E todas as coisas que ele fizer, serão prósperas.
Sl 1,3 (Figueiredo)
O Lumen Lectio está em desenvolvimento contínuo. Encontrou um erro? Avise-nos em [email protected].