Exsultet — Pregão Pascal da Vigília da Páscoa
O Exsultet — também chamado Praeconium Paschale ou Pregão Pascal — é a proclamação solene cantada pelo diácono junto ao Círio Pascal aceso, no início da Vigília Pascal, depois da procissão com o Círio (Lumen Christi) e antes da Liturgia da Palavra. É o mais longo e mais solene canto do Missal Romano, e o canto litúrgico mais antigo da Igreja em forma de prefácio. A sua composição é tradicionalmente atribuída a Santo Ambrósio († 397) ou ao bispo Ennodio de Pavia († 521); a sua forma melódica final fixou-se nos sacramentários galicanos e gelasianos dos séculos VII-VIII e passou inalterada para o Missale Romanum de São Pio V (Editio Princeps, 1570), permanecendo substancialmente igual até a edição típica de 1962 e até a renovação do Missal Romano por São Paulo VI (1970, 3.ª ed. típica 2002). O Pregão proclama a alegria pascal de toda a Igreja triunfante, militante e padecente; faz memorial das grandes obras da história da salvação (criação, êxodo, redenção); proclama a noite santíssima em que Cristo ressuscitou (Haec nox est…); canta a Felix culpa de Adão que mereceu tal Redentor; e oferece o Círio Pascal como sinal de Cristo Ressuscitado Lucifer matutinus qui nescit occasum — Estrela da manhã que não conhece ocaso. Apresentamos aqui a forma da Editio typica de São Pio V (1570), conservada substancialmente até hoje, integral em latim, com tradução portuguesa literal própria. Reza-se ou ouve-se na noite da Vigília Pascal, ou em qualquer momento do Tempo Pascal como meditação prolongada da Ressurreição.
Exulte já a multidão dos Anjos no Céu; exultem os divinos mistérios; e por tamanha vitória do nosso Rei, ressoe a trombeta da salvação. Alegre-se também a terra inundada por tantas luzes; e iluminada pelo esplendor do Rei eterno, sinta-se livre das trevas que cobriam toda a terra. Alegre-se também a Mãe Igreja, ornada com os fulgores de tão grande luz; e que este templo ressoe com as grandes vozes dos povos.
(O diácono pede a oração da assembleia:)
Pelo que eu vos peço, ó irmãos caríssimos, que assistis à admirável claridade desta luz santa, que comigo invoqueis a misericórdia de Deus onipotente; para que aquele que se dignou, sem qualquer mérito meu, agregar-me ao número dos seus levitas, infundindo a luz da sua claridade, me conceda dignamente cantar o louvor deste Círio.
(Saudação solene:)
O Senhor esteja convosco. — E com o teu espírito.
Levantemos os corações. — Já os elevamos ao Senhor.
Demos graças ao Senhor nosso Deus. — É digno e justo.
Verdadeiramente é digno e justo proclamar com plena voz da alma e com toda a afeição do coração e do entendimento, e com o serviço de nossa voz, o Deus invisível, Pai onipotente, e Jesus Cristo, seu Filho unigênito, nosso Senhor; o qual pagou por nós ao eterno Pai a dívida de Adão, e com piedoso sangue apagou o registo do antigo delito.
Pois estas são as festas pascais, nas quais é imolado aquele verdadeiro Cordeiro com cujo sangue se consagram as portas dos fiéis. Esta é a noite em que primeiro fizeste nossos pais, os filhos de Israel, libertados do Egito, atravessarem o Mar Vermelho a pé seco.
Esta, pois, é a noite que pela iluminação da coluna purificou as trevas dos pecados. Esta é a noite que hoje, em todo o universo, separa do vício do mundo e das trevas dos pecados, e restitui à graça e une à santidade, os que crêem em Cristo. Esta é a noite em que, destruídos os vínculos da morte, Cristo subiu vitorioso do inferno.
De nada nos aproveitaria ter nascido, se não nos tivesse aproveitado ser redimidos. Ó admirável condescendência de tua piedade para conosco! Ó inestimável dileção da caridade: para resgatares o servo, entregaste o Filho! Ó culpa verdadeiramente necessária de Adão, que foi apagada pela morte de Cristo! Ó feliz culpa, que mereceu ter tão grande e tão santo Redentor!
Ó verdadeiramente bem-aventurada noite, que despojou os egípcios, enriqueceu os hebreus! Noite em que o céu se une à terra, as coisas humanas às divinas.
Por isso, nesta santíssima noite, recebei, ó santo Pai, este sacrifício vespertino de louvor, que a santa Igreja, pelos ministros, com a oferenda solene deste Círio, com mãos solícitas, das obras das abelhas, vos paga.
Mas já conhecemos os pregões desta coluna, que para honra de Deus a rútila chama acende. A qual, ainda que dividida em partes, mas em nada diminuída pelo empréstimo da sua luz. Pois é alimentada com a cera derretida que para a substância desta lâmpada preciosa a mãe abelha produziu.
Ó verdadeiramente bem-aventurada noite, que despojou os egípcios, enriqueceu os hebreus. Noite em que as coisas celestes se unem às terrenas, e as divinas às humanas.
Rogamos-vos, pois, Senhor, que este Círio, consagrado em honra do vosso nome, persevere indefeso para destruir a escuridão desta noite. E, aceito em odor de suavidade, misture-se com as luminárias do céu. Encontre as suas chamas a Estrela da manhã. Aquela, digo, Estrela que não conhece ocaso. Aquela que, voltando do inferno, brilhou serena ao gênero humano.
Rogamos, pois, ó Senhor, que vos digneis conceder os tempos desta paz pascal, com a abundância de vossa gratuita propícia bênção, aos vossos servos e a todo o clero e ao devotíssimo povo; juntamente com o nosso Papa N. e o nosso Bispo N.; e dirigi-nos vós no temor; governando-nos pacificamente.
Olhai também propício para os que sob o vosso jugo se submeteram, e à vossa onipotência confiados, prendam estes dias festivos com tranquilidade segura. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém.
Em latim
Exsultet iam Angelica turba caelorum: exsultent divina mysteria: et pro tanti Regis victoria, tuba insonet salutaris. Gaudeat et tellus tantis irradiata fulgoribus: et aeterni Regis splendore illustrata, totius orbis se sentiat amisisse caliginem. Laetetur et mater Ecclesia, tanti luminis adornata fulgoribus: et magnis populorum vocibus haec aula resultet.
Quapropter astantes vos, fratres carissimi, ad tam miram huius sancti luminis claritatem, una mecum, quaeso, Dei omnipotentis misericordiam invocate. Ut, qui me non meis meritis intra Levitarum numerum dignatus est aggregare: luminis sui claritatem infundens, Cerei huius laudem implere perficiat.
Dominus vobiscum. — Et cum spiritu tuo.
Sursum corda. — Habemus ad Dominum.
Gratias agamus Domino Deo nostro. — Dignum et iustum est.
Vere dignum et iustum est, invisibilem Deum Patrem omnipotentem, Filiumque eius unigenitum, Dominum nostrum Iesum Christum, toto cordis ac mentis affectu, et vocis ministerio personare. Qui pro nobis aeterno Patri Adae debitum solvit, et veteris piaculi cautionem pio cruore detersit.
Haec sunt enim festa paschalia, in quibus verus ille Agnus occiditur, cuius sanguine postes fidelium consecrantur. Haec nox est, in qua primum patres nostros filios Israel eductos de Aegypto, Mare Rubrum sicco vestigio transire fecisti.
Haec igitur nox est, quae peccatorum tenebras columnae illuminatione purgavit. Haec nox est, quae hodie per universum mundum in Christo credentes, a vitiis saeculi et caligine peccatorum segregatos, reddit gratiae, sociat sanctitati. Haec nox est, in qua, destructis vinculis mortis, Christus ab inferis victor ascendit.
Nihil enim nobis nasci profuit, nisi redimi profuisset. O mira circa nos tuae pietatis dignatio! O inaestimabilis dilectio caritatis: ut servum redimeres, Filium tradidisti! O certe necessarium Adae peccatum, quod Christi morte deletum est! O felix culpa, quae talem ac tantum meruit habere Redemptorem!
O vere beata nox, quae expoliavit Aegyptios, ditavit Hebraeos! Nox, in qua terrenis caelestia, humanis divina iunguntur.
In huius igitur noctis gratia, suscipe, sancte Pater, laudis huius sacrificium vespertinum, quod tibi in hac Cerei oblatione solemni, per ministrorum manus de operibus apum, sacrosancta reddit Ecclesia.
Sed iam columnae huius praeconia novimus, quam in honorem Dei rutilans ignis accendit. Qui, licet sit divisus in partes, mutuati tamen luminis detrimenta non novit. Alitur enim liquantibus ceris, quas in substantiam pretiosae huius lampadis apis mater eduxit.
O vere beata nox, quae expoliavit Aegyptios, ditavit Hebraeos. Nox, in qua terrenis caelestia, humanis divina iunguntur.
Oramus ergo te, Domine: ut cereus iste in honorem tui nominis consecratus, ad noctis huius caliginem destruendam, indeficiens perseveret. Et in odorem suavitatis acceptus, supernis luminaribus misceatur. Flammas eius lucifer matutinus inveniat. Ille, inquam, lucifer, qui nescit occasum. Ille, qui regressus ab inferis, humano generi serenus illuxit.
Precamur ergo te, Domine: ut nos famulos tuos, omnemque clerum, et devotissimum populum: una cum beatissimo Papa nostro N., et Antistite nostro N., quiete temporum concessa, in his paschalibus gaudiis, assidua protectione regere, gubernare, et conservare digneris.
Respice etiam ad eos, qui nos in potestate regunt: et, ineffabili pietatis et misericordiae tuae munere, dirige cogitationes eorum ad iustitiam et pacem, ut de terrena operositate ad caelestem patriam perveniant cum omni populo tuo. Per eumdem Dominum nostrum Iesum Christum Filium tuum: Qui tecum vivit et regnat in unitate Spiritus Sancti Deus: per omnia saecula saeculorum. Amen.