Oração dos esposos pelo dom dos filhos — Sara, Ana, Santa Isabel
A fecundidade é, conforme a doutrina constante da Igreja, um dos três bens essenciais do matrimônio cristão — bonum prolis — junto com a fidelidade (bonum fidei) e a indissolubilidade (bonum sacramenti), conforme a tríplice formulação de Sto Agostinho († 430) em De bono coniugali e De Genesi ad litteram (séc. V, DP total), retomada por Pio XI em Casti Connubii (31.12.1930) e desenvolvida em Familiaris Consortio nn. 28-35 (JPII, 22.11.1981) e em Donum Vitae da CDF (22.02.1987) e Dignitas Personae (8.09.2008). Esta oração é dedicada aos esposos que aguardam o dom dos filhos — sobretudo aqueles que enfrentam o sofrimento da espera prolongada ou da esterilidade aparente. A Escritura traz três grandes ícones de esposos que receberam o dom dos filhos depois de longa espera: Sara, esposa de Abraão (Gn 11,30; 17,15-19; 18,9-15; 21,1-7), que riu da promessa e gerou Isaac aos noventa anos; Ana, esposa de Elcana (1Sm 1,1-2,11), que rezou em Silo até derramar lágrimas e foi acolhida pelo Senhor para gerar Samuel; e Santa Isabel, esposa de Zacarias (Lc 1,5-25.39-80), que recebeu João Batista no seu ventre na velhice, segundo a promessa do anjo Gabriel. Acima de todos, os Santos Joaquim e Ana, pais da Bem-aventurada Virgem Maria — patronos universais dos esposos que aguardam filhos —, segundo a antiga tradição transmitida pelo Protoevangelium Iacobi (séc. II) e pela Legenda Aurea de Bem-aventurado Jacopo de Varazze († 1298), com festa universal estendida a toda a Igreja por São Pio X em 1913 (26 de julho no Calendário Romano Geral). Não é oração contra a vontade de Deus, mas confiada submissão ao seu plano — pedindo o dom dos filhos sempre na condição «se for da vossa vontade», e aceitando o silêncio da fertilidade como possível caminho de santificação conforme outra vocação.
(Os esposos rezam juntos, idealmente diante de uma imagem da Sagrada Família ou dos Sts Joaquim e Ana:)
Deus eterno e onipotente, Criador do céu e da terra, Senhor e doador da vida humana — Vós que do nada formastes Adão e Eva e os abençoastes dizendo «Crescei e multiplicai-vos, enchei a terra e dominai-a» (Gn 1,28); Vós que disto bendissestes a aliança matrimonial — nós Vos suplicamos com humildade pela graça da fecundidade conjugal.
Conhecemos pela Vossa Palavra que houve esposos santos a quem fizestes esperar muito tempo o dom dos filhos:
- Sara e Abraão — que aguardaram até os noventa anos a promessa de Isaac;
- Ana e Elcana — que receberam Samuel depois das lágrimas de Silo;
- Santa Isabel e Zacarias — que geraram João Batista na velhice;
- Santos Joaquim e Ana — que esperaram até à velhice a maternidade da bendita Virgem Maria.
Conhecemos também a Vossa promessa em Sl 126,3-5 Vulgata: «Eis aqui que a herança do Senhor são os filhos, a recompensa é o fruto do ventre. Como flechas na mão de um forte assim são os filhos dos que foram afligidos. Bem-aventurado o homem que enche delas o seu desejo.»
Por estes Santos esposos e por esta promessa, nós Vos pedimos:
- Concedei ao nosso matrimônio o dom dos filhos — quantos Vós quiserdes confiar-nos, no tempo que Vós soubeis melhor;
- Concedei-nos uma fé profunda que não se abale com a espera, mas saiba como Sara, Ana e Isabel manter-se em oração confiante;
- Concedei-nos a humildade de aceitar o Vosso silêncio se for esta a Vossa vontade — entendendo que a vocação cristã ao matrimônio não exige biologicamente a paternidade física, mas pode chamar à fecundidade espiritual, ao acolhimento de filhos por adoção, à dedicação aos filhos dos outros (afilhados, sobrinhos, pobres da paróquia, missão);
- Livrai-nos da tentação contra a fé que poderia surgir do sofrimento — não permitais que recorramos a meios contrários à doutrina da Igreja sobre a transmissão da vida (cf. Donum Vitae);
- Se for da Vossa vontade dar-nos filhos, dai-nos a graça de educá-los cristãmente desde o primeiro instante da concepção — para que cresçam em sabedoria, idade e graça diante de Vós e dos homens (Lc 2,52); se for da Vossa vontade outro caminho, dai-nos a graça de o reconhecer com paz e abraçar com esperança.
Santos Joaquim e Ana, pais da Mãe de Deus, modelos universais de esposos que esperaram em Deus o dom da maternidade; intercedei por nós, para que recebamos da mão do Pai o que Ele tem preparado para o nosso bem e para o bem da Igreja. Amém.
Bem-aventurados são todos os que temem ao Senhor, e que andam pelos seus caminhos. Tu comerás dos trabalhos das tuas mãos; bem-aventurado és tu, e bem-aventurado te será. Tua esposa será como uma videira fértil, ao lado interior da tua casa; teus filhos como rebentos de oliveira em redor da tua mesa. Eis assim que será abençoado o homem que teme ao Senhor. (Sl 127,1-4 Vulgata)