Orações · Mistérios da Fé

Mistério da Encarnação — Et Verbum caro factum est

A Encarnação do Filho de Deus é o mistério central da fé cristã: o eterno Filho do Pai, consubstancial ao Pai segundo a divindade, assumiu por obra do Espírito Santo no seio da Virgem Maria a natureza humana íntegra — corpo e alma racional — sem deixar de ser Deus. Duas naturezas, divina e humana, subsistem numa só Pessoa divina do Verbo eterno. Esta verdade foi definida solenemente pelo Concílio de Éfeso (431) contra Nestório, ao proclamar a Bem-aventurada Virgem Maria Theotókos — Mãe de Deus — porque o que ela gerou segundo a carne é uma só Pessoa divina; e pelo Concílio de Calcedônia (451) contra Eutiques, na fórmula clássica das quatro negações: as duas naturezas estão unidas sem confusão, sem mistura, sem divisão, sem separação. Esta união chama-se união hipostática — união na Pessoa do Verbo. Da Encarnação procedem três consequências admiráveis que S. Leão Magno († 461) condensou no célebre admirabile commercium (admirável troca): Deus assumiu a humanidade para que o homem fosse divinizado pela graça; o Filho eterno nasceu no tempo para que os filhos dos homens nascessem para a eternidade; Aquele que veio em forma de servo deu poder de chegar à filiação adotiva (cf. Jo 1,12). Esta oração medita o mistério a partir do versículo culminante do Prólogo joanino (Jo 1,14), apresentado trilíngue PT+LA+EN, com a antífona O admirabile commercium das primeiras Vésperas da Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus (1º de janeiro) no Antifonário Romano tradicional.

Et Verbum caro factum est, et habitavit in nobis — e o Verbo se fez carne, e habitou entre nós; e vimos a sua glória, glória como do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade (Jo 1,14).

Ó eterno Filho do Pai, Verbo pelo qual todas as coisas foram feitas, Vós quisestes nascer no tempo, da Virgem Maria, por obra do Espírito Santo — Vós que sois consubstancial ao Pai antes de todos os séculos. Adoro-Vos como verdadeiro Deus, gerado e não criado, da mesma substância do Pai; e adoro-Vos como verdadeiro homem, assumido da carne da Virgem, semelhante a nós em tudo menos no pecado.

Acreditando com Calcedônia que numa só Pessoa divina subsistem inseparavelmente as duas naturezas — sem confusão, sem mistura, sem divisão, sem separação —, professo com Éfeso que Maria Vossa Mãe é verdadeiramente Mãe de Deus, porque o filho que ela gerou é o Filho eterno do Pai feito homem.

Concedei-me, ó Verbo encarnado, três graças que da Vossa Encarnação procedem:

  • a graça do admirabile commercium — que Vós assumistes a minha humanidade para divinizar a minha alma pela graça; sustentai em mim a vida divina recebida no Batismo;
  • a graça da filiação adotiva — que pela Vossa nascimento eterno do Pai vós me dais o poder de tornar-me filho de Deus pela fé no Vosso nome (Jo 1,12); ensinai-me a viver como filho de tal Pai;
  • a graça do seguimento até à Cruz — que pelo Vosso esvaziamento (Fl 2,7) Vós me mostrastes o caminho da descida que conduz à exaltação; concedei-me a humildade e a obediência que me façam um só Cristo Convosco.

Vós que do Pai descestes ao seio da Virgem para nos tirar da escravidão do pecado, sois bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

Antífona das Primeiras Vésperas de Sta Maria Mãe de Deus (1.º janeiro), Antifonário Romano:

Ó admirável troca: o Criador do gênero humano, assumindo um corpo animado, dignou-se nascer da Virgem; e procedendo homem sem semente, comunicou-nos a sua divindade.

Em latim

Et Verbum caro factum est, et habitavit in nobis; et vidimus gloriam eius, gloriam quasi Unigeniti a Patre, plenum gratiae et veritatis. (Io 1,14) — O admirabile commercium: Creator generis humani, animatum corpus sumens, de Virgine nasci dignatus est; et procedens homo sine semine, largitus est nobis suam deitatem.

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