Lectio Divina — método dos quatro passos
A Lectio Divina — em latim, leitura divina — é o método antiquíssimo da Igreja para a oração com a Sagrada Escritura. Praticada pelos monges desde os primeiros séculos, foi sistematizada no séc. XII por Guigo II, IX Prior da Grande Cartuxa († 1188), no breve tratado Scala Claustralium (também chamado Scala Paradisi) — totalmente em domínio público. Guigo II identifica quatro degraus para subir do texto bíblico até a contemplação de Deus, comparando-os à escada de Jacó: Lectio (leitura), Meditatio (meditação), Oratio (oração), Contemplatio (contemplação). Bento XVI, na exortação Verbum Domini (2010) n. 86-87, recomendou solenemente a prática para todos os fiéis. Este método pode acompanhar a leitura do Evangelho do dia, dos Salmos, da Liturgia das Horas, ou de qualquer trecho bíblico escolhido.
Preparação. Recolha-se em silêncio. Faça o Sinal da Cruz. Invoque o Espírito Santo, por exemplo: «Vinde, Espírito Santo, abri-me a Escritura como abristes aos discípulos de Emaús». Abra a Bíblia no trecho escolhido (geralmente curto — uma perícope evangélica, dez versículos de um Salmo).
1. Lectio (Leitura). Leia o trecho com calma, em voz baixa ou em silêncio. Pergunta-se: «Que diz o texto em si mesmo?». Releia uma segunda vez, prestando atenção a uma palavra ou frase que toque o coração — sem buscar; deixe que ela se imponha. Guigo II compara à «mastigação do pão»: ainda não é alimento, mas é o início.
2. Meditatio (Meditação). Sobre a palavra ou frase que tocou o coração, demore-se com a inteligência. Pergunta-se: «Que me diz o texto?». Examine-a à luz da fé e da vida. Compare com outros lugares da Escritura que vêm à mente. Confronte com a doutrina da Igreja. Guigo II compara à «mastigação que extrai o sabor».
3. Oratio (Oração). Agora fale com Deus sobre o que a leitura e a meditação despertaram. Pergunta-se: «Que digo eu a Deus a partir do texto?». Pode ser louvor, ação de graças, pedido, arrependimento, desejo. Guigo II compara à «deglutição que faz descer o alimento».
4. Contemplatio (Contemplação). No fim, calar e permanecer em silêncio diante de Deus. Pergunta-se: «Que faz Deus em mim?». Não pensar mais, não pedir mais — apenas ser amado. Guigo II compara à «saciedade do alimento». Este passo não depende de mim: pode acontecer ou não. Quando acontecer, prolongá-lo. Quando não, retornar ao texto.
Conclusão. Termine com um Pai-Nosso. Faça o Sinal da Cruz. Anote eventualmente, em um caderno, a palavra que ficou.
Senhor Jesus Cristo, Verbo eterno do Pai, ensinai-me a vossa Escritura como ensinastes aos dois discípulos no caminho de Emaús, fazendo arder os seus corações enquanto lhes «abristes o sentido das Escrituras» (cf. Lc 24,32.45). Amém.