Sexta-feira Santa — Oração na Adoração da Cruz
A Sexta-feira Santa é o segundo dia do Tríduo Pascal (Quinta-feira Santa à noite, Sexta-feira Santa, Sábado Santo, Domingo de Páscoa), o mais sagrado dos tempos litúrgicos católicos. É o único dia do ano em que não se celebra a Missa em toda a Igreja: em seu lugar, é celebrada a Ação Litúrgica da Paixão da tarde, composta de três partes — Liturgia da Palavra (com a Paixão segundo João), Adoração Solene da Cruz, e Comunhão com hóstias consagradas na Missa in Cena Domini da Quinta-feira. Durante a Adoração da Cruz, o sacerdote desvenda o Crucifixo em três etapas, cantando três vezes «Ecce lignum Crucis, in quo salus mundi pependit. Venite, adoremus» — «Eis o lenho da Cruz no qual pendeu a salvação do mundo. Vinde, adoremos»; e os fiéis aproximam-se um a um para beijar a Cruz. O Missal Romano prescreve neste momento o canto dos Improperia ou Repreensões — diálogo antigo de origem grega traduzido por São Gregório Magno († 604) — em que o Crucificado fala ao seu povo. Esta oração acompanha o beijo da Cruz na tarde da Sexta-feira Santa, ou diante de um Crucifixo doméstico em casa.
(Diante do Crucifixo desvendado:)
Ecce lignum Crucis, in quo salus mundi pependit. Venite, adoremus.
Eis o lenho da Cruz no qual pendeu a salvação do mundo. Vinde, adoremos.
(Aproxime-se e beije os pés do Crucifixo. Permaneça em silêncio um momento.)
Adoro-Vos, Cristo, e Vos bendigo, porque pela vossa santa Cruz remistes o mundo. Eis-me, Senhor crucificado: o coração calado diante de um amor que não compreendo, mas que recebo agora gota a gota no vosso Sangue que escorreu pelo lenho até esta terra.
Ó meu Salvador, sofrestes tudo isto não como pagamento exato e frio — Vós que não nos deveis nada — mas como excesso do vosso amor. Cada gota que ali escorre é minha; cada espinho é meu; cada chaga é minha; a sede do Calvário foi sede dos meus pecados.
«Povo meu, que te fiz? Em que te entristeci? Responde-me!», cantais Vós neste dia pela voz da Igreja na antiga repreensão de São Gregório. Respondo-Vos com humilhação: fizestes-me filho de Deus, e eu Vos correspondi com meus pecados. Conduzistes-me pelo deserto da vida com o maná dos sacramentos, e eu Vos esqueci nas mesas vazias do mundo.
Hoje, Sexta-feira Santa, prostro-me diante do vosso Madeiro e Vos peço a graça suprema: que a vossa Paixão não seja em mim oferecida em vão. Que eu saiba, daqui em diante, viver à sombra desta Cruz, abraçando-a como Vós a abraçastes — não como castigo, mas como abraço do Pai.
Por vossa Mãe Maria, de pé ao lado deste Madeiro, e por São João o Discípulo Amado, que esteve até o fim: dai-me a fidelidade do amor que não foge.
Amém.