Artigo do dia · 15 de May

O sentido do jejum e da abstinência na Igreja

O sentido do jejum e da abstinência na Igreja

Tem palavra que, só de ouvir, já dá certo desconforto. Jejum é uma delas. Soa antigo, soa pesado, soa coisa de quem quer sofrer à toa. Mas o jejum cristão é exatamente o contrário disso: não é castigo, é abertura. É a gente dizer ao próprio corpo que o estômago não manda em tudo — e abrir espaço pra Deus mandar no que importa.

No fundo, jejum é abrir mão de comida — total ou em parte — por motivo espiritual; abstinência é deixar de comer carne em determinados dias. São duas práticas distintas que a Igreja costuma combinar nas datas mais fortes do calendário. Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa pedem as duas coisas: comer pouco e não comer carne. Todas as sextas-feiras do ano, em princípio, são dias de penitência, com abstinência de carne. No Brasil, a CNBB permite substituir essa abstinência (fora da Quaresma) por outro gesto concreto de caridade ou piedade.

A raiz da prática é mais antiga que o próprio cristianismo. Moisés jejuou quarenta dias no Sinai antes de receber a Lei. Elias jejuou quarenta dias a caminho do Horeb. Davi jejuou enquanto suplicava por um filho doente. Nínive inteira jejuou diante da pregação de Jonas e foi poupada. E o próprio Jesus começa seu ministério com quarenta dias de jejum no deserto — e responde ao tentador citando o Deuteronômio: nem só de pão vive o homem.

O ensinamento da Igreja sobre jejum se apoia em duas convicções fortes. A primeira: somos corpo e alma, não só alma. O que fazemos com o corpo educa a alma. Quando eu seguro a fome por amor a Cristo, estou ensinando o desejo a obedecer — e desejo desordenado é justamente a raiz do pecado. A segunda: o jejum nunca é fim em si mesmo, é meio. Sozinho, vira dieta espiritual ou orgulho disfarçado. Acompanhado de oração e esmola, vira aquele tripé clássico da conversão que os Padres da Igreja não cansaram de repetir.

A disciplina atual foi reformada por Paulo VI depois do Concílio, dando mais flexibilidade aos bispos locais. O Código de Direito Canônico determina quem está obrigado: a abstinência vale a partir dos quatorze anos, e o jejum dos dezoito aos cinquenta e nove. Doentes, grávidas, lactantes e quem trabalha pesado têm dispensa natural. Mas flexibilidade não é esvaziamento — só reconhece que a penitência precisa tomar formas diferentes em vidas diferentes.

O Catecismo coloca o jejum entre os meios de conversão e de preparação para as festas litúrgicas. Não é o coração da fé, mas é uma das mãos que a sustentam. Os Padres da Igreja, de Agostinho a João Crisóstomo, falavam do jejum como remédio que purifica a mente, ordena os sentidos e submete o corpo ao espírito. Linguagem antiga, conteúdo radicalmente atual: num mundo que vive em estado de saciedade — comida, telas, estímulos o tempo todo —, recuperar a fome de Deus passa, antes de tudo, por experimentar uma fome qualquer.

Estamos no Tempo Pascal, e a tradição cristã não jejua no clima da Ressurreição — afinal, como o próprio Jesus disse, ninguém jejua enquanto o noivo está presente. Mas justamente por isso vale meditar no tema fora da pressa da Quaresma. A penitência da sexta-feira continua firme o ano inteiro; e entender o sentido do jejum quando ele não está sendo cobrado é o melhor jeito de, no momento certo, não fazê-lo por obrigação cansada, e sim por amor.

Comece pelo que está ao alcance. Na próxima sexta-feira, deixe a carne de lado — sem teatro, sem reclamar pra família, sem pirotecnia. Se isso for fácil demais, escolha outro gesto pequeno: pular o lanche da tarde, sair da rede social por um dia, dispensar o açúcar no café. O ponto não é a quantidade de privação, é o motivo: ofereça aquela pequena fome por uma intenção concreta — alguém doente, uma conversão difícil, sua própria vontade que anda dura. Reze enquanto sente. E quando o estômago reclamar, lembre que o desejo está sendo educado pra coisa maior. O jejum sozinho não salva ninguém; mas, casado com oração e caridade, abre dentro de nós um espaço que estava ocupado — e é nesse espaço que Deus costuma entrar.

E quando jejuais, não vos ponhais tristes como os hipócritas, porque eles desfiguram os seus rostos, para fazer ver aos homens que jejuam. Na verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. Mas tu, quando jejuas, unge a tua cabeça e lava o teu rosto. A fim de que não pareças aos homens que jejuas, mas somente a teu Pai, que está presente a tudo o que há de mais secreto; e teu Pai, que vê o que se passa em secreto, te dará a paga.

Mt 6,16-18 (Figueiredo)

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